31.10.06

"GO TO THE ROOT"


"If you go to the root with all you've got, there is no way you won't injure family, friends, and innocent bystanders."

Norman Mailer

A DOAÇÃO


O primeiro-ministro foi até Moçambique - como bem sintetizou o Miguel Sousa Tavares na TVI- doar Cahora Bassa aos autoctónes. Foram para aí quarenta anos e mais de dois mil milhões de euros enterrados. O "contrato" com Moçambique equivale a eu emprestar mil euros e um carro a um amigalhaço e, depois, de volta, receber uns cêntimos e a cadeirinha do bébé que ia no carro. Parece que há para aí uns duzentos e tal milhões de euros que Moçambique nos deverá dar em "tranches" e, em 2008, está tudo "saldado". Também fica a ex-colónia liberta - e os cofres do Estado português também - dos pagamentos aos administradores lusos que lá andaram a encher a pança. O sr. Gebuza não fez a coisa por menos e lembrou a um vago e "poético" Sócrates que, naquele momento, se enterrava o último vestígio da "ocupação estrangeira". Em delicadeza, foi o melhor que se pôde arranjar. Nunca soubemos lidar com esta coisa chamada Ultramar. Nem o dr. Salazar, nem a democracia. Numa altura em que o país se esfarela na ilusão "tecnológica", na obsessão "deficitária" e no consumismo desenfreado que alimenta o sistema bancário e a inconsciência "tuga", Sócrates foi a Moçambique "aliviar-se" do velho fardo do homem branco. E até pagamos - e de que maneira - para isso.

POLÍTICAS DO ESPÍRITO


Um povo que não respeita a sua história ou, pior do que isso, que "adapta" a história ao bel-prazer do momento, é um povo sem memória e, a prazo, condenado. Uso o termo "povo" porque, em democracia, é suposto o governo dele emanar. A ministra da Cultura, uma amável professora catedrátrica de Letras do Porto, como não podia deixar de ser, quer deixar a sua "marca de Zorro" no sector que lhe entregaram. A colecção Berardo não só não chega, como nem sequer foi ela que tratou do assunto. E, assim como asssim, é do comendador. O resto são pagamentos e simpáticas cedências provisórias ao Estado. Deu-lhe, por isso, para o tal "museu da língua e dos descobrimentos" no único espaço que restou da Exposição do Mundo Português, dos idos de 40, o "museu de arte popular", a Belém. A coisa ministerial tem, aliás, uma designação horrenda: "Mar da Língua - Centro Interpretativo das Descobertas". Certamente não passará de mais um "pólo" masturbatório para sentar os amigos e os primos dos amigos. O pavilhão que sobreviveu à Exposição, e cuja concepção pertenceu ao arquitecto Jorge Segurado, acolhe o conceito estético-político de uma época da história portuguesa do século XX que muito democrata "esclarecido" não consegue engolir. Teria sido porventura bom que ele não tivesse existido, mas o facto é que existiu. A resposta de Pires de Lima para a eliminação daquele espaço e do respectivo acervo é concludente: "A vida dos museus não é eterna. Eles nascem, vivem e morrem. Não devemos estar presos a uma atitude conservadora." E, depois, não resistiu à sua própria ideia de "política do espírito", se é que tem alguma: "É preciso fazer opções quando se faz política cultural. Um museu da Língua e dos Descobrimentos é mais aberto e mais rentável". De acordo com a professora, o novo museu "é de uma importância fundamental para a autoconsciência da língua". Esta da "autoconsciência da língua" esmaga qualquer pedragulho dos anos 40, não é verdade? Será que a ministra tem "consciência" do que anda a dizer? Depois, o novo museu "será meramente virtual, sem acervo físico, apostando nas novas tecnologias e na interactividade". Isto é, o "plano tecnológico" também serve para rasurar a história. Alguém ainda tentou explicar à ministra que o museu de arte popular - vide Público - "é, em si mesmo, um documento histórico incontornável para o estudo da história do Estado Novo." Pois é. Todavia, a "política do espírito" agora é outra ou nenhuma. A diferença é que ninguém falará destes quando morrerem.

Adenda: Agradeço a António Machado a precisão sobre o que sobrou da Exposição.

OS NOSSOS


"Creio que [Deus] tem um grande sentido de humor. Às vezes dá-nos um abanão e diz-nos "não te leves tão a sério". Na verdade, o humor é uma componente da alegria da criação. Em muitas questões da nossa vida, nota-se que Deus também nos quer impelir a ser mais leves, a perceber a alegria, a descer do nosso pedestal e a não esquecer o gosto pelo divertido."

Joseph Ratzinger, Deus e o Mundo - a fé cristã explicada por Bento XVI, uma entrevista com Peter Seewald, Tenacitas, Outubro de 2006

O EXEMPLO DA D.EDITE

Fiquei a saber que a Sra. D. Edite Estrela entende que uma mulher com o vírus HIV não deve dar à luz. Mais. Que uma criança filha dessa mulher não deve vir ao mundo porque poderá ter SIDA. Ou seja, essa mulher pode e deve recorrer ao aborto para interromper a sua gravidez, se quiser. Moral da história da D. Edite: os seres humanos portadores do HIV são menos pessoas que as outras. Estou esclarecido.

30.10.06

PLATEIAS

Estive aqui. Eu e parte do regime. Dois ministros - um de Estado - e um secretário de Estado. Um prémio Nobel, a maçonaria, o dr. Perestrelo, a Pilar, o dr. Balsemão, a Joana (simpatiquíssima), o sr. Carvalho da Silva, a Teresa de Sousa, a Flor Pedroso, o prof. Freitas. Interminável e insuportável, o prof. Freitas apresentou o livro a seguir à Joana "anti-imperialista". Federico Mayor Zaragoza foi espanhol, ou seja, franco, alegre, descontraído, em suma, um anti-Freitas sebentário que mais parecia estar a querer sentar o homem numa cadeira de uma imaginária academia feita à medida da sua confusa cabeça. Adiante. Mário Soares é suficientemente grande para pairar sempre acima das pequeninas cabeças de alguns "camaradas" que se imaginam agora donos disto. Alguns eram meus amigos e eu, pelo menos, ainda sou amigo deles. Se confundem as coisas, é porque não aprenderam nada com os autores do livro. Até Freitas, no seu desalinho mental e político, lá chegou. Não custa nada. Não sou eu que sou socialista e "tolerante". Como eles dizem, eles é que são. Saúde e fraternidade, dr. Soares.

LER NA RETRETE


Caro JCD: percebo-o. Tanto percebo que me parece que a coisa merece transcrição integral, com sublinhados meus.
PNL

por Eduardo Prado Coelho (O fio do horizonte, in Público)

A Casa Fernando Pessoa organizou um debate sobre o Plano Nacional de Leitura, com a habitual moderação de Carlos Vaz Marques. Não tendo o dom da ubiquidade, não tive a oportunidade de estar presente. Lamento, porque o tema interessa-me e o convite incluía um "dossier" com declarações várias sobre a questão. Acontece que a leitura destes textos tem aspectos impressionantes. Alguns são considerações equilibradas e razoáveis. Mas outros revelam a mais espantosa ignorância e vocação para a tolice desenfreada. Grande parte destas vem de blogues, que pela desenvoltura da escrita, uma espécie de tu cá, tu lá, parece que favorece o disparate.Tanta demagogia! Uma personagem anónima, em algo que se intitula "Rabbit"s Blog", diz esta coisa publicitária: "O Modelo e Continente têm umas promoções de autores que ganharam o Nobel a 3,50 euros. A vantagem deste programa é que, ao contrário dos programas estatais, não só não custa um cêntimo ao contribuinte como é capaz de pôr mais gente a ler". Deve tratar-se de um funcionário do Continente que se pretendeu pôr em bicos dos pés. E que, com esta oscilação entre um anarquismo de esquerda e um fascismo de direita, vai-se buscar sempre o grande argumento: o bolso dos contribuintes. Mas isto é secundário. Porque a grande estupidez está nesta incapacidade de diferençar entre a promoção de uns livros a preços mais ou menos ocasionais e o que deve ser a consistência e complexidade de um verdadeiro Plano Nacional da Leitura. Este é um dos tópicos, o que passa pela ideia de que se não pode gastar dinheiro público com projectos deste tipo. Ora eu devo confessar: sempre que ouço a expressão "o dinheiro dos contribuintes" puxo a pistola. E não costumo falhar os alvos.A segunda ideia, mais elaborada e requintada em demagogia, é a de que as pessoas lêem imenso, mas não lêem aquilo que os intelectuais queriam. Daí a fúria deles, desanimados por não serem promovidos. Isto tem ainda a ver com uma outra idiotice que se propagou: o Plano Nacional da Leitura teria por função dizer às pessoas o que devem ler. Neste plano, Vasco Pulido Valente, que até pode ser uma pessoa inteligente, acumula todas as coisas absurdas, insensatas e totalmente desconhecedoras da realidade que se podem dizer sobre estas matérias.Como se lê: num estilo mais ou menos aparvalhado, um tal senhor Luís Aguiar Conraria, no blogue "A destreza das dúvidas", diz que "nunca se leu tanto como se lê hoje; basta ver o sucesso em Portugal de Dan Brown ou de Miguel Sousa Tavares. As comissões de bom gosto acham que devíamos ler Sophia de Mello Breyner e não Margarida Rebelo Pinto. (...) Provavelmente mandavam-nos ler poesia do século XIV no original". Eis o que se chama alguém que sabe verdadeiramente o que é literatura. Quanto ao meu amigo José Saramago, afirmou que a leitura será sempre questão de minorias. É verdade, embora o número que constitui essas minorias varie conforme os países. Mas David Mourão-Ferreira dizia escrever para "uma imensa minoria", e é portanto no "imensa" que está a questão."
Apenas dois ou três comentários. EPC, como bom intelectual orgânico - seja lá qual for o regime - tem o "dever cívico" de defender aquilo que o regime apresenta como bom para a educação geral das massas e para a sua subtil introdução nos estudos literários. Em 1975, como em 2006. Não pode, por isso, deixar de se colocar do lado do obscuro Plano Nacional de Literatura, coisa que, pelos vistos, está perfeitamente esclarecida na sua extraordinária cabeça. Em segundo lugar, EPC, apesar de ser uma "figura de esquerda", permite-se - o que é que ele não se permite - exibir a sua superioridade intelectual sobre os assalariados do eng.º Belmiro de Azevedo, num comentário de excelente recorte literário sobre um bloguista. E fazer um trocadilho reaccionário acerca do "dinheiro dos contribuintes", como se o "PNL" se pagasse por si. Depois, é claro que na cabeça de EPC, Vasco Pulido Valente não pode jamais pronunciar-se - nem ele, nem mais ninguém que não pertença à nomenclatura "intelectual" do regime - sobre uma "realidade"(?) que é apenas "real" nas cabeças fulgurantes e amiguistas dos membros da referida nomenclatura. O resto é lixo e supermercados. Finalmente - e aqui EPC tem razão - a frase do Conraria não passa de um dichote idiota sem qualquer relevância. Se bem que me pareça que cada um é livre de ler ou de não ler o que lhe aprouver, não é certamente o "PNL" (e, muito menos, o EPC) que vai induzir o prazer de ler - o mau, o bom e o péssimo - nos putativos leitores. Entre nós, será sempre uma "imensa minoria" a fazê-lo. Nem que seja na retrete.

29.10.06

OH JOÃO...


... não conhecia esta sua faceta "democrática". Olhe, ao minuto 12, o telejornal da RTP já tinha posto o "querido líder" a regozijar-se pela sua esmagadora vitória (na moçãozinha, a coisa ainda conseguiu ser mais aconchegada: 99%) o qual atribuiu isso à alegria do partido com a sua governação e, naturalmente, com a sua única e excelsa pessoa. Depois, intervalou com uma peça sobre "pirataria informática" e, agora, aos 20, lá passaram Louçã, Jerónimo de Sousa e Lula. Ainda bem que existem cidadãos exemplares como o João que estão sempre na primeira linha da denúncia dos "filhos da puta". Bem haja.

TRAGICOMÉDIAS


São a farsas como esta e esta que a minha querida amiga Maria Alexandra Mesquita (vide comentários a este post), chama "políticas públicas da cultura"? Se é, mais vale estar quietinha e, repito, acabe-se de vez com a tragicomédia que é o Ministério da Cultura. A lei orgânica "ficciona" novas entidades, nomeadamente as entidades públicas empresariais em que se vão tornar os teatros nacionais. No Porto, Ricardo Pais parece andar contentinho, já que não tem dado entrevistas e, em compensação, Pires de Lima tem-lhe dado muita coisa. Em Lisboa, o moribundo D. Maria II - que, em apenas dois anos, passou de SA para EPE - está enguiçado naquele revivalismo pseudo-moderno do ex-director do Trindade. E a Companhia Nacional de Bailado e o único teatro de ópera português, vão "fundir-se" (ou melhor, refundir-se) em torno de uma coisa chamada "OPART, organismo de produção artística, EPE", "conservando as respectivas identidades". Muito me vou eu rir por causa desta do "conservando as respectivas identidades". É claro que, apesar dos "títulos", a fonte pagadora - descontando o mecenato que, no caso da CNB, é o seu "bezerrro de ouro" - é a mesma, o OE e os impostos. Quanto às quatro delegações regionais do ministério - que deviam ter sido extintas com esta lei orgânica - passam a chamar-se mais prosaicamente "direcções regionais". Continuarão bovinamente a não servir para nada. Está, pois, aberta, como nos outros ministérios, aliás, a corrida.

QUERIDO LÍDER


A grande surpresa do dia é, sem sombra de dúvida, a eleição, por 97% dos votos dos militantes "mesmo militantes" do PS, do seu secretário-geral, o honorável camarada José Sócrates. Nem no tempo em que o partido era vivo se alcançou tamanha proeza. A última vez que um líder foi reconduzido neste registo albano-coreano aconteceu em 2001, com o camarada António Guterres. Depois seguiu-se uma entronização patética no Pavilhão Atlântico que culminou, em Dezembro do mesmo ano, com a fuga envergonhada do líder depois de uma estrondosa derrota na urna que conta, o país. Não sou socialista, mas teria vergonha de ver o partido de Soares, Zenha, Soromenho ou Medeiros Ferreira transformado neste imenso e branco deserto "ideológico", dirigido por um bando de jovens turcos tecnologicamente "musculados". Ironia a deste PS que nos ensinou a "amar" a democracia e que, agora, está nas mãos de uma pequeníssima nomenclatura de aprendizes de democratas. E maus, ainda por cima. Paz à sua alma socialista.

28.10.06

PORQUÊ -2

Simpaticamente, o João Morgado Fernandes "tentou" esclarecer-me acerca desta coisa: "O Estado vai atribuir 169 milhões de euros de indemnizações compensatórias à RTP e à agência Lusa no próximo ano, revelou hoje à Lusa o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva." E deu esta extraordinária "explicação: "A RTP e a Lusa são, de facto, empresas estatais. É o Estado, a malta toda, que as paga. Se isso deveria, ou não, ser assim é uma outra história.". Olhe, João, com este argumento e com este orçamento de Estado, por exemplo, para a "cultura", não faltarão directores de teatros e de outras "entidades públicas empresariais" a berrar pelo pão. Da "cultura" e de outros lados. Reparou na brutalidade de massa de que estamos a falar? Bom. Quanto ao canal da RTP onde eu vejo os telejornais, acho que não me enganei. Todavia, não deixa de ter alguma razão. A "filosofia" da coisa ressuma, de facto, a Ramiro Valadão (um bom homem) e a Dutra Faria, só que em "democrático". E a RTP-Madeira, quando lá vou, não vejo. Finalmente, não sou idólatra nem nunca fui dado a "grandes explicadores" ou a "queridos líderes". Como V. é mais "democrata" e "incontrolável" do que eu, imagino que respeite as escolhas livres dos madeirenses. Ou será que a Madeira, para além de ilha, também é puta ou filha de tal?

Adenda: "Ontem a RTP deu outro exemplo de como se actua pela imagem: enquanto o Ministro das Finanças fazia o seu discurso punitivo contra as finanças da Madeira, Jardim aparecia em imagens de fundo a passear-se num elefante (...) É verdade que Jardim muitas vezes pede-as, mas não pode ser a televisão pública a dá-las." Está a ver, João, "como amor com amor se paga" literal e chorudamente?

ISOLAMENTO E FRUSTRAÇÃO

O inspector geral da administração interna, em entrevista ao Diário de Notícias, disse sentir-se "isolado e frustrado" porque o dr. António Costa não lhe passa cartão. Nem na recente ida a uma comissão parlamentar, o dr. Costa teve o cuidado de consultar o seu órgão externo de controlo da actividade policial e, a ele, preferiu a opinião do comandante-geral da GNR. Os números de "vítimas" que o senhor ministro apresentou, eram, por isso, totalmente desconhecidos do juiz Clemente Lima. Soube deles pela televisão. Como expliquei outro dia num "comentário" a um post, a IGAI - uma criação legislativa de Dias Loureiro para o putativo vice-procurador geral da República de Pinto Monteiro, Gomes Dias, o ainda auditor jurídico do MAI - só "brilhou" com as tutelas de Alberto Costa, Jorge Coelho, Fernando Gomes, Severiano Teixeira e Figueiredo Lopes. E com Rodrigues Maximiano como inspector-geral, que obteve destes sempre um apoio incondicional. Quando Maximiano se aposentou, o dr. Costa deixou a IGAI num limbo até pôr lá o juiz Clemente Lima. Pelos vistos, até este se queixa da falta de apoio político do ministro. Assim sendo, e conhecendo-se o "bom" e musculado feitio do dr. Costa ("deste" dr. Costa, e não do que eu conheci na primeira campanha presidencial de Mário Soares), a Clemente Lima - por si mesmo, ou por interposto ministro - não deverá restar muito mais tempo de "isolamento" e de "frustração".

"O" ANTÓNIO


Numa noite destas, enquanto trabalhava no livrinho "Portugal dos Pequeninos", à minha frente, na tv, passava uma enternecedora entrevista de Judite de Sousa ao sofredor, melancólico e grande escritor dr. António Lobo Antunes. Desde logo, o tratamento era de grande intimidade. Para Judite, o dr. Lobo Antunes era "o" António. "O" António, aqui há uns anos atrás, tinha um razoável pó às entrevistas. Deixei-o por alturas de "Auto dos Danados" e só voltei, muito tempo depois, por causa das crónicas. Ainda tentei ler "Que farei quando tudo arde?". Tenho por aí espalhados mais livros "do" António, porém, confesso, não tenho pachorra para os ler. Fico sempre com a sensação de que, à semelhança do que acontece com as edições americanas dos seus textos, "o" António não perderia nada se retirasse entre cem a trezentas páginas dos seus "romances". É que um homem perde-se, entre o tédio e o não avanço da "trama", naqueles tropismos pseudo-originais, "a la Faulkner", "do" António. O pacto leonino que tem com a sua editora, a D. Quixote, não o salva, mesmo assim, de um honroso quarto ou quinto lugar em vendas nacionais face a uma inesperada e inexplicável Inês Pedrosa, a uma Lídia Jorge ou ao bardo Manuel Alegre. Outro dia, "o" António decretou que o "romance" de Rui Cardoso Martins, também da D. Quixote (de onde é que havia de ser?), era o melhor "primeiro livro" que ele tinha lido. Não foi só ele. A sra. D. Clara Ferreira Alves, por acaso assalariada das "Produções Fictícias", do dito Rui, naquele maravilhoso programa "Eixo do Mal", também teceu encómios, apesar de o livro ser em português. Em suma, "o" António, aquele que em tempos idos venerou o PC, mas que "à" Judite de Sousa disse que tinha "tido medo" num comício em que estava de tudo de punho erguido aos berros - um momento de "humanização" do sr.dr. - está aí para as curvas e para produzir mais bacamartes "literários". Alguém há-de ler, nem que sejam só as primeiras cinquenta páginas. É que por aí, normalmente, ficamos esclarecidos.

EM PONTA DOS PÉS

Estive a passar os olhos pelas "novas" leis orgânicas dos ministérios. Fusões, extinções e criações, há para todos os gostos e feitios. A parte "gira" é assistir, nos próximos dias e semanas, aos corropios, telefonemas e outras forma de dizer "estou aqui" (ou, "deixei de estar aqui") dos senhores e das senhoras da altas, médias e baixas nomenclaturas que agora caem mas que logo a seguir se podem levantar outra vez. Afinal, o congresso albanês do senhor engenheiro sempre vai servir para alguma coisa.

