«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
29.7.12
Coerências
23.7.12
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - epílogo
Semanário - Depois de ter andado por esse País fora, o que é que ficou?
José Hermano Saraiva - Que o futuro está nas nossas mãos. Estou a falar em mãos em sentido muito concreto. O povo português é dotado de um talento, de uma capacidade de imaginação, de improviso, que é preciso institucionalizar e valorizar através de uma profunda remodelação de todo o sistema escolar. Em todo o caso, ainda somos os melhores do mundo em muita coisa. Estou a pensar na cristalaria, no azulejo, no mobilário do Norte, na cerâmica, nos têxteis, nas confecções. Tudo quanto meta o ingrediente "talento", o português é muito bom. Um País cuja característica específica, cuja marca de origem se chama "talento", é necessariamente um País de futuro, desde que não malbaratemos o talento do povo. Ainda hoje vemos a cada passo pessoas com uma extraordinária capacidade mental que não puderam andar na escola. Inversamente vemos pessoas de uma indigência espiritual total que atingiram os mais altos postos do marechalato intelectual. Às vezes perguntamo-nos como foi possível que esta criatura se tivesse formado. Isto é que tem de acabar. É preciso administrar a cultura e a escola na proporção directa do mérito, e num País que tem tão pouco, não desperdiçarmos o único diamante que Deus nos deu: o talento do povo português.
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 4

Semanário - Ressalta da sua exposição uma grande preocupação em se fazer entender bem e depressa, sem artifícios. A sua mensagem chega com facilidade. Lembramos uns programas remotos, O Tempo e a Alma, justamente o título da última obra.
José Hermano Saraiva - Talvez que o que houvesse de específico nesses programas de que fala, fosse a preocupação do concreto. Recorda-se que eu, em regra, levava uma peça, levava algo que servia de símbolo. Sabe que o próprio Cristo falava por parábolas. A parábola é um exemplo que conta muito mais do que parece contar. Tem um conteúdo e uma significação que extravasa para fora do seu perímetro e que faz compreender. Este livro que agora saiu tem realmente esse objectivo. Sob a aparência de um passeio, é uma meditação que eu gostava que tivesse sido mais optimista. Eu procurei dar-lhe um tom optimista e reconheço que, por vezes, o optimismo degenerou em elegia.
Semanário - Como assim?
José Hermano Saraiva - Disse elegia, não disse elogio. Vamos encontrar, particularmente na zona sul e na zona interior - os montes raianos como eu digo no 2º volume -, um sentido desanimado. E não é só nas zonas dos sentimentos e do estado de espírito. Vamos encontrar estruturas profundamente arcaicas, de vida económica e social. E não vamos encontrar a mesma disposição das elites locais para, ombro com ombro, arrancar desse estado doentio em que estão caídas as nossas instituições.
Semanário - Haverá algum pormenor que desejasse destacar nesta abulia?
José Hermano Saraiva - Num dos últimos capítulos do livro, eu relato o que se passou comigo no norte do País. Eu ia justamente no alto de um monte, numa estrada de gelo e neve em que havia uma grande beleza. Ia a pensar num livro onde eu tinha lido o elogio dos montes, uma coisa em que se começa por dizer que "nenhum autor nem nenhuma mitologia fez nascer os deuses nos montes, os vales são para os infernos porque os Olimpos e os Parnasos são sempre nos altos das montanhas". Isto vem da Descrição do Reyno de Portugal de Duarte Nunes de Leão. Mas estava a pensar nisto qaundo uma pardalada de garotos se me atravessa à frente do carro. Eu travei, era uma escola primária que funcionava ali e os miúdos, em vez de estarem lá dentro, estavam cá fora. Parei o carro, falei com os miúdos a pretexto de lhes perguntar onde era isto ou aquilo, e depois disse-lhes: "então, com um frio destes por que é que vocês não estão lá dentro?"; e um miúdo deu-me esta resposta: "cá fora está frio, mas lá dentro está gelo". Bem, a escola primária gelada! Eu pergunto: como é que aqueles garotos vão amanhã ler a Descrição do Reyno de Portugal de Duarte Nunes de Leão? Não a lerão com certeza e não vão perder muito com isso. Mas não lerão outros livros, talvez não leiam mesmo livro nenhum.
