Portugal tem destas aberrações. Na posse da "Entidade das Contas e Financiamentos Políticos", que não tem condições para aplicar a sua meritória função ao próximo acto eleitoral, o amabilíssimo juiz presidente do Tribunal Constitucional, dr. Artur Maurício, disse que "há, designadamente, estratégias por definir, bases de dados por criar, regulamentos por fazer e por estruturar os outros procedimentos imprescindíveis para o início de uma função desta natureza". Com o devido e imenso respeito, inclusivé pessoal, por que raio então é que lhe deu posse?
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
31.1.05
A ENTIDADE
Portugal tem destas aberrações. Na posse da "Entidade das Contas e Financiamentos Políticos", que não tem condições para aplicar a sua meritória função ao próximo acto eleitoral, o amabilíssimo juiz presidente do Tribunal Constitucional, dr. Artur Maurício, disse que "há, designadamente, estratégias por definir, bases de dados por criar, regulamentos por fazer e por estruturar os outros procedimentos imprescindíveis para o início de uma função desta natureza". Com o devido e imenso respeito, inclusivé pessoal, por que raio então é que lhe deu posse?
O ÉTICO DO CHOQUE
"A sociedade portuguesa precisa de valorizar referências, há uma espécie de relativismo ético que não abona ao estado do país", disse o dr. Portas na apresentação do "programa" do PP. E acrescentou que o que nós precisamos é de um "choque de valores". No que me toca, dispenso-me imediatamente de "chocar" com o dr. Portas, uma espécie de duplo moralista do dr. Louçã, só que ao contrário.
O ÉTICO DO CHOQUE
"A sociedade portuguesa precisa de valorizar referências, há uma espécie de relativismo ético que não abona ao estado do país", disse o dr. Portas na apresentação do "programa" do PP. E acrescentou que o que nós precisamos é de um "choque de valores". No que me toca, dispenso-me imediatamente de "chocar" com o dr. Portas, uma espécie de duplo moralista do dr. Louçã, só que ao contrário.
A MELHOR MANEIRA...
... de começar mais uma semana indiferente, é ter de volta o Paulo Gorjão e ler este livro de George Steiner, a que darei oportunamente a devida atenção.
As Lições dos Mestres, de George Steiner (Gradiva)
A MELHOR MANEIRA...
... de começar mais uma semana indiferente, é ter de volta o Paulo Gorjão e ler este livro de George Steiner, a que darei oportunamente a devida atenção.
As Lições dos Mestres, de George Steiner (Gradiva)30.1.05
DA SARJETA
Como previ há dias, Santana Lopes já está confortavelmente instalado na sarjeta. Ontem, rodeado de cerca de mil minhotas, Lopes não resistiu ao seu impulso maior, o de vedeta de "revistas do coração". Apesar da localização do evento, a coisa ressumou "américa latina" por todos os poros. Só faltaram os fadistas marialvas do PPM para o ramalhete ser perfeito. Uma "doméstica" não resistiu a expôr a "natureza sedutora" daquele homem. E uma "funcionária pública" jurou que "ele ainda é do tempo em que os homens escolhiam as mulheres para suas companheiras". Terminou, espera-se que a pensar no marido, dizendo que "bem haja os homens que amam as mulheres". Lopes, babado e inspirado por aquela corte de indigentes, "avisou" que "não quer fazer chicana política". Mas lá foi deixando cair que "estes colos sabem bem", presumivelmente os das minhotas, e que "o outro candidato tem outros colos". Esta nota de tão intenso bom gosto diz tudo acerca do carácter do personagem. Estaria ele porventura a lembrar-se do "colo" do dr. Portas sem o qual não estaria onde presentemente está? Sabemos o que a sua campanha, não por acaso "tropical", anda por aí a espalhar miseravelmente. Sabemos que, na vertigem do afundamento anunciado, vai valer tudo. Com uma clareza cristalina, excitada pelo ambiente cobarde de aviário em que se encontrava, a natureza reles do argumentário populista de Santana Lopes veio naturalmente à superfície. É para isto que os tolos e alguns comentadores querem os "debates"? Acham mesmo que há alguma coisa séria na cabeça do ainda primeiro-ministro para "debater"?
LER OS OUTROS: O artigo de Ana Sá Lopes no Público de domingo, "Este homem já sabem quem é", e De cabeça perdida, de Nicolau Santos, no Expresso online: "Para a semana será lançado um livro com os textos sobre futebol que publicava no jornal «A Bola». É mais um toque de classe na campanha do nosso primeiro-ministro". Actualizado a 31 de Janeiro: ler "A crise de representação-3" no Abrupto.
DA SARJETA
Como previ há dias, Santana Lopes já está confortavelmente instalado na sarjeta. Ontem, rodeado de cerca de mil minhotas, Lopes não resistiu ao seu impulso maior, o de vedeta de "revistas do coração". Apesar da localização do evento, a coisa ressumou "américa latina" por todos os poros. Só faltaram os fadistas marialvas do PPM para o ramalhete ser perfeito. Uma "doméstica" não resistiu a expôr a "natureza sedutora" daquele homem. E uma "funcionária pública" jurou que "ele ainda é do tempo em que os homens escolhiam as mulheres para suas companheiras". Terminou, espera-se que a pensar no marido, dizendo que "bem haja os homens que amam as mulheres". Lopes, babado e inspirado por aquela corte de indigentes, "avisou" que "não quer fazer chicana política". Mas lá foi deixando cair que "estes colos sabem bem", presumivelmente os das minhotas, e que "o outro candidato tem outros colos". Esta nota de tão intenso bom gosto diz tudo acerca do carácter do personagem. Estaria ele porventura a lembrar-se do "colo" do dr. Portas sem o qual não estaria onde presentemente está? Sabemos o que a sua campanha, não por acaso "tropical", anda por aí a espalhar miseravelmente. Sabemos que, na vertigem do afundamento anunciado, vai valer tudo. Com uma clareza cristalina, excitada pelo ambiente cobarde de aviário em que se encontrava, a natureza reles do argumentário populista de Santana Lopes veio naturalmente à superfície. É para isto que os tolos e alguns comentadores querem os "debates"? Acham mesmo que há alguma coisa séria na cabeça do ainda primeiro-ministro para "debater"?
LER OS OUTROS: O artigo de Ana Sá Lopes no Público de domingo, "Este homem já sabem quem é", e De cabeça perdida, de Nicolau Santos, no Expresso online: "Para a semana será lançado um livro com os textos sobre futebol que publicava no jornal «A Bola». É mais um toque de classe na campanha do nosso primeiro-ministro". Actualizado a 31 de Janeiro: ler "A crise de representação-3" no Abrupto.
FORA DA AGENDA
As questões do casamento entre homossexuais e da adopção de crianças por homossexuais, não constituem, a meu ver, uma prioridade política. José Sócrates fez o favor de explicar isso bem em duas palavras. De qualquer forma, o argumento da "estabilidade" e da "normalidade" para condenar essas hipóteses, são diariamente contrariadas nos tribunais de família e de menores. Que tipo de casais e que crianças filhas de que casais dão trabalho a esses tribunais? O Random Precision fez há dias duas interessantes reflexões sobre isto em "O casamento" e "A Adopção".
FORA DA AGENDA
As questões do casamento entre homossexuais e da adopção de crianças por homossexuais, não constituem, a meu ver, uma prioridade política. José Sócrates fez o favor de explicar isso bem em duas palavras. De qualquer forma, o argumento da "estabilidade" e da "normalidade" para condenar essas hipóteses, são diariamente contrariadas nos tribunais de família e de menores. Que tipo de casais e que crianças filhas de que casais dão trabalho a esses tribunais? O Random Precision fez há dias duas interessantes reflexões sobre isto em "O casamento" e "A Adopção".
29.1.05
A ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA
Ler "O Dilema" no Causa Nossa. Vital Moreira, partindo da semi-angústia partidária de Pacheco Pereira (que não é homem para "estados de alma"), elabora uma interessante ponderação acerca dos militantes do PSD. Como é que um militante do PSD que não acompanha a deriva "santanista" deve proceder nas eleições de 20 de Fevereiro? Só posso falar por mim e num contexto completamente diverso. Em 1985, eu ainda estava longe de ser o empedernido "cavaquista" em que me tornei. Apoiava Mário Soares para Belém e desconfiava adolescentemente da figura austera recém chegada ao partido. Assisti a uma única acção de campanha, na Alameda das Universidades, e foi a custo que aceitei colocar um auto-colante de Cavaco. No dia das eleições, encaminhei-me para a escola onde voto sem saber o que ia fazer. Em não sei quantos actos eleitorais em que já participei, foi essa a única vez em que só no momento da "cruzinha" me decidi. E decidi-me pelo PSD. Se ainda fosse militante do partido, teria seguramente hoje menos "angústias" do que nesse ano remoto. Santana Lopes não representa uma interrogação. É, infelizmente, uma má certeza. Nisso, os brasileiros da sua campanha acertaram no último outdoor. "Este, sim, sabe quem é", diz o cartaz, referindo-se a Lopes, num registo "pimba" de "por amor a Portugal"! É exactamente por saberem "quem ele é" que muitos militantes e eleitores do PSD "não respondem" nas sondagens, engrossando as fileiras dos "indecisos" e dos potenciais "abstencionistas". Mas não dizem que votam diferente. O único líder com perfil social-democrata que concorre às eleições de Fevereiro, José Sócrates, deve meditar nisto. A maioria absoluta, tão incerta quanto precária, vai decidir-se apenas nesse caminho solitário para as assembleias de voto sob a "angústia da influência".
A ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA
Ler "O Dilema" no Causa Nossa. Vital Moreira, partindo da semi-angústia partidária de Pacheco Pereira (que não é homem para "estados de alma"), elabora uma interessante ponderação acerca dos militantes do PSD. Como é que um militante do PSD que não acompanha a deriva "santanista" deve proceder nas eleições de 20 de Fevereiro? Só posso falar por mim e num contexto completamente diverso. Em 1985, eu ainda estava longe de ser o empedernido "cavaquista" em que me tornei. Apoiava Mário Soares para Belém e desconfiava adolescentemente da figura austera recém chegada ao partido. Assisti a uma única acção de campanha, na Alameda das Universidades, e foi a custo que aceitei colocar um auto-colante de Cavaco. No dia das eleições, encaminhei-me para a escola onde voto sem saber o que ia fazer. Em não sei quantos actos eleitorais em que já participei, foi essa a única vez em que só no momento da "cruzinha" me decidi. E decidi-me pelo PSD. Se ainda fosse militante do partido, teria seguramente hoje menos "angústias" do que nesse ano remoto. Santana Lopes não representa uma interrogação. É, infelizmente, uma má certeza. Nisso, os brasileiros da sua campanha acertaram no último outdoor. "Este, sim, sabe quem é", diz o cartaz, referindo-se a Lopes, num registo "pimba" de "por amor a Portugal"! É exactamente por saberem "quem ele é" que muitos militantes e eleitores do PSD "não respondem" nas sondagens, engrossando as fileiras dos "indecisos" e dos potenciais "abstencionistas". Mas não dizem que votam diferente. O único líder com perfil social-democrata que concorre às eleições de Fevereiro, José Sócrates, deve meditar nisto. A maioria absoluta, tão incerta quanto precária, vai decidir-se apenas nesse caminho solitário para as assembleias de voto sob a "angústia da influência".
