Li, de fio a pavio, o livrinho de Zita Seabra sobre a sua militância no PCP entre 1966 e 1988. "Sempre cândida e às vezes comovedora", escreve Vasco Pulido Valente na contracapa. Não exageremos. Zita passou à clandestinidade com apenas dezassete anos, depois de uma promissora adolescência de burguesinha do Norte. Podia ter ido parar a um romance de Agustina e nem num de Manuel Tiago, afinal, coube. Filha única, mimada, familiares da "oposição", deixou-se tentar pelo romantismo revolucionário prometido pelo "partido". Quis experimentar e acreditou que a coisa era mesmo "cientifica" como ressumavam os manuais. Teve sorte. Nunca foi presa, torturada ou expelida do país. Mergulhou apenas no Portugal profundo da oposição tal como o PC e a sua máquina o concebiam: secreto, misterioso, desconfiado, umbiguista e alheio ao "outro". O "outro" era sempre o mesmo, os mesmos. Cresceu politicamente nessa dureza e, se ainda o não era, ficou uma mulher dura para o resto da vida. Quando eu tinha dezasseis anos e a conheci na UEC - estava então grávida -, Zita era famosa pela sua intransigência típica de filha dilecta "adoptiva" do proletariado. O melhor do livro são as peripécias da clandestinidade sem "malícia" da "camarada", o salto de casa em casa e os relatos de algumas conversas surrealistas da época. Nunca houve ingenuidade nem candura. Zita jamais poderia ter tido a mão livre para criar e sedimentar a UEC se não fosse um quadro bem cotado. Uma profissional. Levou vinte e poucos anos a perceber o logro ou a enjoar-se dele. Em 1987, na primeira maioria de Cavaco, ainda era da comissão política do PC de onde foi expulsa no ano seguinte. O relato podia ser mais interessante quanto a Cunhal. Por mais de uma vez, a autora repete-se em relação ao "Camarada" e em aspectos perfeitamente banais. Não acredito - dada a proximidade até praticamente ao fim - que Zita não tivesse mais para contar acerca do secretário-geral. Foi, diz ela, intelectualmente "libertada" por dois ex-esquerdistas (do "radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista", nos termos de Cunhal), agora grandes e insuportáveis "liberais" do regime, os drs. Espada e Carlos Gaspar. E teve o apoio paternalista de Mário Soares que merece os maiores encómios como uma espécie de "grande educador nacional para a democracia e a liberdade". A frieza e o profissionalismo da personagem Zita Seabra - a militante comunista, a dirigente estudantil implacável, a dissidente, a social-democrata, a editora - estão inteiros (sem nenhum tipo de rasgo literário ou pretensão de "historiadora" que, aliás, rejeita logo no início) nas quatrocentas e trinta e tal páginas de Foi Assim. Se alguém aprendeu com Álvaro Cunhal - e nunca por nunca com Soares - foi Zita Seabra. Daí, talvez, a imperfeição do "retrato" do homem da amarga derrota dos últimos tempos, remetido melancolicamente a um andar nos Olivais. Propositada? Não saberemos nunca verdadeiramente que "história" Zita Seabra teria para contar.
«Somos poucos mas vale a pena construir cidades e morrer de pé.» Ruy Cinatti joaogoncalv@gmail.com
12.7.07
PERDAS SIMBÓLICAS
Um tribunal desautorizou as chefias militares ao dar razão à tropa que pretendia exibir-se à porta do primeiro-ministro, depois de uma providência cautelar contra a proibição da marcha. É um mau precedente. Não basta declarar "legal" a marcha folclórica. É preciso perceber do que se trata para além do mero cumprimento da lei. Apesar de apoucadas ao longo dos últimos trinta anos, as Forças Armadas são um símbolo e possuem uma hierarquia que em lado algum no mundo jamais foi, ou poderá ser, democrática. Um país que não sabe respeitar os seus símbolos, não merece o respeito de ninguém.
O EFEITO-PANHONHA

De acordo com as sondagens, os lisboetas que votaram nelas - não quer dizer que sejam os mesmos do dia 15 - preferem o dr. Costa para presidente da CML, e preferem o engº Carmona ao dr. Negrão. Isto quer dizer que a Ota pode regressar a debate no dia 16. E que o PSD também. O resto é o efeito-panhonha, que já serviu o Estado Novo e serve este regime, descrito oportunamente por Ruben A.: "deixa estar como está para ver como é que fica".
O PORTUGAL ENVELHECIDO DOS MODERNOS
"A nossa grave crise de natalidade ameaça dificultar ainda mais a renovação do País", escreve Pedro Lomba no DN. Tem razão. É pena que não se tivesse lembrado da evidência quando, em Janeiro, andou de mão dada com aqueles e aquelas que defenderam, com sucesso, o aborto como um vulgar método anti-conceptivo até às 10 semanas de gestação. Olhe, habitue-se.
DOS LIVROS - 3

"Compreensivelmente, Marcello Caetano, em plena consciência do cumprimento das suas funções, era exigente na apreciação do aproveitamento escolar dos examinandos submetidos a provas finais. Como o eram também os outros professores que, naquele tempo, normalmente, integravam o júri do 2º ano do curso geral. Às exigências deles e ao regime de estudos e de exames das Faculdades de Direito, que vigorou até 1958, se ficou a dever, em larga medida, o bom nível geral atingido pelos seus licenciados e pelos cargos que foram chamados a desempenhar (...) Afigura-se-me de justiça elementar reconhecer, ao fim de mais de sessenta anos, que não havia exagero descabido nas exigências de Marcello Caetano, regente de Direito Administrativo, ou nas dos outros professores (...)."
