5.8.06

MARILYN


Na morte de Marilyn

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decidia dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou


Ruy Belo

6 comentários:

Anónimo disse...

Lindo! Apetece guardar silêncio.

Anónimo disse...

Isto tá cada vez mais pinky...

Anónimo disse...

Caro sr. leio nos comentarios do post anterior o seguinte:
"Friendly warning:
Contenha-se (e contente-se) em escrever apenas sob aquilo que sabe com alguma certeza,
pois "perito em generalidades" é título que não impressiona ninguém."

Nunca me esquecerei que enquanto aluno do curso de Ciencia Politica na FCSH tive que aturar um semestre inteiro o professor da Cadeira Analise Politica, o perito em "nao generalidades" Vasco Rato, a defender que a eminente invasao do Iraque se traduziria inevitavelente numa vitoria militar rapida e na instauracao da democracia. Por isso, e ao contrario do avisado avisante peco-lhe que escreva sobre o que tem a certeza ou nao. De vez em quando por ca passarei e mesmo nao concordando, avaliarei das suas razoes. Talvez depare com um poema que nao conhecia, ou com a chamada de atencao para um facto que me tinha passado despercebido.

E esta coisa dos especialistas tem que se lhe diga: escrevo do pais que as Nacoes Unidas consideram o melhor do planeta para se viver. Onde a meio da decada passada 1 terco dos membros do parlamento nao tinham formacao superior (fonte: Beyond Westminster and Congress, Essaiessen e Heidar, Ohio U. Press, 2000.) Como conseguiram fazer funcionar a melhor democracia do mundo?

Em Portugal, temos um parlamento cheio de especialistas altamente formados ( ver p. ex. Who Governs South Europe, de Pedro T. Almeida e Nancy Bermeo)e de que nos vale?

Escreva sobre o que lhe apetecer, e por ca passarei, eventualente para discordar mas nunca para ofender.

Aos demais comentadores dava o conselho, especialistas ou nao, de nos comportarmos aqui como em casa que se visita. Defendendo pontos de vista ou mesmo de falta dela, mas sem ofensas ou pregaminhos de especialistas. Infelizmente a Historia esta pejada de erros de especialistas, e de atropelos que comecam invariavelente quando se perde o prazer e o previlegio de escutar (e conviver com) os nossos semelhantes.

joshua disse...

Mas a Marilyn era mesmo do melhor em fêmeo mito e tinha as melhores 'pink thigs' do planeta.

Sempre há cada sermão nos que se anonimatizam por aqui!

Anónimo disse...

Hoje acordei assim....

Anónimo disse...

« ... O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar ...»