28.1.05
A BABOSEIRA DO DIA
Pertence a Luis Nobre Guedes, o reciclado "verde" do PP. Numa entrevista ao Diário de Notícias, diz esta coisa extraordinária, sem se rir, presumo: "Eu acho que o dr. Paulo Portas, pelo perfil que tem, pela sua cultura, pelo mundo que conhece, podia ser o nosso [André] Malraux."
A BABOSEIRA DO DIA
Pertence a Luis Nobre Guedes, o reciclado "verde" do PP. Numa entrevista ao Diário de Notícias, diz esta coisa extraordinária, sem se rir, presumo: "Eu acho que o dr. Paulo Portas, pelo perfil que tem, pela sua cultura, pelo mundo que conhece, podia ser o nosso [André] Malraux."
REALISMO E RESPONSABILIDADE
Antes de avançar, esclareço já que não morro de amores por Freitas do Amaral. Não simpatizo com a sua pusilanimidade política, a razão maior por que nunca me pareceu que ele fosse um bom candidato presidencial. Nem no passado, nem agora. Há três anos, ele e uns bons milhares de portugueses, apostaram em Durão Barroso para sair do célebre "pântano" do eng. º Guterres. Ele e esses bons milhares de portugueses entendem hoje, e bem, que Santana Lopes não consegue resolver qualquer problema sério do país. Aliás, ele é, em grande medida, o próprio problema. Como diria o dr. Portas, era o que mais faltava que, perante o descalabro geral destes últimos três anos, aqueles a quem ainda sobra um resquício de lucidez não mudassem de opinião e não apelassem ao país para mudar também. As reacções patéticas ao artigo de Freitas do Amaral na revista Visão, apenas espelham o estalinismo intelectual que ocupa grande parte das mentes dos nossos queridos "neo-liberais" da "nova direita". Os indecisos e os indiferentes, a mais importante evidência que ninguém quer ver em todas as sondagens , não se convencem à canelada, com bravatas idiotas ou com estéreis promessas de céu permanentemente azul. O artigo de Freitas do Amaral é simplesmente um alerta sensato e realista, definindo uma responsabilidade. E daqui até ao dia 20 de Fevereiro, é só disto que precisamos, de realismo e de responsabilidade.
REALISMO E RESPONSABILIDADE
Antes de avançar, esclareço já que não morro de amores por Freitas do Amaral. Não simpatizo com a sua pusilanimidade política, a razão maior por que nunca me pareceu que ele fosse um bom candidato presidencial. Nem no passado, nem agora. Há três anos, ele e uns bons milhares de portugueses, apostaram em Durão Barroso para sair do célebre "pântano" do eng. º Guterres. Ele e esses bons milhares de portugueses entendem hoje, e bem, que Santana Lopes não consegue resolver qualquer problema sério do país. Aliás, ele é, em grande medida, o próprio problema. Como diria o dr. Portas, era o que mais faltava que, perante o descalabro geral destes últimos três anos, aqueles a quem ainda sobra um resquício de lucidez não mudassem de opinião e não apelassem ao país para mudar também. As reacções patéticas ao artigo de Freitas do Amaral na revista Visão, apenas espelham o estalinismo intelectual que ocupa grande parte das mentes dos nossos queridos "neo-liberais" da "nova direita". Os indecisos e os indiferentes, a mais importante evidência que ninguém quer ver em todas as sondagens , não se convencem à canelada, com bravatas idiotas ou com estéreis promessas de céu permanentemente azul. O artigo de Freitas do Amaral é simplesmente um alerta sensato e realista, definindo uma responsabilidade. E daqui até ao dia 20 de Fevereiro, é só disto que precisamos, de realismo e de responsabilidade.
LER
... este estudo sobre os "blogues", de João Canavilhas, da Universidade da Beira Interior: Blogues políticos em Portugal: O dispositivo criou novos actores?
LER
... este estudo sobre os "blogues", de João Canavilhas, da Universidade da Beira Interior: Blogues políticos em Portugal: O dispositivo criou novos actores?
27.1.05
CONVÉM...
... ir lendo o Pedro Magalhães, o primeiro da coluna de links da direita, pelo menos durante o período eleitoral em curso. Algo que só termina sensivelmente daqui a um ano com um novo Presidente.
CONVÉM...
... ir lendo o Pedro Magalhães, o primeiro da coluna de links da direita, pelo menos durante o período eleitoral em curso. Algo que só termina sensivelmente daqui a um ano com um novo Presidente.
LER OS OUTROS
"A Lambisgóia", no Para lá de Bagdade. O dr. Portas tem "um governo", mas não tem nenhum programa, nem lhe interessa ter. Bastam-lhe -julga ele - as remakes enjoativas do auto-elogio pela "obra" na Defesa Nacional. É feio, no mínimo, usar uma função de soberania como cartaz eleitoral. E é ainda pior insistir demagogicamente no déjá vu como se fosse uma novidade.
LER OS OUTROS
"A Lambisgóia", no Para lá de Bagdade. O dr. Portas tem "um governo", mas não tem nenhum programa, nem lhe interessa ter. Bastam-lhe -julga ele - as remakes enjoativas do auto-elogio pela "obra" na Defesa Nacional. É feio, no mínimo, usar uma função de soberania como cartaz eleitoral. E é ainda pior insistir demagogicamente no déjá vu como se fosse uma novidade.
DUROS E MOLES
As sondagens - nunca é demais repeti-lo - valem o que valem. A revista Visão inclui uma, bastante detalhada, que é reveladora do crescente desinteresse da opinião pública pelas próximas eleições legislativas. É preocupante - ou devia ser - constatar que pode agravar-se a tendência para pensar que 20 de Fevereiro não vai resolver nada. A pré-campanha pouco tem feito para eliminar este "pensamento negativo". O PS não conseguiu, até agora, incutir a necessária confiança e o indispensável estímulo que levem as pessoas a conceder-lhe uma maioria absoluta. Temos nós, os "independentes", feito mais por ela, nas nossas modestas possibilidades, do que o PS. Para estas coisas existe uma "gramática" simples que já deveria estar completamente interiorizada pelos chamados "profissionais" da política partidária. Não se pode entrar neste combate pelo lado "mole". Santana Lopes recorda-o todos os dias e a todas as horas. Não deve dar para ele ganhar, mas dá seguramente para baralhar. E do que o país menos precisa, é de que das eleições saia uma confusão e não uma solução. Ignoro se os "estrategas" do Largo do Rato já perceberam isto e se já "sentiram" verdadeiramente o que o eleitorado anda por aí a suspirar.
DUROS E MOLES
As sondagens - nunca é demais repeti-lo - valem o que valem. A revista Visão inclui uma, bastante detalhada, que é reveladora do crescente desinteresse da opinião pública pelas próximas eleições legislativas. É preocupante - ou devia ser - constatar que pode agravar-se a tendência para pensar que 20 de Fevereiro não vai resolver nada. A pré-campanha pouco tem feito para eliminar este "pensamento negativo". O PS não conseguiu, até agora, incutir a necessária confiança e o indispensável estímulo que levem as pessoas a conceder-lhe uma maioria absoluta. Temos nós, os "independentes", feito mais por ela, nas nossas modestas possibilidades, do que o PS. Para estas coisas existe uma "gramática" simples que já deveria estar completamente interiorizada pelos chamados "profissionais" da política partidária. Não se pode entrar neste combate pelo lado "mole". Santana Lopes recorda-o todos os dias e a todas as horas. Não deve dar para ele ganhar, mas dá seguramente para baralhar. E do que o país menos precisa, é de que das eleições saia uma confusão e não uma solução. Ignoro se os "estrategas" do Largo do Rato já perceberam isto e se já "sentiram" verdadeiramente o que o eleitorado anda por aí a suspirar.
26.1.05
ONDE ESTÁ?
Por que é que Santana Lopes anda praticamente sozinho, bramindo contra os seus "moinhos", mostrando-se a torto e a direito, sem o famoso "contraditório" a que tem direito? A maioria absoluta exige uma ambição e a chamada "ocupação do terreno". Como dizia um saudoso amigo já desaparecido, onde nós não estivermos, outros estarão por nós. Custa assim tanto perceber?ONDE ESTÁ?
Por que é que Santana Lopes anda praticamente sozinho, bramindo contra os seus "moinhos", mostrando-se a torto e a direito, sem o famoso "contraditório" a que tem direito? A maioria absoluta exige uma ambição e a chamada "ocupação do terreno". Como dizia um saudoso amigo já desaparecido, onde nós não estivermos, outros estarão por nós. Custa assim tanto perceber?UMA OBRA
O dr. Lopes tentou explicar aos militantes das Caldas por que é que o défice do subsector Estado, em 2004, aumentou 10,1%, segundo as contas oficiais. Nem eu, na cadeira de "análise económica" com que me tentaram iluminar na Católica há uns bons pares de anos, teria sido tão mau na explicação do inexplicável. Isto passou-se num intervalo, supostamente lúcido, entre as habituais diatribes "anti-todos" que caracterizam as sublimes intervenções do primeiro-ministro em "comícios-jantares" do PPD/PSD. Em duas palavras, a coligação falhou a "consolidação orçamental" e a "música" do défice continuará tranquilamente a tocar. Por uma questão de decoro, a palavra "competência" que aparece invarivelmente na tribuna do líder devia ser removida. No Homem sem Qualidades, de Robert Musil, há um apontamento que ilustra bem este transe de Santana Lopes. O modo como, através da realidade, nos aproximamos ou afastamos das pessoas e das coisas, é mais importante do que a nossa relação com ela. Lopes, neste seu lance alucinado, está a conseguir simultaneamente afastar-se da realidade, das pessoas e das coisas. É, realmente, uma obra.
UMA OBRA
O dr. Lopes tentou explicar aos militantes das Caldas por que é que o défice do subsector Estado, em 2004, aumentou 10,1%, segundo as contas oficiais. Nem eu, na cadeira de "análise económica" com que me tentaram iluminar na Católica há uns bons pares de anos, teria sido tão mau na explicação do inexplicável. Isto passou-se num intervalo, supostamente lúcido, entre as habituais diatribes "anti-todos" que caracterizam as sublimes intervenções do primeiro-ministro em "comícios-jantares" do PPD/PSD. Em duas palavras, a coligação falhou a "consolidação orçamental" e a "música" do défice continuará tranquilamente a tocar. Por uma questão de decoro, a palavra "competência" que aparece invarivelmente na tribuna do líder devia ser removida. No Homem sem Qualidades, de Robert Musil, há um apontamento que ilustra bem este transe de Santana Lopes. O modo como, através da realidade, nos aproximamos ou afastamos das pessoas e das coisas, é mais importante do que a nossa relação com ela. Lopes, neste seu lance alucinado, está a conseguir simultaneamente afastar-se da realidade, das pessoas e das coisas. É, realmente, uma obra.