Semanário - A questão endémica e incurável, a educação.
José Hermano Saraiva - Sabe que noventa por cento dos portugueses não leram livro nenhum? Mas como é que nós podemos esperar de quem associa a experiência dos anos juvenis a uma imobilidade de salas que lá dentro são gelo, o gosto e o culto da leitura? Só que não encontrei em parte nenhuma a consciência da urgência e da gravidade destes problemas. Continuamos a ouvir falar nas coisas escolares como problemas mais ou menos platónicos. Ninguém percebe que tem de haver uma reconversão profunda da formação do homem português visto que as condições históricas mudaram totalmente neste País. Nós éramos uma Nação exportadora de quadros para as colónias, quadros encarregados de tarefas e de missões que fomos cumprindo ao longo da história.Mas agora todo esse capítulo está definitivamente encerrado. A nossa missão é outra. Só que o esquema de estudos continua basicamente a ser o mesmo do tempo do Marquês de Pombal.
Semanário - À vista uma conclusão devastadora.
José Hermano Saraiva - Não vejo que por este caminho se chegue a algum resultado. A mensagem com que o livro termina não é, por isso, optimista. Em todo o caso, assisti também a espectáculos encorajantes. Depois de tudo percorrer, posso chegar a esta conclusão: o verdadeiro ouro, aqui, é o povo. O que coloca imediatamente um outro problema: na ordem das prioridades da política global portuguesa, a mais urgente de todas é a maximização dos nossos recursos humanos. Há que preparar esta Nação para sobreviver, para viver do suor do seu rosto. Por isso este livro vem contra, por exemplo, a historicite, vem contra a museologite, vem contra o passadismo, vem contra certa calculite, vem contra este culto ingénuo e primário de pretensas artes artesanais que já não existem senão na imaginação e nas fotografias de 1900, vem contra este tentar fazer renascer o que já lá vai irremediavelmente. E ninguém tem nada a ganhar com o regresso.
(continua)
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 3
Semanário - O que pensa o Professor Hermano Saraiva da relação do livro de história com a opinião pública? Há um público para o livro histórico?
José Hermano Saraiva - Isso põe um outro problema que é o das relações entre o escritor e o público. Por vezes o escritor português abstém-se da sua posição relacional. Não há escritor sem público, como não há emissor sem emissário. Nós falamos com uma colectividade com certas características sociológicas e culturais que temos de ter presentes. Ignorá-las completamente e escrever ao arrepio dessa capacidade de absorção dos destinatários da obra feita, penso que é não servir plenamente os interesses da comunidade. Isto nada tem que ver com vulgarização, não se trata de nada disso. Trata-se de que a problemática mais complexa é sempre redutível a termos que a tornem inteligível qualquer que seja o grau de público. Os grandes pensadores, os grandes filósofos, aqueles que influenciaram efectivamente o pensamento do seu tempo, foram pessoas que encontraram uma maneira de se fazer entender. Agora aquelas prosas por vezes propositadamente estrábicas e esdrúxulas em que se parecem comprazer certos dos nossos intelectuais, gera-me a suspeita de que quem precisa de uma bruma tão grande para envolver os seus movimentos, é porque, porventura, não pretende que seja visto claramente. Isto a propósito da acessibilidade das nossas obras e do efeito que elas podem ter sobre o público. Porém, e mesmo com todas as suas limitações, penso que a literatura histórica é aquela que está neste momento a encontrar uma maior aceitação.
*Pergunta e resposta não editadas na entrevista:
Semanário - O Professor é um homem atento ao homem, às figuras na circunstância. Os factos só adquirem verdadeiro significado como coisas nossas, dos homens.
