22.7.08

O INTELECTUAL NO SEU LABIRINTO


À excepção do PC que, suponho, mantém um "organismo" específico interno de "enquadramento" dos "intelectuais" - como tem para quase tudo -, os restantes "grandes" partidos tratam particularmente mal os seus "intelectuais". É evidente que o PC "enquadra" porque o "centralismo democrático" pressupõe tudo muito arrumadinho, nas gavetas adequadas, e sem veleidades "individualistas". O PC "cedeu" o sr. Saramago ao país e o sr. Saramago aceitou a "cedência" porque foi adoptado pelo nosso provincianismo paroquial. Bajular o sr. Saramago é o sonho de qualquer dirigente partidário fora do PC. Ora isso, por definição, agrada a Saramago mas não agrada ao PC. Vem isto a propósito do lançamento do livro* do José Pacheco Pereira (na foto à direita). Do PSD , "actual" ou menos "actual", estava o dr. Arnaut e a editora, Zita Seabra, evidentemente na condição de editora. Seria de elementar cortesia, para dizer o menos, que alguns membros da "família laranja" celebrassem a saída de um livro de um "dos seus" marcando presença. O ano passado, quando Zita Seabra lançou o seu "Foi Assim", não faltou ninguém da "nomenclatura" e Marques Mendes, o líder do momento, esteve lá. O "projecto" de JPP - "seguir" o trajecto da extrema-esquerda, "ideológica" e partidária, desde os anos 60 em diante, com o indispensável "quadro" internacional em que a doméstica se moveu - merece atenção até porque se trata de um trabalho pioneiro. Muitas das nossas "elites" actuais vieram dali. O PSD, que já teve à sua frente um ilustre maoísta, possui um negativo lastro "anti-intelectual". É o resultado, em parte, da própria história do partido, forjada num "registo" mais pragmático do que ideológico e de uma presença assídua no poder. No poder, por natureza, pensa-se pouco e tende-se a desprezar quem pensa. Veja-se, no caso do PS, o que aconteceu a Manuel Maria Carrilho. JPP é atípico da condição "militante", dentro ou fora do poder. Todavia, são militantes como JPP no PSD, Carrilho no PS ou como foi Lucas Pires no CDS que demonstram a subsistência, dentro dos partidos, de formas de vida inteligente apesar do cartão partilhado com outras formas de vida inqualificável.

*"O um dividiu-se em dois" - origens e enquadramento internacional dos movimentos pró-chineses e albaneses nos países ocidentais e em Portugal (1960-1965), Alêtheia Editores, 2008

8 comentários:

joshua disse...

Convenhamos que por vezes até o JPP se rende à paroquialidade do PSD e paroquializa os seus ostracismos de estimação: se, João, a nomenklatura não se quis comprometer rodeando o José do afecto e da homenagem que bem merece, assinalando o evento, pior para ela.

A aridez pragmática do Sr. Dr. Cavaco gerou um sucedâneo que se vem revelando friamente bem pior que tudo alguma vez temido.

O que dizia Sena a respeito das Universidades (transcrevo no fim, adoro esse texto inédito!), também teremos de dizer a respeito da intelectualidade.

PALAVROSSAVRVS REX

SER-SE IMIGRANTE E COMO*
Jorge de Sena




§ 01 Antes de mais, e no que direi, não quero que ninguém veja ou imagine que me separo ou distingo dos outros imigrantes (nunca nos esqueçamos de que para a pátria ingrata que se congratula de nos ver pelas costas, somos emigrantes com e, já no latim do ex que nos punha fora; e de que passamos a ter i de estar in, já nos latins das nossas origens linguísticas, no país que nos acolhe, ou em que nos obstinamos em sobreviver), com pedantarias da cultura ou da categoria universitária. De modo algum, aqui, nos Estados Unidos, eu e a minha família somos imigrantes como quaisquer outros, excepção feita, é claro, daqueles dos meus filhos que já adoptaram a nacionalidade norte-americana, ou de um neto meu que é americano-nato. Cumpre-me explicar um curioso aspecto no que me diz respeito. Depois que, em 1958, emigrei de Portugal para o Brasil (de onde em 1965 emigrei para os Estados Unidos), a minha intenção, uma vez que Salazar parecia decidido a morrer depois de mim, e que eu tinha de ter vida fixa e garantida no Brasil de onde não contava que jamais sairia (e de 1959 a 1964 vivi nele os anos comoventes e inebriantes, com “bagunça” e tudo, da real democracia, ou, se quiserem, das garantias e liberdades dos governos dos Presidentes Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, um milagre para um democrata esquerdizante como eu que tinha seis anos ao tempo da revolução do 28 de Maio), era ficar nesse Brasil que me acolhera e me nomeara professor catedrático (o meu doutoramento e a minha Livre-Docência, o brasileiro título acima daquele, defendi-os e ganhei-os lá, depois de ter ficado e também ao Brasil os devo). Assim, em 1963, adquiri a nacionalidade brasileira, quando já em 1961 e em 1962 havia sido pai de uma filha e de um filho que são brasileiros-natos. Emigrando de lá para os Estados Unidos, descobri um grande mistério migratório: os States não reconhecem, para tais efeitos, segundas e adquiridas nacionalidades, pelo que, se viajo com um passaporte brasileiro, fui admitido aqui como o português de nascimento que era e que fui por mais de quarenta anos da minha vida (sendo que sou há quarenta anos, e nunca deixei de ser, um escritor da literatura portuguesa). Paralelamente, aqui, e em recente desenvolvimento, como português ou ibérico, escapei à designação “latino” (que, tecnicamente, portugueses, espanhóis, franceses, italianos, parte da Suíça, romenos, e mais família latino-americana, todos somos) que agora serve para distinguir racicamente (se é que não racisticamente) os Latino-americanos. Pelo que sou pai de dois desses seres inferiores, filhos de pais portugueses, mas nascidos no Brasil... e dos quais é de desconfiar que, por efeito do clima, sejam “escurinhos”, como por delicadeza se diz lá nesse Brasil! Reatemos.