DIFERENÇAS
"Deve o Reino Unido aprovar o Tratado que estabelece uma Constituição para a União Europeia?" Com esta clareza e simplicidade, a Inglaterra resolveu o "problema" da pergunta do referendo sobre a Constituição Europeia. Nós, com o nosso saloio barroquismo jurídico, inventámos uma pergunta para a qual era preciso meter explicador. Por isso eles são como são e nós somos o que somos.
DIFERENÇAS
"Deve o Reino Unido aprovar o Tratado que estabelece uma Constituição para a União Europeia?" Com esta clareza e simplicidade, a Inglaterra resolveu o "problema" da pergunta do referendo sobre a Constituição Europeia. Nós, com o nosso saloio barroquismo jurídico, inventámos uma pergunta para a qual era preciso meter explicador. Por isso eles são como são e nós somos o que somos.
EXCELENTE ESCOLHA
... a de Paulo Teixeira Pinto para suceder a Jardim Gonçalves na presidência do grupo Millennium BCP. EXCELENTE ESCOLHA
... a de Paulo Teixeira Pinto para suceder a Jardim Gonçalves na presidência do grupo Millennium BCP. 25.1.05
DA "MATURIDADE"
Raramente leio o Barnabé. Não pertenço ao clube dos aduladores do Bloco de Esquerda. Às vezes acho piada ao dr. Louça, mas não suporto a sua arrogância de evangelista iluminado. Quanto aos restantes membros da pequena seita moralista, a minha alergia aumenta. O prof. Rosas, com a sua insuportável sobranceria, o mano Portas, um mero burocrata da esquerda, o rapaz do norte cujo nome me escapa, a filha do dr.Amaral Dias, a mocinha Drago, etc. Todos eminentemente esquecíveis. Hoje, por causa do Abrupto, fui ler uma prosa de Pedro Oliveira intitulada Maturidade. Parece que causou grande comoção entre os habituais frequentadores do estaminé de Daniel Oliveira. Ousou quebrar o "politicamente correcto" que o BE representa e que "este" Oliveira tão bem defende na praça pública. Discordo, no entanto, da tese do "outro" Oliveira. A maioria absoluta do PS, a ser alcançada, precisa tanto dos votos da "esquerda" encantada ou desencantada com o folclore do BE, como dos votos do eleitorado do "centro esquerda" e do "centro direita" que não confia em Santana Lopes. Eu atrever-me ia a dizer que precisa mais destes, até por uma questão de credibilidade. Votar no BE pode ser muito colorido e modernaço, mas não resolve um problema ao país. A "maturidade" reside precisamente, como lembra Pedro Oliveira, em perceber isso.
DA "MATURIDADE"
Raramente leio o Barnabé. Não pertenço ao clube dos aduladores do Bloco de Esquerda. Às vezes acho piada ao dr. Louça, mas não suporto a sua arrogância de evangelista iluminado. Quanto aos restantes membros da pequena seita moralista, a minha alergia aumenta. O prof. Rosas, com a sua insuportável sobranceria, o mano Portas, um mero burocrata da esquerda, o rapaz do norte cujo nome me escapa, a filha do dr.Amaral Dias, a mocinha Drago, etc. Todos eminentemente esquecíveis. Hoje, por causa do Abrupto, fui ler uma prosa de Pedro Oliveira intitulada Maturidade. Parece que causou grande comoção entre os habituais frequentadores do estaminé de Daniel Oliveira. Ousou quebrar o "politicamente correcto" que o BE representa e que "este" Oliveira tão bem defende na praça pública. Discordo, no entanto, da tese do "outro" Oliveira. A maioria absoluta do PS, a ser alcançada, precisa tanto dos votos da "esquerda" encantada ou desencantada com o folclore do BE, como dos votos do eleitorado do "centro esquerda" e do "centro direita" que não confia em Santana Lopes. Eu atrever-me ia a dizer que precisa mais destes, até por uma questão de credibilidade. Votar no BE pode ser muito colorido e modernaço, mas não resolve um problema ao país. A "maturidade" reside precisamente, como lembra Pedro Oliveira, em perceber isso.
OS "JOVENS"
Enquanto a chamada "pré-campanha" só debate os debates, coisa que manifestamente tira o sono a qualquer um de nós, parece-me importante olhar para este "estudo" do Observatório Português da Juventude, editado pelo Público. Não dizem que são as "crianças" e os "adolescentes" o "futuro"? Pois se são, convém prestar atenção ao que verdadeiramente lhes interessa e não interessa. Mais de 80% dos "jovens inquiridos" estão-se literalmente nas tintas para a "participação cívica". Cerca de 50 % "não se consegue situar" nem à "esquerda" nem à "direita" e não tenciona votar. A sério, a sério, o que os "jovens" querem mesmo é um emprego e uma casinha, "o amor e a cabana" da "pós-modernidade". É também para esta gente que os "políticos" supostamente devem falar. Como diz o outro, eles falam, falam, falam mas pelo menos estes, os "jovens", não os ouvem.
"O desemprego, o custo de habitação própria e o acesso ao primeiro emprego são as três grandes preocupações dos jovens portugueses, revela um estudo realizado pelo Observatório Português da Juventude. A maioria dos jovens inquiridos não consegue situar-se politicamente entre a esquerda e a direita e não participa nos actos eleitorais. O estudo, baseado num inquérito a 814 pessoas, indica que pelo menos quatro em cada dez jovens (41,5 por cento) elegem o desemprego como a primeira grande preocupação, seguindo-se o custo de habitação própria (30,6 por cento) e a procura do primeiro emprego (26,8 por cento). Um em cada cinco jovens (20 por cento) considera o acesso ao Ensino Superior a sua principal preocupação. O documento revela ainda que pelo menos oito em cada dez jovens (86,4 por cento) não participam em grupos cívicos, sociais ou políticos.Dos 13,5 por cento que afirmam pertencer a alguma organização cívica, os partidos políticos abarcam a maior fatia, com 31,8 por cento, seguindo-se as associações culturais (20,9 por cento), desportivas (16,8 por cento) e recreativas (15,5 por cento). Seguem-se os grupos humanitários, com 11,8 por cento, os grupos religiosos (7,3 por cento) e as associações de estudantes, com apenas 6,4 por cento. Da grande maioria de jovens que não se deixam absorver pelo movimento associativo ou partidário (86,4 por cento dos inquiridos), cerca de um terço (31 por cento) justifica tal posição pelo "desinteresse pelas actividades cívicas", enquanto que 16,5 por cento aponta a falta de tempo e 11 por cento responde que "não teve oportunidade". Quanto à orientação política, 46,9 por cento dos jovens inquiridos diz que não se consegue situar na "esquerda ou na direita". Os restantes distribuem-se à direita (21,6 por cento), à esquerda (18,1 por cento), no centro-esquerda (6,8 por cento) e no centro-direita (6,6 por cento). Somadas as respostas dos jovens com opinião política "a direita ganha à esquerda", adianta o estudo. Em relação a actos eleitorais, a maioria dos jovens (51,3 por cento) anda afastada dos votos, alegando que "não estava próximo da mesa de voto no dia das eleições" ou porque "tinham algo mais importante que fazer" (26,2 por cento). Quanto à educação, 34,3 por cento dos jovens portugueses querem concluir uma licenciatura, enquanto que 19,5 por cento pretende acabar o 12ºano de escolaridade. Apenas 8,7 por cento tem por objectivo uma pós-graduação e 7,7 por cento atingir o doutoramento.A sondagem foi realizada pela Marktest entre 4 e 12 de Janeiro de 2005, tendo sido efectuadas 814 entrevistas, com erro de amostragem de 3,43 por cento e um intervalo de confiança de 95 por cento."
OS "JOVENS"
Enquanto a chamada "pré-campanha" só debate os debates, coisa que manifestamente tira o sono a qualquer um de nós, parece-me importante olhar para este "estudo" do Observatório Português da Juventude, editado pelo Público. Não dizem que são as "crianças" e os "adolescentes" o "futuro"? Pois se são, convém prestar atenção ao que verdadeiramente lhes interessa e não interessa. Mais de 80% dos "jovens inquiridos" estão-se literalmente nas tintas para a "participação cívica". Cerca de 50 % "não se consegue situar" nem à "esquerda" nem à "direita" e não tenciona votar. A sério, a sério, o que os "jovens" querem mesmo é um emprego e uma casinha, "o amor e a cabana" da "pós-modernidade". É também para esta gente que os "políticos" supostamente devem falar. Como diz o outro, eles falam, falam, falam mas pelo menos estes, os "jovens", não os ouvem.
"O desemprego, o custo de habitação própria e o acesso ao primeiro emprego são as três grandes preocupações dos jovens portugueses, revela um estudo realizado pelo Observatório Português da Juventude. A maioria dos jovens inquiridos não consegue situar-se politicamente entre a esquerda e a direita e não participa nos actos eleitorais. O estudo, baseado num inquérito a 814 pessoas, indica que pelo menos quatro em cada dez jovens (41,5 por cento) elegem o desemprego como a primeira grande preocupação, seguindo-se o custo de habitação própria (30,6 por cento) e a procura do primeiro emprego (26,8 por cento). Um em cada cinco jovens (20 por cento) considera o acesso ao Ensino Superior a sua principal preocupação. O documento revela ainda que pelo menos oito em cada dez jovens (86,4 por cento) não participam em grupos cívicos, sociais ou políticos.Dos 13,5 por cento que afirmam pertencer a alguma organização cívica, os partidos políticos abarcam a maior fatia, com 31,8 por cento, seguindo-se as associações culturais (20,9 por cento), desportivas (16,8 por cento) e recreativas (15,5 por cento). Seguem-se os grupos humanitários, com 11,8 por cento, os grupos religiosos (7,3 por cento) e as associações de estudantes, com apenas 6,4 por cento. Da grande maioria de jovens que não se deixam absorver pelo movimento associativo ou partidário (86,4 por cento dos inquiridos), cerca de um terço (31 por cento) justifica tal posição pelo "desinteresse pelas actividades cívicas", enquanto que 16,5 por cento aponta a falta de tempo e 11 por cento responde que "não teve oportunidade". Quanto à orientação política, 46,9 por cento dos jovens inquiridos diz que não se consegue situar na "esquerda ou na direita". Os restantes distribuem-se à direita (21,6 por cento), à esquerda (18,1 por cento), no centro-esquerda (6,8 por cento) e no centro-direita (6,6 por cento). Somadas as respostas dos jovens com opinião política "a direita ganha à esquerda", adianta o estudo. Em relação a actos eleitorais, a maioria dos jovens (51,3 por cento) anda afastada dos votos, alegando que "não estava próximo da mesa de voto no dia das eleições" ou porque "tinham algo mais importante que fazer" (26,2 por cento). Quanto à educação, 34,3 por cento dos jovens portugueses querem concluir uma licenciatura, enquanto que 19,5 por cento pretende acabar o 12ºano de escolaridade. Apenas 8,7 por cento tem por objectivo uma pós-graduação e 7,7 por cento atingir o doutoramento.A sondagem foi realizada pela Marktest entre 4 e 12 de Janeiro de 2005, tendo sido efectuadas 814 entrevistas, com erro de amostragem de 3,43 por cento e um intervalo de confiança de 95 por cento."