Pedro Soares Martinez, in Estudos em Homenagem ao Professor Doutor Marcello Caetano, no centenário do seu nascimento, 2 Volumes, Coimbra Editora, 2006
Nota: A ministra da Educação não sabe - porque certamente ninguém lhe explicou - o que significa ir ao Parlamento (independentemente da sua valia intrínseca) responder a deputados. Disse ela que, coitados, os ministros vão ali tantas vezes só para ouvir "falsidades" e outras inconveniências. Maria de Lurdes Rodrigues era do menos mau do que não presta. Anda manifestamente a perder qualidades.
Pedro Soares Martinez, in Estudos em Homenagem ao Professor Doutor Marcello Caetano, no centenário do seu nascimento, 2 Volumes, Coimbra Editora, 2006
Nota: A ministra da Educação não sabe - porque certamente ninguém lhe explicou - o que significa ir ao Parlamento (independentemente da sua valia intrínseca) responder a deputados. Disse ela que, coitados, os ministros vão ali tantas vezes só para ouvir "falsidades" e outras inconveniências. Maria de Lurdes Rodrigues era do menos mau do que não presta. Anda manifestamente a perder qualidades.
A QUADRATURA DO CÍRCULO
É de lamentar que José Pacheco Pereira, António Lobo Xavier e, até, Jorge Coelho, se curvem respeitosamente perante o "Zé Miguel" Júdice. É evidente que JPP, malgré tout, e apesar da "amizade", foi politicamente até onde decidiu ir. Porém, e como diria o Doutor Salazar, não foi mais além. Os outros dois, fosse pela mesma "amizade" - mais corporativo-compreensiva de Xavier e mais de ocasião de Coelho, sobretudo solidário com esse arquitecto único chamado Manuel Salgado -, fosse pelo que fosse, torceram-se a comentar o óbvio. Por princípio de regime, não se bate nos "colegas" senadores, essa ridícula invenção que junta o improvável ao inverosímil. O "Zé Miguel" andou a zurzir no seu partido, depois saiu e a seguir prostrou-se imediatamente aos pés do "senhor primeiro-ministro", mas a "quadratura do círculo" tudo perdoa em nome da cumplicidade regimental. Pacheco Pereira lá foi pondo o dedo na ferida e confrontando Coelho com a sua partidarite aguda. Foi, no entanto, pequenino. Muito aprés vous, monsieur e pouca acutilância política, afinal, a única que interessava. O regime vive de salamaleques. É a septicemia democrática.
11.7.07
O MANDATÁRIO- 2
Não contente com a figura que tem andado a fazer - e, por tabela, o candidato Costa com ele -, Júdice vai à SIC Notícias falar-me em "ética republicana". Isto e a bajulação mais rasca à figura do "senhor primeiro-ministro". É nestas alturas que recordo os célebres "safanões" que ficaram por dar no tempo do Doutor Salazar. Este Júdice só já lá vai à bengalada. Haja uma alma caridosa que o convide para o Chiado que eu estou de férias.
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O MANDATÁRIO
Os inimigos dos meus inimigos são meus aliados circunstanciais. O Paulo Portas foi estrategicamente vexado por causa do seu desempenho como ministro da Defesa. É lamentável - estou a ser benévolo - que a investigação criminal se preste a certas coisas mais adequadas a secções partidárias do que ao serviço do direito. A uns dias das eleições camarárias, nada surge do acaso. Por exemplo, há uma semana, no lançamento do livro do Pedro Rolo Duarte, alguém me explicou, tintim por tintim, o que saiu hoje do tribunal acerca da Bragaparques. Até mencionou o dia certo - esta quarta-feira - para o anúncio da pronúncia do sr. Nóvoa. Deixá-lo pôr a boca no trombone e depois falamos. Júdice, o factotum de Costa, já nem se dá ao trabalho de disfarçar. "Fui eu que tratei, desde o primeiro dia, e enquanto advogado, da desocupação dos terrenos onde se fez a Expo-98. Acumulei uma experiência muito grande na recuperação e reabilitação de áreas urbanas a trabalhar para a Parque Expo", disse o mandatário de Costa, do PS e, sobretudo, dele mesmo, para a zona ribeirinha de Lisboa ao Público. E lançou uma acha para a fogueira contra Portas, considerando "escandaloso" o concurso dos submarinos em que era advogado da parte então perdedora. Mais palavras para quê?
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DIA 11 DA PRESIDÊNCIA
"Gostaria de lembrar que em nenhum sítio do Mundo se considera a ratificação parlamentar como uma ratificação ilegítima ou não estando à altura dos melhores valores da democracia", explicou o presidente em exercício ao Parlamento Europeu. De recuo em recuo, o tratado pequenino que se prepara em segredo para ornamentar a presidência portuguesa, está cada vez mais longe do referendo prometido. E a opinião pública está cada vez mais longe destes burocratas da política europeia, os novos plutocratas.
A BRIGADA
Um sinal esclarecedor sobre as possibilidades de vitória numa eleição autárquica consiste em observar a fila de betoneiras prostrada atrás de um candidato. Na lista do dr. Costa está uma senhora da Mota-Engil, o dr. Júdice quer tomar conta da zona ribeirinha e o arquitecto Salgado tem um projecto em curso junto ao Tejo. O famoso pelouro do urbanismo - que normalmente acaba no pelourinho - é muito cobiçado, sobretudo numa cidade devastada pela rapacidade dos patos-bravos com a cumplicidade da "intelectualidade" urbano-depressiva dos partidos. Estão todos, uns e outros, com o dr. Costa. A brigada do betão não brinca em serviço.