Por vezes, para os portugueses (e sobretudo pelos próprios portugueses), tem sido usado o termo grego diáspora, aplicado à colossal dispersão de seres humanos de origem portuguesa pelo universo ao longo dos séculos, sem dúvida numa proporção que poucos países do mundo poderão apresentar. Mas, quanto a mim, o uso deste termo deve ser feito com certas qualificações, e tendo em mente, pelo que tem a ver com a Península Ibérica, a que foi primeiro aplicado aquele helenismo. Com efeito, diáspora corresponde à expulsão dos judeus da Palestina, e à sua forçada dispersão pelo mundo, quando, no ano 70 da nossa era, o imperador romano Tito destruiu a

Anónimo disse...

Você João, está enganado em algumas coisas. O PSD não trata nada mal os seus intelectuais. Tanto ao Pacheco, como ao Vasco, nunca lhes ouvi queixa, e de resto se olhar para o poleiro que cada um teve ou tem, verá. É verdade que o Carrilho não anda na berra (isso aliás, é outra história), mas andam o Vitalino e o outro que é líder parlamentar. Quanto aos intelectuais serem uma manifestação de vida inteligente no interior dos partidos, ó homem essa é forte. A meu vêr, eles o que são é decoração, dão "respeitabilidade", e um certo ar. Convém a todos, está bom de vêr sendo por essas e outras que, mesmo quando respingam, na verdade, vivem como Deus com os Anjos

Anónimo disse...

fui o miltante 29 do psd. com mais 5 participei na fundação da secção A (benfica).colámos os primeiros cartazes.na noite de 28 se setembro fui um dos 10 desconhecidos que acompanámos Sá Carneiro.estive no congresso do seu regresso.
depois da sua morte fui-me desinteressando e um ano depois a politica morreu para mim.
no psd, como no ps, não existe lugar para quem saiba e pense. o resultado está à vista
PQP

radical livre

João Gonçalves disse...

O leitor "vg" e outros, por mais de uma vez, insistem em que eu faça "propostas", diga que "regime" pretendo, etc. etc. Já mais de uma vez disse aqui que o blogue não tem por sujeito a minha pessoa. Se quisesse ter um blogue sobre cócós e fraldinhas do bébé, sobre os meus restaurantes preferidos ou os autocarros que apanho, não era neste blogue, de certeza. I am not my own subject, dizia o Gore VIdal e eu também. É evidente que em qualquer coisa que se escreve vai qualquer coisa nossa. Mas isso não é relevante. Para além disso, não sou monárquico e se quisesse entrar no regime ia a votos como vão os oficiantes do mesmo. Como não vou...

João Gonçalves disse...

Então já "fomos" 2 da secção A...

Karocha disse...

Estava lá o Arnaut,e o António José Teixeira.
O meu filho pertence há secção B, Campo Pequeno :-)

Diogo Vasconcelos disse...

Caro João, leio o seu excelente blogue diariamente. Como é natural, nem sempre concordo, mas escreve muitissimo bem e, melhor ainda, exerce como poucos a sua liberdade.

vg disse...

Certo, JG. Compreendo e respeito o facto de este blogue não ser sobre si próprio (por acaso, foi gira a piada dos restaurantes e viagens - e até arriscaria uma juvenil explosão de cumplicidade: "lol!"). Eu não tornarei a importuná-lo sobre isto, mas suponho que outros o farão repetidamente, como eu fiz e outros fizeram antes de mim. A forma como defende as suas opiniões ou discorre sobre a Wirklichkeit (não quero parecer pedante, mas uso o termo alemão por ser mais preciso, ou promissor), às vezes, desperta mais curiosidade sobre si próprio do que propriamente sobre aquilo a que está a dizer. Espero que compreenda que existe uma curiosidade natural em perceber a filosofia de um blogue de uma pessoa cujo blogue não é o seu próprio assunto. Obrigado por responder. Cumprimentos.