30.4.06

MÁRTIRES


Em Espanha foi a doer. Aqui, quarenta anos depois, entre 74 e 75, foi praticamente a brincar. Não houve intelectual europeu e norte-americano que não quisesse aparecer ao lado da "república" espanhola. Hemingway, Malraux, Orwell ou Bernanos deixaram em forma de livro as suas "impressões". Em alguns deles, senão em todos, o tempo curou as ilusões "revolucionárias" e melancólicas, deixando transparecer isso mesmo nas suas obras. Na hora da verdade, a "república" foi tão ou mais impiedosa que os seus algozes liderados por Francisco Franco. O deslumbramento "romântico" pela "aventura" republicana espanhola impediu quase sempre uma leitura enxuta da guerra civil, despida de preconceitos. Há um livro que ajuda a perceber o que se passou, do historiador inglês Hugh Thomas, com tradução portuguesa. Isto vem a propósito de ter lido no Insurgente que o Papa Bento XVI beatificou cinquenta e três religiosos espanhóis vítimas da violência jacobina. Numa guerra, civil ou outra, há sempre mártires para todos os lados. Porém, a ao contrário do que doutrina o politicamente correcto, nunca existem mártires mais mártires do que os outros.

MÁRTIRES


Em Espanha foi a doer. Aqui, quarenta anos depois, entre 74 e 75, foi praticamente a brincar. Não houve intelectual europeu e norte-americano que não quisesse aparecer ao lado da "república" espanhola. Hemingway, Malraux, Orwell ou Bernanos deixaram em forma de livro as suas "impressões". Em alguns deles, senão em todos, o tempo curou as ilusões "revolucionárias" e melancólicas, deixando transparecer isso mesmo nas suas obras. Na hora da verdade, a "república" foi tão ou mais impiedosa que os seus algozes liderados por Francisco Franco. O deslumbramento "romântico" pela "aventura" republicana espanhola impediu quase sempre uma leitura enxuta da guerra civil, despida de preconceitos. Há um livro que ajuda a perceber o que se passou, do historiador inglês Hugh Thomas, com tradução portuguesa. Isto vem a propósito de ter lido no Insurgente que o Papa Bento XVI beatificou cinquenta e três religiosos espanhóis vítimas da violência jacobina. Numa guerra, civil ou outra, há sempre mártires para todos os lados. Porém, a ao contrário do que doutrina o politicamente correcto, nunca existem mártires mais mártires do que os outros.

O HÁBITO DE DIZER MAL


Retemperado com um banho semi-gelado no Guincho, chego aqui e leio os "comentários" ao post anterior, uma citação - de conteúdo óbvio para quem não é absolutamente destituído - de Vasco Pulido Valente. Há, de facto, muita gente que não suporta ser confrontada com a nossa condição primitiva. Percebo. Tanto percebo que não resisti a ir ler na íntegra o texto de Maria Velho da Costa que é citado no comentário. Velho da Costa, para quem não se lembra, é um milenário expoente "feminista" da "cultura portuguesa", justamente celebrada nos finados do Estado Novo por ter sido uma das co-autoras das "Novas Cartas Portuguesas", um ousado derrame para os tempos, logo, proibido. Depois de a ler agora, fico mais certo da razão de VPV. Repare-se - não sei se o autor do comentário reparou - que o que verdadeiramente interessa a MVC, na sua pequenina acrimónia, é salientar a circunstância de, em tempos idos, ter sido removida como funcionária pública pelo então secretário de Estado da Cultura (VPV) - de quem presuntivamente dependia - de um qualquer lugar que ocupava em regime de destacamento. Ou seja, ele forçou-a, digamos assim, a "regressar à base", um assunto de pura intendência. De resto, as suas considerações farfelu são elucidativas do estado por que passa a nossa literatice contemporânea. Por isso, só mais uma nota, graças ao João Pedro George. Atenção, filistinos: também é (horrivelmente) de VPV. "Os portugueses não gostam que se "diga mal" de nada e desconfiam de quem diz. "Dizer mal" de um livro, de uma escola, de um hotel ou de uma política é sempre considerado um "ataque" de pessoa a pessoa e atribuído aos piores motivos: à inveja, à cobiça, ao ressentimento e por aí fora. Não ocorre a ninguém que "dizer mal" do livro não implica "dizer mal" da pessoa privada do escritor (...). "Dizer mal" é uma condição indispensável para produzir bem e obrigatória para produzir melhor. No hábito de "dizer mal" do que nós fazemos e do que os outros fazem reside a essência da capacidade de aperfeiçoamento e, por conseguinte, de competição."