AS MAMAS DA REPÚBLICA - 2
A obsessão badalhoca com o aborto, paga com os nossos impostos - ainda por cima mais "prioritária" do que o tratamento de um carcinoma - até tem direito, segundo um pasquim borlista, a uma "linha telefónica que indica o hospital certo para abortar". Não sei se isto faz parte do "plano tecnológico", mas não deixa de ser uma ideia repleta de laicismo, republicanismo e socialismo. Em praticamente tudo continuamos primitivos e rudes, porém, em apenas semanas e por causa do aborto, demos passos gigantescos no caminho do "progresso". E, como escreve o Dragão, "têm sempre uma solução de recurso" para a objecção de consciência médica. "Barata e infalível, ainda por cima: criam "salas de despejo" nos Matadouros Municipais. Aí, de certeza, os funcionários não se põem com objecções inconvenientes. No que concerne ao abate de gado, já devem ser imunes a pruridos de qualquer espécie."
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AS MAMAS DA REPÚBLICA
Os bispos portugueses questionaram o governo acerca da liberdade em Portugal. Para dar um arzinho de "esquerda" - desta vez não "moderna" - o PS e o governo atiraram-se às instituições a ao "espírito" católicos, maioritários entre nós, como gato a bofe. Com a desculpa da "liberdade religiosa" e da laicização do Estado - como se qualquer deles tivesse a ver com irreligiosidade geral ou com a eliminação forçada das principais referências católicas na sociedade portuguesa -, a "situação" pôs literalmente as mamas da República de fora. Fez-se tábua rasa da Concordata, persegue-se, por inércia e pela lei, os organismos culturais e sociais ligados à igreja e que praticam (sempre praticaram) mais e melhor "serviço público" do que os do Estado e difunde-se a idiotia anti-religiosa em artigos pseudo-progressistas. Os bispos falaram na perda da "dimensão espiritual" num manifesto excesso de voluntarismo. De há muito que a infantilização dos costumes e a barbárie do imediato retiraram qualquer veleidade "espiritual" ao "novo homem" que qualquer governo "democrático" está sempre na iminência de "construir". Não consta do "plano tecnológico" qualquer "plano espiritual". As liberdades de culto, o direito à convicção religiosa de cada um e a necessidade de "outra coisa" não se planeiam como a Ota ou o TGV. Foi precisamente por achar que podia entrar, através da lei e da estupidez bruta, na cabeça das pessoas e contra a sua "intimidade", que a 1ª República se instituiu como ditadura e acabou como acabou. Metam lá as mamocas da dita para dentro antes que alguém se aleije.
10.7.07
NÃO VALE TUDO?
"Na política não vale tudo", disse o dr. Costa, sem se rir, numa sessão de propaganda no meio da rua. Estaria a pensar no seu mandatário ?
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A AUDITAR
O senhor presidente em exercício, numa visita tecnológica qualquer, verteu umas quantas lágrimas sobre as mais recentes vítimas das famosas juntas médicas da caixa geral de aposentações. Anunciou uma auditoria, a mudança da lei - ainda é do tempo do Doutor Marcello Caetano - e declarou-se evidentemente chocado. Por trás dele, no ecrã da televisão, espreitava o seu assessor para o turismo, o sr. Luís Pinto. Ainda lá está?
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IMPERDÍVEL
Este post do Crítico (Henrique Silveira) onde se compara o incomparável, o Doutor Salazar e o engº Sócrates.
DIA 10 DA PRESIDÊNCIA
Em breve, Nicolas Sarkozy mostrará ao presidente em exercício quem manda na Europa. Julgaria o dito presidente que a periferia já tinha catarro? Pois não tem. E quando os gémeos genuínos, os polacos, começarem a apresentar a factura do tratado "combinado" com a sra. Merkel, é que se vai apurar a densidade "kantiana" do homem. Nas suas "Lições sobre a filosofia da história" - um livrinho que o senhor presidente devia trazer no bolso durante estes seis meses de aflição, em francês ou em inglês -, Hegel, a propósito do "espírito europeu", escreve que o dito espírito se "descobriu" a si mesmo como "interioridade infinita" justamente no momento em que se encontrou com a sua "decepção definitiva", o túmulo vazio de Jerusalém, após as cruzadas. Isto é, um fracasso. Assim caminha a Europa dos tratadistas de corredor. Para um túmulo vazio sem perceberem nada do que se está a passar cá por fora.
DESCALABRO ÉTICO - 2
Parecem coelhas. É mais da referida "ciganização". Isto vai afundar-se mais depressa do que o previsto, se Deus quiser.
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DESCALABRO ÉTICO - 1
Percebem agora para que é que ele serve e se serve ? Da próxima vez que ele se armar em moralista, haja alguém que o convoque para a rua. Com gente desta fala-se na rua, de preferência com uma bengala na mão. É apenas mais um sintoma da "ciganização do país" de que falava António José Saraiva.
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O NOME DA COISA - 2
Só dois comentários, CMC. Carrilho foi, há menos de dois anos, o candidato do PS à CML. Carrilho ia tendo na sua lista o senhor arquitecto Salgado e, no livro que citei, tal como Salgado havia dado publicamente conta do "carácter" de Carrilho no Expresso, também Carrilho resolveu "explicar" o "carácter" de Salgado. Não necessariamente o do homem - cada um é como é, ensinou Shakespeare há muitos anos - mas o do putativo vereador. Ontem, no princípio do debate na RTP, quando abordado sobre Salgado, Costa passou uma esponja rápida pelo Salgado de há dois anos e apresentou uma espécie de "novo homem vereador do urbanismo" na pessoa de sua excelência. A ver vamos, como dizia o cego. E, por falar em cego, a sua fé praticamente cega na extraordinária figura do ex-número dois do senhor presidente em exercício - mesmo temperada com os lugares-comuns do costume - é uma questão de opinião. Costa certamente não mudou a dele. V. é que trocou o "libertarismo" intelectual do Manuel Alegre pelo respeitinho que impõe a solene figura do antigo ministro de Estado do absolutismo democrático. Faz bem. Nunca se sabe o dia de amanhã.