27.10.06

PORQUÊ

"Incontrolável" João : explique-me lá, se souber, por que é que, no rodapé do telejornal apresentado pelo "escritor" Rodrigues dos Santos, passou uma frase intrigante que dizia o seguinte - "O Estado vai atribuir 169 milhões de euros de indemnizações compensatórias à RTP e à agência Lusa no próximo ano, revelou hoje à Lusa o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva.". O que é que o Estado terá feito ou deixado de fazer a estas mui nobres instituições, designadamente à Lusa que, por assim dizer, afinal "não conta para nada"? A RTP e a Lusa valem, juntas, mais do que a Madeira? Se calhar valem. Vá lá saber-se porquê.

MOVIDA LINGUÍSTICA


O senhor engenheiro foi a Aveiro e tinha meia dúzia de manifestantes para o apupar. Está na moda e não adianta nada. Adiantava mais registar o que ele disse a propósito de mais uma encenação em torno do "plano tecnológico", lado-a-lado com o mago Mariano Gago. Sem graça - tinha-a esgotado à entrada quando, todo torcido, disse que recebia com "humor" todas as manifestações - fez um trocadilho com aquela coisa do "it's the economy, stupid" que transformou em "it's knowledge, stupid". E, para que não ficassem dúvidas, traduziu: "é o conhecimento, estúpido". Bonito efeito "tecnológico", sem dúvida. Mas não ficou por aqui. De seguida, saiu-lhe uma "espanholada": "movida" que, por sinal, não tinha nada a ver com o que se estava a passar em Aveiro. Sócrates não é exactamente um modelo de boa disposição e estas leviandades linguísticas não lhe "ficam" bem. Do mal, o menos. Mais vale manter aquele ar charmoso-irritado do que tentar-se na "movida" da linguagem. É muito traiçoeira.

O DESPACHO

Depois de sucessivos dias malditos, a "central política" do governo decidiu dar ordem a Teixeira dos Santos para "punir" a Madeira. O ministro fê-lo por despacho e pelas televisões, como lhe competia. "Bater" em Jardim é daquelas coisas que costumam cair bem junto da populaça e da opinião que se publica. Por 119 milhões de euros, lava-se a honra perdida nos últimos dias? Não lava. É, insisto, uma questão meramente partidária e de odiozinho de estimação. Esfolar o "pato bravo" em público para que o público salive de gozo e se esqueça da sua própria miséria, é sempre lucrativo. A curto prazo, mas lucrativo.

GRANDE


Mário Soares reapareceu na SIC, numa entrevista com Mário Crespo que mantém sempre aquele ar de quem está a mascar pastilha elástica. Independentemente disso, Soares estava em grande forma e falou do seu novo livro, a apresentar na segunda-feira. Sobretudo falou do mundo e do que se pode esperar dele nos próximos anos. Não é preciso ser de esquerda para acompanhar com prazer a forma como Soares discorre e expõe o seu pensamento nesta matéria. Quem é grande, é sempre grande apesar das adversidades. Ou fundamentalmente por causa delas.

EXTINÇÕES


A ministra da Cultura, num acesso de lucidez, anunciou o propósito de acabar com as "capitais nacionais da cultura". As duas últimas, Coimbra e Faro, constituíram razoáveis desastres, financeiros e "culturais" propriamente ditos. Porém, Isabel Pires de Lima podia prosseguir com o acabar de algumas inutilidades manifestas que persistem no ministério e, por fim, acabar mesmo com ele. Por exemplo, extinguir as "delegações regionais" do MC - essas inúteis sinecuras político-partidárias - seria um bom começo.

O MÉTODO E OS PROTAGONISTAS - 2

O Pedro Magalhães deve ser lido ao longo do dia. Por dois singulares motivos. Porque houve mais uma sondagem sobre o aborto - experimentem ir a Fornos de Algodres perguntar o que pensam da "interrupção voluntária da gravidez" em vez de "aborto" - e porque o Pedro, provavelmente, meditará sobre a "popularidade" dos líderes. Sócrates, valha isto o que valer, já cai. As "esquerdas" e o PR sobem, e Mendes não aproveita, para já, a pequena implosão em curso na maioria e no governo. O autoritarismo democrático de Sócrates é algo que, mais tarde ou mais cedo, como o gelo, se lhe quebrará à frente do nariz. O congresso albanês que aí vem, não o vai ajudar em nada. Sócrates é bom quando vai ao ringue. Ir para cima dele sozinho, com as bancadas cheias de homens e de mulheres-banana a babarem-se, atentos, venerandos e obrigados, só o diminui. Daqui para diante, cada cavadela, sua minhoca. Não há votos de borla.

26.10.06

MAIS UM

Mil e quatrocentos milhões de euros foi o lucro do BCP, do BES, do BPI e do Totta nos primeiros nove meses do ano. Vai daí, o ministro das Finanças despertou do seu torpor optimista e prometeu mais "tributação" dos bancos. A banca aprecia jogar "à cabra cega" com os governos e a administração fiscal e, geralmente, costuma ganhar. De vez em quando, lá vem um governante que imagina colocar em sentido o sector. O dr. Teixeira dos Santos é só mais um.

DIZ O ROTO AO NU



Com língua e cara de pau, Manuel Maria Carrilho apareceu numa sessão pública da Câmara Municipal de Lisboa para zurzir em Carmona Rodrigues. A semana passada, o seu "número dois" disse com todas as letras que Carrilho, de vereador, só conservava a toponímia. "Betão, inacção e embuste" foram os mimos usados por Carrilho contra o presidente e Maria José Nogueira Pinto. A diferença entre Carrilho e o último socialista que tomou conta de Lisboa, é que João Soares, à sua peculiar maneira, "amava" a cidade. Carrilho só gosta de si próprio e finge intermitentemente que se preocupa com Lisboa. Por isso perdeu. Carmona não conta. Falou o roto ao nu.

O REPRESENTANTE


Para a semana, o dr. Pinto Monteiro, o sr. PGR, terá que indicar novo nome ao conselho superior do Ministério Público para vice-procurador-geral, normalmente a criatura que trata da intendência. Com o devido respeito, a coisa é muito simples. Ou o sr. PGR torna a colocar em cima da mesa o nome do dr. Mário Gomes Dias, ou o sr. PGR jamais se libertará da canga corporativa que lhe querem vestir. O dr. Pinto Monteiro, como PGR, é o representante dos "ausentes, dos incertos e dos incapazes" e do Estado enquanto acusador público. Não representa o sindicato do MP.

LENDO OUTROS

O Eduardo Pitta: "Dizer sim, ou dizer não, à «despenalização da interrupção voluntária da gravidez» não é o mesmo que dizer sim, ou dizer não, ao aborto. Um aborto é um aborto. Não é uma moratória judicial. Se o Tribunal Constitucional validar os exactos termos da pergunta, o que vai estar em causa no referendo é uma questão de polícia."

"GRANDES PORTUGUESES"?


Parece que houve sessão daquele magnífico programa da D. Elisa, "Grandes Portugueses". Da RTP, só praticamente vejo os telejornais para tentar perceber até onde é que a falta de vergonha pode ir. Todavia, um amigo avisado teve a desdita de assistir a qualquer coisa. E mandou-me um mail que não resisto a reproduzir:

"Aquela "ideologia" da juventude [Joana Amaral Dias] - a marechala - de cambulhada com a senectude "intelectual" dos "toujours-les-mêmes", foi mesmo patética. Aquele Lourenço [Eduardo] - sempre chato e enredado - já faz pena. Cada vez se parece mais com um oficiante da monita de Loyola. E o Torgal [Reis] (de Coimbra, como não podia deixar de ser) que mordeu ferozmente o Saraiva [José Hermano] - que ainda foi o único que teve alguma graça -, mostrou bem que esteve à altura daquele acamado mental da história de trazer por casa aos domingos. E mais uns quantos "clowns" de serviço."

Não perdi nada, pelos vistos. E "aquele-cujo-nome-não-pode-ser-pronunciado", por este andar, e pelo andar do senhor engenheiro, não tarda nada ainda acaba medalhado.

25.10.06

QUANDO TUDO CAI - 2


Enquanto o telejornal oficioso da RTP prossegue na sua contumaz função propagandística, os outros canais mostram um país devastado por uma intempérie imprevista. Não há "plano tecnológico" que valha na desgraça. Lembrei-me de um post que aqui pus há três anos. As imagens de hoje são cruéis e mostram a realidade como ela é. Como ela continua a ser.

QUANDO TUDO CAI

Um estudo qualquer veio demonstrar que há umas boas dezenas de pontes prontas para cair a qualquer momento. Julgo que o distrito mais penalizado por esta eventualidade é Viana do Castelo. A célebre vaga do betão não pôde, pelos vistos, acudir a tudo. Mesmo as preciosas auto-estradas, os itinerários principais, as vias de circulação internas e externas ou as circulares, estão quase sempre em permanentes alargamentos ou encolhimentos. Até uma obscura rua de uma qualquer nossa cidade, não escapa ao esventramento. A paisagem assemelha-se muitas vezes a um estaleiro. Infelizmente nada disto chega para prevenir o pior. Fica-se com a sensação de que nada se planeia e que tudo é fruto do improviso e da adivinhação. Entretanto, as estruturas envelhecidas e em apodrecimento irreversível, vão cedendo. Como bons parolos, vivemos à superfície armados em "modernos". Só quando tudo cai é que se vê, que, por baixo, não há nada.

SOBRE MANHOSOS


Almada Negreiros, via Minha Rica Casinha

O OUTRO MAPA COR-DE-ROSA

Ora aqui está outra pergunta interessante - tal como as relacionadas com a banca - para colocar ao regime. Se o José Medeiros Ferreira me permite um "adiantamento", talvez não fosse má ideia rever os nomes das criaturas (e respectivas proveniências) que o Estado português tem "enviado" para Moçambique para "gerir" o assunto Cahora Bassa. Era meio caminho andado para perceber o tal "peso" da coisa no "mapa na dívida pública". Bem haja por confrontar o regime com mais um dos seus fantasmas.

EVIDENTEMENTE...

... que a intenção é benemérita. Todavia, por que é que ninguém se lembrou de perguntar ao senhor ministro a razão da revogação do nº 10 do art. º 36º do Código do IRC, perdoe-se-me o "tecnicismo" irritante? É que o número 10 em vigor resolvia, designadamente, as "situações repetidas de abuso por redução da matéria colectável" com a "desculpa" da eliminação da dupla tributação. Mantivesse o artiguinho na sua actual redacção e já não precisava de se "preocupar" tanto com "novas medidas", sr. ministro. Todavia, a banca impõe respeito a praticamente todos os sectores políticos. Por isso há tão poucas perguntas e tão poucas respostas: presume-se que a banca está sempre de "boa-fé". E o respeitinho é muito bonito.

24.10.06

PENA

O prof. Vital Moreira "virou" uma espécie de "Luís Delgado com doutoramento" do governo. Até o prof. Cavaco Silva - porventura esquecido dos mimos com que foi brindado nas eleições presidenciais - o nomeou para presidir às seguramente patéticas comemorações dos 100 anos da implantação da República. O Causa Nossa oscila, pois, entre os ódios e os amores de perdição de Ana Gomes e o "Diário do Governo" explicado às criancinhas pelo prof. Vital. Uma pena.

O DR. CANAS

Por causa das continhas mal feitas nos partidos, aquando das legislativas de 2005, o PS fez-se comentar pela excelsa pessoa do dr. Vitalino Canas. O PS não tem sorte com os seus porta-vozes. Primeiro, foi o dr. Pedroso. Depois, o actual ministro do Trabalho. A seguir, talvez o dr. Coelho, não me lembro, mas, apesar de tudo, o melhorzinho. E agora, o dr. Canas. Não tem jeito nenhum e parece que já pediu para sair. Façam-lhe urgentemente a vontade.

CONVERSA ACABADA

Depois de dezenas e dezenas de inúteis reuniões, é que os sindicatos da função pública - dos da CGTP à UGT - chegaram à brilhante conclusão que andavam a participar em reuniões "fingidas". O dr. Figueiredo já devia ter ficado a falar sozinho há muito tempo.

FAZER DE CONTA QUE O PAÍS NÃO É O QUE É

A hora de almoço também serve para conviver. Em poucas linhas, é o que pretendo fazer por causa dos delíquios em torno da "mariquice". Em primeiro lugar, agradecer ao Pedro Magalhães ter "comentado" a sondagem da Católica e de ter remetido para "outro" comentário. Os esclarecimentos que ali apresenta são cristalinos e não precisam de mais conversa. Depois, aqui, um blogue onde escrevem amigos, pergunta-se parvamente se eu e o Eduardo Pitta somos favoráveis "à subjugação da mulher" ou "à proibição de casamentos interraciais". Oh meus amores, está-se mesmo a ver que somos, não somos? Aliás, e falo só por mim, parece-me que já devo ter escrito umas cem vezes o que penso do casório seja lá entre quem for. Finalmente, a Fernanda. Para além do Roth e do desprezo por certa hipocrisia judiciária e outras coisas que mais se irão descobrir, também temos em comum a opinião sobre o casório. Só que depois, ao zurzir na "bruxa da Areosa", como dizia o Mário Viegas, (Agustina que me releve a lembrança), a Fernanda diz isto: "o problema, obviamente, é que para agustina um par de pessoas do mesmo sexo e um par de pessoas de sexo diferente não são a mesma coisa. não são da mesma natureza." Oh Fernanda, por mais voltas que eu dê à minha tresloucada mona, não consigo enxergar a "identidade" e, muito menos, a "igualdade" na coisa. Quem vive com pessoas do mesmo sexo, fá-lo exactamente por causa da respectiva natureza. Já pensou que não existe relação "mais viril" do que a que se consuma entre dois homens, tal como não há relação "mais feminina" do que a que se desenvolve entre duas mulheres? E que nenhuma das duas hipóteses é da mesma "natureza"? Por consequência, resta uma terceira hipótese que, por mais que doa, é a mais vulgar: quando estão em causa pessoas de sexo diferente. Qualquer destas três hipóteses, de diversa "natureza", merece tutela jurídica? Sem dúvida. Passar para as duas primeiras um instituto que foi concebido para a última, nem que seja a título folclórico? Não. Sabe porquê, Fernanda? Porque o legal e constitucional "princípio da igualdade" manda tratar o igual de forma igual e o diferente de forma diferente. E, não duvide, os "três pares" que lhe apresentei são todos diferentes na respectiva "natureza". Termino com palavras do Pedro Magalhães em resposta a Miguel Vale de Almeida por causa da sondagem: "A verdade é outra. Releio agora os resultados de um inquérito realizado em 1998 em parceria pelo ICS e pelo ISCTE, a instituição onde MVA trabalha, no âmbito do International Social Survey Programme. Questionados sobre as relações sexuais entre adultos do mesmo sexo (e, note-se, nem sequer se está a falar em "direitos"), 73% dizem que a sua mera existência "é sempre errada". MVA pode não gostar de viver num país onde as pessoas respondem desta maneira a estas perguntas. Agora, se o quiser mudar, fazer de conta que o país não é o que é, ou que tudo não passa de uma mera construção da Universidade Católica, não me parece bom ponto de partida." Já estou como o Gore Vidal: se o país seguisse os meus conselhos, era seguramente mais feliz. Como não segue, não vale a pena "fazer de conta que o país não é o que ele é".

BUDAPESTE 1956-2006

Quando for grande, quero escrever no Corta-Fitas. Assim e assim.

APARIÇÃO


Regressado dos mortos, Pedro Santana Lopes esteve ontem na televisão a fazer o que ele sabe fazer melhor: oposição. Com alguma da "autoridade" que lhe advém da circunstância de ter sido primeiro-ministro, "desmontando", por exemplo, o sub-profeta dr. Correia de Campos. Bem vindo.

GRANDES FRASES


"El secreto de la felicidad, o, por lo menos, de la tranquilidad, es saber separar el sexo del amor. Y, si es posible, eliminar el amor romántico de tu vida, que es el que hace sufrir. Así se vive más tranquilo y se goza más, te aseguro."

Mario Vargas Llosa, Travesuras de la niña mala

23.10.06

JUSTIÇA FISCAL SOCIALISTA


Já tinha lido o parecer e o despacho de concordância do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais que permite isto. Desde há anos que o Estado não consegue - vá-se lá saber porquê - manter uma "relação" normal, em termos fiscais, com o sector bancário e vice-versa. São demasiadas as "excepções" e os "despachos casuísticos" para este sector que, como é do conhecimento público, é dos poucos que dá lucro no sector de serviços. O governo de Santana Lopes alterou o número 10 do artigo 46º do Código do IRC (eliminação da dupla tributação económica dos lucros distribuídos) no OE para 2005, uma vez que, por "fas e nefas" interpretativos feitos a propósito de casos concretos pouco claros, as SGPS's, nomeadamente através da banca, usavam e abusavam desta faculdade legal (cujo objectivo era apenas o de resolver a questão da dupla tributação económica dos lucros) para evitar abusivamente toda e qualquer tributação. Por exemplo, no caso das entidades instaladas na Zona Franca da Madeira, este dispositivo do art.º 46º do CIRC não se aplicava, mas antes e exclusivamente o art.º 33º do Estatuto dos Benefícios Fiscais. O mesmo se diga para rendimentos obtidos nas ilhas Cayman ou noutros "paraísos fiscais". Na proposta de OE para 2007, o governo socialista decidiu seguir a "doutrina" do referido despacho, com maior precisão cirúrgica e "abertura": pura e simplesmente revoga o referido número 10, ou seja, repõe a isenção de tributação para a banca, quando, inicialmente, apenas previa alterá-lo (v. pág.52 online). Acontece que se trata do mesmo OE que impôe "rigor", "contenção" e alteração das regras de tributação para os menos "poderosos" - inclusivamente para os deficientes ou para os pensionistas de três dígitos - passe o populismo da expressão. Já sabíamos que o poder político trata bem a banca e que a banca trata bem o poder político democrático. A Associação Portuguesa de Bancos reivindicava, desde há algum tempo, a revogação do nº 10 do art. 46º do CIRC. Foi preciso um governo socialista, o tal da "exigência para todos", para o fazer. Parabéns, dr. João Salgueiro.

OS DIREITOS DE TODOS


O Luís Grave Rodrigues, com toda a legitimidade que lhe advém de ser advogado de causas "fracturantes" - a propósito, como é que está a correr aquele processo das duas meninas que se querem casar? -, dá-me uma valente zurzidela por causa deste post. Esclareço-o, desde já, que aplico a expressão "maricas" a muitas coisas, sem quaisquer intuitos ofensivos. Para não ferir susceptibilidades, troco-a por outra: questões "moles" e questões "duras". Para mim, que não nutro pelo instituto jurídico do casamento qualquer simpatia, discutir se dois same sexers podem ou não casar-se, é uma questão "mole". A instituição matrimonial, a avaliar pelas estatísticas, está em decadência e, por mais voltas que se dê, não foi concebido para pessoas do mesmo sexo. O resto é espectáculo nas televisões e recursos inúteis. Diferentemente, e o Eduardo Pitta já explicou isso bem, não vejo por que não hão-de ser tuteladas juridicamente situações de facto, ou criado um novo status jurídico, para comunhões de vida entre essas pessoas. Esta, sim, é a questão "dura". É, aliás o que diz a "octogenária" e "preconceituosa" Agustina: "todos devem ter os mesmos direitos, mas para isso não é preciso falar de casamento". E, Luís, não seja tão lesto a passar atestados de homofobia a quem não pensa como V., nem imagine, por um segundo, que eu sou "deslumbrado" por quaisquer resultados de sondagens. Se acompanha o que escrevo, acha, sinceramente, que eu me deixo "deslumbrar" com facilidade? Ou que sou homofóbico? Um amigo meu, numa resposta a um daqueles inquéritos patetas de verão, ao lhe ser perguntado o que pensava da homossexualidade, respondeu com uma frase de Almada Negreiros que lhe recomendo para as suas "causas fracturantes": "não te metas na vida alheia se não quiseres lá ficar". Ou então outra, gravada numa t-shirt que vi em Greenwich Village: "homophobia means uncertainty about being heterosexual". Ora, garanto-lhe, Luís, se há coisa que eu não tenho nesta matéria é incertezas. Deixe-se, por isso, de catalogar tão levianamente os outros e respeite os direitos de todos.