O HÁBITO DE DIZER MAL


Retemperado com um banho semi-gelado no Guincho, chego aqui e leio os "comentários" ao post anterior, uma citação - de conteúdo óbvio para quem não é absolutamente destituído - de Vasco Pulido Valente. Há, de facto, muita gente que não suporta ser confrontada com a nossa condição primitiva. Percebo. Tanto percebo que não resisti a ir ler na íntegra o texto de Maria Velho da Costa que é citado no comentário. Velho da Costa, para quem não se lembra, é um milenário expoente "feminista" da "cultura portuguesa", justamente celebrada nos finados do Estado Novo por ter sido uma das co-autoras das "Novas Cartas Portuguesas", um ousado derrame para os tempos, logo, proibido. Depois de a ler agora, fico mais certo da razão de VPV. Repare-se - não sei se o autor do comentário reparou - que o que verdadeiramente interessa a MVC, na sua pequenina acrimónia, é salientar a circunstância de, em tempos idos, ter sido removida como funcionária pública pelo então secretário de Estado da Cultura (VPV) - de quem presuntivamente dependia - de um qualquer lugar que ocupava em regime de destacamento. Ou seja, ele forçou-a, digamos assim, a "regressar à base", um assunto de pura intendência. De resto, as suas considerações farfelu são elucidativas do estado por que passa a nossa literatice contemporânea. Por isso, só mais uma nota, graças ao João Pedro George. Atenção, filistinos: também é (horrivelmente) de VPV. "Os portugueses não gostam que se "diga mal" de nada e desconfiam de quem diz. "Dizer mal" de um livro, de uma escola, de um hotel ou de uma política é sempre considerado um "ataque" de pessoa a pessoa e atribuído aos piores motivos: à inveja, à cobiça, ao ressentimento e por aí fora. Não ocorre a ninguém que "dizer mal" do livro não implica "dizer mal" da pessoa privada do escritor (...). "Dizer mal" é uma condição indispensável para produzir bem e obrigatória para produzir melhor. No hábito de "dizer mal" do que nós fazemos e do que os outros fazem reside a essência da capacidade de aperfeiçoamento e, por conseguinte, de competição."

O FRACASSO

"O país que aí está, trabalha, sofre e paga é, como de costume, um fracasso. Parece que, por baixo de uma grotesca marca de "modernidade", nunca saiu de facto da sua condição primitiva. Pobre, corrupto, irresponsável e apático, este Portugal não encontra com certeza razão para a sua própria sobrevivência".

Vasco Pulido Valente, in Público, 29.4.06

O FRACASSO

"O país que aí está, trabalha, sofre e paga é, como de costume, um fracasso. Parece que, por baixo de uma grotesca marca de "modernidade", nunca saiu de facto da sua condição primitiva. Pobre, corrupto, irresponsável e apático, este Portugal não encontra com certeza razão para a sua própria sobrevivência".

Vasco Pulido Valente, in Público, 29.4.06

29.4.06

O TREINADOR

O sr. Scolari é insuportável. Pagam-lhe para treinar bola e não para dizer baboseiras com ar de que "todos lhe devem e ninguém lhe paga". Para isso já existe, e em melhor, o sr. Mourinho, uma exportação "gloriosa". Madail, o eterno "patrão" da bola portuguesa, parece disposto a engolir todos os sapos que Scolari, com a sua mediática delicadeza, lhe enfia pela goela abaixo. Os "fãs" da bola também. Scolari percebeu rapidamente o tipo de gente com quem veio lidar. Com toscos, trata-se toscamente. Na sua imensa vaidade, o sr. Scolari limita-se, afinal, a fazer o que lhe compete.

O TREINADOR

O sr. Scolari é insuportável. Pagam-lhe para treinar bola e não para dizer baboseiras com ar de que "todos lhe devem e ninguém lhe paga". Para isso já existe, e em melhor, o sr. Mourinho, uma exportação "gloriosa". Madail, o eterno "patrão" da bola portuguesa, parece disposto a engolir todos os sapos que Scolari, com a sua mediática delicadeza, lhe enfia pela goela abaixo. Os "fãs" da bola também. Scolari percebeu rapidamente o tipo de gente com quem veio lidar. Com toscos, trata-se toscamente. Na sua imensa vaidade, o sr. Scolari limita-se, afinal, a fazer o que lhe compete.

HEMINGWAY

Depois das guerras, da celebridade, da aventura, dos touros, de Cuba, de África, de Paris, das caçadas, do álcool e da depressão, Hemingway estava, como alguém num dos seus contos, "desesperado". Refugiou-se numa casa discreta no Idaho. A mulher apanhou-o várias vezes empunhando uma espingarda para se suicidar, um instrumento com que conviveu bem toda a vida. Para o fim, Hemingway já não convivia sequer com ele próprio. Não conseguia escrever o que, traduzido à letra, correspondia a não conseguir viver. Como Santiago, de O Velho e o Mar, não fora feito para a derrota. Num domingo de manhã, saiu do quarto discretamente enquanto a mulher dormia, desceu as escadas e abriu um armário onde guardava as suas armas. Tirou uma espingarda de dois canos. Meteu-a na boca e premiu o gatilho. "Um homem pode ser destruído, mas não derrotado".