DOZE BANALIDADES FALANTES
Vi os primeiros minutos do debate sobre Lisboa, com a sra. D. Campos Ferreira. Depois troquei aquelas doze banalidades falantes por dois episódios de House M. D. e um de Desperate Housewives. Quando regressei à RTP, felizmente, já a coisa tinha terminado. É como dizia um leitor. Para nulos - doze -, voto nulo. Pobre Lisboa. Pobre país.
9.7.07
ÉPOCA DE CAÇA
Abriu hoje oficialmente a época oficial da caça ao feto, actividade mais conhecida por aborto. Parece que há "muita procura", apesar de nem todos os hospitais do SNS estarem em condições de perpetrar a coisa. A Maternidade Alfredo da Costa que, como o nome indica, foi construído para dar vida, é orgulhosamente pioneira na aplicação desta lei de morte. Só dois ou três hospitais - parece-me - não têm coutada abortiva porque os clínicos são todos objectores de consciência. Isto é a "esquerda moderna" no seu melhor, um misto de progressismo palonço, de "chávismo" europeu e de septicemia democrática.
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UMA OUTRA BASTILHA
"O indulto não é um instrumento para resolver o problema dos estabelecimentos prisionais", disse Sarkozy para explicar o fim dos indultos por ocasião da festa nacional francesa do próximo sábado. Eram normalmente cerca de três mil os amnistiados. Por cá, de vez em quando, também há manias destas. São um entorse ao sistema penal porque introduz a política onde ela deve ficar de fora. E vice-versa. Habituem-se.
MONICA NA ESTREBARIA
As nossas Monicas Lewinsky de algibeira também têm direito aos seus cinco minutos de fama. Só que, como é entre nós, qualquer estrebaria serve de Casa Branca e qualquer par de calças, de vestido azul.
O NOME DA COISA
O dr. Costa dedicou o domingo antes das eleições a zurzir no dr. Mendes que, por acaso, não concorre à CML. Tudo porque o dr. Mendes se lembrou de chamar a atenção para o segundo da lista de Costa, o inefável arquitecto Manuel Salgado (a propos, é interessante constatar como a bastonária dos arquitectos e concorrente de Costa, Helena Roseta, tem guardado prudente silêncio sobre esta veneranda figura da sua corporação), para a obsessão de Costa pela terraplanagem da Portela sem aviões, etc., etc. Nada, pois, que devesse chocar Costa. Muito menos o seu mandatário, José Miguel Júdice que, em matéria de "interesses", não devia dar recados a ninguém ou perpetrar ridículos "ultimatos". Tanto mais quando um ilustre membro da "comissão de honra", em forma de letra, deu o nome à coisa. E se quiser, dr. Costa, também pode ler uns relatórios pretéritos do Tribunal de Contas sobre grandes empreendimentos públicos conhecidos na área de Lisboa. É que, como ilustrava Nabokov já por aí citado, a forma da coisa precede-a sempre. E antes que ela tome forma, mais vale preveni-la do que remediá-la. Bom tema para a conversa tonta, a doze, mais logo na CML e na RTP.
"Este almoço foi todavia, para minha inteira surpresa e, devo dizer, não menor perplexidade, precedido de vários recados, de proveniência muito diversa mas de conteúdo sempre idêntico - O Salgado quer ser vereador. A minha perplexidade decorria de eu saber que Manuel Salgado tinha muitos projectos em curso na cidade de Lisboa, o que configurava uma situação de óbvio, e perturbante, conflito de interesses. Foi isto, de resto, depois de ele me confirmar o seu desejo de integrar a minha equipa, que eu lhe disse com toda a frontalidade. Ele reconheceu que havia dificuldades, mas que juridicamente havia soluções, que se podia pensar num blind trustee para dirigir o seu atelier. Tudo me pareceu pouco claro, pelo que ficámos de pensar melhor no assunto - mas eu fiquei muito preocupado, não só juridicamente mas também eticamente, com os contornos desta inesperada situação."
in Manuel Maria Carrilho, SOB O SIGNO DA VERDADE, D. Quixote, página 53.
AD LAUDEM ET GLORIAM NOMINIS SUI
O Papa Bento XVI elaborou uma carta aos bispos que acompanha o Motu Proprio Summorum Pontificum sobre o uso da liturgia romana anterior à reforma de 1970. Dito de outra forma, Ratzinger autoriza que seja opcional a celebração da missa em latim ou segundo o "missal" em vigor, ficando a escolha nas mãos dos prelados locais. O Papa, ao contrário do que os apressados do costume propalaram, não impôs o "regresso" à antiga língua franca nem à celebração da eucaristia de costas para os celebrantes. Facultou, antes, a escolha entre um ou outro modo de a realizar. E daqui a três anos espera um "balanço" desta alteração. Apesar de o latim ser hoje de conhecimento reduzido - se não sabem as línguas "vivas", como é que hão-se conhecer as "mortas"? -, não existe comparação na beleza e no significado de uma missa dita em latim com a do ritual em prática. Por mim, as missas podiam ser todas em latim que não vinha mal ao mundo. Antes isso que as guitarradas e as cantorias que fazem perder o sentido da comunhão com o "inteiramente Outro". A missa é um momento solene de reencontro connosco e com esse Outro absoluto. Tudo o resto são fandangos.