24.1.05
A CAMPANHA TAGARELA
Prossegue a campanha tagarela de Santana Lopes contra o mundo e as mais diversas galáxias. Marcelo, apesar de já ter dado um ar da sua graça, continua a ser displicentemente "o comentador". Se estivesse nas suas mãos, Santana não teria qualquer problema em correr com, por exemplo, Marques Mendes das listas. E Sampaio, uma vez que recebeu "o comentador", tinha agora a "obrigação" de chamar Sócrates para o "obrigar" a debater com ele. As aparições públicas de Lopes, quando não está a descerrar lápides atrás de lápides, começam a ser confrangedoras. Ao contrário do que ele pensa, o universo não gira exclusivamente à roda do seu umbigo. O PSD - não sei se lá dentro se aperceberam disto - joga a sua credibilidade para os próximos tempos neste carrocel solipsista e ensimesmado. Será que vale mesmo a pena?
A CAMPANHA TAGARELA
Prossegue a campanha tagarela de Santana Lopes contra o mundo e as mais diversas galáxias. Marcelo, apesar de já ter dado um ar da sua graça, continua a ser displicentemente "o comentador". Se estivesse nas suas mãos, Santana não teria qualquer problema em correr com, por exemplo, Marques Mendes das listas. E Sampaio, uma vez que recebeu "o comentador", tinha agora a "obrigação" de chamar Sócrates para o "obrigar" a debater com ele. As aparições públicas de Lopes, quando não está a descerrar lápides atrás de lápides, começam a ser confrangedoras. Ao contrário do que ele pensa, o universo não gira exclusivamente à roda do seu umbigo. O PSD - não sei se lá dentro se aperceberam disto - joga a sua credibilidade para os próximos tempos neste carrocel solipsista e ensimesmado. Será que vale mesmo a pena?
23.1.05
O "ZÉ MARIA"
Ontem, no carro, a caminho da Convenção das Novas Fronteiras, ouvia o final de uma entrevista com Almeida Santos. Perguntado acerca do que é que andava a ler, Almeida Santos falou em ensaios, "muitos". Disse que já não tinha tempo para ler "romances" e do que mais precisava era de "ideias". Isto vindo de uma respeitável figura na orla dos oitenta, teve graça. Mais tarde, na dita Convenção, também Eduardo Lourenço, aos 81 anos, explicou lenta e serenamente a "vantagem" do pensamento. Isto faz toda a diferença. Sem nenhuma espécie de arrogância "intelectual", que eu abomino, gostava de perguntar a Santana Lopes, que alarvemente gozou com as "velhas fronteiras", o que é que ele tem para nos oferecer em troca. Os fadistas do PPM? Os sempre estimulantes António Calvário, Artur Garcia ou Maria José Valério? Já percebemos que Lopes não vai resistir à sarjeta nesta campanha eleitoral. E para lá todos quer arrastar: Sócrates, Marques Mendes, Cavaco, Sampaio, até Portas já esteve mais longe disso, parte da sua comissão política, etc. No Expresso, um responsável brasileiro pela sua campanha explicava as vantagens deste registo insuportável do "mal amado". Segundo ele, "foi assim que Zé Maria ganhou o Big Brother", tipo "o patinho feio", coisa muita apreciada, de acordo com o mesmo visionário, pelo eleitorado feminino. Sabe-se como começou e acabou a aventura mediática do "Zé Maria". O show de Santana Lopes é mais perigoso porque é encenado sobre o país. O eng. º Sócrates, como lembrou o Bloguítica, colocou a questão fundamental de forma enxuta: continuidade ou mudança? Eu também pergunto: entre a realidade e o "Zé Maria", o que é que escolhem?
O "ZÉ MARIA"
Ontem, no carro, a caminho da Convenção das Novas Fronteiras, ouvia o final de uma entrevista com Almeida Santos. Perguntado acerca do que é que andava a ler, Almeida Santos falou em ensaios, "muitos". Disse que já não tinha tempo para ler "romances" e do que mais precisava era de "ideias". Isto vindo de uma respeitável figura na orla dos oitenta, teve graça. Mais tarde, na dita Convenção, também Eduardo Lourenço, aos 81 anos, explicou lenta e serenamente a "vantagem" do pensamento. Isto faz toda a diferença. Sem nenhuma espécie de arrogância "intelectual", que eu abomino, gostava de perguntar a Santana Lopes, que alarvemente gozou com as "velhas fronteiras", o que é que ele tem para nos oferecer em troca. Os fadistas do PPM? Os sempre estimulantes António Calvário, Artur Garcia ou Maria José Valério? Já percebemos que Lopes não vai resistir à sarjeta nesta campanha eleitoral. E para lá todos quer arrastar: Sócrates, Marques Mendes, Cavaco, Sampaio, até Portas já esteve mais longe disso, parte da sua comissão política, etc. No Expresso, um responsável brasileiro pela sua campanha explicava as vantagens deste registo insuportável do "mal amado". Segundo ele, "foi assim que Zé Maria ganhou o Big Brother", tipo "o patinho feio", coisa muita apreciada, de acordo com o mesmo visionário, pelo eleitorado feminino. Sabe-se como começou e acabou a aventura mediática do "Zé Maria". O show de Santana Lopes é mais perigoso porque é encenado sobre o país. O eng. º Sócrates, como lembrou o Bloguítica, colocou a questão fundamental de forma enxuta: continuidade ou mudança? Eu também pergunto: entre a realidade e o "Zé Maria", o que é que escolhem?
O "CHEQUE EM BRANCO"
Marcelo apareceu numa acção de campanha do PSD na província. Apareceu para "apoiar" o extravagante dr. Menezes e para dizer mal de Sócrates. Terá tido o cuidado de nunca apelar directamente ao voto no seu partido já que isso, hoje, quer dizer Santana. Terminou a coisa perguntando aos comensais e, por interpostas televisões, ao país, se este estaria disposto a passar um "cheque em branco" ao eng. º Sócrates. Como Marcelo estava onde estava e estava com quem estava, eu devolvo-lhe a pergunta: com aparições deste género, está afinal o meu caro professor disposto a passar um "cheque em branco" ao dr. Santana Lopes e aos seus bonzos?
O "CHEQUE EM BRANCO"
Marcelo apareceu numa acção de campanha do PSD na província. Apareceu para "apoiar" o extravagante dr. Menezes e para dizer mal de Sócrates. Terá tido o cuidado de nunca apelar directamente ao voto no seu partido já que isso, hoje, quer dizer Santana. Terminou a coisa perguntando aos comensais e, por interpostas televisões, ao país, se este estaria disposto a passar um "cheque em branco" ao eng. º Sócrates. Como Marcelo estava onde estava e estava com quem estava, eu devolvo-lhe a pergunta: com aparições deste género, está afinal o meu caro professor disposto a passar um "cheque em branco" ao dr. Santana Lopes e aos seus bonzos?
21.1.05
O VELHO "TEMPO NOVO"
Santana Lopes apresentou o programa eleitoral do "seu" PSD. Falou do futuro como se não fosse responsável por este obscuro presente. Dirigiu-se-nos como um desbravador de "terras prometidas" quando nem sequer conseguiu dar conta de um recado a termo certo. Falou de "contratos" e de "garantias" quando é o último dos últimos em quem podemos tranquilamente confiar. Puseram-lhe à frente um papel onde vinha escrita uma nova ventura, "o choque de gestão". Quem não soube gerir e dar confiança, pode agora clamar semelhante coisa para uma nova legislatura? A inquietação incrédula, estampada nos rostos dos devotos que assistiam ao exercício, fala por si. Lopes insiste na tecla do "tempo novo" quando, na realidade, nestas eleições ele personifica o falhanço absoluto dessa miragem sem grande sentido. É, pois, preciso perguntar claramente aos portugueses: querem mais deste velho "tempo novo" que o dr. Santana Lopes vem semeando desde Julho último?
O VELHO "TEMPO NOVO"
Santana Lopes apresentou o programa eleitoral do "seu" PSD. Falou do futuro como se não fosse responsável por este obscuro presente. Dirigiu-se-nos como um desbravador de "terras prometidas" quando nem sequer conseguiu dar conta de um recado a termo certo. Falou de "contratos" e de "garantias" quando é o último dos últimos em quem podemos tranquilamente confiar. Puseram-lhe à frente um papel onde vinha escrita uma nova ventura, "o choque de gestão". Quem não soube gerir e dar confiança, pode agora clamar semelhante coisa para uma nova legislatura? A inquietação incrédula, estampada nos rostos dos devotos que assistiam ao exercício, fala por si. Lopes insiste na tecla do "tempo novo" quando, na realidade, nestas eleições ele personifica o falhanço absoluto dessa miragem sem grande sentido. É, pois, preciso perguntar claramente aos portugueses: querem mais deste velho "tempo novo" que o dr. Santana Lopes vem semeando desde Julho último?
QUEM DIRIA!
Desprovido de "ideias" para a campanha, suspeito que Santana Lopes esteja a ser aconselhado pelos seus amigos brasileiros no sentido de explorar à exaustão o "fait-divers". No governo, seguramente a mesma "via tropical" aconselha a que se anuncie diariamente um pedaço de céu. Percebe-se que o objectivo - associado com demagogia ao tropismo do "país que não pode parar" - é deixar o território minado para quem vier a seguir. Alinhar no "fait-divers" é alimentar este circo. E aí ganha Lopes. Chega a ser confrangedor ouvir um primeiro-ministro neste registo, mas, enfim, trata-se "deste" primeiro-ministro. Lopes ainda não percebeu que o país não liga minimamente ao seu estudado exercício do "coitadinho" aplicado. Quem percebeu tudo isto rapidamente, e se pôs discretamente "ao largo", foi Paulo Portas. Fez uma coisa que merece elogio. Apresentou um "elenco governativo" com alguns créditos. É um bom princípio pôr rostos aos programas. A maior parte das vezes nunca se chega a entender muito bem as razões de certas escolhas, encerradas as eleições e composto um governo. O mais natural é que nenhuma daquelas catorze almas chegue ao executivo depois de Fevereiro. Porém, entre isto e os "jogos florais" em que todos acabam sempre a perder qualquer coisa, eu prefiro este modesto empenho cívico de um pequeno partido. Quem diria!