HEMINGWAY

Depois das guerras, da celebridade, da aventura, dos touros, de Cuba, de África, de Paris, das caçadas, do álcool e da depressão, Hemingway estava, como alguém num dos seus contos, "desesperado". Refugiou-se numa casa discreta no Idaho. A mulher apanhou-o várias vezes empunhando uma espingarda para se suicidar, um instrumento com que conviveu bem toda a vida. Para o fim, Hemingway já não convivia sequer com ele próprio. Não conseguia escrever o que, traduzido à letra, correspondia a não conseguir viver. Como Santiago, de O Velho e o Mar, não fora feito para a derrota. Num domingo de manhã, saiu do quarto discretamente enquanto a mulher dormia, desceu as escadas e abriu um armário onde guardava as suas armas. Tirou uma espingarda de dois canos. Meteu-a na boca e premiu o gatilho. "Um homem pode ser destruído, mas não derrotado".

OS MELHORES AMIGOS

Depois do cão, os melhores amigos de um homem são o Zoloft e o Lexotan.

OS MELHORES AMIGOS

Depois do cão, os melhores amigos de um homem são o Zoloft e o Lexotan.

O POBREZINHO NA LAPELA

Já existe uma inevitável comissão para tratar do PNAI. O PNAI é o "plano nacional de acção para a inclusão" - pode adicionar-se ao breviário de siglas do governo - a que Cavaco Silva, no âmbito da "cooperação estratégica", aludiu no discurso do 25 de Abril. A comissão já tem uma presidente e será provida com dezasseis (16...) criaturas oriundas das mais diversas entidadas ligadas à "problemática da exclusão social". Por outro lado, fica-se a saber que o próprio PR possui o seu "roteiro para a inclusão" no qual participará a primeira-dama. Ou seja, os indigentes, com ou sem abrigo, os velhinhos, as mulheres humilhadas e as criancinhas abandonadas, todos conhecidos pelo jargão assistencialista de "mais desprotegidos", têm garantido, desde já, um batalhão de técnicos, de burocratas, de comentadores e de políticos, encimados pelo "alto patrocínio" de Belém, para velar por eles. O pior é se o "roteiro", o PNAI e a piedade de circunstância deixam tudo mais ou menos na mesma, depois de produzidos os indispensáveis relatórios e consumadas as "visitas" caritativas e mediáticas aos abismos destas vidas. É que os "excluídos", ao contrário dos que andam à tona, não têm sequer voz para protestar ou reclamar "direitos". Todavia, quem é que não gosta de exibir um pobrezinho na lapela?

O POBREZINHO NA LAPELA

Já existe uma inevitável comissão para tratar do PNAI. O PNAI é o "plano nacional de acção para a inclusão" - pode adicionar-se ao breviário de siglas do governo - a que Cavaco Silva, no âmbito da "cooperação estratégica", aludiu no discurso do 25 de Abril. A comissão já tem uma presidente e será provida com dezasseis (16...) criaturas oriundas das mais diversas entidadas ligadas à "problemática da exclusão social". Por outro lado, fica-se a saber que o próprio PR possui o seu "roteiro para a inclusão" no qual participará a primeira-dama. Ou seja, os indigentes, com ou sem abrigo, os velhinhos, as mulheres humilhadas e as criancinhas abandonadas, todos conhecidos pelo jargão assistencialista de "mais desprotegidos", têm garantido, desde já, um batalhão de técnicos, de burocratas, de comentadores e de políticos, encimados pelo "alto patrocínio" de Belém, para velar por eles. O pior é se o "roteiro", o PNAI e a piedade de circunstância deixam tudo mais ou menos na mesma, depois de produzidos os indispensáveis relatórios e consumadas as "visitas" caritativas e mediáticas aos abismos destas vidas. É que os "excluídos", ao contrário dos que andam à tona, não têm sequer voz para protestar ou reclamar "direitos". Todavia, quem é que não gosta de exibir um pobrezinho na lapela?

O CINZENTO DE BRUXELAS

O presidente da Comissão Europeia, o nosso dr. Barroso, promoveu um "seminário" com todos os membros da dita Comissão. Após o falhanço manifesto da "constituição europeia", a Europa burocrática procura novas linhas para se coser. Barroso falou de uma "agenda europeia positiva" e de uma "Europa dos resultados" provavelmente porque tinha de dizer alguma coisa. Muito bem. A questão, porém, não é essa. É antes saber-se se "agenda europeia positiva" e "Europa dos resultados" querem efectivamente dizer dizer alguma coisa. Ou se não são mais duas construções vazias e inconsequentes para uma Europa cada vez mais desencontrada consigo própria e entregue ao cinzento de Bruxelas.