O ENCENADOR
«José Sócrates fez-se líder nos estúdios da RTP e não nos comícios ou nas campanhas de rua. A sua noção de povo é a dos figurantes dos estúdios televisivos. E por isso, perante as manifestações populares, Sócrates reagiu inicialmente com o constrangimento dum realizador que detecta uma falha no guião. Em seguida optou, como fez ontem na inauguração da Ponte da Lezíria, por eliminar a cena. Por agora acredita que, tal como nos estúdios de televisão, também na vida basta focar mais aqui e tirar a luz acolá para que outra realidade aconteça. O nosso primeiro-ministro nasceu politicamente no meio dos cenários e não quer sair de lá.»
Helena Matos, in Público
8.7.07
LOLITAS
As meninas já não são o que eram. Até para carregar o telemóvel, estão dispostas a tudo. Despem-se na "net" e fazem negócio. É evidente que os nossos adolescentes estão, de há muito, mortos para a inocência. Têm relações muito cedo, abortam muito cedo, fazem tudo muito cedo. Já nasceram cansados da vida e querem experimentar tudo a correr. Aos vinte e poucos, estão prontos e prontas para se atirar da primeira ponte que lhes aparecer pela frente. Culpas? Paizinhos disfuncionais, ausência de neurónios, falta de imaginação e uma sociedade hipócrita e acéfala. A democracia é assim, como um "cabaz de natal". Quem bebe pelo gargalo, compra a garrafa.
A OITAVA MARAVILHA...
... foi a vaia que o senhor presidente em exercício da União Europeia recebeu ontem à noite no estádio do Benfica quando apareceu nos ecrãs ao lado do Chefe de Estado. As últimas de que me lembro foram as de Barroso, no mesmo estádio, e de Santana Lopes, no Atlântico, no concerto de Madonna. Não duraram muito mais.
OS OLHOS NO CHÃO
Li, com o prazer habitual com que costumo ler prosa poética "martelada", a "impressão digital" do José Manuel dos Santos no Actual do Expresso. Dos Santos aproveita estas "impressões" para escrever o que não pôde em vinte anos. Desta vez é Lisboa e é, nas entrelinhas, o dr. Costa e o PSD. Retiradas as epifanias e meia dúzia de transportes literários, o que é que fica? "Uma cidade sem sorte, porque o tempo não se aliou a ela e porque ela não se aliou ao rio". Com certeza. Então por que é que os senhores ex-presidentes da CML - Sampaio e Soares Júnior-, agora da comissão de honra do dr. Costa, em doze anos, o dobro do ticket Santana-Carmona, não trataram dessas "alianças"? Não deixaram eles uma "fabulosa herança"? Como tem, entretanto, razão o cronista. De facto, nesta campanha eleitoral da treta, "apenas existe mentira, simulação, disfarce e fuga". Aliás, o seu candidato, o dr. Costa, é a prova viva de tamanhos predicados, não desfazendo nos outros onze. Ele emerge nesta campanha como uma vestal apesar de, por mero acaso, ter sido "apenas" o "número dois" da situação até há um mês atrás. Pressentia-se nele, por assim dizer, para além de uma inata vocação para preboste, a de autarca? Talvez o cronista possa explicar a coisa depois do dia 15. Finalmente chega o apelo, "a hora da honra". "Se soubermos que há um rigor", isto é , o "rigor" da publicidade do dr. Costa, vai-se facilmente ao encontro da "hora da honra". Assim se escreve sobre uma coisa sem nunca a nomear. E já agora, para quando uma crónica sobre a situação duvidosa das liberdades públicas e privadas às mãos dos "camaradas"? Ou a "hora da honra" só é boa para os outros, à conta da recuperação do delito de opinião, e, quanto ao essencial, continuas melancolicamente de "olhos no chão" como se não se passasse nada?
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DOS LIVROS - 2
O solitário e o exílio interior*
"O solitário sobe e desce pelo tempo a seu bel-prazer. Fala o menos possível. Entrou na abstinência sexual e só de longe em longe se permite «esgaramantear uma laustríbia», como dizia, sem étimos aparentes, o Mário Ramiro. O solitário está nas suas sete quintas, quer dizer, nos sete dias da sua semana, dias que entram pelas noites, que lividamente se confundem com os dias. (...) O exílio interior pressupõe um corte total com os meandros por onde se movimentam os chamados carreiristas, sempre prontos à transigência. (...) O exílio interior pede uma grande força de ânimo (e um nojo não menor), a alimentação constante de um ideal, um amor sem limites à verdade, o afrontar corajoso de uma envolvente solidão, um elevado espírito de sacrifício. O exílio interior tem algo parecido com a atitude mental dos místicos: o abandono dos pactos com este mundo mundanal para a preservação de um único: o pacto com Deus. O exílio interior (...) é o comportamento coerente que se oferece a quem, rodeado pela adversidade, teima em preservar o pequeno núcleo que faz, fará com que um dia possamos - nós, os pactuantes - dizer aquela pessoa."
*excertos de duas crónicas de Alexandre O'Neill no livrinho Uma Coisa em Forma de Assim, da Assírio& Alvim, uma excelente leitura ou releitura de cabeceira nestes tempos de chumbo, individual e colectivo, de um "novo" Portugal "amordaçado".
*excertos de duas crónicas de Alexandre O'Neill no livrinho Uma Coisa em Forma de Assim, da Assírio& Alvim, uma excelente leitura ou releitura de cabeceira nestes tempos de chumbo, individual e colectivo, de um "novo" Portugal "amordaçado".
