1.6.06

NÃO VALE A PENA


Lembram-se da velha treta da "reforma das mentalidades", tão justamente perseguida pela "nata" da nossa intelectualidade e por alguns políticos mais afoitos? António Sérgio, preocupado com a "educação" do seu povo, recorria amiúde à expressão para demonstrar que, sem a dita "reforma", não íamos a lado nenhum. De caminho, batia como podia no dr. Salazar que era manifestamente o obstáculo maior à tal "reforma". Depois do 25 de Abril praticamente toda a gente recorreu ao tema em escritos, comícios, varandas e no parlamento. O General Eanes, então, raramente se privava de acenar com a "reforma", numa fase em que ainda não tinha substituído Sérgio por Unamuno e Ortega y Gasset. Com a passagem do tempo, foi-se tornando evidente que o "povo" não pretendia ver a sua mentalidade "reformada", bem pelo contrário. Os portugueses nunca foram, aliás, conhecidos pela sua subtileza nem pela sua sofisticação. A democracia limitou-se a agravar a coisa já que, por natureza, é o regime benigno da vulgaridade. Agora o governo inventou um "plano nacional de leitura" para "o desenvolvimento de competências nos domínios da leitura e da escrita" e para combater os "preocupantes níveis de iliteracia" da pátria. Como não podia deixar de ser, o "plano" tem uma "comissão de honra", sob o alto patrocínio do Senhor Presidente da República, onde o regime está todo representado, desde Figo - um reputado amante da leitura - até ao Nobel propriamente dito, o sr. Saramago. Banqueiros, sociólogos, "escritores", luminárias das nossas universidades, políticos no activo ou inactivos, enfim, tudo o que a democracia foi parindo ao longo destes trinta e tal anos, lá consta. Têm o "plano" e , presume-se, a dita "comissão de honra", dez anos para dar a volta à questão. É claro que nada se irá passar. Não é preciso ser medianamente esclarecido - e a "comissão de honra" é, decerto, superiormente esclarecida - para saber que jamais se "reforma" alguém ou se induzem hábitos de leitura contra a vontade do próprio. Não me parece que seja crime - e aí concordo com o sr. Saramago - não ler. Eu também não gosto de futebol. A "qualificação" não se mete dentro da cabeça das pessoas à força e, muito menos, convocando as pseudo-elites nacionais para o fazer. Ninguém lhes liga nenhuma e, quando muito, as criaturas a "reformar" poderão limitar-se a pedir um autógrafo ao Figo. Os analfabetos simples e os funcionais não deixarão de o ser por causa desta parada inerme de "estrelas". Daqui a dez anos, outros estarão no lugar dos actuais ministros e dos bonzos da "comissão", também a clamar pela "reforma das mentalidades". Juro, não vale a pena.

Nota: Este post podia ter sido escrito para o Independente. Digo "podia" porque a Inês Serra Lopes remodelou o jornal a semana passada e, pelos vistos, decidiu "remodelar-me" a mim também, sem aviso prévio. Todavia fico-lhe grato pelos meses em que permitiu, nas "Independências" agora desaparecidas, que eu ali escrevesse. Foi, em todos os sentidos do termo, uma experiência graciosa.

8 comentários:

Anónimo disse...

Fico surpreendido com a intimidade deste blogger com os hábitos do Figo... Poderá explicar o que lê o Figo neste momento? Ou a referência a Figo é apenas o aflorar de um horroroso hábito bem português de generalizar e tomar uma parte pelo todo? Nestas pequeninas coisas se vê a necessidade de reformar as mentalidades. Mesmo as do cépticos, por princípio avessos a todas as reformas.

Anónimo disse...

... então remodelasse um jornal e, nem um “email”- por exemplo?
... é no mínimo “espantoso” ... e, de uma terrível falta de “príncipios”, “mau gosto” e, o que se quiser “julgar” desse tipo de atitude, de um Director, de um Semanário, deste nosso PORTUGAL que cada vez tem mais “PEQUENINOS”

... pois, mas «quando nos fecham uma porta, há sempre uma janela que se abre»
... aguarde

Anónimo disse...

Primeiro protesta-se por tudo estar mal, depois critica-se quem quer fazer alguma coisa. É o estilo do VPV. O João Gonçalves devia querer saber mais daquilo que critica antes de se comportar de forma negativa. Que mal há em fazer um esforço mesmo que não dê todos os frutos para que se leia mais? Para além disso o VPV que não leu o Plano esqueceu-se de dizer que ele não tem mais nenhuma burocracia e é muito barato em comparação com o costume. E é avaliado periodicamente nos seus resultados, o que é uma novidade na função pública. Assim não vale.

Catarina Santos

Anónimo disse...

Uma gaja civilizada, a Serra Lopes.
Digo "uma gaja" porque é mesmo disso que se trata.
Um abraço para si, João.

Anónimo disse...

Aplausos para o post!"Isto"não vai com estes Planos tão sonantes.

Anónimo disse...

então com o que é que vai?

Anónimo disse...

O gosto pela cultura e portanto leitura vem depois de garantida aquele psicológico sentido da sobrevevência assegurada.O governo quer que o pessoal leia? Que junte livros?Ponha o país a funcionar bem económicamente e em que os salários tenham dignidade e logo atinge os seus objectivos.Contudo como tem uma extensa população prisional e com coleira no pé pode sempre actuar aí porque como o pessoal não trabalha sempre pode passar o tempo a rever os códigos e outras leis úteis no próximo encontro com a lei...

Anónimo disse...

Mais um para o desemprego...