O CINZENTO DE BRUXELAS

O presidente da Comissão Europeia, o nosso dr. Barroso, promoveu um "seminário" com todos os membros da dita Comissão. Após o falhanço manifesto da "constituição europeia", a Europa burocrática procura novas linhas para se coser. Barroso falou de uma "agenda europeia positiva" e de uma "Europa dos resultados" provavelmente porque tinha de dizer alguma coisa. Muito bem. A questão, porém, não é essa. É antes saber-se se "agenda europeia positiva" e "Europa dos resultados" querem efectivamente dizer dizer alguma coisa. Ou se não são mais duas construções vazias e inconsequentes para uma Europa cada vez mais desencontrada consigo própria e entregue ao cinzento de Bruxelas.

28.4.06

OS MANDARINS

Eu votei para existir uma maioria absoluta. Todavia não desejo, antes pelo contrário, o absolutismo maioritário. Ontem à noite, refastelado no sofá, li no Público que a escolha do novo director de informação da Lusa tinha passado pelo gabinete do primeiro-ministro. Neste blogue, quando o dr. Morais Sarmento, no governo de Santana, começou a "pensar" numa "central de informação" ou de "comunicação", desconfiou-se da ideia. Não vi agora ninguém tugir nem mugir (excepção dupla) sobre esta coisa. Pelo contrário, uma "notícia" do Expresso sobre o putativo discurso do PR no 25/4 tem provocado uma fartura de derrames e de contra-derrames por aí afora. O Público, maldosamente, fornecia uma pequena biografia dos "adjuntos" do novo director. Um deles tem uma "vasta experiência" nestas andanças político-comunicacionais e, por mera coincidência, "serviu" em Macau, essa perturbadora sombra que há-de sempre pairar sobre o regime. Tem, pois, razão de ser reproduzir integralmente este post do Jorge Ferreira:

"CONTROLE

Uma notícia do Público dá-nos conta de que o gabinete do Primeiro-Ministro se envolveu directamente na escolha do novo Director da Lusa. Uma notícia destas no tempo de Santana Lopes teria modificado por completo a agenda mediática. Mas esta, passou despercebida face à indiferença geral. Mas há que pôr os nomes às coisas. A notícia é ESCANDALOSA. Ela mostra sobretudo como José Sócrates não está a brincar em serviço e pretende controlar ferreamente a comunicação social. Num país civilizado, a notícia teria provocado demissões, inquéritos e protestos. Cá não. Afinal, ainda bem há pouco tempo um Governo que havia decretado o fim da recessão pretendia gastar uns cêntimos numa central de comunicação. Assim, visto que a recessão continua, sempre se poupam uns dinheirinhos. É usar o que há."

OS MANDARINS

Eu votei para existir uma maioria absoluta. Todavia não desejo, antes pelo contrário, o absolutismo maioritário. Ontem à noite, refastelado no sofá, li no Público que a escolha do novo director de informação da Lusa tinha passado pelo gabinete do primeiro-ministro. Neste blogue, quando o dr. Morais Sarmento, no governo de Santana, começou a "pensar" numa "central de informação" ou de "comunicação", desconfiou-se da ideia. Não vi agora ninguém tugir nem mugir (excepção dupla) sobre esta coisa. Pelo contrário, uma "notícia" do Expresso sobre o putativo discurso do PR no 25/4 tem provocado uma fartura de derrames e de contra-derrames por aí afora. O Público, maldosamente, fornecia uma pequena biografia dos "adjuntos" do novo director. Um deles tem uma "vasta experiência" nestas andanças político-comunicacionais e, por mera coincidência, "serviu" em Macau, essa perturbadora sombra que há-de sempre pairar sobre o regime. Tem, pois, razão de ser reproduzir integralmente este post do Jorge Ferreira:

"CONTROLE

Uma notícia do Público dá-nos conta de que o gabinete do Primeiro-Ministro se envolveu directamente na escolha do novo Director da Lusa. Uma notícia destas no tempo de Santana Lopes teria modificado por completo a agenda mediática. Mas esta, passou despercebida face à indiferença geral. Mas há que pôr os nomes às coisas. A notícia é ESCANDALOSA. Ela mostra sobretudo como José Sócrates não está a brincar em serviço e pretende controlar ferreamente a comunicação social. Num país civilizado, a notícia teria provocado demissões, inquéritos e protestos. Cá não. Afinal, ainda bem há pouco tempo um Governo que havia decretado o fim da recessão pretendia gastar uns cêntimos numa central de comunicação. Assim, visto que a recessão continua, sempre se poupam uns dinheirinhos. É usar o que há."

