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Teria para aí uns quinze, dezasseis anos quando "descobri" Fernando Pessoa. Chegou-me nas fotocópias distribuídas pela professora de português onde constava o nome de Alberto Caeiro. O mais "humano" dos heterónimos, o "mestre" dos olhos azuis, escondia o resto. Aos poucos, Pessoa avançava pela sua própria voz e, sobretudo, pela do febril e heterodoxo "engenheiro de máquinas", Álvaro de Campos. Li-o num livrinho da Ática, de capa amarela, organizado por David Mourão-Ferreira, O Rosto e as Máscaras. Bernardo Soares viria muito mais tarde. A emergência de Pessoa equivale a um murro no estômago. Não é possível, a não ser por analfabetismo funcional, ficar indiferente ao mínimo verso do homem. Escrevo "homem" com esforço, apesar de sabermos que andou por Lisboa, que teve um emprego modesto, que privou com "amigos". Na realidade, Pessoa, como tal, pouco existiu, pelo menos naquele sentido frívolo que costumamos associar ao termo "viver". Mais cedo do que qualquer um de nós, no dia do seu nascimento que hoje se comemora, já Pessoa caminhava para o fim. "Viveu" sempre e só nesse lugar de abismo que era a letra dos seus versos, como um Wotan desapossado de amor e de liberdade, simultaneamente o mais humano dos deuses e o Deus mais cruel dos homens. Já fui mais "pessoano" do que sou hoje. E já fui mais tudo do que sou hoje. Tive o privilégio de falar uma tarde inteira, na sua casa na Calçada das Necessidades, com João Gaspar Simões por ocasião dos cinquenta anos da morte do poeta. Varri os livros de Jacinto Prado Coelho, Lind, Eduardo Lourenço, Saraiva, Lopes e Casais Monteiro. Muitas vezes pego na pequena edição da Aguilar e escolho ao acaso um verso. "Todo o cais é uma saudade de pedra", por exemplo. «Muitos homens tiveram saudades e viram cais, mas temos razões para chamar momento raro a esse em que uma consciência de poeta arrancou do mundo das palavras portuguesas esta espécie de inscrição de estela imortal, que depois dele todos temos guardado em algum sítio, todos, os que viajaram e os que só na alma viajam», escreveu Lourenço em 1952. «Pessoa limitou-se a sentir e a pensar o existente, bem ou mal não interessa, e a compreender que uma consciência está sempre aquém e além de todas as coisas, jamais coincidente com a existência delas. E mesmo com a existência em geral. Fê-lo como nunca ninguém o tinha feito. Nem Antero. Mas com isso o extraordinário poeta do "lado ausente de todas as coisas" não "serviu" ninguém. Serviu a sua inviolável solidão e pediu aos outros que cercassem a deles de altos mutos. Não cremos (Pessoa é muito complexo) que a sua poesia seja alheia a outros gestos igualmente últimos do homem: o apelo da fraternidade, da esperança, do amor. Se assim for, significa que é limitado e nada mais. Há homens (houve sempre e pessoalmente desejamos que a sua raça estéril e altiva nunca mais acabe) que não são capazes de olhar até ao fim o espectáculo do mundo e da história tendo aí a palavra "esperança". Homens do Inferno, se acreditarmos em Dante. Fernando Pessoa talvez tivesse sido um deles. E porque não devia sê-lo?» Pessoa é o nosso maior cometa trágico, o rei-astro morto da nossa falsa e desesperançada Baviera.