QUEM DIRIA!

Desprovido de "ideias" para a campanha, suspeito que Santana Lopes esteja a ser aconselhado pelos seus amigos brasileiros no sentido de explorar à exaustão o "fait-divers". No governo, seguramente a mesma "via tropical" aconselha a que se anuncie diariamente um pedaço de céu. Percebe-se que o objectivo - associado com demagogia ao tropismo do "país que não pode parar" - é deixar o território minado para quem vier a seguir. Alinhar no "fait-divers" é alimentar este circo. E aí ganha Lopes. Chega a ser confrangedor ouvir um primeiro-ministro neste registo, mas, enfim, trata-se "deste" primeiro-ministro. Lopes ainda não percebeu que o país não liga minimamente ao seu estudado exercício do "coitadinho" aplicado. Quem percebeu tudo isto rapidamente, e se pôs discretamente "ao largo", foi Paulo Portas. Fez uma coisa que merece elogio. Apresentou um "elenco governativo" com alguns créditos. É um bom princípio pôr rostos aos programas. A maior parte das vezes nunca se chega a entender muito bem as razões de certas escolhas, encerradas as eleições e composto um governo. O mais natural é que nenhuma daquelas catorze almas chegue ao executivo depois de Fevereiro. Porém, entre isto e os "jogos florais" em que todos acabam sempre a perder qualquer coisa, eu prefiro este modesto empenho cívico de um pequeno partido. Quem diria!
20.1.05
O "KITSCH" SANTANISTA
Graças à lembrança dos meus amigos "para lá de Bagdade" e "Jumento", pude ter acesso a essa pérola da mais recente música "ligeira" portuguesa que é o "hino" de campanha do PSD/PSL. Ao ler isto, vem-me à memória o conceito de "kitsch", de Milan Kundera, em "A insustentável leveza do ser". Segundo ele, o "kitsch" opera excluindo da nossa percepção tudo aquilo com que temos dificuldade em lidar, dando antes lugar a uma visão "asséptica" da realidade na qual todas as respostas estão antecipadamente dadas e onde quaisquer dúvidas são cuidadosamente evitadas. Daí que, para Kundera, o "kitsch" seja a "absoluta negação da merda". No caso português, é isso e o seu contrário.
Guerreiro Menino (um homem também chora)», de Gonzaguinha, letra de Gabriel o Pensador.
Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem refeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz
Guerreiro Menino (um homem também chora)», de Gonzaguinha, letra de Gabriel o Pensador.
Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem refeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz
O "KITSCH" SANTANISTA
Graças à lembrança dos meus amigos "para lá de Bagdade" e "Jumento", pude ter acesso a essa pérola da mais recente música "ligeira" portuguesa que é o "hino" de campanha do PSD/PSL. Ao ler isto, vem-me à memória o conceito de "kitsch", de Milan Kundera, em "A insustentável leveza do ser". Segundo ele, o "kitsch" opera excluindo da nossa percepção tudo aquilo com que temos dificuldade em lidar, dando antes lugar a uma visão "asséptica" da realidade na qual todas as respostas estão antecipadamente dadas e onde quaisquer dúvidas são cuidadosamente evitadas. Daí que, para Kundera, o "kitsch" seja a "absoluta negação da merda". No caso português, é isso e o seu contrário.
Guerreiro Menino (um homem também chora)», de Gonzaguinha, letra de Gabriel o Pensador.
Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem refeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz
Guerreiro Menino (um homem também chora)», de Gonzaguinha, letra de Gabriel o Pensador.
Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem refeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz
CARDOSO
O eng. º Cardoso, do Porto, deu ontem uma inestimável ajuda ao sucesso da recandidatura de Rui Rio à presidência da Câmara. Para lá do óbvio mau gosto do "tom" que escolheu para nos maçar à hora dos telejornais, concedendo-se uma importância que manifestamente não possui, o referido engenheiro atacou miseravelmente duas pessoas honradas sem qualquer pudor. Estes "exemplos" autárquicos, ou ex-autárquicos, devem obrigar os partidos a reflectir sobre o tipo de gente que promovem nas respectivas paróquias. Para não se queixarem depois.
CARDOSO
O eng. º Cardoso, do Porto, deu ontem uma inestimável ajuda ao sucesso da recandidatura de Rui Rio à presidência da Câmara. Para lá do óbvio mau gosto do "tom" que escolheu para nos maçar à hora dos telejornais, concedendo-se uma importância que manifestamente não possui, o referido engenheiro atacou miseravelmente duas pessoas honradas sem qualquer pudor. Estes "exemplos" autárquicos, ou ex-autárquicos, devem obrigar os partidos a reflectir sobre o tipo de gente que promovem nas respectivas paróquias. Para não se queixarem depois.
19.1.05
"INTIMAÇÕES DE MORTALIDADE"
Peço emprestado ao Vasco Pulido Valente e ao seu livro "Retratos e Auto-Retratos" (Assírio & Alvim) este excerto. Com ou sem ironia, é a única reflexão que me ocorre acerca de um assunto que eu não aprecio e que procuro manter longe deste blogue, eu próprio. Mas se está bem dito assim, por que é que hei-de inventar?
Não há transição. A infalibilidade e a confiança perdem-se de repente. Ontem corria tudo bem, hoje corre tudo mal. Ontem não se fazia um erro, hoje só se fazem erros. A pessoa é a mesma: o corpo e a cabeça. As circunstâncias são as mesmas, os outros são os mesmos. Por mais que se procure, nada mudou. Só mudou o efeito que se produz no mundo. Um homem deita-se com o mundo aos pés e acorda com ele às costas. As mulheres fogem, os amigos desaparecem, os telefones desligam-se. Dantes andava-se e esquecia-se. Agora, a vida pára. Repete-se. Um mês é igual ao anterior e ao próximo e ao seguinte. Não acontece nenhuma coisa diferente, só acontecem coisas indiferentes. Por qualquer razão obscura, não se consegue descobrir o sítio onde as coisas acontecem; e elas já não acontecem onde aconteciam.
Um pequeno pânico instala-se. Ao princípio pensou-se que era um estado passageiro, uma época de azar ou de mau jeito. Mas depois o estado não passa, a sorte não vem e o mau jeito continua. Conta-se com angústia o tempo para trás e, a certa altura, conta-se com terror o tempo que sobra. Deixa-se de ter quarenta e três ou quarenta e sete anos e têm-se treze anos até aos sessenta ou dezoito até aos sessenta e cinco. E não será optimismo os sessenta e cinco? E vale a pena? Acontecem coisas aos sessenta e cinco? Não com certeza as que acontecem aos trinta.
Eu penetrei na impropriamente chamada meia idade desta maneira: ou seja, aflito. O céu caiu-me em cima sem aviso. Nestas crises, segundo o costume, as pessoas agarram-se: à família, ao trabalho, às ambições. Reparei que os meus amigos se agarravam. Um a um, consoante a sua natureza, transformaram-se em secretários de Estado, políticos respeitáveis, académicos triunfantes, altos funcionários ou pais extremosos. Vários preferiram a virtude, ideológica ou sexual. Com meritórias excepções, quase todos se encaminharam. Mas precisamente eu não pretendia encaminhar-me. Deus sabe que eu nunca fui assim.
"INTIMAÇÕES DE MORTALIDADE"
Peço emprestado ao Vasco Pulido Valente e ao seu livro "Retratos e Auto-Retratos" (Assírio & Alvim) este excerto. Com ou sem ironia, é a única reflexão que me ocorre acerca de um assunto que eu não aprecio e que procuro manter longe deste blogue, eu próprio. Mas se está bem dito assim, por que é que hei-de inventar?
Não há transição. A infalibilidade e a confiança perdem-se de repente. Ontem corria tudo bem, hoje corre tudo mal. Ontem não se fazia um erro, hoje só se fazem erros. A pessoa é a mesma: o corpo e a cabeça. As circunstâncias são as mesmas, os outros são os mesmos. Por mais que se procure, nada mudou. Só mudou o efeito que se produz no mundo. Um homem deita-se com o mundo aos pés e acorda com ele às costas. As mulheres fogem, os amigos desaparecem, os telefones desligam-se. Dantes andava-se e esquecia-se. Agora, a vida pára. Repete-se. Um mês é igual ao anterior e ao próximo e ao seguinte. Não acontece nenhuma coisa diferente, só acontecem coisas indiferentes. Por qualquer razão obscura, não se consegue descobrir o sítio onde as coisas acontecem; e elas já não acontecem onde aconteciam.
Um pequeno pânico instala-se. Ao princípio pensou-se que era um estado passageiro, uma época de azar ou de mau jeito. Mas depois o estado não passa, a sorte não vem e o mau jeito continua. Conta-se com angústia o tempo para trás e, a certa altura, conta-se com terror o tempo que sobra. Deixa-se de ter quarenta e três ou quarenta e sete anos e têm-se treze anos até aos sessenta ou dezoito até aos sessenta e cinco. E não será optimismo os sessenta e cinco? E vale a pena? Acontecem coisas aos sessenta e cinco? Não com certeza as que acontecem aos trinta.
Eu penetrei na impropriamente chamada meia idade desta maneira: ou seja, aflito. O céu caiu-me em cima sem aviso. Nestas crises, segundo o costume, as pessoas agarram-se: à família, ao trabalho, às ambições. Reparei que os meus amigos se agarravam. Um a um, consoante a sua natureza, transformaram-se em secretários de Estado, políticos respeitáveis, académicos triunfantes, altos funcionários ou pais extremosos. Vários preferiram a virtude, ideológica ou sexual. Com meritórias excepções, quase todos se encaminharam. Mas precisamente eu não pretendia encaminhar-me. Deus sabe que eu nunca fui assim.
ESTADO DE CHOQUE
Já tínhamos o famoso "choque fiscal", um dos mais famosos não-acontecimentos do governo de coligação. Depois apareceu o "choque tecnológico" do eng. º Sócrates que, espera-se, se transforme oportunamente em acontecimento. Agora apareceu, pela boca do dr. Mexia - uma espécie, em mau, de António Ferro de Santana Lopes - , o "choque de gestão". Não é, pois, de admirar que o país, abalado por tanto "choque", não passe precisamente desse estado.
ESTADO DE CHOQUE
Já tínhamos o famoso "choque fiscal", um dos mais famosos não-acontecimentos do governo de coligação. Depois apareceu o "choque tecnológico" do eng. º Sócrates que, espera-se, se transforme oportunamente em acontecimento. Agora apareceu, pela boca do dr. Mexia - uma espécie, em mau, de António Ferro de Santana Lopes - , o "choque de gestão". Não é, pois, de admirar que o país, abalado por tanto "choque", não passe precisamente desse estado.