José Hermano Saraiva - Não há factos no mundo. Fala-se muito nos factos. A verdade é que o mesmo facto descrito por si é um e descrito por mim é outro. Vou-lhe dar um caso concreto. A propósito das lutas liberais, eu verifiquei que em determinada cidade, os liberais, selvaticamente, caíram na cadeia distrital e lincharam dezenas de pobres miguelistas que lá estavam. Passados dias, recorrendo a outra fonte, li que nessa mesma cidade, por essa mesma altura, os miguelistas, facínoras e perversos, haviam caído na cadeia distrital e tinham chacinado todos os liberais que lá estavam. É o anti-facto, o reverso da medalha. Pensei, "bom, aqui algum dos dois autores trocou o nome ao santo, ou os liberais mataram os miguelistas, ou os miguelistas mataram os liberais". Fui à terra e verifiquei qua ambos os factos eram verdadeiros e, portanto, se há um facto, tem as duas faces. O que aconteceu foi que na véspera da rendição miguelista, há uma chacina dos prisioneiros liberais que lá estavam; os liberais entraram no dia seguinte, prenderam os miguelistas que tinham feito a chacina e chacinaram-os a eles. É este o facto - a violência e a sua repercussão violenta é que interessa, mas a este facto ninguém se tinha referido. A história não se explica, compreende-se e cada um tem a sua compreensão da história.
(continua)
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 2
Semanário - Depois, foi a vez de Camões entrar na sua história. O Professor foi ao encontro de um outro tempo e de uma alma que é, afinal, dos nosso dias.
José Hermano Saraiva - Surgiu, entretanto, um outro facto curioso. Em 75 ou 76 (não sei ao certo), ao aproximar-se o 10 de Junho, a Comissão encarregada das comemorações decidiu publicar um jornal dedicado aos emigrantes. Surgiram logo estes problemas "à portuguesa", respeitantes à publicação desse número (enfim, todos os jornais entendiam que deviam ser eles a garantir a publicação), e o governo resolveu a coisa de uma forma muito eclética, com uma solução de compromisso: esse jornal seria editado por dez jornais e, para representar a imprensa da província, é escolhido um jornal ao qual estou profundamente ligado, o Jornal do Fundão. Ao director desse jornal pareceu-lhe, da lista dos seus colaboradores, que eu estaria ligado ao tema e pediu-me um artigo sobre Camões.
Devo dizer que eu nunca tinha estudado em especial Camões, a alternativa Camões-emigrante. A alternativa estabelece imediatamente uma associação pois a Camões chamamos nós muitas coisas: é o príncipe dos nossos poetas, é o símbolo da nossa grei. Agora, aquilo que ele foi realmente - um pobre emigrante - isso não costumamos chamar-lhe. Camões é essencialmente isso: um homem que não tem, no próprio País onde nasceu, oportunidade para ganhar o pão de que precisa para comer. Emigra. Emigra - e devo dizer-lhe isto porque nem sempre se tem chamado a atenção para o facto - e todo o canto de Camões é um canto de emigrante. Ele chega a dizer a certa altura que, quando canta, é para enganar a profunda saudade da ausência. A situação é precisamente esta: as saudades angustiam-no e diz ele, "e as águas que então bebo e o pão que como, lágrimas tristes são que nunca saberão senão como fabricar uma fantasia, fantásticas pinturas de alegria."
Lancei-me ao estudo da vida de Camões levado por esta perplexidade: como é possível que Camões, que é um homem de uma cultura perfeitamente excepcional para o seu tempo - devo dizer que a época de Camões é já a segunda metade do século XVI, não tem aquela riqueza de valores intelectuais que caracteriza a primeira metade -, quando começa a faltar gente, sobretudo porque nós havíamos estabelecido uma administração efectiva sobre uma larga parte do mundo e faltavam homens capazes de se ocupar da administração, da facturação, enfim, de todo esse vasto Império que tínhamos estabelecido desde a Índia ao Brasil. como é possível, dizia eu, que apesar desta falta de pessoal capaz para as tarefas administrativas, Camões não tenha conseguido arranjar emprego?