22.10.06

CANTANDO E RINDO


"O Governo produz diariamente "agenda" que ocupa tempo dos jornalistas - não lhes permitindo investigar outras coisas - e espaço e tempo nos conteúdos mediáticos. Para conseguir a eficácia deste agendamento - isto é, o controle da importância hierárquica das notícias - o Governo necessita de controlar a marcação da cobertura e atenção mediáticas. Noutro Governo, Jorge Coelho fazia-o através da TSF. Agora, a Lusa é, neste domínio, de capital importância. Controlar a agenda pela Lusa pode significar a inundação dos outros media com informação governamental, deixando de fora acontecimentos previstos que não interessa ao executivo noticiar. "

in "As técnicas da nova propaganda -I", de Eduardo Cintra Torres, in Público


Vim da rua com o cão e começava o "telejornal" da 2:. Apesar de discreto, seguiu à risca o guião. O secretário-geral do PS e primeiro-ministro numa acção partidária nos Açores, a que se seguiu o senhor ministro da Saúde, como, aliás, já tinha acontecido às 20, com o "telejornal" da RTP-1. A diferença é que, em vez dos Açores, era, se não erro, Mangualde. Na 1, a coisa alongou-se através de Luís Filipe Meneses, o "aliado" social-democrata da estratégia informativa do governo. Ele quer palco, a propaganda oficial dá-lhe palco contra Mendes, como lhe compete. No meio da confusão desta semana, passou despercebida mais uma demissão na Lusa. Como diria o outro, lá vamos cantando e rindo.

A PERGUNTA VIRGULINA - 2

Para ajudar a responder a esta pergunta - sem demagogias, arcaísmos, moralismos, machismos, feminismos, e, sobretudo, sem nenhum temor reverencial para com o politicamente correcto, o relativismo e a chantagem jurídico-emotiva - abriu-se este blogue. Somos, graças a Deus, muito diferentes em relação a muitas coisas. E livres. Justamente por isso, podemos estar unidos no essencial: na negativa com que respondemos a essa pergunta. Por motivos diversos que lá irão, a seu tempo, aparecendo.

O MÉTODO E OS PROTAGONISTAS

O Orçamento de 2007 vai ficar na história desta maioria como a primeira cavadela na respectiva sepultura. E não, não é por causa do irrelevante Manuel Alegre ou dos "lapsos" em certas rubricas. É tão simplesmente porque, embora haja coisas inadiáveis e indispensáveis para serem feitas, o método e alguns protagonistas do método, não dão confiança nem a um morto.

O ESTALINISMO DEMOCRÁTICO

Por causa desta entrevista ao DN, Nuno Gaioso Ribeiro, que eu não conheço de lado nenhum, e que é o "número dois" do PS na Câmara Municipal de Lisboa, viu retirada a "confiança política" por parte da eterna concelhia de Lisboa do partido, presidida por esse dinossauro que dá pelo nome de Miguel Coelho. Ele é dinossauro, não por causa da idade (é novo), mas por causa da cabeça (velhíssima e caciqueira). Isto tudo porque Gaioso pôs em causa o "trabalho político" desse modelo de vereador virtuoso que tem sido Manuel Maria Carrilho. Para além de - acrescenta Coelho -ser um "vaidoso", o que certamente aprendeu com o "número um" por quem Coelho nunca morreu de amores. Agora, exige a demissão de Gaioso. No PC, estas coisas têm a ver com algo a que eles chamam "centralismo democrático" e a que eu chamo estalinismo "democrático". Lá por ser da "esquerda moderna", não me ocorre melhor designação para o método de Coelho.

NÃO SEJAMOS MARICAS - 2

Digamos que, em complemento a este post, o Eduardo Pitta - que não é jurista - explica melhor do que eu o "estado da arte" legislativa nesta matéria. E, em jeito de esclarecimento que não tenho que dar, mas que me é suscitado por "comentários" néscios que fui forçado a eliminar, sempre direi que não falo das minhas opções sexuais em público. Quem as quiser discutir comigo, é só enviar um mail e combinamos o hotel e o quarto.

"(...) O problema são as pessoas comuns. Portugal tem, há cinco anos, uma Lei que regula as uniões de facto. Todas as uniões de facto. É a Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio. Não é, como muita gente julga, uma Lei para as uniões de facto homossexuais. É a Lei geral, para heteros e homos. O que falta regular nessa Lei prejudica por igual a Maria que vive com o José, o António que vive com o Luís, e a Julieta que vive com a Fernanda. (...) A democracia regulou as uniões de facto, sem acautelar o essencial, e o guterrismo meteu os homossexuais no mesmo saco, mantendo as lacunas. Portanto, até ver, a Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio, tem utilidade para efeitos fiscais, assistência na doença, precedência na marcação de férias em pé de igualdade com os casados, contratos de arrendamento, empréstimos bancários e pouco mais. É claro que o instituto do casamento resolvia o que falta resolver. Mas para quê, se é possível obter o mesmo regulamentando a Lei que existe? (...)"

21.10.06

LER OS OUTROS

O Pedro Correia, "É favor apagar a luz".

NÃO É FÁCIL DIZER BEM - 6


Numa fulgurante entrevista ao Sol, José Rodrigues dos Santos não faz a coisa por menos: "sou o rei da síntese". É bom lembrar - sobretudo para aqueles que não tiveram a felicidade de passar o verão na praia agarrados ao "Codex 632" - que Rodrigues dos Santos pariu, no ano corrente, uma das prosas mais vendidas do ano, a tal que mistura sopa de peixe com leite das mamas. Cento e vinte mil exemplares dão bem a dimensão da nevrose colectiva. Aos poucos, com paciência e método, Rodrigues dos Santos vai "evoluindo" de jornalista para "Paulo Coelho". Depois da "história", este "autor" quer agora, com a sua nova obra "A fórmula de Deus", "tentar provar a existência de Deus". O nosso "Coelho", por enquanto, é mais modesto do que o original, já que se contenta com umas tretas pseudo-inspiradas e pseudo-cultas, enquanto o outro nos pretende rigorosamente salvar. Lá chegará, dada a tal "realeza da síntese" que perpetra na sua "obra literária". Para já, o novo livro de dos Santos "tem descobertas da ciência" que - como lhe poderemos agradecer tamanha graça? - "levo ao grande público". Depois, vem esta pérola esmagadora: "se queremos provar a existência de Deus temos que procurar duas coisas: inteligência e intenção". Como diz o outro, importa-se de repetir? Tal como a "elite portuguesa" - de que Rodrigues dos Santos diz "achar-se muito importante" - também ele, pelos vistos, se acha "muito escritor". Nem aquela, nem ele são uma coisa nem a outra. Apenas se merecem. Não é fácil dizer bem.

DEIXAR PASSAR A CARAVANA

O dr. Cluny, com invejável clareza, num almoço de homenagem ao dr. Souto Moura, "alertou" para a "mexicanização" (sic) do MP caso seja aprovada legislação que desvalorize o papel do respectivo Conselho Superior, nomeadamente dando liberdade ao procurador-geral para escolher os seus mais directos colaboradores, leia-se, o vice-procurador-geral. É tudo, naturalmente, em nome da "autonomia". O poder político, sem intimidações ou complacências para com estes "recados sindicais", tem o dever de apoiar o PGR que nomeou e deixar passar a caravana.

NÃO SEJAMOS MARICAS


Aos oitenta e quatro anos, com a mesma complexa simplicidade com que escreveu que "a alma é um vício", Agustina Bessa-Luís, numa entrevista ao Sol, fala de costumes. E dá uma lição - pode aprender-se na "província" a ser-se cosmopolita e estudar na "cidade" sem nunca deixar de ser provinciano - a criaturas com o Frederico Lourenço, a Amaral Dias, o Vale de Almeida, os "ILGAS", a Câncio, os "JS's", os "JSD,", os "BE's" etc. etc. sobre o casamento e as opções sexuais. Perguntada acerca de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, Agustina afirma que "falar de casamento entre pessoas do mesmo sexo é distorcer o seu sentido". Mais. "Ao longo da vida conheci homossexuais brilhantes a nível intelectual que não eram capazes de encarar o casamento. Uma coisa são os homossexuais, outra são os maricas (...) Os maricas querem todas essas prerrogativas, como o casamento. Os homossexuais não... Todos devem ter os mesmos direitos, mas para isso não é preciso falar de casamento". Vem isto a propósito de uma sondagem da Católica/Público/Antena 1/RTP sobre "vícios privados e públicas virtudes" que começou ontem a ser divulgada em relação ao aborto e que prossegue na edição de sábado para temas como a educação sexual nas escolas, a eutanásia, a prostituição, o consumo de drogas, a ordenação de mulheres, o uso de embriões e células para investigação, as quotas, a pena de morte e, finalmente, os direitos dos homossexuais. Os resultados são divertidos e demonstram, uma vez mais, que a raça não é para ser levada a sério. À cabeça, o mesmíssimo universo que ontem se inclinava maioritariamente para o "sim" ao aborto, acha que o "objectivo mais importante para a nossa sociedade hoje em dia é - imagine-se - "promover maior respeito pelos valores sociais e morais tradicionais" (37%), dividindo-se o resto pela "tolerância"e pelo "encorajamento" de outras "tradições e estilos de vida"(27%) ou por ambos (24%). Esta ambivalência, como explica caridosamente o Pedro Magalhães - está na hora de o Pedro começar a colocar estes estudos no seu blogue e de os comentar para se perceber como "evoluem" -, faz com que o dito universo seja claramente a favor da eutanásia (65%), da legalização da prostituição (55%), do sacerdócio feminino (58%), do uso de embriões para fins cientificos (45%, com 30% contra) e das quotas (48%, para 30% contra). Em oposição à pena de morte estão apenas 46% (41% a favor) e existe uma vantagem nítida (56%) para os que não querem outorgar nenhuns direitos "familiares" a same sexers, e ainda mais (67%) dos que são contra a adopção por estes. Finalmente, 64% dos inquiridos são contrários à legalização do consumo de drogas leves. Tudo visto e ponderado, constituímos uma sociedade "aética" em que a "norma" vale muito dentro de casa e para os outros, e começa a valer menos assim que se desce as escadas ou se apanha o elevador para a rua. Hipócritas, esquizofrénicos, mal amados, mal "sexuados", mal resolvidos, queremos, para as nossas vidas, o céu e o inferno, o tudo e o seu nada. Por isso a infelicidade anda espalhada como pó invisível pelos "lares" contentinhos de tantos portugueses. E por isso existe tanta gente que não quer votar no referendo sobre o aborto o qual, par delicatesse legislativa, foi transformado numa coisa "sexista", através de uma pergunta politicamente correcta e formalmente errada que ilude o essencial. Em matéria de costumes, já estou como a Agustina. Não sejamos maricas.

O MURO DAS LAMENTAÇÕES


Quando dei início a este blogue, pouco tempo depois de ter largado a direcção do Teatro Nacional de São Carlos, perpetrei muito sobre a "cultura" e o seu ministério. Cheguei a afirmar publicamente, no Expresso, que Manuel Maria Carrilho tinha sido "o" ministro da Cultura e que, daí para diante, só apareceram fantasmas. Como é que se explica isto? Carrilho tinha o dinheiro que Sousa Franco lhe deu - pastavam, nesse tempo, as "vacas gordas" - e tinha, em relação ao assunto, a cabeça relativamente bem arrumada. Sabia, em suma, mandar. Na melhor - ou pior, conforme as opiniões - tradição francesa, Carrilho imaginou, legislando em conformidade, um Estado culturalmente activo, fosse no sentido das artes e espectáculos, fosse no sentido da preservação dos bens culturais. Não me lembro, porém admito que tenha atingido o mítico 1% do OE que, tendo-lhe sido retirado a dada altura, o levou a abandonar o barco e a ser um dos mais eficazes e virulentos críticos de António Guterres. Isabel Pires de Lima, coitada, foi forçada a recuar até aos 0,4% o que, no PIB, representa 0,1% "em cultura". Esta decadência da instituição "MC" fez-me pensar duas vezes e - não por que seja liberal ou outra treta congénere - defender a sua extinção. Cabe ao Estado, agora tão emproado na sua "inovação" e "reforma", encontrar novas formas de empregar o dinheiro atribuído à cultura, privilegiando a subsistência do património nacional, intelectual e físico, e deixando para outra coisa qualquer - tipo "conselho geral das artes e espectáculos" (onde teriam assento o Estado, os mecenas que não compete apenas ao Estado "arranjar" mas, e sobretudo, a quem precisa deles e os representantes destes) - a gestão do subsídio. É bem mais realista do que fingir um ministério que mais parece um muro das lamentações.

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Qual loira, qual carapuça...

A PERGUNTA CERTA

Concorda com a liberalização total do aborto quando praticada até às 1o semanas?

20.10.06

A PERGUNTA VIRGULINA

7348-(6) Diário da República, 1.a série—N.o 203—20 de Outubro de 2006

ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Resolução da Assembleia da República n.o 54-A/2006

Propõe a realização de um referendo sobre a interrupção
voluntária da gravidez realizada
por opção da mulher nas primeiras 10 semanas
A Assembleia da República resolve, nos termos e
para os efeitos do artigo 115.o e da alínea j) do
artigo 161.o da Constituição da República Portuguesa,
apresentar a S. Ex.a o Presidente da República a proposta
de realização de um referendo em que os cidadãos
eleitores recenseados no território nacional sejam chamados
a pronunciar-se sobre a pergunta seguinte:

«Concorda com a despenalização da interrupção
voluntária da gravidez, se realizada, por opção da
mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento
de saúde legalmente autorizado?»

Aprovada em 19 de Outubro de 2006.

O Presidente da Assembleia da República, Jaime
Gama.

O NADA


O Filpe Nunes Vicente tem razão. Só se deve ligar à merda quando andamos distraídos. Todavia, o episódio do Rivoli - como tem sido bem sublinhado por Pacheco Pereira que é insuspeito de ser bronco - releva igualmente de outras coisas. A farsa que o sr. Alves e a sra. D. Regina têm vindo a montar, desde o Teatro até ao Tribunal de Pequena Instância Criminal do Porto, com a cumplicidade - não sei se analfabeta, se propositada, o que é mais grave - de vários jornalistas, não pode obter a complacência do Estado por interposta Isabel Pires de Lima. A ministra da Cultura que, sobre o assunto, tem revelado uma dislexia inadmissível - na boca dela, o episódio já foi de "original" a "ilegal" - parece que vai "receber" esta gente na segunda-feira. É um gesto gratuito e politicamente errado. Daqui para diante, qualquer "criativo subsidio-dependente" fica autorizado a fazer o que bem lhe apetecer porque a sra. ministra está "disponível" para qualquer coisa. Não foi ela, aliás, que usou essa extraordinária expressão "tecido cultural" para se referir a estes mendigos "culturais" que o IA, pago por nós, alimenta? Para se perceber que, no meio, não existe vergonha na cara, a inevitável dupla Cintra e Silva Melo com que o Estado anda sempre ao colo, em declarações indignadas ao Público (sem link), profere barbaridades deste género:

"Saúdo a vossa determinação, coragem, sentido do dever, sacrifício e generosidade. E é claro que vos agradeço: vocês revelaram, com esta vossa acção desamparada e crua, como, ao contrário do que se diz, existe uma política cultural da direita, de que Rui Rio será o claro guia (mas outros se seguirão, fotocópias que aguardavam o gesto original). (...) Vocês revelaram a constante inconsistência da política do Ministério da Cultura (...). Que vos ponham ao frio, à sede, à fome e à polícia (em nome, é claro, da democracia, do mercado ou mesmo da cultura); (...) que se troque o espaço comum de liberdade, criação, dúvida e prazer - que deveriam ser os teatros - pela cultura da diversão são histórias que não começaram ontem, nem começaram com esta Câmara do Porto, que tem a vantagem de ser clara na alarvidade dos seus propósitos e na brutalidade dos seus meios."
Jorge Silva Melo, director dos Artistas Unidos


"O que têm estado a fazer é muito importante para levantar problemas que transcendem o próprio caso sinistro do Rivoli. Toda a política de espectáculos é uma aberração, porque não tem relação com o problema fundamental dos espaços (...). Quando as salas vão parar às mãos de gente sinistra, o que cada vez é mais provável (...), a actividade ainda apoiada (...) deixará de existir, porque deixará de fazer sentido apoiá-la. E assim se chegará (o próprio Estado) ao puro comércio nas artes do espectáculo. O que é ainda mais grave é que isso não preocupará as maiorias e (...) a batalha é mais difícil. Mas pelos vistos sem ocupas nem chega a haver guerra."
Luís Miguel Cintra, actor e director do Teatro
da Cornucópia

Para tiradas destas - sobretudo as de Cintra que não tem pingo de motivo para se queixar, já que as de Silva Melo são meramente delirantes - não existem respostas racionais. Elas valem por si. Ou seja, o mesmo que nada.

CÂMARA ARDENTE

Se se conjugar a infeliz entrevista que o engº Carmona Rodrigues deu à SIC-Notícias, esta semana, para "comemorar" a sua gloriosa vitória de há um ano, com esta outra do sr. arquitecto Gaioso, do PS, é forçoso concluir que a maior Câmara Municipal do país está nas mãos de irresponsáveis. Maria José Nogueira Pinto e a sua vasta corte de "pp's" assessores, o voluntarista Ruben de Carvalho ou o lunático Sá Fernandes, podem pouco perante tamanho desvario. O Joãozinho está praticamente perdoado. E Santana Lopes, não tarda, também.

19.10.06

A REPÚBLICA "VELHA" REVISITADA


Só agora li o artigo da Fernanda Câncio e de uma sua colega do Diário de Notícias, intitulado "Estado português financia "actos de culto católico" em Roma". O texto versa e discute a manutenção, a expensas do Estado, do Instituto Português de Santo António em Roma, bem como o funcionamento da Igreja de Santo António dos Portugueses. De acordo com o artigo, o PRACE prevê a transumância do instituto da tutela do Ministério das Finanças para o MNE, coisa que as jornalistas e uma sumidade de direito internacional, Jonatas Machado, ouvida (alguém que me proporcionou uma aula divertidíssima, em Coimbra, numa pós-graduação que frequentei) , contestam. Aliás, o título do artigo é, de per si, perfeitamente eloquente. Para além disso, as jornalistas escudaram-se na "indignação" de uma coisa chamada "Associação Cívica República e Laicidade" que, como lhe competia, já pediu "esclarecimentos" ao dr. Teixeira dos Santos. Estamos a três anos de comemorar um século sobre a "implantação da República". Pelos vistos, em cem anos, não aprendemos nada com a sua desgraça e com o seu jacobinismo primário. Será que um instituto que, como se escreve no artigo, possui uma "estrutura simples", com um reitor e um secretário, faz a ruína do Estado português? E a igreja, idem? Eu sei que não é por isto que se escreve e protesta. É o princípio constitucional da separação da igreja e do Estado, e a laicidade deste último, que move estas boas almas, igualmente filhas do Senhor como os que frequentam o instituto e a igreja. Muito bem. Também estou de acordo, com uma condição. É que a Fernanda, a sua colega, os "associativos" jacobinos e o prof. Jonatas, na sequela deste artigo - imagino que daqui para diante terão "pano-para-mangas" - preparem outro a defender a abolição dos feriados religiosos (católicos) que os ditos "associativos" querem transformar em "feriados pessoais ou de outras religiões". E expliquem isso bem explicadinho ao "povo" - o mesmo que a República, há cem anos, jurou defender com o sucesso que se conhece - para ver se ele gosta. Por mim, estou esclarecido. Basta-me olhar para as fotografias que "ilustram" o site da "Associação".

LENDO OUTROS

Pensava que a Joana já era crescidinha. Afinal, não aprendeu nada com o dr. Soares.

UM CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO

Depois do "ajudante" do dr. Manuel Pinho - foi este quem criou esta enrascada legislativa com a electricidade e é ele quem vai arranjar "uma solução", espera-se, brilhante -, veio o dr. Amaral Tomás, dos Fiscais, "garantir" que a retirada de benefícios fiscais a deficientes só vai afectar uns cento e tal. Como se isto se medisse assim, às dezenas ou às centenas. Por este andar, antes do congresso do PS, o engº Sócrates devia promover um congresso extraordinário nas cabeças dos membros do governo. Se chegam assim ao referendo, ainda têm uma surpresa.

O SR. GUERRA

O dr. Fernando Pacheco e o dr. Ribeiro da Silva - respectivamente, ex-secretário de Estado do Orçamento do dr. Pina Moura e seu braço direito na administração da Iberdrola em Portugal, e ex-secretário de Estado da Indústria de um governo de Cavaco, presente administrador de uma empresa que comercializa energia eléctrica e ex-tocador de pandeireta num famoso grupo cantadeiro durante o PREC - querem (o "mercado" o exige) que o consumidor pague, e pague bem, o fornecimento de electricidade. Por consequência, "ponderam" (ameaçam?) se vale a pena concorrer se os 16% de aumento previsto "descerem muito". Pelos vistos, o sr. Guerra, o secretário de Estado da Energia e Inovação, que confessou "um mau momento" em relação à parvoíce de ontem, é porta-voz desta maravilhosa concorrência. Disse por eles o que eles não podem dizer. O que é que ele ainda está a fazer no governo?

COM CERTEZA?