ANO 32

No caminho para o exílio no Brasil, onde viria a suicidar-se, o escritor austríaco Stefan Zweig aportou em Lisboa em 1936. Mais tarde registaria no seu “Diário” que tinha encontrado na nossa capital “o esplendor da miséria”, não obstante a beleza da cidade. Decorriam quatro anos desde a chegada de Salazar à chefia do governo da Ditadura. O Estado Novo dava os primeiros passos espezinhando o que restava da infeliz I República. O regime e sua retórica pretendiam - à semelhança do que o antecedeu e do que se lhe seguiria em 1974 – “servir o país” e não “servir-se” do país, como se acusava a desvairada República de o ter feito. A história posterior é sobejamente conhecida. Agora já levamos trinta e dois anos de democracia e de liberdades. No balanço, temos a Europa graças a Mário Soares, a alteração de estruturas e equipamentos da década de Cavaco e pouco mais. Encheu-se o país de novos-ricos e de novos e de velhos pobres. A “sociedade civil”, salvo raríssimas excepções, permanece inerme e de mão estendida para o Estado. As novas gerações ignoram o que está para trás e estão-se nas tintas para a cidadania. Como escreveu há dias uma politóloga, trinta e dois anos depois, os portugueses estão desmobilizados. As instituições políticas e judiciais, com o Parlamento à cabeça, estão desprestigiadas e exangues. Os partidos são encarados como últimos redutos de inutilidades profissionais. Chega a duvidar-se da capacidade de realização de um governo de maioria absoluta, repleto de boas intenções e de “modernidade”, depois de anos de oportunidades perdidas. No país “real” sobrevive o mesmo “esplendor da miséria” de que falava Zweig, os mais pobres de entre os pobres da Europa. Não conseguimos ser cosmopolitas ou sequer sofisticados. Em suma, falta “qualidade de vida” à democracia portuguesa. Chegámos, assim, ao seu ano 32 em estado de pura esquizofrenia colectiva. Nem tudo é mau. A eleição do primeiro PR não oriundo especificamente da “esquerda” e da “luta anti-fascista” foi um sinal de maturidade e representou o enterro de velhos demónios e de novas fantasias. Cavaco Silva é, pelo menos, um penhor seguro de credibilidade e de rigor. Nesse sentido, a sua ascensão à chefia do Estado foi o melhor acto comemorativo do 25 de Abril em 2006. Para o ano, a democracia atinge a idade de Cristo. Oxalá não acabe como Ele.

(publicado no
Independente)

Nota: Este artigo foi escrito antes do discurso do PR proferido perante o Parlamento no passado dia 25. Sobre isso, pronunciei-me aqui.

ANO 32

No caminho para o exílio no Brasil, onde viria a suicidar-se, o escritor austríaco Stefan Zweig aportou em Lisboa em 1936. Mais tarde registaria no seu “Diário” que tinha encontrado na nossa capital “o esplendor da miséria”, não obstante a beleza da cidade. Decorriam quatro anos desde a chegada de Salazar à chefia do governo da Ditadura. O Estado Novo dava os primeiros passos espezinhando o que restava da infeliz I República. O regime e sua retórica pretendiam - à semelhança do que o antecedeu e do que se lhe seguiria em 1974 – “servir o país” e não “servir-se” do país, como se acusava a desvairada República de o ter feito. A história posterior é sobejamente conhecida. Agora já levamos trinta e dois anos de democracia e de liberdades. No balanço, temos a Europa graças a Mário Soares, a alteração de estruturas e equipamentos da década de Cavaco e pouco mais. Encheu-se o país de novos-ricos e de novos e de velhos pobres. A “sociedade civil”, salvo raríssimas excepções, permanece inerme e de mão estendida para o Estado. As novas gerações ignoram o que está para trás e estão-se nas tintas para a cidadania. Como escreveu há dias uma politóloga, trinta e dois anos depois, os portugueses estão desmobilizados. As instituições políticas e judiciais, com o Parlamento à cabeça, estão desprestigiadas e exangues. Os partidos são encarados como últimos redutos de inutilidades profissionais. Chega a duvidar-se da capacidade de realização de um governo de maioria absoluta, repleto de boas intenções e de “modernidade”, depois de anos de oportunidades perdidas. No país “real” sobrevive o mesmo “esplendor da miséria” de que falava Zweig, os mais pobres de entre os pobres da Europa. Não conseguimos ser cosmopolitas ou sequer sofisticados. Em suma, falta “qualidade de vida” à democracia portuguesa. Chegámos, assim, ao seu ano 32 em estado de pura esquizofrenia colectiva. Nem tudo é mau. A eleição do primeiro PR não oriundo especificamente da “esquerda” e da “luta anti-fascista” foi um sinal de maturidade e representou o enterro de velhos demónios e de novas fantasias. Cavaco Silva é, pelo menos, um penhor seguro de credibilidade e de rigor. Nesse sentido, a sua ascensão à chefia do Estado foi o melhor acto comemorativo do 25 de Abril em 2006. Para o ano, a democracia atinge a idade de Cristo. Oxalá não acabe como Ele.

(publicado no
Independente)

Nota: Este artigo foi escrito antes do discurso do PR proferido perante o Parlamento no passado dia 25. Sobre isso, pronunciei-me aqui.

27.4.06

A "ÉTICA REPUBLICANA"

Entre o dia 12 de Abril, passando pelo 25, nenhum alto ou menos alto dignitário do regime se lembrou de invocar a maravilhosa "ética republicana", como chama a atenção o Anarca. Por que será?