Semanário - Dúvidas que o levam à busca da "vida ignorada" do autor de Os Lusíadas?
José Hermano Saraiva - É ele próprio que alude à fome que passou, em versos dos próprios Lusíadas, em que fala em "tanta necessidade avorrecida". "Necessidade avorrecida" significa exactamente isso: Ora como é possível isto? Paira sobre este homem alguma maldição? Eis a pergunta que eu fiz a mim mesmo. Qual era a razão que levava Camões a ser marginalizado em relação aos quadros sociais da sua época? É que, por outro lado, há documentação que permite estabelecer que o nome literário de Camões já estava rodeado de prestígio. Pode literalmente dizer-se isto: ele era reconhecido como um homem de uma altíssima estatura intelectual. Estas questões lançam-me numa investigação acerca de Camões na qual tive a fortuna do meu lado.
Semanário - Chegamos, assim, a outro livro.
José Hermano Saraiva - Sem dúvida nenhuma que o conjunto de coincidências levou-me rigorosamente às fontes históricas e foi-me possível escrever uma biografia chamada Vida Ignorada de Camões. Não tenho hoje dúvida alguma de que Camões é um jovem nascido no campo, rigorosamente da região de Chaves (região de fronteira), que é trazido para a Corte por esses dez anos para servir na casa de um homem - Fernando Álvares de Andrade -, um cristão-novo que era tesoureiro-mor do Rei D. João III. É levado para a casa da filha, Violante de Andrade, quando ela casa com um filho do Duque de Linhares, D. Francisco de Noronha. A partir daí começa toda aquela dramática situação de que a obra de Camões é uma dolorosa autobiografia. Eu hoje não duvido que, mesmo os próprios Lusíadas, uma obra de génio em que o colectivo, o relativo a toda a comunidade portuguesa é legível num outro plano, o da intimidade sigilosa e que é uma autobiografia.
(continua)
Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 1

Como aqui mencionei, estive uma tarde na Academia de Ciências de Lisboa com o Prof. Hermano Saraiva onde o entrevistei para o Semanário. Não foi em 1985 mas, sim, um ano depois, em Maio/Junho de 1986 como pude verificar nos meus arquivos. O que então me disse permanece actual , razão por que decidi reproduzir o produto desse trabalho com uma ou outra resposta inédita que o espaço não permitiu incluir. Sou do tempo em que o jornal era paginado à mesa, literalmente à unha, antes de ir para a impressora. Recordo ter ido posteriormente à sua casa do Restelo talvez buscar as fotografias e talvez rever aspectos do texto com ele. Ainda bem que fui.
Semanário - O Professor José Hermano Saraiva é um homem que, sendo das leis e da história, mais das primeiras se ocupou, numa primeira fase das suas investigações, para depois se entregar - de corpo, tempo e alma - à segunda. Como transitou?
José Hermano Saraiva* - Tem um aspecto quase romanesco a forma como isso me aconteceu. Eu estive sempre estreitamente ligado à história, sou autor de algumas investigações originais sobre temas delicados, mas não era essa a minha carreira. Digamos que isso era um interesse acessório. Quando voltei a Portugal, na altura do 25 de Abril - eu ocupava a embaixada de Portugal em Brasília - entendi que era meu dever colocar o cargo à disposição do governo que deveria querer ter lá uma pessoa da sua confiança. Seguiu-se depois um período turbulento da vida política portuguesa, um período em que havia um certo ambiente de alarme que nunca me assustou (não sou homem de grandes sustos), mas que em todo o caso incomodava pessoas da minha família. Pedi a uma pessoa então muito ligada às esferas mais altas do poder o favor de me mandar pôr o telefone sob escuta para se poder fazer a triagem das informações (para acabar com certas brincadeiras). Essa pessoa disse-me: "V. é um grande optimista, mas devo dizer-lhe que não são tão brincadeiras como V. supõe; infelizmente há um grupo de pessoas insensatas que perderam literalmente a cabeça e não é uma coisa muito simples garantirmos que não possa acontecer algo de desagradável que nenhum de nós desejaria. Sugiro-lhe, pois, que saia de Lisboa por uns tempos."