Leio no Diário de Notícias que o senhor ministro da Saúde garantiu - "com certeza", disse ele - que o Serviço Nacional de Saúde está apto, no caso do "sim" ao aborto vingar, para o praticar. Com certeza. Então, por que é que o SNS, em vinte e tal anos, não criou as condições para que se cumprisse a lei em vigor e agora Correia de Campos vem, afinal, dizer que está tudo pronto para acolher as senhoras e as meninas que desejem abortar? Mesmo que isto fosse verdade - alguma vez o SNS está pronto para alguma coisa? -, como é que o senhor ministro explica que o dito Serviço esteja maduro para o aborto e não funcione como devia funcionar para as urgências, para as consultas externas, para as cirurgias ou para outras valências? O aborto é prioritário para o SNS? Espero bem que não.

SE UMA MINISTRA....


... num dia de outono...

O FESTIM NU

Ainda não começou o festim em torno do aborto e já os "abutres" andam a fazer as habituais continhas. Julgava que isto era uma questão de consciência e não exclusivamente de mercearia. Mas isso sou eu, que sou "reaccionário". A coisa promete.

UM CASO DE POLÍCIA - 3

A "Rivolição" - só o termo é todo um programa "cultural" - terminou como já devia ter terminado há três dias. As declarações de um dos ocupantes do Teatro sobre a respectiva e legal remoção, também constituem todo um programa. Não se esqueçam de lhe dar um subsídio.

18.10.06

ARTES POÉTICAS

Agora, uma coisa verdadeiramente boa. No blogue de Inês Lourenço, recomendado por um amigo do Porto, esta sequência de posts que formam um artigo de Joaquim Manuel Magalhães ("Poema acompanhado de prefácio - um muro incolor") publicado numa - presumo que - efémera e esgotada revista, Hífen, Cadernos de Poesia, 1994: um, dois, três.

O "PATERNALISMO CULTURAL"

Esta questão colocada pelo João Miranda tem a sua razão de ser. O "paternalismo cultural" sustenta aberrações que passam por ser "criativas", "originais" ou o raio que as parta, todas devidamente subsidiadas pelo OE. Felizmente - nunca pensei vir a utilizar este advérbio para a "cultura" - o orçamento de Estado para 2007 obriga os organismos na sua tutela - designadamente o Instituto das Artes que gere a subsidio-dependência destes "criativos" - a baixar a bitola. Por outro lado, e apesar das leis orgânicas dos teatros nacionais definirem a criação de "novos públicos" como um dos objectivos do respectivo desempenho, não só nunca se percebeu muito bem o que é que isso quer dizer, como, com raríssimas excepções, jamais foram dados passos para chamar aos teatros outros espectadores que não os triviais. É por isso que se deve questionar a subsistência do ministério da Cultura "qua tale". Se é para gerir a mercearia, qualquer outro organismo menos complexo o poderá fazer. Para que as coisas existam e, depois, não tenham nem condições financeiras para funcionar, nem se possua a noção do que é prioritário - os bens culturais móveis e imóveis, em suma, o património físico e intelectual -, mais vale estar quieto. Que o IA não tenha dinheiro para subsidiar "grupos" como os que se encontram "barricados" no Rivoli, não me tira o sono. Que o Estado não tenha dinheiro para conservar livros ou manter museus abertos, já me aborrece. O resto é paisagem e o comendador Berardo.

QUEM MANDA

Os "argumentos" revelados ao Público por alguns magistrados do MP - que pediram o anonimato - acerca do "chumbo" do dr. Mário Gomes Dias, seu colega, para procurador-geral adjunto, são muito interessantes. De acordo com as referidas sibilas, Gomes Dias será "conservador", tem posições "de direita", está há muito tempo afastado dos tribunais e foi, finalmente, dirigente da PJ nos idos de 70. Sem querer, estes magistrados anónimos foram traídos pelo respectivo inconsciente. Ficamos a saber que, dentro da PGR, há quem proceda à "arrumação" política dos colegas, com o dr. Cluny a lavar as mãozinhas destas "posições". A PGR, como os professores, está refém do seu sindicato. Oxalá Pinto Monteiro (que vem de fora) não transija e, dia 3, apresente a votos, de novo, Gomes Dias. Se o não fizer, jamais mandará realmente.

A CORRENTE ELÉCTRICA

Uma desgraça raramente vem sozinha. O dr. Manuel Pinho tem um secretário de Estado para a Energia e a Inovação que atribuiu o aumento de 16% na electricidade, no próximo ano, ao mau desempenho dos consumidores. Segundo este senhor, de nome Castro Guerra, existe um "défice" que tem que ser colmatado com o dito aumento, défice esse causado pelos consumidores. A EDP, a empresa que distribui a energia eléctrica que eu preciso, quer eu queira, quer não (não há outra), é gerida pelo dr. Mexia, um amigalhaço dos drs. Pina Moura e Santana Lopes. Tem lucros colossais. E agora, com o beneplácito do sr. Guerra e com a esfarrapada conversa da "concorrência", do "mercado e da "entidade não sei de quê", espreme-se o nefando cliente nos termos enunciados. Eu sei que não é o governo a determinar esta chulice. Todavia, convinha que o primeiro-ministro - já que estamos a falar de um ministério politicamente incapaz - pudesse evitar estes pronunciamentos idiotas. Porque, em última análise, é directamente a ele que tudo vai parar, mais tarde ou mais cedo. Como uma espécie de corrente eléctrica.

Adenda: Nem tudo é mau ou mesmo péssimo. Três das sete SCUT's vão ter portagens. Só faltam quatro ou três, já que a A22 não tem alternativa. Apesar de concordar com as portagens nas SCUT's, nunca é demais lembrar que é mais uma "promessa eleitoral" que foi varrida para debaixo do tapete. Sócrates terá decidido fazer o mal todo de uma vez? É que se for assim, é de esperar o pior da fase do "bem".

APAGÃO

Motivos informaticamente obscuros, fizeram com que o Portugal dos Pequeninos sofresse um inexplicável apagão. Porém, como diria o Santo Padre, nós somos fortes. E seguimos em frente.

CRIME E CASTIGO

Não gosto de falar de mim e muito menos do que faço "na vida". Todavia, no caso em apreço, já fiz e já deixei de fazer há mais de cinco anos. Depois disto, e sendo interpelado pela Fernanda Câncio nos comentários a este post, respondi nos termos que lá se encontram. De seguida, a Fernanda foi à "história"e relembrou casos mais ou menos conhecidos de violência policial. Só umas observações. Os casos que a Fernanda acompanhou jornalisticamente, ou acontecerem antes da criação da IGAI, ou foram seus contemporâneos. Até ao ministro Figueiredo Lopes, incluído, - isto é, com Alberto Costa, Jorge Coelho, vagamente Fernando Gomes e Severiano Teixeira - a IGAI teve todo o apoio político e institucional para reverter, com êxito, os padrões comportamentais dos agentes policiais e de, quando tal se justificava, os perseguir disciplinarmente ou encaminhar para a entidade judiciária competente. Como ninguém é perfeito, de vez em quando as coisas correm mal. E correm mal quer para os cidadãos, quer para os agentes. Manusear uma arma de fogo não é exactamente uma brincadeira. Não o é quando, em vez de "atirar" aos pneus, o agente "atira" ao vidro. E não o é quando um agente aborda um cidadão e ele responde-lhe, como aconteceu o ano passado nos arredores de Lisboa, à bala. Para ambos os casos, existem investigações e a lei. Para agentes da autoridade e cidadãos, há - partindo do princípio virtual que somos um país a sério - crime e castigo. O que não pode haver é vítimas menos vítimas do que as outras. Um homem morto é sempre um homem morto, independentemente de ter roubado um carro ou de ter perseguido o carro roubado. O "deixá-los fugir" do actual IGAI pode ser uma cacha "gira" se for dita por mim ou por si, Fernanda. Dita por um magistrado nas funções que Clemente Lima ocupa, já não tem tanta graça.

UM CASO DE POLÍCIA - 2

O Público, muito meritoriamente, decidiu "dar voz" ao "protesto" em curso no Teatro Rivoli do Porto. Não se poupa a nada e até tem um blogue onde aparecem coisas como esta. Quem, sem saber nada, ler o que por ali se vai escrevendo, pode julgar que os energúmenos que se enfiaram dentro do Teatro há três dias, foram lá postos, a pão e água, pela Câmara Municipal. Não foram. Ficaram lá depois de um "espectáculo", em protesto. Estão lá voluntaria e inconsequentemente. As televisões, escandalizadas, mostram imagens dos coitadinhos atrás das portas do Teatro como se estivessem presos. Às vezes, em momentos mais perturbados, tendo a pensar que já somos crescidinhos. Felizmente a realidade abre-me os olhos e fico mais descansado. Este episódio de cariz revolucionário-folclórico, digno do pior PREC, é um bom retrato da "cultura do subsídio" e da subserviência larvar dos media perante a indigência dita "criativa". Basta que se mencione Rui Rio para eles puxarem imediatamente da pistola.

17.10.06

O HOMEM DO "LINGUADO"


Apesar dos "calores", ele merece esta singela homenagem. Keep going.

LER OS OUTROS

Este bom exercício político-memorialístico do Pedro Correia. Sabes, Pedro, como diz algures Claudio Magris, a hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude. Ou vice-versa, acrescento eu.

COMO ELES DIZEM

O senhor conselheiro Pinto Monteiro imaginou, durante uma semana, que ia mandar nos senhores magistrados do Ministério Público. Os senhores Presidente da República e Primeiro-Ministro imaginaram o mesmo. O Conselho Superior do Ministério Público já veio "repôr a legalidade" e dizer quem é que efectivamente manda na PGR. "Autonomia", como eles dizem.

A BEM DA NAÇÃO

O governo da "esquerda moderna" faz os possíveis e os impossíveis para que, quem trabalha, morra em serviço, como um "herói". Pelo caminho que as coisas levam, mais vale estar morto do que ser pensionista.

"DEIXÁ-LOS FUGIR?"

Um agente da GNR foi baleado no decurso de uma operação. Há dias, outro, da brigada de trânsito foi atropelado mortalmente. O senhor inspector-geral da administração interna ainda pensará que, na dúvida, o melhor é a polícia "deixá-los fugir"?

IMPOSTOS E CASAMENTOS


A "família" tradicional - marido e mulher - tem um novo aliado no senhor ministro das Finanças. Com método, Teixeira dos Santos explicou que, ao equiparar o limite das deduções de IRS ao dos "solteiros", não só causa automaticamente mais "justiça social" - este insuportável jargão que serve para tudo - como evita que os casais espertalhões entreguem declarações como se fossem solteiros. Todavia, o argumento mais divertido foi mesmo o do encorajamento à "família", à ideia de "constituir família". Faz-me lembrar aqueles assistencialistas formados no "antigo regime" que, nas visitas boazinhas aos bairros paupérrimos, achavam que os "pobres" se "salvavam" casando uns com os outros. A diferença é que, daqui a umas semanas, esta mesma rapaziada vai andar aí, pelas ruas, a defender o aborto. Enfim, coisas da "esquerda moderna".

LER OS OUTROS

Sobre os "Prós & Contras" de ontem à noite - no qual Fátima Campos Ferreira se comportou com uma seriedade irrepreensível perante o inesperadamente disparatado Saldanha Sanches e o autoritarismo "democrático" (vêem como a sombra "daquele-cujo-nome-não-pode-ser-pronunciado" espreita por detrás do mais resoluto democrata ?) do senhor ministro de Estado Costa (e Deus sabe o que eu penso de autarcas em geral) -, o José Pacheco Pereira: "António Costa foi de uma agressividade malcriada, roçando o insulto, autoritário e demagógico até ao limite. Fernando Ruas comportou-se com uma enorme delicadeza de trato face aos golpes baixos do Ministro, aos quais não era alheio um desprezo intelectual pelos seus interlocutores. E de "classe", diriam os marxistas, face a um Portugal a que ele claramente se acha superior. Por muito sofisticado que queira ser esqueceu-se de uma regra que funciona magnificamente em televisão: aqueles homens alguns rudes, outros tímidos, transmitiram muito melhor um sentimento de "dedicação" ao seu "povo" do que o governante, que se ria deles."

UM CASO DE POLÍCIA


A palhaçada que, presumo, ainda está em curso no Teatro Rivoli, do Porto, é um sinal da complacência com que se encaram, no nosso país, as chamadas "manifestações artísticas". Com a desculpa que são "artistas", os delinquentes que se encontram lá dentro têm direito a "directos" nas televisões e nas rádios, a páginas de jornais e, amanhã, à própria ministra da Cultura que acha isto, do alto da sua total irresponsabilidade, uma "original forma de luta". Pires de Lima, escudada no seu ódio de estimação por Rui Rio, não percebe que, ao aceder encontrar-se com os referidos delinquentes, está - porque não é propriamente um cidadão qualquer - a comprometer o Estado numa macacada urdida por dependentes do subsidiozinho do costume e pelo Bloco de Esquerda. O "giroflé-giroflá" de ontem, à volta do Teatro, não deixa margem para dúvidas. Se Pires de Lima aparecer aos delinquentes para "mediar" não se sabe bem o quê, deve ter de seguida a hombridade de se demitir. Não gosto que os meus impostos sejam desviados para o que não devem ser. E, no assunto vertente, só se fossem para cumprir a lei. Isto é um caso de polícia e não um caso de "cultura". Perceba isso enquanto é tempo, senhora professora.

Adenda: Sra. Prof.ª, em vez de se oferecer como "mediadora" num número circense, por que é não trata antes do que lhe compete, como, por exemplo, deste equívoco criado por si no Teatro Nacional D. Maria II ?

16.10.06

UM CONSELHO

Nunca tinha visto mais gordo o presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, o engº José Agostinho Ribau Esteves. Parece-me, no entanto, que o dr. Marques Mendes faria bem em o ter mais perto de si.

ÀS CAVALITAS

Com aquela mania de andar às cavalitas dos outros, um trejeito bem descrito por Durão Barroso num congresso do PSD em Tavira - mal sabia ele que as primeiras costas seriam as suas -, o CDS do dr. Castro prepara-se para votar favoravelmente o OE do PS, se "não sei quê" de absoluta irrelevância. Esta "síndrome do Tivoli" - que acompanha o dito CDS desde os tempos de um furtivo encontro do dr. Monteiro com o bonzinho Guterres justamente por causa de um orçamento e que teve um feliz desfecho, a seguir, com o senhor do "queijo limiano" - diz bem do estado miserável "desta" direita. O dr. Castro é um mau líder para "esta" direita e os seus putativos sucessores não lhe ficam atrás. À força de procurar tantas costas para se pendurar, o CDS/PP acabará um dia por perceber que não sabe andar sozinho. E o país também.

CABEÇAS DE FLORIBELA

Não acompanho a posição da Fernanda Câncio sobre o aborto. Todavia, reconheço-lhe, nesta e em outras questões, um pensamento coerente, corajoso e autónomo. Nem sequer acho que seja uma questão de "causas" (uma expressão que me irrita). É uma questão de carácter, coisa rara num país de invertebrados. Por isso, considero inadmissível que o jornalista que a TVI - o único que vi - enviou ao CCB para "cobrir" um colóquio do PS, se tivesse referido à colega jornalista ( que foi uma das participantes) como a "namorada" do primeiro-ministro, como se ela não existisse senão por referência àquele. O dr. Albino Aroso, outra pessoa séria que também lá estava, é capaz de ser casado e ninguém se lembraria de falar na mulher. É tempo de as televisões reverem alguns dos seus jornalistas. Sobretudo aqueles que têm cabeça de Floribela.

OS TRABALHADORES E OS OUTROS

O sr. Peres Metelo, na TVI, distinguiu "trabalhadores por conta de outrem" dos "funcionários públicos", como se estes trabalhassem por conta da Lua. E foi extremamente claro. Para os primeiros, melhorias no OE aprovadas pelo propagandista, perdão, comentador. Para os segundos, piorias no OE, igualmente apoiadas pelo mesmo comentador. O orçamento para 2007 suscita-me duas questões. A primeira, para que servem os famosos "controladores financeiros" que o governo espetou em todos os ministérios se não conseguem sugerir o óbvio, acabar com alguns deles, em vez de aprovarem 14 novas leis orgânicas para cada um, menos o da Defesa? A segunda, se o governo conta poupar 340 milhões de euros em todos os ministérios, à conta dos "outros", por que é que não tem balls para introduzir as SCUT's que lhe dariam uma receita entre os 700 e os 800 milhões? É que - não sei se os "trabalhadores por conta de outrem" sabem - mas os "outros" e respectivos pensionistas, também pagam impostos.

OS VOTINHOS

O ministro da Saúde, aparentemente sem se rir, veio "sugerir" aos senhores doutores do SNS que apoiem a legalização do aborto, como se não houvesse nenhum problema com o referido SNS a não ser este. O senhor ministro, o mesmo que jurou que ia cumprir a lei em vigor ou, em alternativa, "pagar" - os impostos pagarem - abortos em clínicas privadas, é o mais recente evangelista da causa do "sim". Estou para ver qual vai ser a maravilhosa pergunta que o Parlamento vai aprovar para o referendo. É por esta gente, por estas coisas e por outras que, às vezes, há surpresas nos votinhos.

O ADEMANE DISPENSÁVEL


Em pleno PREC ou logo a seguir, já não me lembro, fui assistir a uma peça da Comuna, na antiga fábrica de cervejas na Almirante Reis. Acabada a peça, foi anunciada uma passeata - que não acompanhei - até à Praça de Espanha para se "ocupar" um palacete o qual, até hoje, é a sede do Teatro da Comuna. Muito bem. Hoje de manhã, no carro, apercebi-me que uns "artistas" do Porto se tinham "barricado" no Rivoli em protesto contra a "privatização" do mesmo por parte da Câmara Municipal. Pelo Eduardo Pitta, toma-se conhecimento que a sra. ministra da Cultura - que mal pode ou sabe gerir a sua casa e, eventualmente, nostálgica de outros tempos políticos seus - "está disposta a mediar o diferendo que opõe a Câmara do Porto aos manifestantes barricados (desde ontem) no Teatro Rivoli." Que Isabel Pires de Lima, que é do Porto, não goste de Rui Rio, é uma coisa. Que lhe passe pela cabeça meter-se numa matéria que não compete ao Estado decidir, é outra. E que lhe apeteça ser solidária com manifestações folclóricas, outra ainda. Todas juntas, as três coisas redundam numa só, sintetizada com manifesta felicidade pelo Eduardo:
"Em nome da decência, o Estado devia prescindir de certos ademanes. No momento em que o Estado se prepara para accionar os mecanismos de mobilidade do funcionalismo público, bem como para introduzir taxas moderadoras no internamento hospitalar, duas medidas infelizmente necessárias, o ministério da Cultura é um ademane absolutamente dispensável."

O "MAR DA LÍNGUA"


O ano orçamental que se avizinha vai ser fatal para a "cultura", leia-se ministério e adjacências. Sem perder tempo, o director do São Carlos já disse que, pelo menos 20% da programação anunciada com a benção dos dois tutores políticos do ministério, não poderá ser cumprida já que os "custos de funcionamento" são fixos e - julgam ele e o ministério - inamovíveis. Ricardo Pais, entregue à volúpia da sua "autonomia financeira", ainda não piou. Até o soba Mega Ferreira foi forçado a "cortar" na sua programação. Os restantes organismos, a começar pelo Dona Maria, lá vão vivendo a sua mentirazinha devidamente institucionalizada pela tutela. Lá para Março ou Abril, se Deus quiser, andarão todos a bater à porta da profª Pires de Lima e do seu ajudante a reclamar mais euros. Por outro lado, consta que esta semana será conhecido o nome do director executivo-artístico da "colecção Berardo", o único acto "cultural" e financeiro perpetrado pelo governo com a conivência do PR e que constituiu uma submissão declarada do Estado aos legítimos propósitos "artísticos" do senhor comendador e a anulação do CCB enquanto tal. Supostamente, portanto, quem não tem dinheiro, não tem vícios. Só que, no meio desta grande ilusão que é a "cultura", a senhora ministra decidiu criar um "museu do mar da língua" - o tipo que se lembrou deste nome devia ser imediatamente condecorado - e, para o efeito, gastar 2.5 milhões dos euros que não tem na recuperação do "barracão onde há sessenta anos funcionou o Museu de Arte Popular, em Belém". Segundo fonte credível - se é que existe alguma credibilidade nisto - , "o novo museu pretende ser "um centro de interpretação das navegações, que junte a língua portuguesa e os Descobrimentos". Palavra de honra. De facto, não sei como é que o país conseguiu sobreviver até hoje sem uma coisa destas, digna de um Carlos Pinto Coelho, de uma Bárbara Guimarães ou de um Hermano Saraiva em permanente fim de carreira. Como é que a profª Pires de Lima - que não consegue convencer ninguém com a escolha "neo-realista" que fez para o Teatro Nacional - se foi lembrar de tão transcendente obra que seguramente servirá para apascentar a matilha habitual que se arrasta nestas inutilidades quase desde a tomada de Ceuta em 1415 ou, pelo menos, desde os gloriosos tempos da famosa "comissão dos descobrimentos" dos idos de 90? Tudo isto é ridículo e trágico. E só me dá mais motivos para pedir, uma vez mais, a extinção do ministério da Cultura ou, na impossiblidade de isso acontecer, de o afogar no sublime "mar da língua".