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LIÇÕES DE DEMOCRACIA
Numa intervenção no Parlamento, a semana passada, Zita Seabra chamou a atenção para o "clima persecutório, de intolerância, de intimidação, de perseguição na Administração Pública inadmissível em qualquer país democrático e assente num Estado de Direito" a propósito das "sucessivas medidas persecutórias por delito de opinião" a que o governo e os delegados do PS se têm entregado, com recurso a "delatores, que antes do 25 de Abril chamávamos, e hoje chamaremos novamente, de "informadores." E, depois, dá nota de um caso concreto que seria ridículo se não fosse trágico. "Que dizer de uma dirigente que acha normal ir à televisão defender que a forma eficaz de dar entrada da correspondência no serviço é os funcionários irem ao seu gabinete para que ela abra os sobrescritos e dê ou não entrada à correspondência? O método eficaz é ser ela a abrir e ler, uma a uma, a correspondência no seu gabinete. Todos os dias a senhora, sentada certamente – que a autoridade exerce-se sentado –, abre, frente ao funcionário de pé – que o respeitinho é muito bonito –, a correspondência que lhe venha eventualmente dirigida." E Zita conclui que importa continuar "a denunciar firmemente todas estas perseguições e tentativas de transformar a Administração Pública num campo minado por medos, por compadrios partidários, por comissários políticos e ministros capazes de aceitar que o seu gabinete seja caixa de correio de delações políticas, de pequenos denunciantes de crimes de lesa ministro." A isto, o líder da bancada absolutista, o dr. Alberto Martins, respondeu, irritado, que "o PS não recebe lições de democracia de ninguém". O dr. Martins tem uma "história" que lhe aconselharia, no mínimo, algum recato. Foi projectado para a política por causa do famoso "pedido da palavra" numa cerimónia na Universidade de Coimbra, em Abril de 1969, presidida pelo então Chefe de Estado. Era presidente da Associação Académica e o incidente foi objecto de um livro mencionado no IV Volume das "memórias" de José Hermano Saraiva - o ministro da Educação Nacional nesse momento - intitulado "Dossier Coimbra", de António da Cruz Rodrigues e José Maria Marques, da Livraria Sampedro Editora, 1969, muito raramente comentado a propósito disto e pouco abonatório da para sempre fixada pelo politicamente correcto. Por um lado, dizia-se que os tribunais absolviam os detidos "por carência de fundamento" para as acusações. Por outro, organizavam-se excursões académicas a Lisboa para pedir ao PR que os amnistiasse dos "processos pendentes". Como escreve Saraiva, a rapaziada queria "um pretexto para um 69 condigno do 68 francês". Todavia, o mais lapidar "retrato" do dito Martins fica encerrado neste parágrafo do livrinho de J. H. Saraiva. "O relato do livro Dossier Coimbra é um depoimento que não pode ser omitido no processo. O livro foi "abafado" (ignoro por quem) e triunfou a versão politicamente vencedora. Escrevo estas linhas com a desolada certeza de que não vou alterar as convicções estabelecidas. Que pode um pequeno sopro de verdade contra uma enraizada ficção política, que já tem heróis, dá dividendos (até faz ministros!) e é um dos pilares do regime instalado?" Pois é, dr. Martins. O senhor lá saberá por que não recebe lições de democracia de ninguém.
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7.7.07
DOS LIVROS - 1
O João Távora - e não apenas ele, dá-me ideia que é uma coisa em forma de "cadeia" - pede-me livros. É tema sério - dos poucos que eu levo a sério - e serve para uma longa conversa a que tenciono dar lastro, na próxima semana, a partir do Vau. Ao contrário de mim, o veraneante Mário Soares, que já lá anda, tenciona regressar a Lisboa no dia 15 ou antes para votar. "É um dever cívico", foi o cliché que ele arrancou quando o abordei no lançamento deste livro e lhe afirmei que me estava nas tintas para o evento municipal. Pois é. Leio a Zita Seabra, por todos os motivos e mais um. Tempero com livros sobre filosofia e história que me permitem continuar, como Hemingway, com "grace under pressure". Para já, dois. Um "Guia de filosofia para pessoas inteligentes", de Roger Scruton (Guerra & Paz), e "As putas do Diabo", de Arnelle Le Bras-Chopard (Círculo de Leitores e Temas & Debates). Todavia, a mala do carro leva outras coisas de que se falará oportunamente. Até, imagine-se, livros de direito. E não perco, claro, a leitura semanal dos fascículos das memórias de José Hermano Saraiva, editadas pelo Sol. Agora tu, Francisco, conta lá o que é que levas para ler no Sal.
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PORTUGAL DE PEQUENINOS
O "sistema" regozija-se por a média dos resultados dos exames de matemática do secundário ter atingido o patamar dos... 10 valores. Quando nos regozijamos com esta aurea mediocritas, é sinal de que precisamos de um congresso extraordinário nas nossas pobres cabeças.
O CATAVENTO
Outro bonzo que já não tem emenda é o prof. Freitas do Amaral, um dos maiores cataventos destes 33 anos de dita democracia. O senhor professor, a quem nenhuma alma caridosa aconselha silêncio, também já é contra o referendo acerca da revisão dos tratados europeus. Freitas tem sido exímio em cavalgar a onda do momento, independentemente do momento e de quem manda no momento. Como o "presidente em exercício" já se anda a preparar para meter o referendo no bolso, o senhor professor não quer perder a amável boleia. Consta que é um "senador" desta classe política sem qualquer tipo de classe. Merecem-se.