Fui passar, então, dois meses para uma locaalidade distante de Lisboa onde um amigo meu me proporcionou uma casa. E não tinha literalmente nada que fazer. Peguei num grande bloco de papel, numa caneta e num frasco de tinta e pus-me a escrever um livro, de certo modo um livro que se pudesse escrever de cor, um livro que não obrigasse a uma consulta analítica e persistente das fontes, um livro que fosse uma grande perspectiva da história nacional tal como eu a conhecia. Nasceu assim um livro que estava destinado a um êxito perfeitamente surpreendente - a História Concisa de Portugal - e creio que isso vem exactamente em resultado da forma como foi escrito. Escrito sem o pormenor minucioso do autor que tem à sua disposição grandes ficheiros, uma bibliografia extensa que servisse para enriquecer os seus textos, o livro entrou na linha de preferência do leitor que pretende apenas estabelecer contacto com as coordenadas fundamentais da evolução histórica nacional. A partir desse momento, as solicitações, quer das editoras, quer de entidades privadas para a realização de trabalhos históricos, não cessaram mais.
* resposta não editada:
José Hermano Saraiva - Eu, a essa questão, daria uma resposta fluvial. Fluvial por isto: se você observar numa carta geográfica o curso descrito por um rio, vê que ele tem inflexões que subitamente mudam. O seu percurso foi obstaculado por acidentes naturais que o obrigam a procurar outras direcções. No caso concreto, o direito e, em particular, a filosofia do direito eram a minha vocação e foram, durante alguns anos, o tema de todas as minhas investigações. Uma parte considerável dos livros que publiquei têm esse objecto e, para ser inteiramente sincero consigo, dir-lhe-ei que se pudesse apenas obedecer aos impulsos das minhas apetências naturais, seria sobre isso que eu hoje estaria ainda a trabalhar. Simplesmente esse tipo de investigação não tem um público e só se pode fazer dentro do quadro natural do ensino superior pelo qual eu passei durante alguns anos - precisamente a esses anos se referem esses livros - mas, depois, essa experiência foi interrompida e, precisamente nessa altura, interrompeu-se a minha obra de teórico do direito.
(continua)
20.7.12
José Hermano Saraiva

Estava a almoçar quando o plasma à minha frente, na RTP1, noticiou a morte de José Hermano Saraiva. Era a cores mas Hermano Saraiva apareceu pela primeira vez na minha vida aí pelos idos de 1971,1972, quando frequentava o ciclo preparatório no Externato da Luz em Lisboa. Os meus pais tinham uma televisão que era um móvel bonito, da Philips, e H. Saraiva surgia uma vez por semana num programa chamado O Tempo e a Alma. A preto e branco, com um olhar profundo em direcção do espectador, Saraiva iniciava-me na nossa história sem preocupações de erudição ou de academismo pueril. Ele comunicava e nós comunicávamos com ele. Mais do que o historiador de ideias ou o periodista histórico, Hermano Saraiva era sobretudo o divulgador excepcional. Excepcional porque sabia "fazer" televisão. Histriónico, actor imenso como poucos que denotam a profissão, Saraiva "era" o programa de televisão e, essencialmente, serviço público dela. Porventura seria melhor jurista que historiador mas ficamos a dever-lhe a memória mediática de um País enquanto retrato físico de si mesmo. Havia excesso e fábula? Havia seguramente. Todavia nenhuma sociedade sobrevive sem um módico de "realismo mágico" ou de imaginação que era aquilo que Saraiva transmitia como ninguém. Nem mesmo o irmão, o cosmopolita exilado e enorme historiador da cultura nacional, Antonio José Saraiva, conseguiu, anos depois, na mesma ainda descolorida RTP, prodigalizar esses momentos únicos de televisão. Em 1985, numa sala escurecida da Academia das Ciências, passei uma tarde inteira a entrevistar - como se não tivesse sido sempre ao contrário - José Hermano Saraiva para o Semanário, talvez a pretexto da sua muito discutida Vida Ignorada de Camões. Aquele iconoclasta ironista - fisicamente pequeno e grande na sua fala, nos seus gestos, na sua generosidade contida - estava sozinho comigo e com o meu bloco de notas e falava como se à sua frente estivesse uma multidão. Nunca sentiu necessidade de bajular o regime saído do 25 de Abril ao contrário de outros que ele tão bem descreve nas suas "memórias" que o semanário Sol devia agora reeditar em um livro só. E nunca renegou Salazar a cuja memória seguramente permaneceu fiel até à manhã de hoje, ao arrepio de alguns prosélitos notórios que ainda segregam a ridícula "vergonha" freudiana por terem servido o "Pai". José Hermano Saraiva talvez não fosse um "democrata" como muitos soit-disant que vão aparecer por aí para o carpir ou insultar. Pouco importa. Isso nunca impediu os dois irmãos - o anti-salazarista António e o salazarista José - de se amarem profundamente como a correspondência e os gestos o atestam. O que revela um Homem. Chega-me.
