Dez anos após a sua morte, Álvaro Cunhal é recordado numa entrevista ao Diário de Notícias pelo seu melhor biógrafo político, José Pacheco Pereira. Estão publicados três de quatro volumes desse tão monumental quanto preciso trabalho que culminará, naquele por vir, com a saída de cena de Salazar em 1968. Tem talvez razão o autor quando afirma "perceber" Cunhal, a função específica do historiador. Isto é, não se perceberá Cunhal ou as suas tensões e circunstâncias políticas sem ler, ou reler, com gosto igualmente literário, os livros de Pacheco Pereira. Porquê? Socorro-me da apenas da entrevista. «Era uma personalidade psicologicamente muito complexa. Muitas vezes isso só se revela mais tarde e retrospectivamente percebemos que a persona era a mesma. Cunhal foi transformado numa personalidade a preto e branco, um monge laico do comunismo, que obviamente não era. Uma espécie de teórico absoluto, ortodoxo, inteiramente ligado aos soviéticos, e em vários momentos decisivos ele não foi isso. Mesmo quando muda de posição, como no caso da Checoslováquia, muda por razões geopolíticas: está convencido de que mais importante do que o sucesso da experiência checa, que ele vê com bons olhos, é que a União Soviética não perca o hegemonia no movimento comunista internacional (...). Cunhal nunca abandonou a ideia de que o derrube do regime se faria também através de uma componente de luta armada, que é a tese dominante do Rumo à Vitória, onde fala no levantamento nacional armado. A fórmula é ambígua mas implica uma forma de violência revolucionária (...). Uma biografia de Cunhal é complexa, porque tem de tratar não só evoluções mas também pensamentos (...) O PCP tem uma história política ideológica muito marcada pelas ideias dele. Uma vez chamei-lhe o idealista pragmático, ou o revolucionário pragmático. Manteve sempre uma postura revolucionária, no sentido leninista, nunca abandonou a necessidade da violência, da luta armada, nunca defendeu que a transição em Portugal pudesse ser pacífica (...) Ele deixou ficar inscrito no programa do PCP uma coisa que lhe garantiu a sobrevivência: mais vale ser o que era do que tentar mudar (...). De todas as pessoas públicas que conheço, Cunhal é das mais vaidosas que é possível imaginar. É uma vaidade muito especial, não é dizer “eu sou o melhor”, mas traduz-se na representação que ele faz de si próprio na ficção. São Bernardo fala na vaidade do monge que é perfeito, que escolhe sempre os trabalhos mais difíceis, comporta-se sempre de forma exemplar. E as personagens em que Cunhal se representa na ficção são perfeitas, mesmo nas suas imperfeições (...). É um homem que se descreve a si próprio como a encarnação viva de um ideal que lhe apaga a personalidade, que lhe tira a pulsão pelos defeitos, que lhe apaga os pecados, sem os negar. Cunhal tem um grande corpus de textos – como aliás têm outras pessoas no PC – sobre os defeitos. O entendimento da clandestinidade do PC não é idealizado. Sabe que estão a lidar com homens com defeitos em situações de grande risco. Essa combinação do defeito com o risco e as fragilidades na experiência clandestina Cunhal percebe-a muito bem. Daí que nunca apele à ortodoxia nem à ideologia nem a uma espécie de situação abstracta. Ele usa aliás os valores do mundo mediterrânico: a honra e a vergonha (...). As ambiguidades são interessantes, quem trabalha sobre esta matéria tem sempre de perceber o que não é dito (...). Cunhal é uma das duas ou três figuras que explicam o século XX português, como o Salazar. Há outras pessoas muito importantes para se perceber o século XX. O Afonso Costa, que explica o republicanismo. O Marcello Caetano, o Mário Soares, várias figuras. O Cunhal é sem dúvida uma delas. Muitas coisas que marcam o século XX, ainda hoje vivas, têm a ver com o pensamento dele. Por exemplo, a ideia de que Portugal não é um país pobre (...) Eu percebia-o bem de mais e ele percebia-me bem de mais.»
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
13.6.15
Cunhal: "honra e vergonha"
30.4.13
Uma exposição
À hora de almoço fui visitar a exposição dedicada pelo PCP ao centenário de Álvaro Cunhal. Recomendo-a sobretudo aos mais jovens. Habituados há já alguns anos a um "estilo" e a um friso de "políticos" relativamente indiferentes, decerto ganham alguma coisa em perceber quem foi (e o que fez, o que queria fazer e o que não conseguiu fazer) Cunhal. É uma certa história contemporânea de Portugal - e de portugueses - que ali encontram entre fotografias, textos de época, manuscritos, objectos, videos. Comprei um caderninho de apontamentos que reproduz na capa uma pintura de Cunhal e um lápis alusivo ao centenário. Por ali podemos ler as últimas disposições do antigo secretário-geral do PC, datadas, salvo erro, de Dezembro de 1999, e que resumem uma vida nunca derrotada nos "ideais" mas, amargamente, pela história: «a todos desejo que, vida fora, realizem os seus sonhos.»
Adenda: os textos que acompanham a exposição são em português, i.e., não seguem o "acordo" ilegal o que vai a crédito do PCP.
1.12.12
Cunhal, a elegância na derrota
Está a decorrer um congresso do PCP. O PC é um partido previsível pelo que a sua versão dos dias que correm interessa-me pouco. A ocasião, todavia, serve igualmente para abrir as comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. E isso já me interessa. Cunhal confunde-se com a biografia política do país no século XX, à semelhança de Salazar. Soares é um fenómeno mais tardio e trivial. Há milhares de Soares por esse mundo fora mas apenas um Cunhal e um Salazar. Soares vê a democracia como Proust descreve a nostalgia permanente de uma "madeleine" de infância: está-lhe "na massa". Cunhal "aceitou" a democracia e fez do PC o partido mais respeitador dos seus rituais, das suas normas. Mesmo na rua, o PC é a válvula de segurança das instituições, demarcando-se metodicamente, desde Novembro de 1975, de tudo o que possa perturbar, escandalosa ou violentamente, os "equilíbrios" formais do regime. Aos poucos isolou-se e travou mitologias em seu redor mesmo quando o forçavam a falar de si. O "colectivo" era a sua maneira de dizer "eu" embora, aqui ou ali, sobretudo nas derradeiras aparições em entrevistas, deixasse transparecer o homem, o pai e o avõ. "Despersonalizo, portanto...", diria a Maria João Avillez naquele que é porventura o melhor livro da jornalista e que recolhe as suas "conversas com Álvaro Cunhal". "Eu não adivinho, batalho", "eu não alimento nada, tenho apenas a minha maneira de viver" são afirmações que o balizam. De alguma maneira, Cunhal poderá ter-se tornado incompreensível à luz dos "valores" vigentes. O "modelo político" triunfante um pouco por todo o lado representa tudo o que Cunhal intelectual e intimamente desprezava. Não aludo a questões puramente ideológicas mas a coisas mais profundas que se prendem com a própria "natureza" humana. Cunhal era demasiado elegante para poder suportar a ascensão planetária da vulgaridade pequeno-burguesa sem um sorriso malicioso e, sem dúvida, amargo como revela Avillez. «Era o último encontro, mas eu não sabia. A derradeira vez que eu via aquele homem doente («eu estou a ver muito mal, não vale a pena mostrar-me isso, não vejo, não consigo ver...») que durante quase trinta anos me fez sempre partir com precipitação e os sentidos alerta para um segundo andar da avenida António de Serpa e, depois, para um gabinete descarnado e nu da rua Soeiro Pereira Gomes. Um homem envelhecido que agora sorria mais tristemente, agarrado à sua "convicção" («sim, a cinvicção foi e é, fundamentalmente, o segredo da resistência e dos combates».) E se eu disser a palavra "derrota"?, perguntei-lhe subitamente nesse dia, mas quase a medo, diante do gravador ainda ligado (e detestando-me por selar aquela longa conversa com uma única palavra que, afinal, lhe cabia por inteiro): Uma derrota ... "amarga", Dr. Cunhal? «Amarga é uma palavra muito pequenina para o que foi.»
24.11.10
CUNHAL REVISITADO