OS BONZOS TAMBÉM SE ABATEM
Não sei se Luís Marques Mendes é bom ou é mau. Sei, pelo contrário, que Nuno Morais Sarmento, o sr. Arnaut ou o sr. Correia - sabem quem é? - são muito maus. Esta cãzoada "barrosista" (parece que é assim que eles são mundialmente conhecidos) recomeçou a fronda eterna contra Marques Mendes na mira da derrota em Lisboa. Julgam-se de uma subtileza política digna de manual e imaginam-se "indispensáveis". Qualquer deles, nos últimos consulados da direita, teve tempo de sobra para mostrar o que valia. Tal como com Paulo Portas, o bom senso recomendava uns anos de luto e de silêncio. Acontece que em nenhuma destas cabeças o bom senso abunda. Portas terá um primeiro sinal no dia 15. E os outros, para já, não contam. Do sr. Menezes, de Gaia, nem vale a pena falar. Mendes controla o "aparelho" e não o venderá com facilidade. O PSD, a precisar de outra coisa, sobretudo não precisa dos mesmos dos últimos tempos. A direita - toda - necessita de um Sarkozy e, por tabela, de uma UMP, uma "união por um movimento popular", que varra definitivamente a escumalha e lhe dê novos rostos e alento. Os bonzos também se abatem.
QUID CUSTODIET IPSOS CUSTODIES?
Em apenas dois dias, tivemos notícia de que elementos das polícias - na circunstância, da PSP e da PJ, mas já tínhamos tido do SEF e da GNR - são suspeitos em processos crime relacionados com dinheiros. Quando visitei a América Latina, a profunda, a dos tiros e a dos sequestros, era banal saber-se do envolvimento de "agentes da autoridade" em casos que supostamente deviam combater. Nalguns deles, coincidia a chefia da polícia, geral ou local, com a direcção de bandos organizados de rapina e de morte. Ainda não chegámos a tanto porque, até nestas coisas, o provincianismo impera. Aqui é mais o desenrascanço momentâneo ou a indeclinável tentação para "ajudar" ao trem de vida. Seja o que for, é mau e é um sintoma. Mais um de que o descalabro ético cujos piores exemplos vêm "de cima" - o "Expresso da meia-noite", se bem percebi, discutiu as negociatas com Angola, coisa a que os presentes, como o sr. Todo-Bom, um velho conhecido destas andanças, apelidava constantemente de "janela de oportunidades": para quê? para quem? em nome de que "princípios"? - está silenciosamente a minar esta porcaria toda. A plutocracia também é isto: sujeira, amoralidade e rapacidade das nomenclaturas partidárias e da autoridade. São aquilo a que chamo de efeitos perversos da democracia. Quid custodiet ipsos custodies?
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6.7.07
FOLCLORE E APALPADELAS
Como o conheço, Eduardo, sei que V. não tem vocação para capacho, nem necessidade. Todavia, a sua inclinação - não "divina", para utilizar o linguarejar laurentino - pelo dr. Costa e quejandos deixa-me deveras surpreendido e incomodado. Nos seus catorze posts sobre "Lisboa a votos" ainda não encontrei uma razão válida para esta "inclinação" que seguramente aparecerá lá para o post vinte e tal, nas vésperas da eleição. Sei - porque já o escreveu - que sempre votou PS, talvez contagiado, desde há trinta anos, pelo romantismo do "ele não merece, mas vota no PS". Mas isso era no tempo em que os animais falavam e em que o PS era uma coisa séria, entregue a pessoas com um módico de história, de trambelho e de coerência na defesa das liberdades públicas. O dr. Costa, que V. indirectamente protege, está, hic et nunc, nos antípodas dessa "história" e dessa "ética" por mais que ele se esprema à conta da "republicana". Não por ele mesmo, coitado. Antes por causa do que ele representa neste ano da graça de 2007. E, desculpar-me-à, as suas "contas" relativas ao PSD não fazem sentido algum. Costa, daqui a pouco mais de uma semana, será o presidente da CML, eleito - espero eu - num mar de grossa abstenção e de desprezo por tudo isto. Alguém das esquerdas ou dito "independente" - estão mortinhos - fará o favor de completar a soma perfeita. Não adicione, pois, o que não é adicionável e procura a matemática noutro lado. Os votos que o dr. Negrão terá - e sabe Deus o que aqui tenho escrito acerca dele - são, de facto, os únicos declaradamente contra a "situação". O resto é folclore e apalpadelas por debaixo da mesa.
CHEGAR A TEMPO
A sra. D. Fernanda Câncio, no seu artigo semanal no DN, invecta o "movimento de jornalistas" ligado a este blogue. Tem razão acerca da "auto-regulação" e, eu próprio, quando vi o nome do sr. Resendes no meio da coisa, fiquei logo de pé atrás. Bettencourt Resendes tem sido, pelo menos desde os tempos do governo do dr. Barroso, um verdadeiro Dutra Faria de quem está. Também é daqueles que aprecia a "coragem" do eng.º Sócrates, embora eu ainda não tivesse, até hoje, nenhuma epifania sobre o que significa o termo "coragem" quando aplicado à dita pessoa. Berraria com fracos e temores reverenciais com os outros, no meu léxico, tem outro nome. De qualquer forma, e no actual estado da arte, não existe meio-termo. Ou se está com esta gente, ou se está contra esta gente. Esta estranha gente que nos pastoreia. Câncio, ao escrever o que escreve, coloca-se do lado desta gente. E chega a tempo. Ainda acaba em presidenta da ERC.
