11.11.11

OS NOVOS NIBELUNGOS


«A União Europeia parece hoje uma ópera de Wagner, de onde foram retirados todos os deuses, todas as ninfas, todos os heróis, todos os gigantes, e apenas restaram os anões. Dia 9, quando a Itália atravessou o Rubicão dos 7% da dívida a dez anos, ficou patente o fracasso absoluto da estratégia que foi imposta, com disciplina e método, pelo Governo alemão, com a cumplicidade do Eliseu: a) esvaziar as instituições europeias, em especial os Presidentes da Comissão e do Eurogrupo; b) levar a cabo medidas de quarentena para evitar o "contágio" do vírus da dívida soberana, começado na Grécia; c) violentar todas as regras da lógica formal, da ciência económica, e do bom senso, ao acreditar que é pela austeridade recessiva que a Europa poderá reequilibrar-se; d) recusar qualquer reforma estrutural dos Tratados, como se o problema sistémico da Zona Euro não tivesse origem no carácter monstruoso da UEM, como obra imperfeita e inacabada. Se a Itália cair, a crise europeia entrará num buraco negro. Numa fase de turbulência total, como ocorre num metal que entra em colapso sob uma pressão térmica insuportável. Ontem, o BCE fez saber que ia ajudar a Itália, e de imediato os juros da dívida de Roma recuaram. Depois veio Klaas Knot, o Presidente do Banco Central holandês, dizer que, afinal, o BCE pouco pode fazer, lançando sombra sobre a única esperança que nos resta... Reina a cacofonia. Em Berlim já se fala de mutualização da dívida europeia, perante uma chanceler inamovível. Sarkozy sonha com uma Europa quase só franco-alemã. Ao evocarmos, hoje, os dez milhões de jovens europeus sacrificados na Grande Guerra, talvez seja preciso recordar ao Presidente francês que entre a França e a Alemanha há o Reno. Um rio onde jaz o anel de sangue, de uma violenta história. Prestes a regressar, pelo desvario dos anões nibelungos que nos desgovernam.»

Viriato Soromenho-Marques

7 comentários:

Anónimo disse...

Enquanto foi uma comunidade económica as coisas ainda se focalizavam naquilo em que todos se sustentam: a economia. Depois, começou a inchar à custa de discursos burocratas e sonhadores feitos de uma gente que é tanta e tão ocupada com tantas coisas que eles próprios criaram para o mundo funcionar que até parece que já nem conseguem ver os problemas para além da Europa quadrada que inventaram. Ainda por cima, com tanta mediatização, dão espectáculos de hora a hora. O presidente da comissão (que até há pouco criticava ferozmente os "crisofilistas"), limita-se a discursos entre óbvio e patético, chegando a um ponto em que agradece publicamente à Alemanha os esforços que está a fazer para liderar. O do BCE, outra importação lusitana de alta qualidade, é questionado em conferência de imprensa e responde à Pinto da Costa afirmando que prognósticos só no fim do jogo, para se salvaguardar, como o próprio diz. E ri-se, o ceguinho. O que nos salvou a todos, como se vê, foi aquele magnífico Tratado de Lisboa arrancado a ferros, a Agenda 2000 e outras fontes de calor feitas à medida das lareiras. O mundo lá fora vai crescendo, por vezes a 10%.

PSC disse...

Que GRANDE POST!Está lá tudo!Não é preciso dizer mais nada.Sómente isto:continuamos alegremente a afundar o barco com dois timoneiros ABSOLUTAMENTE IRRESPONSÁVEIS e que já deveriam ter sido internados em manicómio há muito tempo!Mas não há HOMENS! Só Ratazanas de avental!

Anónimo disse...