LEVANTAMENTOS
O dr. António Costa, um sólido político, explicou que só a maioria absoluta do PS pode resolver o problema da governação. É assim - continuou - porque não existem condições para "alianças" com a "esquerda" do sr. Sousa ou do dr. Louçã. Com um bocadinho de sorte, ainda vamos ver o eng. º Sócrates a avisar a nação que só aceita governar se lhe for outorgada a dita maioria. Seria, no mínimo, um remake despropositado de Cavaco em 1991 e de resultado mais do que duvidoso agora. Ninguém mais do que eu acha que a maioria é realmente necessária. Pedi-la, no entanto, não se reduz a um mero exercício lexical ou psicológico. Ajuda, de facto, e pouco mais. O eleitorado a quem o pedido primordialmente se dirige já não tem quaisquer ilusões. Precisa de um "mais" que o convença. Entre isso e o partir para a abstenção ou para um voto inútil, o passo é deveras curto. Miguel Cadilhe disse outro dia uma coisa interessante à qual porventura não se prestou a devida atenção. De entre o emaranhado de problemas que impedem que isto ande para a frente, é melhor escolher um, decisivo, e definir uma "meta" razoável e verosímil para o procurar resolver. Nada, pois, de "hiper-realidades" ou de torrentes incontroláveis de "soluções" em que ninguém acredita. De qualquer forma, já não há "soluções felizes" e é este "realismo" que deve ser explicado claramente às pessoas. Se assim for, é possível que a resposta ao "levantamento nacional" solicitado pelo dr. Santana Lopes seja a maioria absoluta do Partido Socialista.
LEVANTAMENTOS
O dr. António Costa, um sólido político, explicou que só a maioria absoluta do PS pode resolver o problema da governação. É assim - continuou - porque não existem condições para "alianças" com a "esquerda" do sr. Sousa ou do dr. Louçã. Com um bocadinho de sorte, ainda vamos ver o eng. º Sócrates a avisar a nação que só aceita governar se lhe for outorgada a dita maioria. Seria, no mínimo, um remake despropositado de Cavaco em 1991 e de resultado mais do que duvidoso agora. Ninguém mais do que eu acha que a maioria é realmente necessária. Pedi-la, no entanto, não se reduz a um mero exercício lexical ou psicológico. Ajuda, de facto, e pouco mais. O eleitorado a quem o pedido primordialmente se dirige já não tem quaisquer ilusões. Precisa de um "mais" que o convença. Entre isso e o partir para a abstenção ou para um voto inútil, o passo é deveras curto. Miguel Cadilhe disse outro dia uma coisa interessante à qual porventura não se prestou a devida atenção. De entre o emaranhado de problemas que impedem que isto ande para a frente, é melhor escolher um, decisivo, e definir uma "meta" razoável e verosímil para o procurar resolver. Nada, pois, de "hiper-realidades" ou de torrentes incontroláveis de "soluções" em que ninguém acredita. De qualquer forma, já não há "soluções felizes" e é este "realismo" que deve ser explicado claramente às pessoas. Se assim for, é possível que a resposta ao "levantamento nacional" solicitado pelo dr. Santana Lopes seja a maioria absoluta do Partido Socialista.
18.1.05
UMA BOA NÃO PROMESSA
... de José Sócrates, a de que, com ele, não haverá lugar a candidaturas megalómanas à realização de grandes eventos desportivos entre nós, designadamente esse extraordinário delírio dos jogos olímpicos.
UMA BOA NÃO PROMESSA
... de José Sócrates, a de que, com ele, não haverá lugar a candidaturas megalómanas à realização de grandes eventos desportivos entre nós, designadamente esse extraordinário delírio dos jogos olímpicos.
LER OS OUTROS
Margens de Erro, o blogue de Pedro Magalhães, o jovem e talentoso sociólogo especialista em "comportamentos eleitorais".
No Almocreve, a lembrança de José Carlos Ary dos Santos, em mais um aniversário do seu desaparecimento.
No Almocreve, a lembrança de José Carlos Ary dos Santos, em mais um aniversário do seu desaparecimento.
E pergunta bem o Causa Nossa: mas este Governo não está demitido e limitado a funções de gestão?
LER OS OUTROS
Margens de Erro, o blogue de Pedro Magalhães, o jovem e talentoso sociólogo especialista em "comportamentos eleitorais".
No Almocreve, a lembrança de José Carlos Ary dos Santos, em mais um aniversário do seu desaparecimento.
No Almocreve, a lembrança de José Carlos Ary dos Santos, em mais um aniversário do seu desaparecimento.
E pergunta bem o Causa Nossa: mas este Governo não está demitido e limitado a funções de gestão?
A SEDES...
..., a Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, avisa que próximo Governo terá de aumentar impostos e cortar despesa. Ler o documento na íntegra aqui.
A SEDES...
..., a Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, avisa que próximo Governo terá de aumentar impostos e cortar despesa. Ler o documento na íntegra aqui.
AUTOFAGIA
Os ecos da comissão política do PSD, primeiro, e do conselho nacional, depois, para aprovação do programa eleitoral do partido, mostram uma organização a caminho da esquizofrenia e da paranóia, apenas dada a recriminações mútuas e a "desabafos". Aparentemente ninguém aprecia o programa e muito poucos amparam já Santana. Este gostaria - disse-o - de poder ganhar sem o concurso de Aguiar Branco e Rui Rio, os mais recentes "faquistas". Por este andar, quantos "psd's" irão concorrer às eleições de Fevereiro?
AUTOFAGIA
Os ecos da comissão política do PSD, primeiro, e do conselho nacional, depois, para aprovação do programa eleitoral do partido, mostram uma organização a caminho da esquizofrenia e da paranóia, apenas dada a recriminações mútuas e a "desabafos". Aparentemente ninguém aprecia o programa e muito poucos amparam já Santana. Este gostaria - disse-o - de poder ganhar sem o concurso de Aguiar Branco e Rui Rio, os mais recentes "faquistas". Por este andar, quantos "psd's" irão concorrer às eleições de Fevereiro?
ELITES
Ao ouvir, no programa "Prós e Contras" da RTP, Mário Soares, Adriano Moreira, Freitas do Amaral e Pinto Balsemão, mais me convenço que, em matéria político-partidária, andamos progressivamente a perder qualidades. Aprende-se muito com os velhinhos...
ELITES
Ao ouvir, no programa "Prós e Contras" da RTP, Mário Soares, Adriano Moreira, Freitas do Amaral e Pinto Balsemão, mais me convenço que, em matéria político-partidária, andamos progressivamente a perder qualidades. Aprende-se muito com os velhinhos...
17.1.05
ABSOLUTA?
Pertenço a um conjunto, que espero vasto, de pessoas que em 20 de Fevereiro tencionam mudar o seu sentido de voto. Grande parte dos quase oitocentos posts deste blogue explicam amplamente porquê. A minha confiança neste PSD terminou definitivamente no dia em que o dr. Barroso decidiu abandonar o seu posto. E a forte empatia pessoal que sinto por Pedro Santana Lopes não chega para lhe continuar a entregar, sem mais, os destinos da nação. Dito isto, e porque o caso é verdadeiramente sério, desejo uma maioria absoluta do Partido Socialista para, como escrevi outro dia, fazer o que tem de ser feito. A seguir - mas isso é mais lá para diante -, quero pôr Cavaco Silva no lugar de Jorge Sampaio. Não andarei seguramente longe da verdade se disser que deve ser assim que muito eleitor pensa. Não me parece, no entanto, que este eleitor esteja muito entusiasmado. Nem julgo que se manifeste disponível para aguentar promessas vãs ou martirizações infantis. Entenda-se, uma vez por todas, que o país está legitimamente cansado e indignado. Mobilizar todo este incómodo não é nada fácil. Esta semana começou, nesta matéria, com um horrível "pingue-pongue" entre o PSD e o PS por causa daquilo que se pensa que se vai fazer. Eu pergunto se alguém sinceramente sabe qual é o autêntico "estado da arte". O governo já deu bastas provas que navega à vista. E é impossível que o PS conheça em detalhe aquilo que vai encontrar se formar governo. Ontem, gratuitamente, o eng. º Sócrates permitiu que um amável Santana Lopes disparasse um "tiro" no seu "porta-aviões". Eu nada tenho contra a circunstância de o eng. º Sócrates "ferver em pouca água". E ainda menos contra o facto de, em cada esquina, a toda a hora, aparecer uma "solução" para quase tudo. Estas eleições decidem a credibilidade de dois homens. O resto é folclore. Para o PS, essa credibilidade joga-se no lance da maioria absoluta. Não é só com o eleitorado tradicional do PS que ela se conquista. Nós, os que estamos "de fora", não somos demasiado tolerantes. Já não temos pachorra. Por isso, eu perguntaria, a um mês do acto eleitoral, se o eng. º José Sócrates acha que este é "o rumo" certo para chegar à dita maioria. A sério, tem a certeza? Absoluta?
Adenda: Neste contexto, ler "Os marrões", no Para lá de Bagdade.
ABSOLUTA?
Pertenço a um conjunto, que espero vasto, de pessoas que em 20 de Fevereiro tencionam mudar o seu sentido de voto. Grande parte dos quase oitocentos posts deste blogue explicam amplamente porquê. A minha confiança neste PSD terminou definitivamente no dia em que o dr. Barroso decidiu abandonar o seu posto. E a forte empatia pessoal que sinto por Pedro Santana Lopes não chega para lhe continuar a entregar, sem mais, os destinos da nação. Dito isto, e porque o caso é verdadeiramente sério, desejo uma maioria absoluta do Partido Socialista para, como escrevi outro dia, fazer o que tem de ser feito. A seguir - mas isso é mais lá para diante -, quero pôr Cavaco Silva no lugar de Jorge Sampaio. Não andarei seguramente longe da verdade se disser que deve ser assim que muito eleitor pensa. Não me parece, no entanto, que este eleitor esteja muito entusiasmado. Nem julgo que se manifeste disponível para aguentar promessas vãs ou martirizações infantis. Entenda-se, uma vez por todas, que o país está legitimamente cansado e indignado. Mobilizar todo este incómodo não é nada fácil. Esta semana começou, nesta matéria, com um horrível "pingue-pongue" entre o PSD e o PS por causa daquilo que se pensa que se vai fazer. Eu pergunto se alguém sinceramente sabe qual é o autêntico "estado da arte". O governo já deu bastas provas que navega à vista. E é impossível que o PS conheça em detalhe aquilo que vai encontrar se formar governo. Ontem, gratuitamente, o eng. º Sócrates permitiu que um amável Santana Lopes disparasse um "tiro" no seu "porta-aviões". Eu nada tenho contra a circunstância de o eng. º Sócrates "ferver em pouca água". E ainda menos contra o facto de, em cada esquina, a toda a hora, aparecer uma "solução" para quase tudo. Estas eleições decidem a credibilidade de dois homens. O resto é folclore. Para o PS, essa credibilidade joga-se no lance da maioria absoluta. Não é só com o eleitorado tradicional do PS que ela se conquista. Nós, os que estamos "de fora", não somos demasiado tolerantes. Já não temos pachorra. Por isso, eu perguntaria, a um mês do acto eleitoral, se o eng. º José Sócrates acha que este é "o rumo" certo para chegar à dita maioria. A sério, tem a certeza? Absoluta?