A "ÉTICA REPUBLICANA"

Entre o dia 12 de Abril, passando pelo 25, nenhum alto ou menos alto dignitário do regime se lembrou de invocar a maravilhosa "ética republicana", como chama a atenção o Anarca. Por que será?

EVERYMAN


Pelo André Moura e Cunha, fico meio "por dentro" do "plot" do último livro de um dos maiores escritores contemporâneos, Philip Roth. O livro intitula-se "Everyman" e estará disponível, na próxima semana, nos Estados Unidos. Pareceu-me que podia ser a minha proto-biografia. A auto, claro.

EVERYMAN


Pelo André Moura e Cunha, fico meio "por dentro" do "plot" do último livro de um dos maiores escritores contemporâneos, Philip Roth. O livro intitula-se "Everyman" e estará disponível, na próxima semana, nos Estados Unidos. Pareceu-me que podia ser a minha proto-biografia. A auto, claro.

LER OS OUTROS

O texto de Fernanda Câncio, escrito em 1993 para a Grande Reportagem, sobre o "Holocaust Memorial Museum" de Washington.
"Foi um filósofo alemão - evidentemente alemão - Theodor W. Adorno, que o disse: após Auschwitz, não é mais possível. Pensar. Lembrar, sem dúvida. E escrever. Lamentar os mortos, chorar os vivos. E esquecer. Ergue-se contra isso a dor. Um museu. Mas a verdade decretada é que se esquece. Sempre. É esse o ofício da memória: fazer crer que é possível. Pensar, viver . E não ter visto tudo, nunca."

LER OS OUTROS

O texto de Fernanda Câncio, escrito em 1993 para a Grande Reportagem, sobre o "Holocaust Memorial Museum" de Washington.
"Foi um filósofo alemão - evidentemente alemão - Theodor W. Adorno, que o disse: após Auschwitz, não é mais possível. Pensar. Lembrar, sem dúvida. E escrever. Lamentar os mortos, chorar os vivos. E esquecer. Ergue-se contra isso a dor. Um museu. Mas a verdade decretada é que se esquece. Sempre. É esse o ofício da memória: fazer crer que é possível. Pensar, viver . E não ter visto tudo, nunca."

O "DEBATE"

Não ouvi, não vi e não faço tenção de ver ou de ouvir nada sobre o "debate mensal" com (e concebido para) o primeiro-ministro no Parlamento. Como confio na perspicácia do Rui Costa Pinto (e nas linhas enxutas do Jorge Ferreira), basta-me isto para ficar esclarecido. "Tantas palavras e cálculos provisórios para dizer o óbvio: o governo vai dar mais uma cacetada nas pensões dos portugueses. Tantas desculpas para assumir o que todos os portugueses já perceberam: o Estado não vai cumprir o que prometeu a quem trabalhou uma vida inteira na expectativa de ter uma velhice tranquila." Continuamos no "bom caminho", a espantar a classe média. Depois não se queixem.

O "DEBATE"

Não ouvi, não vi e não faço tenção de ver ou de ouvir nada sobre o "debate mensal" com (e concebido para) o primeiro-ministro no Parlamento. Como confio na perspicácia do Rui Costa Pinto (e nas linhas enxutas do Jorge Ferreira), basta-me isto para ficar esclarecido. "Tantas palavras e cálculos provisórios para dizer o óbvio: o governo vai dar mais uma cacetada nas pensões dos portugueses. Tantas desculpas para assumir o que todos os portugueses já perceberam: o Estado não vai cumprir o que prometeu a quem trabalhou uma vida inteira na expectativa de ter uma velhice tranquila." Continuamos no "bom caminho", a espantar a classe média. Depois não se queixem.

MAIS NINGUÉM?

Em relação à permanência de Bénard da Costa na Cinemateca Portuguesa até à sua gloriosa mumificação, já disse aqui o que pensava. Também pensava nessa altura que a ministra da Cultura tinha tomado uma decisão política sobre isso. Eis que agora se dá o dito por não dito e Isabel Pires de Lima, com a indispensável anuência de Sócrates, dispôe-se aparentemente a prolongar a "licença especial" que permite a Bénard - aos setenta anos e com uma missão pública impecavelmente cumprida mas porventura exaurida- continuar à frente da Cinemateca. Criticava-se o Estado Novo por convolar em vitalícia a maior parte dos cargos de alta direcção da administração pública. A democracia, pelos vistos, também gosta de ter as suas jarras de estimação. Entretanto foi posta a correr uma inevitável "petição online" em prol de Bénard e, indirectamente, contra Pires de Lima. As capelinhas e o amiguismo mexeram-se depressa. Prado Coelho já as tinha excitado. Parece que está a surtir efeito. A ministra naturalmente tremeu. São sempre os mesmos para o mesmo, dos sete aos setenta e sete anos. Não haverá mais ninguém?

Adenda: Sobre o mesmo tema, João Morgado Fernandes.