Adenda (de um fiel leitor insular):«Álvaro Cunhal, quando esteve preso em Peniche, traduziu em segredo «Rei Lear», de William Shakespeare, um clássico da literatura mundial. (Hoje os nossos «intelectuais» para fazerem alguma coisa, solicitam uma licença sabática ou pedem uma «bolsa»). Quando nós hoje comparamos a dimensão cultural e intelectual de Álvaro Cunhal (ou mesmo doutros líderes politicos já desaparecidos, como Sá-Carneiro, Salgado Zenha, Palma Carlos, etc.) com as actuais «lideranças» politicas, é o mesmo comparar uma peça feita em ouro com um vulgar alguidar de plástico.»
CUNHAL REVISITADO

Adenda (de um fiel leitor insular):«Álvaro Cunhal, quando esteve preso em Peniche, traduziu em segredo «Rei Lear», de William Shakespeare, um clássico da literatura mundial. (Hoje os nossos «intelectuais» para fazerem alguma coisa, solicitam uma licença sabática ou pedem uma «bolsa»). Quando nós hoje comparamos a dimensão cultural e intelectual de Álvaro Cunhal (ou mesmo doutros líderes politicos já desaparecidos, como Sá-Carneiro, Salgado Zenha, Palma Carlos, etc.) com as actuais «lideranças» politicas, é o mesmo comparar uma peça feita em ouro com um vulgar alguidar de plástico.»
23.5.10
DIGNIDADE NA DERROTA

DIGNIDADE NA DERROTA

28.9.09
CUNHAL REVISITADO

CUNHAL REVISITADO