Adenda: Neste contexto, ler "Os marrões", no Para lá de Bagdade.
16.1.05
PORTUGAL DOS PEQUENINOS III
O português revê-se no pequeno, vive no pequeno, abriga-se no pequeno e reconforta-se no pequeno: pequenos prazeres, pequenos amores, pequenas viagens, pequenas ideias ("pistas"... que se abrem aos milhares a cada pequeno ensaio). (...) A pequenez é a negação do excesso, e a nossa maneira de "estar certo" ou "ser certinho" - o nosso "justo meio". (...) Não vemos mais longe do que a ponta do nariz, quer dizer, mais longe do que as nossas fronteiras, a nossa região, a nossa cidade, a nossa família e, por fim, mais longe do que os limites do nosso corpo. Não vemos mais longe do que a vida imediata, colados a um falso presente sem passado (as narrativas míticas dos Reis e dos Descobrimentos já não alimentam o nosso presente) nem futuro (a Europa, como nosso futuro, são trevas em que ninguém pensa, nem quer pensar).
Os portugueses não sabem falar uns com os outros, nem dialogar, nem debater, nem conversar. Duas razões concorrem para que tal aconteça: o movimento saltitante com que passam de um assunto a outro e a incapacidade de ouvir. Não se pode dizer que a segunda decorra da primeira, porque o inverso também é verdade. Resultam as duas do facto de as falas não conseguirem atinar com um "tom" comum. Porquê? Paradoxalmente (ou perversamente), porque o que se procura é precisamente a discordância (não a discórdia) e, antes de tudo, ouvir o som da sua própria voz - pequeninamente, a afirmação autista de si, da fala pronunciada sem a preocupação de ser ouvida ou de ser compreendida (porque essa crença nem se pôe em dúvida, desde que eu me oiça). Produz-se assim uma algazarra insuportável, com todos a falar ao mesmo tempo, cada um com a sua veemência particular sem dar a devida atenção aos outros, seus "interlocutores".
O medo é uma estratégia para nada inscrever. Constitui-se, antes de mais, como medo de inscrever, quer dizer, de existir, de afrontar as forças do mundo desencadeando as suas próprias forças de vida. Medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver, medo de arriscar. A prudência é a lei do bom senso.(...) É preciso lembrar que a imagem de si, forjada pela lei, inconsciente ou semiconsciente, age sem cessar, como uma espécie de panóptico a que os indivíduos não podem fugir. Está no ar, na atmosfera, quer dizer, no olhar dos outros e, pior, no olhar interior do superego que todos corrói. É por isso que, quando se fala numa concreção de poder que combina velhas estruturas hierárquicas com a relação paranóica democrática, é esta que geralmente alimenta aquelas, abrindo espaço para o exercício do poder de pequenos déspotas (que podem surgir na administração, nos poderes públicos, nas empresas, nas escolas, nos partidos políticos), sempre prontos a pôr logo em funcionamento dispositivos panópticos que constroem a imagem de si. Por essa razão, a tentação do pequeno despotismo se tornou tão fácil e permanente na sociedade portuguesa actual.
Se o (actual) povo português fosse um povo de intensidades e não de sentimentos e de medo (como Fernando Pessoa caracterizava o povo espanhol contrapondo-o ao português), há muito que teríamos saído do estado de iliteracia e de fragilidade económica em que vivemos. Em vez disso, sofremos de muitos defeitos próprios das sociedades do terceiro mundo: absentismo no trabalho, inércia, dificuldade na formação e na aprendizagem, lentidão, falta de competitividade. Como se tivéssemos sido atingidos por uma doença que nos deixa diminuídos, meio exangues, com um défice de força vital.
A burocracia, o juridismo pertencem curiosamente àquele mesmo fundo que engendra a deambulação barroca do "ando por aí". O desejo de flutuar, de não entrar na vida real: o frenesim de tudo regimentar - o mínimo gesto, o mínimo sopro de existência - submetendo-os a uma regra. O juridismo paranóico de certos chefes e subchefes anseia por abolir toda a margem de tolerância na interpretação das leis: "só assim se mudará o país", classificado imediatamente de "república das bananas" onde tudo é permitido, onde tudo se consegue "à balda". Daí a necessidade imperativa e maníaca de notar, de registar o menor desvio, a mínima falta, como se a vida virtuosa e a cidadania perfeita resultassem do mais rigoroso cumprimento da lei.
Há, primeiro, que erradicar o medo da sociedade portuguesa. Conquistar a maioridade, dessubjectivando-se ao enfrentar o acontecimento. Fazer explodir a imagem de si. Porque todos nós andamos "pr' aqui" como Álvaro de Campos que dizia que "nunca conhe[ceu] quem tivesse levado porrada./Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo".
[A inveja] passou a ter uma existência social. Um dos seus efeitos possíveis imediatos é a paralisação de toda a dinâmica do novo. O que surge como diferente aparece como uma ameaça à igualdade que a inveja protege. Igualdade niveladora por baixo, (...), porque impede a expressão da singularidade: toda e qualquer manifestação de originalidade é considerada superior e rejeitada. O rumor, a calúnia, as estratégias múltiplas de exclusão que se desenvolvem no quadro do funcionamento do grupo acabam por vencer e eliminar o elemento novo que irrompia.
PORTUGAL DOS PEQUENINOS III

O português revê-se no pequeno, vive no pequeno, abriga-se no pequeno e reconforta-se no pequeno: pequenos prazeres, pequenos amores, pequenas viagens, pequenas ideias ("pistas"... que se abrem aos milhares a cada pequeno ensaio). (...) A pequenez é a negação do excesso, e a nossa maneira de "estar certo" ou "ser certinho" - o nosso "justo meio". (...) Não vemos mais longe do que a ponta do nariz, quer dizer, mais longe do que as nossas fronteiras, a nossa região, a nossa cidade, a nossa família e, por fim, mais longe do que os limites do nosso corpo. Não vemos mais longe do que a vida imediata, colados a um falso presente sem passado (as narrativas míticas dos Reis e dos Descobrimentos já não alimentam o nosso presente) nem futuro (a Europa, como nosso futuro, são trevas em que ninguém pensa, nem quer pensar).
Os portugueses não sabem falar uns com os outros, nem dialogar, nem debater, nem conversar. Duas razões concorrem para que tal aconteça: o movimento saltitante com que passam de um assunto a outro e a incapacidade de ouvir. Não se pode dizer que a segunda decorra da primeira, porque o inverso também é verdade. Resultam as duas do facto de as falas não conseguirem atinar com um "tom" comum. Porquê? Paradoxalmente (ou perversamente), porque o que se procura é precisamente a discordância (não a discórdia) e, antes de tudo, ouvir o som da sua própria voz - pequeninamente, a afirmação autista de si, da fala pronunciada sem a preocupação de ser ouvida ou de ser compreendida (porque essa crença nem se pôe em dúvida, desde que eu me oiça). Produz-se assim uma algazarra insuportável, com todos a falar ao mesmo tempo, cada um com a sua veemência particular sem dar a devida atenção aos outros, seus "interlocutores".
O medo é uma estratégia para nada inscrever. Constitui-se, antes de mais, como medo de inscrever, quer dizer, de existir, de afrontar as forças do mundo desencadeando as suas próprias forças de vida. Medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver, medo de arriscar. A prudência é a lei do bom senso.(...) É preciso lembrar que a imagem de si, forjada pela lei, inconsciente ou semiconsciente, age sem cessar, como uma espécie de panóptico a que os indivíduos não podem fugir. Está no ar, na atmosfera, quer dizer, no olhar dos outros e, pior, no olhar interior do superego que todos corrói. É por isso que, quando se fala numa concreção de poder que combina velhas estruturas hierárquicas com a relação paranóica democrática, é esta que geralmente alimenta aquelas, abrindo espaço para o exercício do poder de pequenos déspotas (que podem surgir na administração, nos poderes públicos, nas empresas, nas escolas, nos partidos políticos), sempre prontos a pôr logo em funcionamento dispositivos panópticos que constroem a imagem de si. Por essa razão, a tentação do pequeno despotismo se tornou tão fácil e permanente na sociedade portuguesa actual.
Se o (actual) povo português fosse um povo de intensidades e não de sentimentos e de medo (como Fernando Pessoa caracterizava o povo espanhol contrapondo-o ao português), há muito que teríamos saído do estado de iliteracia e de fragilidade económica em que vivemos. Em vez disso, sofremos de muitos defeitos próprios das sociedades do terceiro mundo: absentismo no trabalho, inércia, dificuldade na formação e na aprendizagem, lentidão, falta de competitividade. Como se tivéssemos sido atingidos por uma doença que nos deixa diminuídos, meio exangues, com um défice de força vital.
A burocracia, o juridismo pertencem curiosamente àquele mesmo fundo que engendra a deambulação barroca do "ando por aí". O desejo de flutuar, de não entrar na vida real: o frenesim de tudo regimentar - o mínimo gesto, o mínimo sopro de existência - submetendo-os a uma regra. O juridismo paranóico de certos chefes e subchefes anseia por abolir toda a margem de tolerância na interpretação das leis: "só assim se mudará o país", classificado imediatamente de "república das bananas" onde tudo é permitido, onde tudo se consegue "à balda". Daí a necessidade imperativa e maníaca de notar, de registar o menor desvio, a mínima falta, como se a vida virtuosa e a cidadania perfeita resultassem do mais rigoroso cumprimento da lei.
Há, primeiro, que erradicar o medo da sociedade portuguesa. Conquistar a maioridade, dessubjectivando-se ao enfrentar o acontecimento. Fazer explodir a imagem de si. Porque todos nós andamos "pr' aqui" como Álvaro de Campos que dizia que "nunca conhe[ceu] quem tivesse levado porrada./Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo".
[A inveja] passou a ter uma existência social. Um dos seus efeitos possíveis imediatos é a paralisação de toda a dinâmica do novo. O que surge como diferente aparece como uma ameaça à igualdade que a inveja protege. Igualdade niveladora por baixo, (...), porque impede a expressão da singularidade: toda e qualquer manifestação de originalidade é considerada superior e rejeitada. O rumor, a calúnia, as estratégias múltiplas de exclusão que se desenvolvem no quadro do funcionamento do grupo acabam por vencer e eliminar o elemento novo que irrompia.
PORTUGAL DOS PEQUENINOS II
Portugal é uma sociedade ainda fechada, cercada, uma fortaleza onde algumas bolsas de actividade procuram um fora que as alimente. É isso que faz com que se perpetue, contra todas as mudanças que o país tem vindo a conhecer, uma espécie de força entrópica ou de buraco negro que suga a possibilidade de produzir sentido. O sentido novo que se produz é escasso - a estagnação do sentido contribui para a paralização da democracia, para a repetição formal dos gestos democráticos adquiridos (de que o ritual do 25 de Abril é o exemplo, de ano para ano, cada vez mais patético).