Adenda: A RTP, através de uma entrevista realizada ainda este ano por Fátima Campos Ferreira a José Hermano Saraiva, esteve à altura de um serviço público de televisão que foi, afinal, o que Saraiva protagonizou durante quatro décadas praticamente sem interrupções. Bela recordação do irmão António: «a outra metade da minha alma.»
10.10.09
NOVENTA ANOS DE JOSÉ HERMANO SARAIVA OU A DIFERENÇA ENTRE HOMENS E HOMÚNCULOS

«Como ministro pouco contacto tive com ele [Oliveira Salazar]. A ideia que tinha dele era realmente a de um justo, no sentido religioso do termo. E uma homem com uma inteligência privilegiada. Grande escritor e de um grande humanismo - naqueles 40 anos não há "casos", não houve nada disso. Muito coerente, não era democrata, não acreditava na democracia. Mas alguém acredita? Contam-se umas tretas, convence-se uma malta... Mas voltando ao Salazar, penso que o país lhe deve muito. E chegou ao fim na miséria. Eu ajudei a pagar a conta dele do Hospital da Cruz Vermelha. Não há outro caso de estadista deste género. Era um homem com um grande respeito pela verdade.»
NOVENTA ANOS DE JOSÉ HERMANO SARAIVA OU A DIFERENÇA ENTRE HOMENS E HOMÚNCULOS

«Como ministro pouco contacto tive com ele [Oliveira Salazar]. A ideia que tinha dele era realmente a de um justo, no sentido religioso do termo. E uma homem com uma inteligência privilegiada. Grande escritor e de um grande humanismo - naqueles 40 anos não há "casos", não houve nada disso. Muito coerente, não era democrata, não acreditava na democracia. Mas alguém acredita? Contam-se umas tretas, convence-se uma malta... Mas voltando ao Salazar, penso que o país lhe deve muito. E chegou ao fim na miséria. Eu ajudei a pagar a conta dele do Hospital da Cruz Vermelha. Não há outro caso de estadista deste género. Era um homem com um grande respeito pela verdade.»
11.8.07
DESCONFIADO DOS CUSTOS DO PROGRESSO
José Hermano Saraiva, Álbum de Memórias
DESCONFIADO DOS CUSTOS DO PROGRESSO
José Hermano Saraiva, Álbum de Memórias
5.8.07
MEMÓRIAS DE SARAIVA- 2
MEMÓRIAS DE SARAIVA- 2
14.7.07
MEMÓRIAS DE SARAIVA

José Hermano Saraiva, Como íamos dizendo, memórias, confidências e lembranças, Álbum de Memórias, 6ª Década (Anos 70) I Parte: Em Brasília), pág. 17, Edições Sol
MEMÓRIAS DE SARAIVA

José Hermano Saraiva, Como íamos dizendo, memórias, confidências e lembranças, Álbum de Memórias, 6ª Década (Anos 70) I Parte: Em Brasília), pág. 17, Edições Sol