15.10.06

O CONCURSO DAQUELE CUJO NOME NÃO SE PODE DIZER

A rapaziada oficiosa que apareceu no programa da RTP, "Os Grandes Portugueses", apresentado pela sra. D. Maria Elisa, e que discorreu sobre o "seu" melhor português, era previsível. Dos que foram "apanhados" na rua, nem vale a pena falar. Até Bárbara Guimarães e Mourinho surgiram como "grandes". Percebe-se que o primeiro programa foi gravado antes da pequena polémica em torno do Estado Novo. Descontando uma jovem, estudante de direito, que ousou mencionar Marcello Caetano, o mais próximo "daquele-cujo-nome-não-se-pode-dizer" que se arranjou (participante no "28 de Maio", chefe da delegação militar em Washington e director-geral da aeronáutica) foi esse "herói" tardio da oposição chamado Humberto Delgado. O concurso, à altura do regime e dos tempos, promete. É de esperar o pior.

O NOVO OÁSIS

O senhor engenheiro, o mesmo que disse ao Expresso que "o pior ainda está para vir", vê agora, com "óculos de perto", um novo oásis. Influências do dr. Pinho que, entre sexta e sábado, "acabou com a crise"?

PERGUNTA

O que será feito de Ramin Jahanbegloo?

ESCLARECIMENTO

Fernanda, nunca afirmei que Salazar era "péssimo" e "parolo". Disse e repito que "a diferença entre Salazar e as hodiernas "elites" é que, sendo todos manhosos, a manha de Salazar não lhe "puxava" para a trafulhice e para a cupidez insaciável, própria de desbragados e de deslumbrados sem eira nem beira. Prendia, censurava, batia, exilava, todavia conseguia ser menos provinciano - apesar das origens humildes e das galinhas nos jardins de São Bento - do que estas "elites" paridas à pressa a partir do nada." Entendidos?

Adenda: E já agora, Fernanda, permita-me que lhe recomende a leitura deste post do seu colega Pedro Correia. Ou de como o pior do dr. Salazar anda para aí colado ao mais eminente democrata. De facto, a mim, que sou um leitor atento de Miguel Sousa Tavares, bastou-me as primeiras linhas para parar. Até os mais lúcidos e independentes não resistem à vulgata do respeitinho "democrático" imposto pelo actual governo à sombra da famosa "coragem" cujo resultado final ainda está por apurar.

"O MESTRE DAS ESCARAMUÇAS"

(...) O problema é que chegou a vez dos grandes números: mães e pais, idosos, professores, doentes, pensionistas e funcionários públicos, somados, fazem muita gente. José Sócrates vê-se agora obrigado, não mais a seleccionar alvos de estimação, mas pura e simplesmente a olhar de frente para toda a população. Até agora, temos estado perante uma estratégia consolidada e deliberada. A autoridade do primeiro-ministro sobre os seus ministros é indiscutível, como talvez não se tenha visto em Portugal há várias décadas. A organização da propaganda e das relações públicas, servida por centenas de profissionais, tem-se revelado impecável. A nomeação de inimigos, privilegiados e culpados, tem seguido um método eficaz. É o género de pessoa que, de manhã, quando se levanta, deve perguntar-se: "Com quem é que me vou meter hoje?". O seu método da acção tem destroçado os adversários políticos: inunda o país de medidas, semeia escaramuças em todas as esquinas e reserva sempre a iniciativa para si. Concede a despenalização do aborto ao Partido Socialista, mas não lhe dará absolutamente mais nada. Vai oferecer o que pode à Igreja Católica, na educação, na segurança social e no património, para compensar a interrupção voluntária da gravidez. A alguns socialistas mais fiéis vai dar uma regionalização, que prepara sub-repticiamente, com o que espera compensar os mortos e feridos das finanças locais. Procura a empatia e a colaboração do Presidente Cavaco Silva, mas sabe o perigo que corre: este, quando lhe disser "não", terá tanto mais autoridade quanto lhe terá repetidamente dito "sim". (...) Quando monologa, José Sócrates é um homem doce e de aparência convincente. Se contrariado, revela uma rispidez ácida e uma pulsão vingativa surpreendentes. No Parlamento, atinge facilmente um grau de cólera pouco adequada a quem tem ainda de correr um longo caminho, a quem sabe que o mais difícil está para vir. O Mestre das Escaramuças especializou-se em raides súbitos. Não parece preparado para as grandes batalhas. Mas esperemos. Dentro de pouco mais de um ano, com novas eleições à vista, veremos se até o efémero e a superficialidade são ou não sacrificados à demagogia. Como já aconteceu antes. Tantas vezes!"

António Barreto, in Público (sem link)

UMA ESTÁTUA PARA HERODES


A "Lolita" do Blogame Mucho - que não me parece fazer jus à homónima de Nabokov - ficou aparentemente incomodada pela minha crítica à pedo-pedagogia criminal que passa a punir aqueles - pais incluídos - que apliquem "castigos corporais" aos respectivos rebentos (não está lá escrito, mas uma interpretação autêntica da futura lei não permite outra conclusão). Se a "Lolita" experimentar frequentar um "Kindergarten", verificará que, salvo honrosas excepções, as crianças são "ocupadas" com frivolidades e brincadeiras destinadas fundamentalmente a que não as maçem. Quando chegam a casa, os pais, cansados e sem pachorra para as ditas criancinhas, babujam ainda mais frivolidades para cima delas e deixam-nas, por assim dizer, "à vontade". Imaginam, pelo preço chorudo que pagam ao infantário ou à escola, que os rebentos estão a receber uma "educação". Não estão. Como não estão - nem na escola, nem em casa - acabam a fazer aquelas figuras tristes a que somos forçados a assistir, tantas vezes, em lugares públicos. Como vê, sou sensível ao argumento do "mau pai", mais conhecido pelo "tal pai, tal filho". Já agora, permita-me que lhe recomende, da Natália Correia, "Uma Estátua para Herodes". Lá para o final encontra um capítulo intitulado "Os provérbios de Herodes", uma espécie de aforismos, dos quais retiro os seguintes:
"Louvemos os maus filhos. Eles dão aos pais a oportunidade de saberem até que ponto são idiotas. O pai esconde os defeitos do filho porque é no filho que o pai esconde os seus defeitos."

NOÇÃO DO RIDÍCULO

No Don Carlo, de Verdi, há uma cena entre o "grande inquisidor" e o rei Filipe em que é abordada a heresia flamenga dentro do "império onde o sol nunca se punha". O rei "desconversa", apesar da sua pusilanimidade, e o "grande inquisidor" sai de cena perguntando: "o que é que eu estou aqui a fazer?". Ocorreu-me isto por causa dos seis cêntimos de aumento do subsídio de refeição que o governo, pela voz do dr. João Figueiredo, propôs aos sindicatos da função pública que, pelos vistos, não têm vergonha na cara. Como é que que eles ainda "negoceiam" com uma pessoa que não tem a noção do ridículo?

14.10.06

HANNAH ARENDT


A perda de tempo com farsantes e com personagens menores desvia-nos, por vezes, de pessoas a quem devíamos prestar mais atenção. Se não erro, à excepção de José Manuel Fernandes no Público, nenhum outro hebdomadário - nem sequer o "sempre-em-pé" Actual do Expresso, já que as páginas ditas "culturais" do Sol não existem - se lembrou dos cem anos de Hannah Arendt. Como escreve JMF, Arendt passou a vida a tentar perceber: os outros, o seu tempo e, nessa notável "reportagem" do julgamento de Eichmann em Jerusalém, "a banalidade do mal". Judia, emigrada nos EUA aquando da emergência totalitária na Europa e na URSS, foi aluna de Heidegger e de Karl Jaspers, tendo mantido com o primeiro uma relação ambígua e afectiva para além das afinidades intelectuais e das discordâncias ideológicas. Nas nossas miseráveis "feiras do livro", costuma aparecer a um preço insignificante um livrinho de Arendt que se lê num fôlego. Homens em tempos sombrios (Relógio d' Água) constitui um interessante "fresco" sobre figuras tão díspares como Benjamin, Brecht, Broch, Jaspers, Karen Blixen ou Rosa Luxemburgo. A passagem que se segue, parecendo aparentemente "datada", mantém toda a actualidade, até mesmo para nós.

"Se a função do domínio público é iluminar os assuntos dos homens, proporcionando um espaço de aparências onde eles podem mostrar, em palavras e actos, para o melhor e o pior, quem são e o que sabem fazer, então as trevas chegam quando esta luz é apagada pelas "faltas de credibilidade" e pelo "governo invisível", pelo discurso que não revela aquilo que é, preferindo escondê-lo debaixo do tapete, pelas exortações, morais ou outras, que a pretexto de defender velhas verdades degradam toda a verdade, convertendo-a numa trivialidade sem sentido." (1968)

O VEXAME EVITÁVEL

Pode ser que me tenha escapado, mas o telejornal oficioso, o da RTP, omitiu a baboseira do dr. Pinho quando afirmou em Aveiro que "a crise acabou". O próprio acabou por passar um atestado de inimputabilidade a si mesmo, ao dizer à TSF que quem assegurasse que a crise tinha acabado era "infantil". Convinha "acabar" com Pinho antes da presidência europeia do próximo ano. Ao menos, seria um vexame evitável.

AS ESQUERDAS

Numa semana em que a "esquerda moderna" do senhor engenheiro foi fortemente vergastada pela "esquerda antiga" nas ruas, Sócrates escolheu o sábado para, diante de uma plateia de "balzaquianas" socialistas, dar início à cruzada pelo "sim" no referendo à IVG. Até recorreu - imagine-se - à palavra "camaradas", de há muito banida do léxico do PS, para convencer a agitada plateia e, via media, os cidadãos de "esquerda" de que, tudo somado, ele é um deles. Sócrates não é ingénuo e sabe que uma mão não lava a outra. Sobretudo quando até o circunspecto ex-jovem socialista Sousa Pinto, remete para "segundas núpcias" outras questões "fracturantes", como os casamentos e as adopções por same sexers. Ao contrário do "blasfemo" João Miranda, não creio que, por cada voto que Sócrates perca à "esquerda", ganhe dois "à direita". Ganhou, de facto, o ano passado por causa de um episódio infeliz chamado Santana Lopes. Quando, em Janeiro, o virmos de braço dado, ainda que virtualmente, com certa gente da "esquerda antiga", logo falamos.

Adenda: Ler "A dúvida", de Rui Castro.

A "CORAGEM"


O meu amigo Eduardo - isto cada vez mais parece um "clube de poetas mortos" - interpela-me por causa da "manif". Como ele sabe ler melhor do que eu, tenho a certeza que percebeu perfeitamente o que eu quis dizer. Comovo-me tanto com "manifs" como ele e já frequentei algumas. A última em que, por mera curiosidade, me "deixei ficar" no meio da multidão a fim de "tentar perceber", foi a do partido do sr. Le Pen, em Paris, no dia 1 de Maio de 2oo2. Na Praça da Ópera, depois de desfile, ofereceu "uma seca" de três horas intermináveis aos respectivos crentes. Seguramente não havia menos manifestantes do que na quinta-feira passada em Lisboa, e veja lá o que vale o sr. Le Pen. A questão é outra e aí, sim, talvez haja uma divergência. Tal como o governo, o Eduardo imagina que se está a "reformar" a administração pública e, por consequência, a reduzir "interesses". Não está, nem uma coisa, nem a outra, e eu já não tenho idade para me comover com a "coragem" de ninguém. O governo, todo, recebeu ordens para "cortar" e, desde o mais insignificante dirigente até aos ministros de Estado, é só isso que eles sabem fazer: cortar, não necessariamente com método ou a direito. Repare que até vai ser criada mais uma "estrutura de missão" (nome giro, não é?) ou mesmo uma "empresa pública estatal, EPE, para "gerir" a famosa mobilidade sobre a qual ninguém tem uma única ideia concreta. Só a tal "coragem" semântica que eu não sei o que é. Como escrevia há dias o Rui Ramos, insuspeito "direitista", se não houvesse funcionalismo, o governo inventava-o para poder justificar os "objectivos" e a sua sublime "coragem" contra os "interesses" (pessoas que recebem entre 400 e 700 euros em salários ou pensões têm imensos "interesses", não é verdade?). Porém, na campanha eleitoral, não detectei a mesma "coragem" em explicar, por a mais b, o que se ia fazer. Só depois, quando o bonzo Constâncio deu o mote, é que apareceu a "coragem". Como escreve Vasco Pulido Valente no Público de sábado, sem link:
"Quanto a Sócrates, claro, aproveitou a ocasião para o auto-elogio da regra, em que se expandiu sobre a sua vontade, o seu ânimo e a sua coragem. Portugal, ele sabe, gosta de quem manda. Ainda por cima, parece que também se convenceu que lhe deram por maioria absoluta um mandato para fazer exactamente o que fez. De facto, não lhe deram esse particular mandato, porque ele nunca o pediu e, se o tivesse pedido, não era agora com certeza primeiro-ministro. Mas não vale a pena contrariar o culto desta fulgurante personalidade. Vale a pena falar da ilusão que a sustenta. A propósito da manifestação, Sócrates criticou a gente "para quem tudo ficaria melhor, se tudo ficasse na mesma". Não lhe ocorreu, obviamente, a outra possibilidade: que nada ficasse na mesma e tudo ficasse pior."

Conversados?

PENTIMENTO

O Jorge Ferreira, que possui no seu blog uma memorabilia indispensável, recordou que passavam ontem vinte e seis anos sobre a formação do "movimento de acção reformadora" - uma sequela do "movimento reformador" de 79, dividido nessa altura entre o apoio a Soares Carneiro e a Ramalho Eanes - especificamente destinado a integrar a comissão de recandidatura do General. Os nossos juvenis vinte anos permitiam estas coisas. O Jorge, como lhe competia, andava por Soares Carneiro e nós - eu, a malograda Ana Gonçalves que seria mais tarde deputada do PRD, e os "seniores" Adão e Silva e Medeiros Ferreira - por Eanes. Na noite da morte de Sá Carneiro e de Adelino Amaro da Costa, na sede da CNARPE, redigi, em nome do dito "movimento", um comunicado sobre este acontecimento e, no dia seguinte, meio atordoados, estivemos com o Jorge no barzinho da mesma CNARPE, sem complexos ou afasias, uma vez que campanha tinha terminado. No domingo subsequente, Eanes era reeleito. O resto da história é conhecido. François Mitterrand, no livro "Memórias Interrompidas", quando questionado sobre a sua vitória em 1981, disse ao jornalista que não era aos sessenta e cinco anos que se começava a sonhar, outro tropismo inteligente do homem. Todavia, Mitterrand fez da sua presidência um monumento à política: contraditório, aristocrático e definitivo, para quem aprecia e para quem não aprecia. Nós, na ingenuidade dos nossos vinte anos, também imaginávamos que podíamos sonhar com a política, com um país diferente e com grandes "políticos". Quase trinta anos depois, terá valido a pena?

13.10.06

LER OS OUTROS

O Jorge Ferreira, numa "dupla". "Ética Republicana" - "Ouvi Jorge Sampaio, ex-dirigente do MES, ex-anti-fascista, ex-secretário-geral do PS e ex-Presidente da República ( coisa para mim bem mais séria), dizer simplesmente isto, numa entrevista a Maria Flôr Pedroso: "O Presidente da República é insindicável", a propósito de uma sua eventual presença a depôr na Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Envelope 9. Pois não é, não senhor. Numa democracia nem o Presidente da República é insindicável, pela simples razão de que ninguém está acima da lei." - e "O Dr. Pinho" - "Perguntado nos alvores da campanha sobre o que sabia de Aveiro, Pinho não hesitou em dizer que se lembrava de ver morrer uma criança ao tentar atravessar a linha do comboio em Espinho. A debates não foi, tal como o deputado fantasma do CDS, então candidato Portas (gente arrogante, perdão, importante, é assim mesmo). Campanha não fez. Fizeram-na os escravos do aparelho que nos salões deve execrar chiquerrimamente. Ideias não tinha porque não precisava, visto que estava ali para ser ministro, o que veio a conseguir graças a Sócrates. Não tarda é condecorado."

NOUTRO LADO


Uma caridosa jornalista, afirma na SIC Notícias - a propósito do dito "a crise acabou" - que desconhece os números que o ministro Pinho tem na cabeça. Na cabeça, Helena Garrido? Qual cabeça? Manuel Pinho é daqueles ministros que "está" e que não "é". E, estar por estar, mais vale estar noutro lado.

AS MAIORIAS SILENCIOSAS


Por razões profissionais, encontrava-me ontem em pleno epicentro da manifestação dos 70, 80 ou tal mil. Só ouvia o barulho e nem sequer fui à janela espreitar. Às tantas alguém veio dizer-me que a "cabeça" da manifestação já seguia pela Rua Braamcamp enquanto os mais atrasados ainda berravam pelos arrabaldes da Rua Augusta e da Praça do Comércio. Com ou sem as camionetas - essas, sim, havia em barda que eu vi, quando regressava a casa -, já que nunca assisti a nenhuma que não comportasse camionetas, a "manif" foi imponente. É claro que nenhum governo - salvo o famoso "quinto" do General Vasco Gonçalves em 75 - caiu por causa da rua. Depois de 76, todos os que caíram, caíram no sítio certo, em Belém e no Parlamento, com as miseráveis excepções dos fugitivos Guterres e Barroso. Eduardo Pitta, num acesso "socrático", dá mais importância à "maioria silenciosa" que viu passar os fandangos com indiferença soberana, do que aos "profissionais" das "manifs" a toque de caixa do PC. Não é por nada, porém tendo a concordar mais com a leitura que José Medeiros Ferreira faz da "maioria silenciosa", já que andou "pelo terreno", um pouco como eu à distância: "O que me impressionou mais foi a enorme paciência de todos perante o contra-tempo. Nem uma vez ouvi a célebre expressão "Vão trabalhar". Alguma coisa anda a fermentar..."

ASSEPSIA


Rui Pereira, o guru do governo para a reforma penal, introduziu uma norma que pune quem der uma bofetada em crianças, seja em casa ou na escola. Não o faz directamente, mas, ao proibir "castigos corporais", a nova legislação leva a psicose criancista à inverosímil consequência de um pai ou de uma mãe não poderem dar uma legítima e oportuna chapada no filho mal educado e parvo. Já imagino os moralistas, de dedo espetado nos restaurantes, a acusar os progenitores que tentam educar os rebentos a comportarem-se com um módico de decência em lugares públicos. Não há pachorra para esta assepsia pseudo-pedagógica e "democrática".

UM MISTÉRIO

Manuel Pinho, numa das suas - felizmente - raras descidas à Terra, inventou hoje em Aveiro que a crise económica tinha acabado. De acordo com Pinho, é só uma questão de tempo para "isto" começar a crescer. Desconheço que economia vagueia na cabeça do ministro. A própria cabeça do ministro é , para mim, um mistério.

MENOS UM

De acordo com o Diário de Notícias, Augusto M. Seabra deixou o Público no âmbito da "reestruturação" em curso no jornal do grupo SONAE. Não sei se é porque ele quer ou se porque alguém o deseja. Augusto é polémico e não será certamente do agrado de muita nomenclatura "político-cultural" que por aí pulula: como acentuava significativamente EPC, num outro dia, AMS "sofreria" da nostalgia de uma obra que nunca chegou a escrever. Nem sempre, nem nunca estou de acordo com ele. Prefiro-o, de longe, aos epígonos do regime e aos aprendizes de feiticeiro que começam a tornar os jornais portugueses lugares infrequentáveis. Se quiseres, Augusto, e valendo isto o que vale, tens aqui uma porta aberta.