SOBREAVISO
Sem se rir, e perante uma plateia, pequenina, dos empalhados do costume e de "notáveis" do partido e de outras dependências regimentais, o dr. António Costa, no Parque Mayer (acertou no local, porque o exercício tinha qualquer coisa de quadro de revista) pediu um "sobressalto cívico" o que, em linguagem PS, significa "dêem-me uma maioria absoluta". O dr. Costa, se bem se lembra, já deu mostras, bastante irritadas e irritantes, por sinal, do que gosta de fazer quando brinca às maiorias absolutas. O dr. Costa, que ainda há dias pareceu quase humano numa visita de campanha a uma escola básica, tem a mão leve para o autoritarismo quando de posse de uma situação de absolutismo democrático. O dr. Costa, em suma, tem um passado recente como ministro de Estado e "número 2" do regime que não o recomenda. O único sobressalto cívico que o dr. Costa deve esperar é que não se vote nele. O dr. Costa representa o pior destes dois anos de deriva absolutista, autista e convencida da sua excelência democrática. O dr. Costa, que é da minha geração, já é um Matusalém da política, do regime e do PS, e não tem, por causa dos antecedentes mais próximos, um pingo de autoridade para reclamar sobressaltos. Lá por estarmos em plena silly season, não queira o dr. Costa fazer os lisboetas mais silly do que eles já são. Sobressalto cívico, nas actuais circunstâncias, é ficar à beira-mar no dia 15 ou votar contra si, dr. Costa. O senhor lembra-nos o susto destes últimos anos. Só serve para nos pôr de sobreaviso.
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TROVA DO TEMPO QUE PASSA - 2
"Olá, João!
A gente não se conhece e peço desculpa por lhe invadir o mail. Quis deixar um comentário ao post sobre o meu livro, o "Proibido!", lá no blog, mas pedem-me contas do google e mais não sei quê, o que ultrapassa os meus conhecimentos da coisa. Eu acho mesmo que adoramos ser polícias uns dos outros, mas entendo que é capaz de não nos estar na massa do sangue. Talvez seja formatação que o fascismo (digo assim, embora esteja fora de moda) nos deixou. E, portanto, se for só formatação, se não for sina ou gene, espero que passe com o tempo, com um upgradezinho e novas tecnologias, novas gentes. Trinta anos de liberdade é pouquíssimo e o Sócrates, mais o Correia dos Santos e a da Educação, mais o Lino e o Cavaco, mais o Magalhães e o Belmiro, mais o raio que os parta, mais até o Louçã, o Jerónimo e eu próprio já não vamos lá. Eu aposto nos meus filhos (e, em desespero de causa, nos meus netos). Fiquei radiante quando eles ouviram falar daquelas proibições e me disseram sem dúvidas: "tás a gozar". É bom sinal, não acha? Quanto às "proibições" actuais, estamos de acordo em que persiste o espírito, mas não quanto à subtileza com que no-las impõem. Acho até que a subtileza se está a perder. Grassa a bufaria, fomenta-se a queixinha, os tiques autoritários regressam, o "ordes são ordes" pulula, enfim, um susto.Bom, ainda bem que achou graça ao livro e só espero que haja muitos putos a lerem-no, para que se vão pondo a pau. Sexta-feira, por exemplo, à pala do livro, vou discutir a um programa de televisão se "há liberdade demais?" com uns miúdos tipo- Morangos com Açúcar. Não vendo livro nenhum, mas satisfaço o meu lado missionário. Acho que "é preciso avisar toda a gente", como dizia o outro.
Entretanto, bons posts e um abraço de optimismo
António"
TROVA DO TEMPO QUE PASSA
"Não o conheço, desculpe por isso interpelá-lo, mas, ao ler alguns dos posts do seu Blog, fica-me a impressão que tanto o Sr. como muitos dos comentadores, pela forma como comentam o C.Campos, a educadora do Porto, o bufo de Vieira do Minho etc., fica-me a impressão que vivem numa redoma isolados do país real (ou profundo sem qualquer conotação). Esses casos, pelo que soube, são mansas manifestações do clima que alastra como uma nódoa de óleo letal. Não lhe vou tomar muito tempo. Trabalhava num serviço público onde, quando muda o partido (PS ou PSD) no governo, entra nova fornada de boys e girls ávidos de pasto fresco. Sempre assim foi nos últimos trinta anos. O que agora mudou é que se apossou da boyada a convicção que esta vaga está para durar e têm um chefe que quer deles um estilo bem marcado e eles, com mais ou menos perícia, tentam sair-se o melhor que podem. No meu caso, que comecei por ter os dois primeiros chefes (dirigentes diz-se agora) extraídos do miolo ideológico do regime fascista, nunca, mas nem de longe, vivi no local de trabalho uma situação tão degradante do ponto de vista pessoal e profissional. Resultado, como tinha condições mínimas (de tempo de serviço mas não de idade) vim-me embora com um corte de 28% no vencimento;vários outros colegas fizeram o mesmo. Fala-se no processo disciplinar ao prof. Charrua, pois no serviço em que trabalhava foram instaurados processos por simples discordâncias. Os casos do Porto e Braga deram brado por estarem envolvidos elemento proeminentes do PSD, só isso, ou talvez porque mais convenientes do ponto de vista da agenda. Recordo-lhe que a situação foi objecto de dois requerimentos parlamentares aos quais o Governo, que eu saiba, nunca respondeu.
Desculpe o desabafo
(LC)"
Desculpe o desabafo
(LC)"
5.7.07
DIA 5 DA PRESIDÊNCIA
Leio no Público: "Ao abandonar objectivos de política orçamental e reforçar ideias de patriotismo económico, Sarkozy comprou uma guerra com os principais protagonistas da eurolândia e lançou sobre o Pacto de Estabilidade e Crescimento uma ameaça real. Berlim reagiu de forma áspera, depois de Londres e Lisboa terem alertado para os perigos de um tal caminho." É de energia nietzschiana como esta que a Europa precisa e não de mais cinzentões curvados do "aprés vous, Monsieur".
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