MAIS NINGUÉM?

Em relação à permanência de Bénard da Costa na Cinemateca Portuguesa até à sua gloriosa mumificação, já disse aqui o que pensava. Também pensava nessa altura que a ministra da Cultura tinha tomado uma decisão política sobre isso. Eis que agora se dá o dito por não dito e Isabel Pires de Lima, com a indispensável anuência de Sócrates, dispôe-se aparentemente a prolongar a "licença especial" que permite a Bénard - aos setenta anos e com uma missão pública impecavelmente cumprida mas porventura exaurida- continuar à frente da Cinemateca. Criticava-se o Estado Novo por convolar em vitalícia a maior parte dos cargos de alta direcção da administração pública. A democracia, pelos vistos, também gosta de ter as suas jarras de estimação. Entretanto foi posta a correr uma inevitável "petição online" em prol de Bénard e, indirectamente, contra Pires de Lima. As capelinhas e o amiguismo mexeram-se depressa. Prado Coelho já as tinha excitado. Parece que está a surtir efeito. A ministra naturalmente tremeu. São sempre os mesmos para o mesmo, dos sete aos setenta e sete anos. Não haverá mais ninguém?

Adenda: Sobre o mesmo tema, João Morgado Fernandes.

O AMIGO DE PENICHE...

... continua.

O AMIGO DE PENICHE...

... continua.

UM RUDIMENTAR MODELO (actualizado)


José Medeiros Ferreira podia editar no Bicho Carpinteiro o artigo que escreveu para uma revista, intitulado "Os Estados também se abatem?", cuja notícia recolhi do Público. Talvez os aprendizes de feiticeiro que incensam uma fantasiosa "sociedade civil" que supostamente nos vai tirar do atoleiro, possam aprender alguma coisa. E - atenção - eu não sou "socialista". Todavia não posso deixar de concordar com a manutenção de um Estado nacional, não "suburbanizado", e com isto: "crédito, casa e consumo, eis o nosso rudimentar modelo".

Adenda: Paulo Pinto Mascarenhas esclareceu que a revista a que aludo é a Atlântico, no seu número de Maio, já à venda. Mais uma razão para eu gostar da Atlântico. É livre. E, de facto, o meu pedido de desculpas ao Paulo pelo lapso.

UM RUDIMENTAR MODELO (actualizado)


José Medeiros Ferreira podia editar no Bicho Carpinteiro o artigo que escreveu para uma revista, intitulado "Os Estados também se abatem?", cuja notícia recolhi do Público. Talvez os aprendizes de feiticeiro que incensam uma fantasiosa "sociedade civil" que supostamente nos vai tirar do atoleiro, possam aprender alguma coisa. E - atenção - eu não sou "socialista". Todavia não posso deixar de concordar com a manutenção de um Estado nacional, não "suburbanizado", e com isto: "crédito, casa e consumo, eis o nosso rudimentar modelo".

Adenda: Paulo Pinto Mascarenhas esclareceu que a revista a que aludo é a Atlântico, no seu número de Maio, já à venda. Mais uma razão para eu gostar da Atlântico. É livre. E, de facto, o meu pedido de desculpas ao Paulo pelo lapso.

26.4.06

O LIMITE

"A gente faz qualquer trabalho para ganhar a vida e sustentar a vida. Suportamos tudo mas há um limite". De acordo com o Público, o homem que agrediu mortalmente um presidente de uma Junta de Lisboa e que feriu outras pessoas, proferiu estas palavras pouco antes de ter sido detido na sua casa. Parece que ia ser notificado disciplinarmente para ser despedido. O homem é imigrante mas podia ser português. A simples ideia do "limite" é assustadora. Quantas mais cabeças desesperadas andarão por aí à beira do limite? Que tensões se escondem sob o manto diáfano do "optimismo" e da "modernidade" anunciados?

O LIMITE

"A gente faz qualquer trabalho para ganhar a vida e sustentar a vida. Suportamos tudo mas há um limite". De acordo com o Público, o homem que agrediu mortalmente um presidente de uma Junta de Lisboa e que feriu outras pessoas, proferiu estas palavras pouco antes de ter sido detido na sua casa. Parece que ia ser notificado disciplinarmente para ser despedido. O homem é imigrante mas podia ser português. A simples ideia do "limite" é assustadora. Quantas mais cabeças desesperadas andarão por aí à beira do limite? Que tensões se escondem sob o manto diáfano do "optimismo" e da "modernidade" anunciados?

PAÍS DO EUFEMISMO

Ao ler levemente os comentários, as notícias e a blogosfera mais dada ao "respeitinho", tudo acerca do pós 25 de Abril de 2006 - por sinal nada político -, lembrei-me, não sei bem porquê, do "País Relativo" do O'Neill. Também gosto do Ruy Belo, como o presidente da República, mas não exactamente daquele Ruy citado. Parece-me que O' Neill vem mais a propósito do que se palrou ontem no Parlamento e do que se vai seguir, se é que se vai seguir alguma coisa. Trinta e dois anos depois continuamos como o poeta nos descreveu nos anos sessenta, "país engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano."