"A DOÇURA DE UM VIVER TRANQUILO"


Foi preciso o "pai da blogosfera" perguntar e responder acerca de "por que razão a democracia tem medo de Salazar? (Público de 12 de Outubro, sem link) para se pensar minimamente no assunto. Isto por causa da tal coisa dos "Grandes Portugueses" que a RTP e a Sra. D. Maria Elisa vão promover, na qual, inicialmente, o nome do antigo presidente do conselho estava banido. Salazar foi tão notável - como escreveu António José Saraiva - que "passou" para o actual regime muito da sua "herança espiritual". O receio da independência, a ausência do confronto, o terror da polémica, a obsessão "sistémica", o aprumo autoritário, o conformismo embezerrado, a facada nas costas, o horror do "outro", etc., etc, estão tanto ou mais vivos hoje do que no ano de 1970 em que Salazar morreu. E é assim porque a democracia "espalhou" estas deficiências de carácter pela rua. Não é por acaso que Mário Cesariny - insuspeitíssimo - na recente entrevista ao Sol, "explicou" a quem soube perceber que este regime liquidou alguma da expontaneidade e da imaginação que a ditadura forçava a desenvolver clandestina ou descaradamente. O "respeitinho" democrático, num certo sentido, é bem pior do que o "a bem da nação" de Salazar. No Estado, por exemplo, o dito "respeitinho" mandou que nos ofícios se substituísse esta expressão pela inócua "com os melhores cumprimentos", como se fossemos todos primos e primas. Nos casos mais doentios e hipócritas, costuma acrescentar-se "pessoais", à mão. A diferença entre Salazar e as hodiernas "elites" é que, sendo todos manhosos, a manha de Salazar não lhe "puxava" para a trafulhice e para a cupidez insaciável, própria de desbragados e de deslumbrados sem eira nem beira. Prendia, censurava, batia, exilava, todavia conseguia ser menos provinciano - apesar das origens humildes e das galinhas nos jardins de São Bento - do que estas "elites" paridas à pressa a partir do nada. Salazar, a propósito do país, disse a Christine Garnier que era preciso preservar a "doçura de um viver tranquilo". Não é isso, por outras palavras, aquilo que a "esquerda moderna" nos promete? Um "viver tranquilo"...?

12.10.06

É FÁCIL DIZER MAL

O dr. Prado Coelho, eminente semiólogo, autor de crítica vária e um exemplar camaleónico de rara estirpe - atenção: eu possuo as "obras completas" de EPC, algumas com dedicatórias, e aprecio muitas das suas coisas - , não podia faltar no comité "democrático" que decidiu "abater" o dr. Alberto João Jardim. Voltou ternamente aos tempos em que, no PREC, foi Director-Geral da Acção Cultural e brindou o presidente do governo regional da Madeira, por sinal eleito, com mimos deste género: "o país respirou de satisfação quando viu que José Sócrates tomou uma atitude exemplar em relação à Madeira". O país respirou? Que país? O que existe na cabeça de EPC ou de Vicente Jorge Silva? A Madeira é "menos" país que Santarém ou o Porto? Ou EPC queria um país que "respirasse" como ele, ou seja, babando-se dia sim, dia não, para cima do governo e do PS? Depois, EPC, num tropismo "colonial", acusa AJJ de "explorar descaradamente a metrópole". A metrópole? Existe, porventura, um "ultramar" na cabeça desarmantemente democrática de EPC? Finalmente, o nosso autor não se poupa no vitupério "democrático". AJJ "é um caso extraordinário", "sentimos [o uso do plural majestático é um resquício do "colectivo" que aprendeu na fase PC e, como se costuma dizer, fale por si, Eduardo] uma repulsa imensa por esta personagem não apenas demagógica mas rasteira e medíocre". O nosso povo costuma dizer que "quando o cão é danado, toda a gente lhe atira pedras". Sucede que EPC não frequenta o povo, muito menos o madeirense. Só coisas e pessoas de Lux para cima. Por isso, a realidade passa-lhe inteiramente ao lado. Este argumentário, de facto "rasteiro", faz com que muita gente que até nunca simpatizou com a iconoclastia política de AJJ, o defenda. Nas actuais circunstâncias - desencadeadas por uma intervenção partidária do secretário-geral do PS no Funchal que, por acaso, também é chefe do governo - é fácil dizer mal. É "democrático" e fica bem no retrato.

PIOR...

...do que um comunista que o foi até aos idos de oitenta, é um ex-comunista da "esquerda moderna" em 2006. Irreformáveis, um e o outro.

UM LIVRO


Uma leitora acusa-me de só dizer mal. Não faço ideia o que isso seja. Todavia, para consolação dela e minha, recomendo um bom livro que trouxe de Itália. Numa tradução rasca, será qualquer coisa como "Quem nos ajuda a viver? - sobre Deus e o Homem", de Joseph Ratzinger. Mal, de certeza, não lhe fará.

LER OS OUTROS

O Rui Castro, "Política à portuguesa". Gosto do João Jardim porque ele não é consensual. Para consensual, já temos o papel higiénico.

A PAX SOCIALISTA


O velho Freud ainda serve para alguma coisinha. Ao ler no Público online a notícia acerca do debate da Lei das Finanças Locais no Parlamento, confirmei duas coisas estritamente do foro político-táctico. A primeira, que uma pequena "direita" que aprecia andar às cavalitas dos outros, se prepara para mudar de costas, quem sabe se auxiliada por um Costa. Depois, que o PS - insisto, o PS, usando como instrumento o governo e não os votos - pela mais do que autorizada voz do dr. Costa "número um", está em guerra político-partidária com a Madeira. Veja-se este naco do ministro de Estado: "o presidente do PSD anda entretido em ser porta-voz do Governo Regional da Madeira e dos candidatos a Jardins", afirmou Costa, que ontem se empenhou em isolar o PSD no caso da LFL, acusando os sociais-democratas de estarem "prisioneiros dos seus autarcas". Acontece - coisas da democracia - que o PSD é o maior partido nas autarquias e na Madeira, algo que deve incomodar a pax socialista, pelos vistos disposta às "unidades" mais espúrias e inverosímeis para não perder a oportunidade de, dezenas de anos depois, cumprir o seu velho sonho mexicano.

A RESISTÊNCIA


O país em que, com pompa, circunstância e o já habitual "powerpoint", foi acordado o "desenvolvimento" do "Projecto MIT", é o mesmo em que se aceita que uns rapazes e umas raparigas, vestidos de corvos e embotados com a sua estupidez natural, humilhem os "colegas" mais novos, os "corvos" do próximo ano. As universidades, com ou sem MIT, são o espelho de uma nação intelectualmente medíocre. Apenas para se desenvolverem como meros centros comerciais, algumas universidades privadas aceitam - e o Estado democrático aceita isto com uma passividade bovina - pessoas sem as habilitações necessárias para a frequência do ensino superior. Mesmo os que as possuem, são, em geral, uma vergonha moral e intelectual. Não imaginem o engº Sócrates ou o Prof. Cavaco, por um segundo, que, por muito falarem de qualificação e de "nichos de excelência" (quase vomitei o croissant que acabei de comer), a pátria resplandecerá, um dia, orgulhosa da "massa cinzenta" produzida no campus universitário. Por exemplo, num curso de "comunicação social e cultural", já se usa a sra. D. Fátima Lopes como "case study". Já agora, por que não os merceeiros do Gato Fedorento, o insuportável Goucha, a Miss Romero ou o Gabriel da RTP? Para eu entrar na Universidade Católica, em 1978, tive que fazer exames escritos de história, de filosofia e de cultura geral, salvo erro, a dobrar. Puseram-me à frente um poema - no original - de Vicente Aleixandre (Nobel da Literatura no ano anterior) para "comentar". No 5º ano de direito, tive o privilégio de optar pela cadeira de história diplomática de Portugal, ministrada pelo professor Jorge Borges de Macedo, e de fazer um exame de filosofia do direito cujo essencial residia num comentário a um pequeno texto, em francês, de Martin Heidegger. Não me estou a comparar com ninguém. Estou apenas a falar do que conheço, de um tempo morto e enterrado para sempre na vulgaridade bronca em vigor. O MIT é um adorno comparável ao Chanel 5 com que certas pessoas que não tomam banho se enchem para não cheirarem mal. Por mais que se perfumem, a merda resiste.

11.10.06

RACIONALIDADES

Com aquele estilo nonchalant que o caracteriza, o senhor ministro da Saúde veio anunciar os 5 euritos/dia a pagar pelos internados em hospitais públicos. Tudo, disse ele, em nome da "racionalidade" que é preciso introduzir na gestão do serviço nacional de saúde. Concordo plenamente. Todavia, gostava que o dr. Correia de Campos acompanhasse o movimento com a introdução de idêntica racionalidade na sua cabeça.

A SÍNDROME DO 11


Os telejornais - fora a RTP que está na bola - estão há quase uma hora a dar imagens do resultado de um embate de uma aeronave (tão depressa é um helicóptero como um pequeno avião) num edifício de 50 andares em Nova Iorque. Quem conhece Nova Iorque, mesmo a NI do "pós-11 de Setembro", sabe que é vulgar aparecerem helicópteros e pequenos aviões no céu baixo da cidade. Os jornalistas não param de lembrar que hoje é dia 11, embora os EUA garantam que não se trata de nenhum atentado. Enfim.

REALIDADE E MANOBRA


Enfiou-se na cabeça do PS e dos farfelus tradicionais- o autor da famosa blague da "geração rasca", o madeirense Vicente Jorge Silva, que o partido do governo fez eleger deputado da nação, não se poupa na adjectivação - que é fundamental para a democracia portuguesa a remoção do dr. João Jardim da chefia do governo regional da Madeira. Quem conhece razoavelmente a Madeira pós-1976, sabe que o PS local é uma pequena ficção alimentada por duas ou três esforçadas e irrelevantes criaturas. Aquando das eleições europeias de 1999, encontrando-me no Funchal no momento em que o dr. Mário Soares, como cabeça de lista do PS lá foi, acompanhei a sua presença num hotel onde perorou para os socialistas. Pobre assistência e que perda de tempo. Em trinta anos, a Madeira, graças a nós, aos madeirenses e à liderança de João Jardim, revolucionou-se. Escavacar montanhas numa ilha para construir auto-estradas, dotar os autoctónes de um módico de qualidade de vida - é evidente que existe pobreza tal como existe aqui ao lado da minha casa - e ganhar sucessivamente eleições, é irrelevante para os defensores do correcto político. A virulência de Alberto João Jardim não faz exactamente o meu estilo, porém não me passa pela cabeça cometer a indelicadeza de tomar por parvos, coactos ou "menos" portugueses os eleitores madeirenses. À sombra da obsessão financeira, o PS - menos o governo e mais o PS - quer fazer uma "pega de cernelha" à Madeira. Carlos César, nesta matéria de autonomia regional, está contente e calado como um rato, e mais solidário com a cruzada socialista do que com os famosos "custos da insularidade". Não vão a lado algum, como rapidamente se verá. E o argumento "geográfico" avançado por Teixeira dos Santos, em Bruxelas - a Madeira está mais perto do que os Açores... -, à falta de outro, dá vontade de rir. Ninguém me passou procuração para defender a Madeira e, muito menos, Alberto João Jardim. Acontece que ainda consigo distinguir realidades de manobras. O ataque a Madeira é exclusivamente político-partidário. Como de costume, em votos, logo se verá se os nossos compatriotas madeirenses optam oportunamente pela realidade ou pela manobra. Pode ser que resulte. Pode ser que não.

10.10.06

UMA CIVILIZAÇÃO


Vim de lá agora. E tinha lido o livro de que fala Henrique Raposo. Quando se percorre as grandes e as pequenas ruas de Roma, percebe-se em quase todas as esquinas o que "substituiu" verdadeiramente a civilização romana. Tem em cima, à entrada, o símbolo papal. São igrejas, dezenas delas espalhadas pela cidade. Tinha razão o Papa, outro dia, quando disse que "éramos fortes". Ao ouvi-lo no domingo, na Praça de São Pedro, ocorreu-me que a "natureza de Deus" - de que tanto se falou, e mal, a propósito da lição de Ratisbona - espreita a cada canto da Roma grandiosa e desaparecida, por detrás do produto poderoso da razão humana destinado a perpetuar um destino e um desígnio fabulosos. Está tudo impregnado nas paredes, nos altares, nas colunas, nos tectos, nos "frescos", nas telas, nos túmulos. Está lá tudo e estamos lá nós. Quem ainda não entendeu isto, meta explicador.

OU SEJA...

Conjugando isto com isto - já que eu não estava cá -, é forçoso concluir que não estamos propriamente a lidar com "anjinhos": "moldar o sector, escolher provedores e "reguladores", definir direcções, nomear directores, demitir responsáveis, ou seja, mandar na comunicação social."

EMPORIO


Até à data, o deputado Manuel Alegre ainda não conseguiu perceber o que lhe aconteceu nas presidenciais. Como se isso não bastasse, e em consequência desta ignorância, decidiu - ele e mais uns quantos "idealistas" irrelevantes - criar mais um "movimento cívico", uma coisa que estava a fazer manifesta falta ao país. Alheio a estas bizarrias, o senhor engenheiro prossegue a "campanha" pelo cargo a que só ele concorre, o de secretário-geral do PS, "explicando" aos militantes o inexplicável: a liquidação sumária do partido tal como eles sempre o conheceram. Para o senhor engenheiro, o partido deve obedecer ao credo da "esquerda moderna", um neologismo que quer dizer tudo e não quer dizer nada. Da "moção", pouco se sabe e, também, não é preciso que se saiba. O congresso, como lhe compete, será albanês, mas "moderno". A Sócrates - julga ele - basta-lhe exibir a sua gravitas onde quer que apareça e, com esse gesto frívolo, fica criada uma imagem eficaz de uma política "armanizada", agradável à "direita", uma meretriz sem rei nem roque que aprecia o "estilo" e a referida gravitas. Este "estilo" vai dando até ao dia em que bater na parede. Um dia lá chegaremos. Como afirmou Durão Barroso, num momento de rara felicidade, só não sei é quando.

OS "GRANDES"


Pelo Tomás Vasques, com quem, entre outras coisas, partilho o gosto pela mais bela ilha do Caribe, Cuba - a propósito, leia-se dele "O General de todas as Estrelas foi-se Embora sem Ter Bebido um Trago de Havana Club", das Edições ASA -, fico a saber que a RTP, vulgo serviço público de televisão, vai promover um concurso idiota chamado "Os Grandes Portugueses". A "lista das sugestões" mistura gente que não se devia misturar e exclui outros que devia incluir. Por exemplo: Durão Barroso e António Guterres são portugueses "maiores" do que Carlos Mota Pinto, Vasco da Gama Fernandes ou Brederode dos Santos? Eduardo Lourenço, Ruben A. e António José Saraiva, três "estrangeirados", valem menos do que Saramago, Agustina ou Agostinho da Silva? Herberto Helder é poeta "maior" do que Joaquim Manuel Magalhães ou Ruy Belo? Paula Rego é "melhor" do que Noronha da Costa? Afonso Costa é "maior" do que Carmona, Gomes da Costa ou Sidónio? Oliveira Martins, Antero ou António Ferro nunca existiram? Vejam lá isso.

A GUARDA


O governo, através do MAI, pediu - e pagou, naturalmente - a uma "consultora" um estudo reorganizativo da GNR que, a ser levado à prática, acaba com ela tal como a conhecemos. A GNR tem uma "tradição" que este "estudo" obviamente não respeita. Todavia não é por aí que isto é criticável. Eu iria mais longe e fundia as duas forças policiais ou, pelo menos, acabava com a "natureza militar" da Guarda e reforçava a componente policial, a preventiva e a repressiva. A GNR possui uma estrutura de comando obsoleta e inadequada aos dias que correm. É dirigida por oficiais-generais oriundos da tropa - e ninguém respeita mais a tropa do que eu -, mas não tenho a certeza que deva ser assim. Durante dez anos, a Inspecção-Geral da Administração Interna propôs a sucessivos governos e ministros "Costas" várias alterações ao funcionamento da Guarda, sem nunca ter precisado de consultoras externas para nada. Lá se conseguiu um "estatuto disciplinar" específico e pouco mais. António Costa nunca simpatizou muito com a IGAI, vá-se lá saber porquê. Agora mandou-a a correr para o Porto por causa de umas perseguições que correram mal. E dizer para os jornais que, na dúvida, o melhor é "deixá-los fugir" (aos delinquentes), como sugeriu o actual inspector-geral, também não ajuda nada. Os órgãos de controlo da administração pública têm uma missão pedagógica que não deve ser subestimada. Não devem servir só para apagar fogos quando os interessa apagar.

9.10.06

OTTOBRATA -3


Do último livro de Pietro Citati, "La morte della farfalla - Zelda e Francis Scott Fitzgerald", da Mondadori:

"Quando, em 1936, Francis Scott Fitzgerald publicou L'incrinatura (The Crack-Up) [tradução portuguesa, A fenda aberta, da Hiena], os seus amigos, os seus amigos-inimigos, e os seus inimigos ficaram profundamente indignados. Sobretudo, indignou-se o mais abjecto de todos: Ernest Hemingway, o qual ainda não se tinha precipitado num abismo muito mais atroz. Quase todos escreveram a mesma coisa. Não era possível falar de si mesmo, aos quarenta anos, da forma como o fez Fitzgerald: violar algures, com precisão, o sentimento comum da decência, revelando ao público os desastres e a dor da própria vida. Mas a literatura não tem muito que ver com a decência e o decoro. Nem Poe, nem Baudelaire, nem Verlaine respeitaram as leis da decência. Conheceram as chamas do inferno: todavia transformaram-nas em ouro - escreve-se no Epílogo das Fleurs du Mal. Sem dúvidas, incertezas ou temores, cumpriram até ao fim os seus deveres como "perfeitos alquimistas e almas santas".

OTTOBRATA -2

Por falar em criativos, também li que o "maestro" António Vitorino de Almeida pretende tomar a Sociedade Portuguesa de Autores. A agremiação anda com pouca sorte. Depois de Luís Francisco Rebelo - porventura o melhor especialista nacional em direitos de autor - ter feito daquilo a sua privada coutada, sucedeu-lhe - parece que também em trapalhadas - o baladeiro de "Abril", o sr. Manuel Freire. Vitorino de Almeida vive, há anos, na estratosfera. Como "autor", nem me atrevo a pronunciar-me. A SPA, em princípio, é para ser levada a sério. Tenham juízo.

OTTOBRATA -1

Parece que o dr. Guedes, do PP, mais o seu líder de eleição, o dr. Portas, pretendem tomar de novo o CDS do dr. Castro Isto é uma vulgaridade, mas não resisto. Neste caso, não se trata de repetir a história nem como tragédia, nem como comédia. É pura e simplesmente nada. O dr. Guedes não existe para o país e o dr. Portas revela-se, cada dia que passa, um excelente crítico de cinema. A Direita não passa por ali. Para já, o engº Sócrates está descansadinho. No segundo mandato de Cavaco, logo se vê.

O HOMEM MÉDIO

Uma pessoa chega cá e, distraidamente, no carro, ouve o novo Procurador-Geral da República quando tomava posse. Agora é que é? Quando os anteriores tomaram posse, também "era". Souto Moura foi um "mau" PGR? Não tenho a certeza. À substância preferiu a forma e, realisticamente, a forma não pôde ser mais infeliz. Não se sabia quem mais mandava, se ele, se o sindicato do dr. Cluny. Talvez daqui a alguns anos - o tempo, esse enorme escultor, opera verdadeiros milagres - se possa dizer que, afinal, Souto Moura foi o mais isento dos "pgr's" da democracia. É claro que não percebeu nada do país e, pior do que isso, do regime, como o seu maquiavélico antecessor percebeu. Por seu lado, o conselheiro Pinto Monteiro acha que vai combater a corrupção, um direito-dever que lhe assiste. E acrescenta que deve valorizar-se a "concepção moral do homem médio", isto a partir da ideia - justíssima, aliás - de que não se pode afastar a "ética" do serviço público e dos costumes. Com o devido respeito, senhor conselheiro, naturalmente que lhe assiste toda a razão. Todavia, e apesar de as sebentas de direito me terem introduzido no sublime conceito de "homem médio", suponho ser prudente fugir do referido "homem" e da sua "concepção moral" como o diabo da cruz. A democracia é, por natureza, o reino do "homem médio" e as respectivas "elites" são o que se sabe. O senhor conselheiro entende, sinceramente, que o "homem médio" é exemplo para o que quer que seja? Boa sorte.

8.10.06

DA GRECIA A ROMA

O meu amigo Antonio, de regresso, foi ler o Cesariny no SOL. A distancia, in situ, a coisa percebe-se melhor, sem PIDES:

"A Grécia foi um amor que eu tive com um moço. Ele depois foi para a tropa e escreveu-me uma carta que a PIDE leu. Ele ia indo parar a África por causa disso, porque dizia: "Não sei quando saio da tropa. Os nossos patrões, os americanos, é que devem saber". A PIDE pegou naquilo e meteu-o na cadeia. Mas a carta era também uma carta de amor, sabe? De maneira que era demasiado horroroso ter a PIDE na cama connosco. E assim começou a Roma: mais sexo do que amor."