O caro '12:28' descreve bem a desorientação geral e o ridículo trágico europeu. Soromenho-Marques, tal como M.M.Carrilho, faz uma leitura filosófica e superior como se ele (ambos) não pertencessem à coisa-europa e apenas a contemplassem de fora - como quem observa um estranho protozoário ao microscópio. Mas facto é que ambos (e muitos outros...) viveram demasiado tempo desta mesma europa sem um piu e só recentemente - talvez demasiado tarde - se tenham dedicado a olhar para ela, com todos os seus defeitos. No caso da questão "economia", não é só entre os deputados da esquerda portuguesa (!) que grassam as fantasias e as folgas (com interior de penas de ganso); também Carrilho - por exemplo - se dedica no seu livro a "puxar pela economia" como se ela fosse apenas uma azêmola recalcitrante a desatascar da lama; e Soromenho fala aqui implicitamente de uma 'capacidade' que a UE e o BCE terão oculta mas que a todo o momento poderia 'resolver tudo' se todos se tornassem inteligentes e solidários. Não basta: dinheiro é dinheiro e não se inventa (pelo menos não se deve...), e, se se inventar, esse acto constitui uma fraude e uma contrafacção de moeda - desvalorizando-a sem bens e riqueza reais que a suportem. Falar entusiasticamente dos países/economias emergentes é um exercício inútil: essas economias têm quase todas minérios, gás, petróleo, madeira, borracha ou outras condições naturais excepcionais que são negociadas como penhor por décadas; têm quase todas excesso de população e mão-de-obra miserável; receberam, no seu conjunto, todas as fábricas e indústrias que o Ocidente um dia resolveu deslocar para paragens pobres sem horários de trabalho ou segurança social; e ainda têm regimes de pseudo-democracia ou de castas dominates - onde a chibatada é a ordem do dia e ninguém quer ser 'interrogado' pela polícia durante 6 horas amarrado a uma cadeira. Estes são os novos prestamistas e entesouradores; estes não querem emprestar dinheiro à Europa - que não faz reformas, não tem matérias primas e não dá garantias de vir a pagar. Toda a Europa tem dívida; todos pedem ou pediram emprestado (às vezes, para pagar salários...); até a Alemanha tem dívida. Agora já ninguém empresta à Europa - eis o problema que nem Soromenho, nem Carrilho, nem partidos políticos, nem "Líderes", nem comentadores querem admitir. Daí a permanente e sonora carambola europeia de crânios vazios.

Ass.: Besta Imunda

Blogue de Júlio de Magalhães disse...

Felicito o autor do blogue por este post. Quer ele, quer eu, quer certamente outras pessoas (como o autor do texto citado), nos temos referido recentemente e com insistência a Wagner e ao "Anel do Nibelungo".

O Reno tem as águas agitadas, o Nibelheim é uma casa de confrontos e o Walhalla acaba sempre por se desmoronar.

É a vida a imitar a arte!

tetisq disse...

"desgovernam" é a última palavra do texto e a que mais diz...

o tal leitor disse...

Na blogosfera mais erudita estão a aparecer ultimamente muitas referâncias a nibelungos e conexos. Será do sucesso do Siegfried na Gulbenkian-Met,que veio evidenciar que mesmo sem estrelas de primeira grandeza(a não ser talvez o Terfel) se pode construir um excelente trabalho? Não só,claro.O pessimismo schopenhaueriano do Wagner tinha de ser invocado para os tempos que correm. Aliás é curioso que o pessimismo wagneriano coincida com a época de expansão e consolidação do Império bismarckiano. Salvo erro,o Siegfried é de 1876,logo após a vitória contra os franceses de da proclamação do Império em Versailles.Curioso. No entanto a minha questão agora é a nossa tendência para considerar que cada crise é o fim do mundo, e da exclusiva responsabilidade dos sucessores dos nibelungos. Para já,a "Crise" é europeia(parcialmente,a Polónia,p.ex. está bem e recomenda-se). A China,o Brasil,a India,outros latino-americanos,crescem a ritmos impressionantes,com classes médias em expansão e consequente alargamento dos mercados.O que a crise mostra,alem de outras coisas,é o progressivo apagamento no plano mundial da Europa e mesmo da dupla Europa-EUA. Há quanto tempo o "Economist" e outros prevêm tal evolução? Os impérios têm mudado ao longo da História,mas isso não significa que a Civilização tenha desaparecido.A nossa não é única,e a próxima estará certamente muito influenciada por esta. Atrever-me-ia a dizer que falta a muitos governantes e analistas alguma capacidade de recuo histórico,senão de conhecimento da História,disciplina muito mais importante do que o seu lugar nos nossos curricula.Ou então avançamos semi-cegos e surpreendidos por cada acontecimento,como se fosse novo e inesperado.Que um certo Chanceler apreciasse intensamente o "Anel",não surpreende,pois se preparava para completar a destruição da Europa que os seus imediatos antecessores não tinham conseguido.Mas nós? Musicalmente, sim,e aí, imenso.

Anónimo disse...

Excelente e exacto o texto de VSM. Pertinentes os comentários de Besta Imunda. Infelizmente...para nós e para a Europa, terão ambos razão.
EL