País por conhecer, por escrever, por ler...

País purista a prosear bonito,

a versejar tão chique e tão pudico,

enquanto a língua portuguesa se vai rindo,

galhofeira, comigo.


País que me pede livros andejantes

com o dedo, hirto, a correr as estantes.


País engravatado todo o ano

e a assoar-se na gravata por engano.


País onde qualquer palerma diz,

a afastar do busílis o nariz:

-Não, não é para mim este país!

mas quem é que bàquestica sem lavar

o sovaco que lhe dá o ar?

Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.


País do cibinho mastigado

devagarinho.

País amador do rapapé,

do meter butes e do parlapié,

que se espaneja, cobertas as miúdas,

e as desleixa quando já ventrudas.


O incrível país da minha tia,

trémulo de bondade e de aletria.

Moroso país da surda cólera,

de repente que se quer feliz.

Já sabemos, país, que és um homenzinho...


País tunante que diz que passa a vida

a meter entre parêntesis a cedilha.

A damisela passeia
no país da alcateia,

tão exterior a si mesma

que não é senão a fome

com que este país a come.

País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,

inaugurando esguichos no engonço

do gesto e do chavão.

E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!


Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.

País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão duvida.

Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.

Nhurro país que nunca se desdiz.


Cedilhado o cê, país, não te revejas

na cedilha, que a palavra urge.

Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,

a nós e à tirania,

sem perder tempo nem caligrafia.

Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,

que parece comprida!

A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,

que entre dois sudários não contém senão

a triste maçã do coração.

Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!


País das troncas e delongas ao telefone

com mil cavilhas para cada nome.

De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...


Embezerra, país, que bem mereces,

prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.


Desaninhada a perdiz,

não a discutas, país!

Espirra-lhe a morte pra cima

com os dois canos do nariz!


Um país maluco de andorinhas

tesourando as nossas cabecinhas

de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!


Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro

e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...


No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,

a conversa pancrácia e o jeito alvar.

Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.

Mas também me ofereceste a cordial botelha,

empinada que foi, tal e qual clarim!

PAÍS DO EUFEMISMO

Ao ler levemente os comentários, as notícias e a blogosfera mais dada ao "respeitinho", tudo acerca do pós 25 de Abril de 2006 - por sinal nada político -, lembrei-me, não sei bem porquê, do "País Relativo" do O'Neill. Também gosto do Ruy Belo, como o presidente da República, mas não exactamente daquele Ruy citado. Parece-me que O' Neill vem mais a propósito do que se palrou ontem no Parlamento e do que se vai seguir, se é que se vai seguir alguma coisa. Trinta e dois anos depois continuamos como o poeta nos descreveu nos anos sessenta, "país engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano."

País por conhecer, por escrever, por ler...

País purista a prosear bonito,

a versejar tão chique e tão pudico,

enquanto a língua portuguesa se vai rindo,

galhofeira, comigo.


País que me pede livros andejantes

com o dedo, hirto, a correr as estantes.


País engravatado todo o ano

e a assoar-se na gravata por engano.


País onde qualquer palerma diz,

a afastar do busílis o nariz:

-Não, não é para mim este país!

mas quem é que bàquestica sem lavar

o sovaco que lhe dá o ar?

Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.


País do cibinho mastigado

devagarinho.

País amador do rapapé,

do meter butes e do parlapié,

que se espaneja, cobertas as miúdas,

e as desleixa quando já ventrudas.


O incrível país da minha tia,

trémulo de bondade e de aletria.

Moroso país da surda cólera,

de repente que se quer feliz.

Já sabemos, país, que és um homenzinho...


País tunante que diz que passa a vida

a meter entre parêntesis a cedilha.

A damisela passeia
no país da alcateia,

tão exterior a si mesma

que não é senão a fome

com que este país a come.

País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,

inaugurando esguichos no engonço

do gesto e do chavão.

E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!


Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.

País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão duvida.

Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.

Nhurro país que nunca se desdiz.


Cedilhado o cê, país, não te revejas

na cedilha, que a palavra urge.

Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,

a nós e à tirania,

sem perder tempo nem caligrafia.

Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,

que parece comprida!

A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,

que entre dois sudários não contém senão

a triste maçã do coração.

Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!


País das troncas e delongas ao telefone

com mil cavilhas para cada nome.

De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...


Embezerra, país, que bem mereces,

prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.


Desaninhada a perdiz,

não a discutas, país!

Espirra-lhe a morte pra cima

com os dois canos do nariz!


Um país maluco de andorinhas

tesourando as nossas cabecinhas

de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!


Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro

e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...


No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,

a conversa pancrácia e o jeito alvar.

Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.

Mas também me ofereceste a cordial botelha,

empinada que foi, tal e qual clarim!