7.10.06

PREFACIOS

A versao italiana de "Uma ideia da Europa", de George Steiner, e prefaciada por Mario Vargas LLosa. A nossa, e precedida de um texto do do tambem nosso dr. Barroso. Como um prefacio pode fazer toda a diferença num livro.

GRAMATICA DO REGIME

Parece que a patria ficou fortemente impressionada com a intervençao de Cavaco no "5 de Outubro". Como estou num pais em que a corrupçao e uma escola "virtuosa", permito-me umas pequenas observaçoes. Daqui para diante, nao e apenas ao governo e aos orgaos de controlo administrativo, policial e criminal que compete "combater" o fenomeno. Alias, estes podem pouco, porque, como tem vindo a ser denunciado, os "meios" sao francamente pateticos. Cavaco, ao falar como falou, colocou-se "dentro" do combate politico, ate ao momento, pirronico e, no essencial, irrelevante. A permanente transumancia entre a "politica" e os "negocios", dos grandes e dos pequenos "favores", a emergencia de certa gente em certos lugares sem antes saberem ler e escrever, etc., etc., merecem, realmente, a atençao do Chefe do Estado. Quando Cavaco, em 1995, quebrou o famoso "tabu" e saiu pelas suas proprias pernas, apercebeu-se perfeitamente do que era "esta vida" que, com paciencia e metodo, "estudou" durante dez anos. E, a avaliar pelos "indicadores" e pela "economia paralela", as coisas nao melhoraram. Agora existem apenas "nuances". Ou momentos semi-comicos, como vermos o dr. Jorge Coelho, uma eminencia do regime, dizer isto: "Sou do tempo de luta política em que um partido lançou o slogan "os ricos que paguem a crise. Agora temos na nossa sociedade o slogan "os outros que paguem a crise." Era, de facto, da chamada "extrema-esquerda" brincalhona. No momento, leva-se a serio. Talvez conviesse ao dr. Coelho, grande "aristocrata" socialista, explicar melhor quem sao "os outros". E que se ha uns "outros", havera igualmente um "nos" e um "eles". Enfim, o professor Cavaco tem muito que aprender com esta gente e com a sua maravilhosa "gramatica" para poder passar da exigencia meramente retorica ao acto.

Nota: Teclado sem acentos

6.10.06

CAVACO E A CHOLDRA

Lido a distancia, o discurso de Cavaco Silva no "5 de Outubro", constitui um bom pretexto para acabar com a sua comemoraçao. Cavaco, como Sampaio antes de si e, se recuarmos mais um bocadinho, provavelmente Afonso Henriques - se soubesse falar - diriam o mesmo, ou seja, que pastoreiam um pais de tendenciais bandalhos irreformaveis e que cumpre ao regime - a este a todos os que o antecederam - por as coisas em devida ordem. Acontece que andamos ha seculos a tentar "por tudo em ordem" sem grandes resultados. O pacote democratico gerou uma sociedade e uns costumes poucos consentaneos com os propositos moralistas e irrepreensiveis dos nossos sucessivos "Capo di Stato". Cavaco nao se excepciona e reclama o praticamente impossivel. Ainda nao percebeu que nao e por muito madrugar que amanhece mais cedo. A choldra e sempre a mesma.

Nota: Teclado sem acentos.

5.10.06

LUZ E SOMBRA


Ao começo do dia, no aeroporto de Barajas, e enquanto aguardava o aviao para Roma, dou de caras com a sra. D. Carmen Maura, uma das actrizes favoritas de Almodovar. A senhora passeava um carrinho tipo "Continente", de um lado para o outro, com o mesmo ar perdido-serio com que aparece no cinema do autor espanhol. Perguntei-lhe para onde ia. "Hacer una pelicula a Nueva Iorque". Eu limitei-me a vir ate aqui. Tentar perceber mais uma vez por que e que isto ruiu e, apesar disso, emite uma luz continuamente forte.

Nota: Teclado sem acentos.

A CIDADE ETERNA

"Sermos nós próprios, é deixarmo-nos ir" (Tennessee Williams). Até breve.

O 5 DO 10

Vale a pena comemorar a República? Não vale. Contrariamente ao que a doutrina oficial propala, o que se sucedeu depois do 5 de Outubro de 1910 foi a história de uma tirania "popular", centrada e liderada pelo velho Partido Republicano Português que, em pouco tempo, conseguiu a proeza de "virar" o "país profundo" e algumas das suas hostes "moderadas" contra si. Pomposos e medíocres, arrivistas e oportunistas, melancólicos e dramáticos furiosos, as notabilidades do PRP e, depois, do Partido Democrático, arrasaram às suas próprias mãos a tão prometida República e o "povo" que ela majestaticamente iria servir. É claro que a idiotia "monárquica" também não se recomendava, nem se recomenda ainda a ninguém. Contudo, este folclore melodrámático que cessou às mãos da tropa, em 1926, não se deve confundir com o respeito pelos princípios republicanos no exercício das funções públicas. A probidade, a isenção e o alheamento dos "interesses" continuam a ser boas intenções. É isso que nós temos, a quase um século de distância do primeiro 5 de Outubro?

4.10.06

VALEU A PENA?


No Panteão Nacional, reuniu-se o regime e mais dois ou três excêntricos para celebrarem os 100 anos do ex-Director-Geral de Aviação do dr. Salazar. Nunca me impressionei muito com a "história" de Humberto Delgado, a não ser num detalhe importante. Tinha uma enorme coragem física o que, para uma nação de cobardes, é obra. De resto, desde Salazar à "oposição", todos se serviram dele. O seu desassombro, num país em que o respeitinho mandava por igual no "sistema" e na "oposição", impressionava. Era um mitómano e um visionário que ambos abandonaram à sua sorte depois do "feito" de 58. Não merecia morrer da forma miserável, sórdida e solitária como morreu. Na sua altivez alucinada, sonhou com qualquer coisa de diferente para uma nação que o não entendia e que ele nunca compreendeu. Por esse "sonho", perdeu o seu tempo e, no final, a vida. Valeu a pena?

NO PASA NADA

A parolice nacional não tem limites. Os telejornais generalistas abrem simultaneamente com um tarado qualquer que se enfiou numa dependência bancária. Tem - imagine-se - quatro reféns e os jornalistas no local esforçam-se por ser mais "psicólogos" e especialistas em "negociações" do que o vizinho do lado. Querem tiros, sangue, perseguições e notas a voar, mas, em Portugal, os assaltos são tão pirosos como os assaltantes. O máximo que se consegue é o "binómio homem-cão". No pasa nada.

AMANTE, DISSE ELE


Ela ter tido um amante é uma enorme vulgaridade. O que é que o João tem contra os amantes a as amantes dos outros e das outras? Um mundo sem amantes, ou seja, só com maridos, mulheres e casais same sexers fidelíssimos, era uma enorme chatice. É por isso que ele não existe.

CARTA ABERTA A DUAS MINISTRAS

Senhoras Professoras Doutoras,

Os meus amigos Jorge Ferreira e João Villalobos, modestos amantes de livros como eu, lembraram respeitosamente que decorreu um ano sobre o anúncio do Plano Nacional de Leitura, para cuja "divulgação" foram convidados diversos mamíferos da nomenclatura "intelectual" do regime (perdoe-se o oxímoro). Sabem porventura V.Exas. se o país lê mais e melhor do que há um ano? E sabem igualmente qual foi o contributo concreto de cada um desses ornamentos que V. Exas. convidaram para, por exemplo, desenvolver os hábitos de leitura em Santa Maria da Feira ou na Gafanha da Nazaré? Os "escritores", esses sim, "cresceram". Basta passar as vistas pelos escaparates da "literatura portuguesa" para a gente se rir. E as crianças, senhoras Professoras Doutoras, as crianças, como escrevia o Gil num poema medíocre? Que lhes trouxe o Plano Nacional de Leitura? Mais literacia ou mais - vem aí um dos maiores jargões da especialidade das senhoras Professoras Doutoras - "competências literárias"? Penso nas crianças do básico às universidades, passando pelos mestrados e pelos excelentíssimos colegas das senhoras Professoras Doutoras (veja-se o caso do prof. dr. Frederico Lourenço que tem a cabeça de um caloiro de Oxford, de bibe, em 1939). V. Exas., mais tarde ou mais cedo, terão de avaliar este Plano, ornamentos incluídos, e explicar ao país, com o mesmo espalhafato com que o apresentaram, no que é que ele deu. Como diria o dr. Jorge Sampaio, é tudo uma questão de accountability.

Cumprimentos do,

João Gonçalves

"A VIDA ESTÁ CHEIA DE COISAS IMPORTANTES PARA FAZER"

Um recado para os diversos que se levam a sério e para campeões sexuais (os do lado bom, naturalmente, como dizia o Gore Vidal), que é outra modalidade dos que se levam a sério :

"A vida está cheia de coisas importantes para fazer. Por exemplo, também era muito importante desflorar a minha prima Josefina, que neste momento está nos sessenta e três anos e nunca conheceu nenhum homem em sentido bíblico, e ninguém está disponível para tal tarefa. O que prova que a economia e a política estão sempre ligados, mas isso, penso, só será novidade para os poetas. (Sublinho poetas, o que exclui liminarmente qualquer outro tipo de artistas)."

Tomás Vasques, in Hoje há Conquilhas

SAIR POR CIMA

Está na moda - sem a "classe" do canalizador da gravura que antecede - "bater" na função pública. Até o dr. Portas, ao que parece, com aquele ar de escândalo e de gravidade que ele coloca em tudo o que diz. Pelos vistos, quando mandou, não cuidou suficientemente bem da sua "tropa", como se tem visto por desenvolvimentos recentes. Mas isso agora não interessa nada, não é verdade? Para não ser faccioso, lembro que até o dr. Cavaco proferiu aquela frase "histórica" do "tem de se esperar que morram". Felizmente ele ainda não morreu e pôde ser, depois de professor universitário público, Chefe de Estado. É, pois, esta uma longa "escola" de "moralistas" que tem agora o seu provisório epílogo no dr. João Figueiredo - outro excelente servidor público de carreira - a quem compete directamente enterrar um pouco mais a administração pública que pastoreia, apenas com o vão propósito de poupar uns tostões. Fá-lo sem uma direcção. Teve a infelicidade de se ir meter com "académicos" que, do alto da sua estratosférica cátedra, imaginam poder construir um país a partir do zero. Não constroem nada porque não sabem nada a não ser o que decoraram nas sebentas. Já escrevi e repito - e o Eduardo Pitta dá uma ajuda enxuta com este texto - que há múltiplas "funções públicas" dentro da "função pública". E que algumas dessas "funções" que são públicas, podiam não o ser. Digo "podiam" porque não tenho a veleidade - como os "académicos", os"moralistas", os "analistas" e os "empresários" - de me comparar com o norte da Europa ou, sequer, com a Inglaterra ou a Espanha, coisa que eles fazem todos os dias sem se rirem. Prefiro Marrocos e saio por cima.

CANALIZADORES E AGUADEIROS


De acordo com os nossos pasquins, o sr. Prodi, o "songa-monga" que é chefe do governo italiano, colocou na proposta de orçamento para 2007 uma redução, na ordem dos 30%, nos vencimentos de todos os membros do governo, a começar por o dele. Como não sou populista e julgo que a actividade política deve ser bem paga para evitar os habituais e deprimentes espectáculos de corrupção, não me parece que a medida possa aplicar-se com a miséria reinante. Todavia, gostaria de ver o actual governo, liderado por um cavalheiro que se "inspirou" em Bernstein (não o da música, que ele não deve saber quem é, mas o outro, o "social-democrata"), não ser tão prestimoso em espremer tudo e todos à toa. Ainda hoje, por exemplo, fui pagar o IRS da minha mãe - que é pensionista de apenas três dígitos - e a coisa ficou por mais de dois terços do que ela recebe mensalmente. O tirocínio fiscal aos pensionistas - a estes, não àqueles dos quatro e cinco chorudos dígitos - foi uma manifesta infelicidade socialista. O governo está a "apertar" todas as torneiras para o óbvio. Depois da "presidência" da União Europeia, vai ter de escolher entre continuar a fazer de canalizador - trapalhão e não sofisticado como o polaco - ou de aguadeiro. Para já, o governo tenta impressionar o país com a sua luta "titânica" contra as "corporações": a função pública (de que é chefe supremo), as câmaras municipais, as regiões autónomas (selectivamente, ou seja, só o dr. Jardim - este PS "jurou" para si próprio que há-de acabar com o dr. Jardim, custe o que custar, ou ainda perceberam isso?), os tribunais, os médicos, os doentes, as universidades, os liceus, em suma, o país. Os "privados", tirando os bancos, o engº Belmiro - que já conheceu melhores dias - pouco contam. Mirrados, dependentes do Estado, aguardam pelas migalhas que o irrelevante dr. Manuel Pinho diz ter na algibeira. Estamos - oxalá eu me engane - a viver uma mentira colectiva, apascentada pela "liderança", pela "popularidade" e pela propaganda. Não me perguntem como nem porquê, mas isto não vai acabar bem.

3.10.06

NÃO É FÁCIL DIZER BEM - 5


O professor (imagino que seja professor) Carlos Leone, faz os possíveis e os impossíveis para atrair leitores ao que resta do Esplanar do João Pedro George. Mistura bola com outras coisas, e de novo bola com mais coisas, sendo estas quase todas provenientes da INCM. Desta vez, deu-lhe para promover a revista de que é director, a Prelo, da dita Imprensa Nacional- Casa da Moeda. Conheci essa revista quando ela era viva, apesar de ser então dirigida por Diogo Pires Aurélio. Nos anos oitenta, produziram-se números de inequívoca qualidade, incluindo hors série, que valem como verdadeiras "revistas de cultura" minimamente sérias. Entretanto deixei de a ler e, por indicação amiga, soube que Leone a dirigia. Não me interessa. Prefiro ir a um número antigo, dedicado a Eduardo Lourenço, e respigar esta expressão de José Augusto-França acerca dos seus "trabalhos", numa "carta aberta a um mito chamado Eduardo Lourenço": "... tratar dos nossos anos 20 que foram o que foram e nos fizeram, em última instância (é a minha tese), como somos, perdendo o comboio de sermos outra coisa". É isto que falta a Carlos Leone - e a tantos como ele - e que ele ainda não percebeu: patine. O resto é nem sequer chegar a sair da estação.

FALTA DE SORTE

Tudo começou com António Arnaut, o arauto do SNS. Depois, numa segunda encarnação, houve Maldonado Gonelha, um razoável e sério administrador. Mais tarde, quando emergiu Guterres, seguiram-se três ministros completamente distintos: Maria de Belém, Manuela Arcanjo e, no estertor, o próprio Correia de Campos. A única que sabia fazer contas, Manuela Arcanjo, foi despedida ignobilmente numa fase em que o engenheiro já estava por tudo. Como lhe competia, não lhe perdoou. Correia de Campos não teve tempo para mostrar a sua vocação de profeta. Talvez por isso Sócrates o tenha ido buscar de novo. Correia de Campos lembra-me aquelas pessoas que frequentam as barraquinhas de tiro das feiras. Não acerta uma. Tem, para cada dia da semana - fins de semana incluídos -, uma "política". Fecha, abre, anuncia, ameaça, ri-se, põe taxa, tira taxa, volta a rir-se com a mesma leviandade com que afirma que levar uma hora até uma urgência é motivo bastante para a encerrar. Uma hora a contar de onde ou de quê, sr. ministro? Enfim, é tempo de o engº Sócrates começar a olhar com olhos de ver para o que o dr. Campos, em perfeito delírio, anda por aí a plantar. O PS não tem sorte com os seus ministros da Saúde.

A PRESIDÊNCIA


Já se percebeu que, a pretexto da "presidência europeia" do segundo semestre de 2007, o país vai paralisar. Tal como aconteceu com a Expo, o Euro e a "presidência" guterrista de 200o - a famosa "de Lisboa" -, todos estes acontecimentos foram "pontos de chegada". Num país provinciano como o nosso - em que já devem estar em bicos-dos-pés tudo o que é designer do regime por causa do "logotipo" bem como uns meninos e umas meninas emproados para "receberem" os visitantes - uma banalidade como esta nunca é acolhida com normalidade, apesar de ser a terceira vez. Haverá um governo "antes da presidência" e um governo "depois da presidência". Não quer dizer que mudem as moscas. O que pode mudar é a paciência para as ouvir zumbir.

"SEMPRE O MESMO AR"


Concordo com esta leitura do JPP e, por tabela, da Helena Matos. De qualquer forma, não me impressionou nada aquele espectáculo "neo-realista" do dr. Barroso, enquanto porta-voz de uma Europa cega, surda e muda ao que quer que seja, a alombar com sacos de farinha para os "desgraçadinhos" africanos e, oportunisticamente, a dizer que a "prioridade" da Comissão Europeia é África. Ele que experimente dizer isso em sudanês para ver se convence alguém.

ANTES QUE ANOITEÇA

O Tomás comprou o "Antes que anoiteça", do Arenas, no aeroporto de Madrid, a caminho de Cuba. Eu lembro-me de estar a ler a tradução portuguesa, da Asa, num comboio pré-Alfa Pendular entre Lisboa e Coimbra, em 1995. Em Junho desse ano, tinha ido a Cuba pela primeira vez e regressaria para o Natal e Ano Novo. Foi, aliás, no dia de Natal desse ano, passado numa Havana absolutamente tropical, que um rapazito, daqueles que perseguem os "turistas" por todo o lado na esperança de levarem qualquer coisa para casa, e a quem eu recusei dar fosse o que fosse (o meu mau feitio vai sempre na bagagem), me pôs o braço pelos ombros e me disse, com a altivez improvável da sua infelicidade, e num espanhol "acubanado" perfeitamente perceptível e sábio: "tu não és mau, o que estás é amargurado". Como católico, o tal mezzo credenti do Vattimo, poderia assumir que, sob a forma daquele menino pobre de olhar luminoso, o Filho do Homem me tinha vindo dizer qualquer coisa, ao sol escaldante de um Natal diferente. Desgraçadamente esse breve desconhecido conheceu-me melhor, em segundos, do que eu, numa vida inteira, jamais me hei-de conhecer. Nesse mesmo dia, na praça da Catedral de Havana, comprei na rua livrinhos "proibidos" pelo regime, que me foram exibidos discretamente num piscar de olhos, justamente por causa de já ter lido as "memórias" de Arenas. De facto, há quem cite Arenas supostamente a crédito de coisas em que ele nunca acreditou. De Cuba ao exílio nos Estados Unidos, Arena manteve, mesmo na doença e no tremendo sofrimento interior que levou na bagagem, a lucidez. Bem anda o Tomás quando o cita: "A diferença entre o sistema comunista e o capitalista é que, embora ambos nos dêem um pontapé no cu, no comunismo dão-no-lo e temos de aplaudir, e no capitalismo podemos gritar; eu vim para gritar." Eu gostava que aquele menino do dia de Natal de 1995, que desapareceu, como tinha aparecido - com um pontapé no cu numa ruela suja de Havana - e, hoje, já seguramente um homem adolescente, pudesse vir, aqui e agora, dizer-me o mesmo.

2.10.06

NO MEIO DA PALHAÇADA....

... ainda há homens.

COM QUAL FICAMOS?

O dr. Pinho, afinal, existe. Prometeu-nos mais crescimento e menos défice. Já tínhamos as previsões "em alta" do dr. Constâncio, as "assim-assim" do dr. Teixeira dos Santos e agora temos as do imprevisível dr. Pinho. Tão imprevisíveis que Teixeira dos Santos não as conhece. Por outro lado, Pinho foi dizer para Espanha que a EDP era fundível com a Gas Natural espanhola. Teixeira dos Santos desmentiu-o. Em que é que ficamos? Com qual ficamos?

PROVÉRBIOS

"Quando não se quer fazer nada, nomeia-se uma comissão", dizia Salazar e antes dele o Eça. Da mesma forma que "quando se quer secar o pântano, não se avisa as rãs com antecedência".