Em Portugal nada se inscreve, quer dizer, nada acontece que marque o real, que o transforme e que o abra. É o país por excelência da não-inscrição. A não-inscrição surge, talvez, como o factor mais importante para o que podemos chamar a estagnação actual da democracia em Portugal. Apesar das liberdades conquistadas herdámos antigas inércias: irresponsabilidade, medo que sobrevive sob outras formas, falta de motivação para a acção, resistência ao cumprimento da lei, etc., etc.
Portugal tem uma sociedade normalizada. Significa isto que a vida individual e social do português encontra limites internos aquém dos que são a priori necessários para se estabelecer uma vida em comum. Limites que passam despercebidos, mas impedem nos indivíduos de experimentar ou criar alternativas em zonas essenciais da existência. Se empregássemos a terminologia de Foucault e Deleuze, diríamos que Portugal está em fase de transição de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controlo (noutros termos ainda: está entre uma modernidade em que nunca entrou completamente e uma pós-modernidade que nos vai aos poucos invadindo).
Em Portugal nada se inscreve, quer dizer, nada acontece que marque o real, que o transforme e que o abra. É o país por excelência da não-inscrição. A não-inscrição surge, talvez, como o factor mais importante para o que podemos chamar a estagnação actual da democracia em Portugal. Apesar das liberdades conquistadas herdámos antigas inércias: irresponsabilidade, medo que sobrevive sob outras formas, falta de motivação para a acção, resistência ao cumprimento da lei, etc., etc.
Portugal tem uma sociedade normalizada. Significa isto que a vida individual e social do português encontra limites internos aquém dos que são a priori necessários para se estabelecer uma vida em comum. Limites que passam despercebidos, mas impedem nos indivíduos de experimentar ou criar alternativas em zonas essenciais da existência. Se empregássemos a terminologia de Foucault e Deleuze, diríamos que Portugal está em fase de transição de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controlo (noutros termos ainda: está entre uma modernidade em que nunca entrou completamente e uma pós-modernidade que nos vai aos poucos invadindo).
PORTUGAL DOS PEQUENINOS II

Portugal é uma sociedade ainda fechada, cercada, uma fortaleza onde algumas bolsas de actividade procuram um fora que as alimente. É isso que faz com que se perpetue, contra todas as mudanças que o país tem vindo a conhecer, uma espécie de força entrópica ou de buraco negro que suga a possibilidade de produzir sentido. O sentido novo que se produz é escasso - a estagnação do sentido contribui para a paralização da democracia, para a repetição formal dos gestos democráticos adquiridos (de que o ritual do 25 de Abril é o exemplo, de ano para ano, cada vez mais patético).
Em Portugal nada se inscreve, quer dizer, nada acontece que marque o real, que o transforme e que o abra. É o país por excelência da não-inscrição. A não-inscrição surge, talvez, como o factor mais importante para o que podemos chamar a estagnação actual da democracia em Portugal. Apesar das liberdades conquistadas herdámos antigas inércias: irresponsabilidade, medo que sobrevive sob outras formas, falta de motivação para a acção, resistência ao cumprimento da lei, etc., etc.
Portugal tem uma sociedade normalizada. Significa isto que a vida individual e social do português encontra limites internos aquém dos que são a priori necessários para se estabelecer uma vida em comum. Limites que passam despercebidos, mas impedem nos indivíduos de experimentar ou criar alternativas em zonas essenciais da existência. Se empregássemos a terminologia de Foucault e Deleuze, diríamos que Portugal está em fase de transição de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controlo (noutros termos ainda: está entre uma modernidade em que nunca entrou completamente e uma pós-modernidade que nos vai aos poucos invadindo).
Em Portugal nada se inscreve, quer dizer, nada acontece que marque o real, que o transforme e que o abra. É o país por excelência da não-inscrição. A não-inscrição surge, talvez, como o factor mais importante para o que podemos chamar a estagnação actual da democracia em Portugal. Apesar das liberdades conquistadas herdámos antigas inércias: irresponsabilidade, medo que sobrevive sob outras formas, falta de motivação para a acção, resistência ao cumprimento da lei, etc., etc.
Portugal tem uma sociedade normalizada. Significa isto que a vida individual e social do português encontra limites internos aquém dos que são a priori necessários para se estabelecer uma vida em comum. Limites que passam despercebidos, mas impedem nos indivíduos de experimentar ou criar alternativas em zonas essenciais da existência. Se empregássemos a terminologia de Foucault e Deleuze, diríamos que Portugal está em fase de transição de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controlo (noutros termos ainda: está entre uma modernidade em que nunca entrou completamente e uma pós-modernidade que nos vai aos poucos invadindo).
15.1.05
PORTUGAL DOS PEQUENINOS I
Vou tentar que os próximos posts sejam preenchidos com citações. O livro que lhes serve de base é de José Gil e tem por título Portugal, Hoje - O medo de existir (Relógio d'Água). A infecta "espuma dos dias" que correm impede que se preste atenção ao fundamental. Este livro ajuda a tentar entendê-lo. Mais do que o recurso ao jargão e ao calão políticos, não sei se não deveria sugerir aos principais "actores" a sua leitura. Trata-se de uma obra ensaística que fala de nós e das nossas, ora preocupantes, ora curiosas idiossincrasias. Este "género" não é propriamente novo. Jorge Dias, nos seus estudos sobre "o carácter nacional português", de há décadas, e em um bem diferente contexto, já tinha colocado "o dedo na ferida". Com a emergência da democracia, logo passados os primeiros anos, Eduardo Lourenço deu à estampa o célebre "Labirinto da Saudade" e Vitorino Magalhães Godinho reeditou, actualizando, a sua "estrutura da antiga sociedade portuguesa". Também Vasco Pulido Valente reuniu alguns textos dispersos para "tentar perceber" este "país das maravilhas". Não é outra, aliás, a coisa que tem feito nas crónicas que publica nos jornais. Gil, vindo da filosofia, e meio estrangeirado, consegue, sem perder a erudição, um diagnóstico limpo e irónico, facilmente entendível, do "estado a que isto chegou". É um livro que nos fala do "entorpecimento da consciência" (da nossa, naturalmente), da "ligeira estupidez reinante", do "vapor de burguesismo que se nos cola à pele", do "medo sem objecto" e da "recusa do enfrentamento" da nossa sociedade. O sentido único manifesta-se no mesmo tom e plano do pensar da classe política, da esquerda e da direita; no mesmo tipo de crítica artística ou literária que praticam indivíduos diferentes, na mesma linguagem do prazer, na mesma e monótona maneira de colocar problemas em todas as esferas da vida. O empobrecimento do horizonte dos possíveis explicaria assim a apatia, a anestesia da sociedade portuguesa. Em vez do habitual glossário retirado à mais barata sociologia política, talvez fosse infinitamente mais útil aos protagonistas da actual cena política uma visita atenta ao teor deste ensaio. Já Jorge Dias, e cito de cor, dizia que o português era um "povo paradoxal e difícil de governar". Explicava então que as nossas qualidades podem ser os nossos defeitos em momento diferente, e vice-versa. Não perceber o que "isto" é pode ser fatal."...Contrariamente ao que pode parecer, nenhum pressuposto catastrofista ou optimista quanto ao futuro do nosso país subjaz ao breve escrito agora publicado. Se não se falou "no que há de bom", em Portugal, foi apenas porque se deu relevo ao que impede a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade. Seria mais interessante, sem dúvida, mas também muito mais difícil, descobrir as linhas de fuga que em certas zonas da cultura e do pensamento já se desenham para que tal aconteça. Procurou-se dizer o que é, sem estados de alma, mas com a intensidade que uma relação com este país supõe."
PORTUGAL DOS PEQUENINOS I
Vou tentar que os próximos posts sejam preenchidos com citações. O livro que lhes serve de base é de José Gil e tem por título Portugal, Hoje - O medo de existir (Relógio d'Água). A infecta "espuma dos dias" que correm impede que se preste atenção ao fundamental. Este livro ajuda a tentar entendê-lo. Mais do que o recurso ao jargão e ao calão políticos, não sei se não deveria sugerir aos principais "actores" a sua leitura. Trata-se de uma obra ensaística que fala de nós e das nossas, ora preocupantes, ora curiosas idiossincrasias. Este "género" não é propriamente novo. Jorge Dias, nos seus estudos sobre "o carácter nacional português", de há décadas, e em um bem diferente contexto, já tinha colocado "o dedo na ferida". Com a emergência da democracia, logo passados os primeiros anos, Eduardo Lourenço deu à estampa o célebre "Labirinto da Saudade" e Vitorino Magalhães Godinho reeditou, actualizando, a sua "estrutura da antiga sociedade portuguesa". Também Vasco Pulido Valente reuniu alguns textos dispersos para "tentar perceber" este "país das maravilhas". Não é outra, aliás, a coisa que tem feito nas crónicas que publica nos jornais. Gil, vindo da filosofia, e meio estrangeirado, consegue, sem perder a erudição, um diagnóstico limpo e irónico, facilmente entendível, do "estado a que isto chegou". É um livro que nos fala do "entorpecimento da consciência" (da nossa, naturalmente), da "ligeira estupidez reinante", do "vapor de burguesismo que se nos cola à pele", do "medo sem objecto" e da "recusa do enfrentamento" da nossa sociedade. O sentido único manifesta-se no mesmo tom e plano do pensar da classe política, da esquerda e da direita; no mesmo tipo de crítica artística ou literária que praticam indivíduos diferentes, na mesma linguagem do prazer, na mesma e monótona maneira de colocar problemas em todas as esferas da vida. O empobrecimento do horizonte dos possíveis explicaria assim a apatia, a anestesia da sociedade portuguesa. Em vez do habitual glossário retirado à mais barata sociologia política, talvez fosse infinitamente mais útil aos protagonistas da actual cena política uma visita atenta ao teor deste ensaio. Já Jorge Dias, e cito de cor, dizia que o português era um "povo paradoxal e difícil de governar". Explicava então que as nossas qualidades podem ser os nossos defeitos em momento diferente, e vice-versa. Não perceber o que "isto" é pode ser fatal."...Contrariamente ao que pode parecer, nenhum pressuposto catastrofista ou optimista quanto ao futuro do nosso país subjaz ao breve escrito agora publicado. Se não se falou "no que há de bom", em Portugal, foi apenas porque se deu relevo ao que impede a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade. Seria mais interessante, sem dúvida, mas também muito mais difícil, descobrir as linhas de fuga que em certas zonas da cultura e do pensamento já se desenham para que tal aconteça. Procurou-se dizer o que é, sem estados de alma, mas com a intensidade que uma relação com este país supõe."
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