OS TEATROS DO PODER

No âmbito da esquizofrenia concorrencial que atacou a imprensa escrita, o Público reabriu os portões da edição online ao povo. Pelo menos parte dela. Tal permite aceder a este artigo do Augusto M. Seabra sobre a saga dos teatros nacionais. Não é das prosas mais felizes do Augusto. É palavroso, repetitivo e, quer online, quer em papel, tem gralhas. Todavia, a ideia geral é que conta e, salvo a imodéstia, parece resumir-se ao seguinte:
  • a actual tutela da Cultura, especialmente o seu secretário de Estado, o sr. prof. dr. Vieira de Carvalho, formado na melhor ortodoxia da extinta RDA, imagina que tem um "programa" para os teatros nacionais, dirigista e de "compromisso" político, como não podia deixar de ser;
  • escrevo "imagina" porque, com o dinheiro que está afecto à Cultura para 2007, ele pouco mais pode fazer para além de manter o insustentável status quo na gestão dos ditos e a inverosimilhança de muita da sua programação, quando ela existe;
  • nenhum- repito - nenhum dos teatros subsidiados pelos impostos, ou entidades equiparadas - veja-se a recente destruição do "projecto educativo" no CCB promovido pelo "escritor" Mega Ferreira -, se preocupa minimamente com a formação de novos públicos ou com os "serviços educativos", como as respectivas leis orgânicas em vigor determinam que se faça; quando muito, aparecem umas escolas para ver as paredes e entretém-se um ou dois funcionários com o trabalho de guia;
  • os teatros e equiparados trabalham para "velhos" públicos: para o poder político que "está", para os "da casa", para as "elites" que não existem e para os amigos se poderem pavonear ou fazerem "uma perninha";
  • nessa matéria, naturalmente que a ópera é o espectáculo mais caro e mais despesista, o que não impede que Jorge Vaz de Carvalho, actual director do Instituto das Artes, queira - como sempre ambicionou - o lugar de Paolo Pinamonti, sobretudo quando está instalada, a nível institucional e político, uma espécie de revivalismo abstruso e dirigista cuja imagem de marca reside na direcção do Teatro Nacional D. Maria II.
Não era bem isto que o AMS queria dizer, mas é o que eu quero dizer.
Adenda: Afinal, o Público só abriu umas vagas janelas que excluem suplementos e artigos de opinião. O link é só para assinantes.

A BIBLIOTECA NACIONAL


Tenho normalmente em consideração o que o João Morgado Fernandes escreve nos editoriais do Diário de Notícias. Já aconteceu surpreendê-lo em comentários na Sic-Notícias. E, de vez em quando, lá temos as nossas picardias na bloga. JMF, desta vez, não gostou de umas declarações quaisquer de Maria Filomena Mónica ao 24 Horas sobre os "Morangos com Açúcar" e a televisão em geral. MFM, sumariamente, disse - parece-me - a verdade: que a televisão é irrecomendável. E que, acrescento eu, merecia ser censurada. Não da forma subtil como os actuais mandarins da comunicação social fazem, mas quando se programa. Os directores de programas deviam fazer actos permanentes de contrição e ginástica com os neurónios, se é que os possuem. Mas também não foi para pensar que os colocaram lá, não é verdade? Depois, o JMF "mete-se" com o "Bilhete de Identidade" da rapariga e com uma recente entrevista sobre vulgaridades. Estou à vontade porque não gostei do primeiro e achei graça à segunda. É politicamente incorrecto dizer que o Mário Soares tem ar te ter tido amantes? Só lhe fica bem, ou o JMF, que tanto aprecia os seios voluptuosos da menina Scarlett, é mais do que os outros? Todavia dou razão a MFM em coisas como as que escreveu ontem na Pública sobre a Biblioteca Nacional, entregue a um comissário político do PS e ao abandono. Isso, JMF, é infinitamente mais importante do que o que a MFM possa pensar da televisão democrática, embora, por causa do "progresso", a televisão seja culturalmente mais relevante do que uma biblioteca, mesmo que "nacional". Como vale a pena, fica o artigo todo para se meditar nele.

"A Biblioteca Nacional Está a Cair"

Maria Filomena Mónica

Antes da invenção da escrita, a memória apenas durava uma geração. Depois, os poemas épicos, que andavam de boca em boca até chegarem a Homero, tornaram a memória mais longa. Finalmente, chegou a escrita e, com ela, os documentos que os Estados passaram a guardar zelosamente. O mesmo se não passou em Portugal, onde os governantes andaram sempre distraídos, um facto grave, pois, sem memória, uma nação não existe ou só existe com base em mitos. Estas reflexões, na aparência extemporâneas, foram causadas por mais uma estadia na Biblioteca Nacional. Chegara o momento, considerei, em que, após vários meses de extroversão, deveria voltar a emigrar para o século XIX. Na última segunda-feira, saí de casa feliz. Notei que a sala de Leitura Geral estava quase deserta - as aulas tinham recomeçado nesse dia - e que o silêncio era total. A beatitude não ultrapassou os quinze minutos. Dos três livros que requisitara - é este o limite - dois encontravam-se «em mau estado», o que significava que não podiam «vir à leitura». Uma vez que os mesmos recolhiam a poesia de escritores menores, achei estranho. A responsável da sala, que me conhece há anos, abriu uma excepção, dando ordem para aqueles poderem deixar o depósito. Quando chegaram, verifiquei que as obras de Macedo Papança e de Silva Pinto há muito haviam entrado em estado de decomposição. As requisições seguintes seguiram idêntico padrão: quase metade dos livros que pedi estava «em mau estado». Apesar da entrega aos soluços, aguentei a pé firme. Só em casa, a minha alma se encheu de angústia. Como é possível que, governo após governo, nenhum tenha dotado a BN dos meios necessários, o que faz com que actualmente a situação seja cem vezes pior do que há trinta anos? Como é possível que os sucessivos responsáveis da instituição não tenham dado ao restauro a prioridade que ele indiscutivelmente merece? Como é possível que o actual governo, para o qual tudo são facilidades no que respeita a guarda dos mamarrachos modernistas do sr. Berardo, lave as mãos do desastre que se abateu sobre a BN? No segundo dia, a euforia desaparecera. A fim de analisar, em contexto, o poema «O Sentimento dum Ocidental», havia decidido ler o número do Jornal de Viagens, de 10 de Junho de 1880, onde Cesário originariamente o publicara. Pela primeira vez, olhei as seguintes palavras numa ficha de requisição: «Péssimo estado». A funcionária explicou-me que de tal forma estava o jornal estragado que as folhas tinham caído, mal ela lhes tocara. Nenhuma excepção era portanto permitida. Frequento há tantos anos a BN que ainda sou do tempo em que podíamos ler os jornais no original, mas aceito que os exemplares só possam ser consultados agora em microfilme. O problema reside em que parte deles foi filmada desajeitadamente, o que faz com que a imagem esteja de tal forma desfocada que só com esforço sobrehumano se consegue ler. Como pretendia consultar uma dúzia de periódicos - a fim de averiguar a forma como a morte de Cesário fora noticiada - ainda não passara uma hora e já sofria de tonturas. Vendo-me a cambalear, a funcionária informou-me que, ali, isto acontecia todos os dias, pois os leitores não se davam conta do mal que lhes fazia estarem a olhar, horas a fio, películas enevoadas. Quando, a 21 de Setembro, li, no Diário de Notícias, que o Ministério da Cultura iria sofrer, no próximo ano, um corte, nas despesas de investimento, de 7%, e que, no caso da BN, este poderia atingir os 10%, só não peguei numa carabina porque não tenho licença de porte de armas. Dois dias depois, tomava conhecimento de que o Estado português iria receber 6,2 milhões de euros pela perda das jóias da Coroa roubadas durante a exposição, realizada em Haia, no ano de 2002. De repente, tive uma ideia genial: a Ministra Pires de Lima deve pegar naquele cheque e entregá-lo ao director da BN, estipulando que o dinheiro tem de ser gasto no restauro do que está degradado. Não tenham dúvidas: este património é cem vezes mais importante do que a bengala em ouro cinzelado, cravejada com 387 brilhantes, mandada fabricar para o rei D. José. Agora que os anéis se foram, cuidemos dos livros."

A PATRULHA DO BOM GOSTO


Ainda a propósito da visita do Chefe de Estado a Espanha, vieram os costumeiros e piedéticos comentários da patrulha do "bom gosto" sobre Maria Cavaco Silva. A pequenina burguesia de espírito, a mesquinhez dos nossos costumes "democrátioos" e o secular provincianismo daqueles que se imaginam "elites" - na moda, nos jornais, nas revistas, nos cafés, nas saunas, nos spa, nos cabeleireiros and so on - não suportam ver a esposa do "camponês de Boliqueime" ao lado do marido em funções oficiais. Por mais que se esforçasse, Maria Cavaco Silva jamais estaria à altura da altíssima consideração em que se têm estas aventesmas, elas sim, pirosas, etica e intelectualmente. Maria Cavaco Silva, que apenas me foi apresentada uma vez, na Católica, em 1985, pelo Carlos Câmara Leme, tem a sua própria biografia e não precisa de bajular os amantes do "estilo" - a maior parte deles começou a "vida" no Seixal e na Brandoa ou andou por aí "aos caídos" a dormir com esta e com aquele para poder "passar" para o Bairro Alto e para o Príncipe Real - para existir. Nem sequer do marido. Se estes cretinos que a "gozam" por usar ou deixar de usar isto ou aquilo se olhassem duas vezes ao espelho, estavam caladinhos. Maria José Ritta sempre se vestiu como um marujo do Alfeite e nunca ouvi ninguém rosnar por causa disso. Aliás, foi para ela que se criou a figura jurídica do "cônjuge do Presidente da República", ou os patrulheiros já se esqueceram disso? Maria Barroso, Manuela Eanes e Maria José Ritta, como Maria Cavaco Silva, valem por si, como mulheres. Para não ferir as susceptibilidades dos polícias do gosto democrático, sempre direi que, a elas, prefiro a sra. D. Berta Craveiro Lopes. Apenas porque está morta e, como as que citei, era uma grande senhora.

UM ELOGIO


Da comitiva que acompanhou o Chefe do Estado a Espanha, constavam três ou quatro ministros. A sério, a sério, só contei um, o dr. Luís Amado, o MNE. Aliás, é dos pouco lúcidos que o governo contém, como se pôde perceber pela entrevista que deu a Maria João Avillez, na Sic- Notícias, quando falou na redução da presença lusa em várias missões no estrangeiro num momento em que se anda a espremer todos os limões possíveis para sacar dinheiro. Quanto aos restantes, recordo o visionário Mariano Gago - que tutela um ensino superior a afundar-se - e aquela sombra que dá pelo nome de Manuel Pinho, entretanto desaparecida a meio da visita. Vários plumitivos "apontaram" a Cavaco Silva a "vocação executiva" como se isso fosse um pecado. Ainda bem que ele a tem. Deve ter ficado mais esclarecido sobre o tipo de gente que nos pastoreia, sobretudo nos sectores da "inovação", da "qualificação" e da "economia". Na sua eterna inconsciência, vieram para os jornais "elogiar" o Presidente. Antes de eles terem nascido para ministros, já Cavaco sabia perfeitamente o que é que andava cá a fazer. Em Espanha - admiraram-se os mesmos plumitivos - Cavaco "passou" por um Presidente que sabe como se governa. Não é vituperio. É um elogio.

1.10.06

FOI VOCÊ QUE PEDIU UM PROVEDOR?

A Ordem dos Arquitectos arranjou um "provedor". Os jornais têm "provedores". As televisões, se não têm, vão ter um. Já houve um "provedor dos contribuintes" - para nada, naturalmente - e, por fim, existe o "provedor de Justiça" cujo papel principal é descobrir pólvora seca. Há, aliás, quem entenda que devia haver um "provedor" em cada esquina e em cada "corporação", por causa do respeitinho. Estranho é que, com tantas "provedorias", se viva num país tão injusto e cada vez mais amoral.

ALGUMA COISA


O Pedro Correia, porventura aproveitando a modorra outonal que se avizinha, elencou "os livros da vida dele" e lembrou-se de um belo conto de Hemingway, passado em Itália. Eu hesito sempre nos primeiros. Houve autores e livros por que passei que achei "definitivos" e que, anos depois, esqueci. E também aconteceu o contrário. Livros por que passei com displicência e que vieram a tornar-se permanentes companheiros. O que vou enunciar não pertence a nenhuma das duas categorias. Trata-se de um "conto" de Tennessee Williams, publicado naquela maravilhosa "Colecção Miniatura" dos "Livros do Brasil", sob o título "A Última Primavera" (tradução de José Sasportes - o mesmo que foi ministro da Cultura de Guterres - no original, "The Roman Spring of Mrs. Stone"). É, como praticamente tudo o que Tennessee escreveu, autobiográfico, apesar da Mrs. Stone. Trata-se da história de uma actriz norte-americana, em fim de carreira, viúva e rica, que em Roma, "arrastada pela torrente", se apaixona por um gigolo, Paolo. Os "desenvolvimentos" são os habituais nestas coisas, até ao momento em que Mrs. Stone percebe que não é mais possível "manter a dignidade". Como se houvesse "dignidade" a manter quando somos arrastados pela "torrente". Perto do final, numa discussão com Paolo, este pergunta a Mrs. Stone: "Roma tem três milhares de anos, e tu quantos tens? - Cinquenta! - disse ela a custo. Foi esta palavra que acabou com o seu sofrimento". Já num momento anterior, depois de Paolo lhe recordar que "não era a primeira grande dama com quem andava", Mrs. Stone respondeu: "Tens razão, Paolo, - disse a sr.ª Stone, enquanto esperavam que o porteiro os fizesse entrar - não é um assunto digno, e eu acho que a pior coisa que pode haver no amor entre uma pessoa muito nova e outra relativamente mais velha é a terrível falta de dignidade que parece exigir..." O conto termina com Mrs. Stone, imersa em álcool e em solidão na balaustrada no seu palazzo romano, a embrulhar as chaves da casa num lenço branco com que antes acenara a "outro" Paolo anónimo que esperava um sinal na rua para poder subir. Tennessee escreve: "Desaparecia, não, já tinha desaparecido sob a cornija por cima da porta do palazzo, e dentro de instantes, daqui a poucos minutos, o nada acabaria, o vácuo terrível seria devassado por alguma coisa". Se alguém sabia em que consistia esse "vácuo terrível", era Tennessee Williams que, depois da morte por cancro do seu companheiro Frank Merlo, em 1962, "morreu um pouco também" (Truman Capote, I remember Tennessee, 1983). Depois disto - continua Capote - "Tennessee não foi mais o mesmo. Bebera sempre bastante, mas aí começou a misturar comprimidos com o álccol [como, aliás, o próprio Capote, desaparecido um ano depois deste ensaio ter sido escrito]. Dava-se também com uma gente muito estranha. Creio que passou sozinho os derradeiros vinte anos da sua vida - com o fantasma de Frank". Não terá sido exactamente assim. Como a Mrs. Stone do seu conto, Tennessee passou esses anos na balaustrada à espera que o seu nada fosse "devassado por alguma coisa".

NÃO É FÁCIL DIZER BEM - 4


Outro dia, e com inteiro sentido de justiça, referi que uma prosa crítica de Eduardo Prado Coelho sobre Rosa Montero me tinha levado a um dos seus livros, A Louca da Casa e, posteriormente, às Histórias de Mulheres, algo que as feministas exaltadas que andam por aí nos "comentários", fariam bem em ler. E afirmei que era para isso que servia a crítica de livros nos jornais: para nos levar a lê-los e não a rejeitá-los. O que Eduardo Pitta escreveu recentemente sobre um livro de Bill Bryson, é outro bom exemplo. Acontece que ontem, ao percorrer o fatídico suplemento "cultural" do Expresso, o Actual, deparei-me com um conjunto de frases enlevadas de António Guerreiro, o "especialista" de serviço, sobre o livrinho que recolhe a poesia do padre Tolentino Mendonça, "A Noite abre meus olhos", que já tinha provocado alguns derrames melancólicos ao Pedro Mexia. Eu não sou crítico literário, nem tenho tamanha pretensão, mas não sou cego. E vai daí fui ler o Guerreiro. Que nos diz ele da poesia do padre? De um dos seus primeiros livros, Guerreiro espreme-se nestes singulares termos: "o que nesse livro se revelava era uma poesia dotada de um grande saber sobre si própria e que, por isso, não descuidava a vigilância". Perceberam a ideia, "não descuidava a vigilância"? Eu também não. Mas Guerreiro consegue ser ainda mais imperceptivelmente subtil. Ora vejam. A dita poesia que "não descuida a vigilância", depois, "expande e abre para outra dimensão, para uma espécie de alteridade que se subtrai e que só a palavra consegue captar". Isto é tão esmagador como a construção de auto-estradas em Trás-os-Montes. Puro betão. Depois Guerreiro fala da "linguagem muda das coisas" e na "alegria" que consiste em o "padre-poeta-patrão-da-Assírio & Alvim", neste livro, ter conseguido usar e manter "a sua original vigilância". Antes de terminar a sua pungente leitura da "obra poética" de Tolentino Mendonça, Guerreiro não se poupa: "a atenção detém a infinitude do desejo e apreende a caduca fragilidade do que existe". Não é mesmo uma ternura?

À F.

A esta perguntinha, a Fernanda Câncio - que não reparou que eu a tinha convidado para almoçar lá mais para trás - respondeu com uma "senhora resposta" que termina sensivelmente no segundo parágrafo: "não sei o que é isso do aborto 'livre', joão. nem o que seja ser de tal coisa adepta. acho que adeptos é mais futebol clube do porto e assim. mas defendo, sim, que qualquer mulher possa decidir, dentro de um prazo de tempo razoável, se quer ou não levar uma gravidez a termo". Vamos lá por partes. A Fernanda sabe perfeitamente o que é que lhe perguntei e qual foi o pressuposto da pergunta. Antes de ser pensada a partir das chamadas "partes baixas", a interrupção voluntária da gravidez começa por ser um assunto de inteligência, de cabeça, se quiser, de consciência ou de "inteligência emotiva", para recorrer ao jargão. Contrariamente ao que acontece, por exemplo, entre same sexers que optam ou não por usar preservativo nas suas "entusiasmantes" relações, não vem mal nenhum ao mundo - eventualmente pode vir para algum deles - se não o usarem ou o romperem. Já entre um homem e uma mulher, a menos que algum deles seja infértil, do "entusiasmo" pode resultar uma vida. Eu sei que este argumento é bestialmente reaccionário. Não se deve falar de "vida" perante os inalienáveis direitos da mulher a poder dispôr do seu belo corpinho. E dos do homem poder dispôr do corpinho da mulher quando a "manda" abortar. Porém, não foi até hoje encontrada melhor definição para a coisa. Se me costuma ler, já deve ter reparado no desprezo que nutro pela "sociedade" e pelo o que ela pensa. Quanto ao conceito de "filho não desejado", só me vem dar razão, e eu não quero nem deixo de querer ter alguma. Ou seja, voltamos ao aborto enquanto puro meio anti-conceptivo. Repare. Eu não exijo ou defendo sequer que se deva punir alguém por, em desespero de causa, ir até Badajoz ou Madrid (se for da "associação das famílias numerosas") ou à Almirante Reis (se for de uma família numerosa da Musgueira), para perpetrar um aborto. Pelo contrário. Como cristão, péssimo aliás, limito-me a sentir piedade pelos autores do acto. Agora não coloco os fantásticos direitos da mulher "ao seu corpo" e do homem ao corpo dela - todos os temos, one way or the other - à frente de outros. Nem à frente, nem atrás. Os arquétipos, feminista ou machista, que os têm sustentado, não possuem qualquer tipo de superioridade "moral" sobre outro arquétipo que defenda o "direito à vida". E eu gosto pouco, porque o acho demagógico, de trazer para aqui o argumentário "socio-cultural" ou "jurídico-criminal", tipo adolescentes arrependidos ou tipo violação. Ninguém, com dois de testa, pôe em causa que uma gravidez dessas deve ser interrompida e, no primeiro caso, com dois pares de tabefes nas criancinhas. Quanto ao imaginar-me de "joana" a entrar num hospital para abortar porque "me dei à paródia" e umas daquelas engenhocas destinadas a prevenir aborrecimentos falhou, percebo perfeitamente onde é que a Fernanda quer chegar. Quer chegar ao princípio da conversa, o da IVG como anti-conceptivo. Sim, sou adversário da vulgarização do aborto como tal. Aí, parece-me que estamos todos de acordo. É, se quiser, uma questão de civilização. Quando estudava direito na Universidade Católica e o dr. Mário Soares, com a coragem de sempre, alterou o Código Penal nesta matéria, eu modestamente apoiei e ri-me das manifestações patéticas que o Padre João Seabra e os seus acólitos promoveram por aí. Nesta matéria, nunca fui de excessos. Tento ser realista sem abdicar de alguns valores, apesar de pender cada vez mais para o lado anarquista da existência. E fique descansada que, desta vez, o referendo dará o resultado esperado. Da mesma forma que se continuará a ir a Badajoz e à Almirante Reis porque o "sistema" dificilmente aplicará a nova legislação, quando, em vinte e três anos, não quis aplicar a que existe. Só que eu não sou como a "Maria vai com as outras", neste caso uma putativa "joana vai com as outras". E quando vejo certo tipo de gente (não a minha amiga), de um e do outro lado, a berrar pela defesa da sua palhota, aí sim, dá-me vontade de os mandar todos à merda. Um beijinho (que nada tem de patronising, por amor de Deus).