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20.9.14

Irresponsáveis mas absolvidos

«Toda a gente já sabia, e muito principalmente no ministério e na Procuradoria-Geral da República, que a “plataforma informática” dos tribunais não fora convenientemente preparada para a reforma judicial. E, como não fora, ficaram parados 3,5 milhões de processos. O presidente do Instituto de Gestão Financeira e Equipamento da Justiça “assegurou” a Paula Teixeira da Cruz que as coisas tinham corrido muito bem e estavam prontas para começar. No dia seguinte, de advogados a simples cidadãos, Portugal inteiro constatou que não estavam e o sr. presidente do instituto veio dizer que esse “colapso” era previsível, “mas não havia forma de desenvolver uma plataforma alternativa em tão curto espaço de tempo”. Este aviso manifestamente não se aplicava a ele próprio, nem à ministra Teixeira da Cruz, que desde 2011 trabalhava para esta mudança. Perante esta catástrofe, a senhora resolveu ir à televisão e pedir “desculpa”, como se a “desculpa” a limpasse da irresponsabilidade do passado. Agora, conta que a “plataforma” precisa de ser substituída rapidamente, porque corre o perigo de estoirar de vez. Pedro Passos Coelho não achou necessário correr com a ministra, que lá continua sentada a congeminar asneiras, em prol da Pátria. De resto, o exemplo pegou. Nuno Crato, que tem meses para organizar a colocação de professores, arranjou também ele maneira de provocar um tumulto ou deixar que se provocasse um tumulto por causa de umas “bolsas” de professores que o ministério organizou. A irritação surpreendeu o ministro, mas, seguindo o exemplo da santíssima Teixeira da Cruz, lá apareceu muito lampeiro na televisão, a pedir “desculpa” às suas vítimas e a explicar que a trapalhice era o resultado de uma “fórmula matemática” errada. O dr. Passos também percebeu a terrível angústia do sr. dr. Crato e deixou que ele permanecesse na 5 de Outubro, a ver se consegue aumentar a atávica barafunda da Educação portuguesa. A semana passada o secretário-geral da UGT falou com eloquência do “sentimento de orfandade” dos funcionários do BES, com o recente retiro para o Estoril do dr. Ricardo Salgado, que tanto os protegeu. Há por aí com certeza um arcebispo de Mitilene in partibus ou qualquer outro beato que absolva os portugueses da negligência, da mentira, da irresponsabilidade e da estupidez, como nós gostamos e nos damos bem.»


 


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


 


Adenda: E, à semelhança de Crato na educação, na justiça continua a preferir-se os ajustes directos. Nove milhões de euros deles em apenas 20 dias do mês corrente é praticamente uma "reforma" da própria "reforma". Este final de mandato "passista" vai ser penoso de assistir mas delicioso para lhe perpetrar o que Sena designava por uma "execução capital". Deus não dorme.

19.7.14

Não há como um ex-maoísta para descrever outro

Na língua de pau "financeira" em vigor, apareceu recentemente, pela boca de um distinto banqueiro, o termo "abcesso". Ora se há coisa que caracteriza o regime são os "abcessos". No governo, por exemplo, existe um que se distingue pela inoperante galhardia e pela deliberada manhosice, o admirável prof. Crato. Pacheco Pereira, que também "bebeu" a cicuta política do "livrinho vermelho" do Grande Desdentado, "lê" Crato melhor que qualquer um de nós. «A história mais recente e que me fez escrever este artigo foi a desfaçatez do truque que o Ministério da Educação usou para marcar os exames aos professores com três dias úteis de pré-aviso, caindo do céu da surpresa no fim de Julho, com grande estrondo. Na verdade, são teoricamente cinco dias, o mínimo exigido por lei, mas só teoricamente. O truque foi pré-assinar um despacho em segredo, no quinto dia divulgá-lo no Diário da República a contar do dia da sua assinatura, para que na prática faltassem, após o anúncio ser conhecido, apenas três dias úteis até ao exame, 17, 18, e 21 de Julho. Professores que já estavam a receber o subsídio de desemprego, que já estavam de férias, e que não sabiam que iam ter um exame para que é suposto prepararem-se, cai-lhes em cima uma data que é já praticamente amanhã. Nem o gado é suposto ser tratado assim, mesmo quando vai para o abate. Porquê esta rapidez? A resposta é muito simples: para evitar que os sindicatos pudessem apresentar um pré-aviso de greve no prazo exigido pela lei – ou seja, o Governo faz um truque descarado e sem vergonha para contornar uma lei da República, que permite o exercício de um direito. Pode-se ter o ponto de vista que se quiser sobre os exames exigidos a professores que já tinham as qualificações necessárias para ensinar e, nalguns casos, já ensinavam há vários anos. Esta é outra questão e sobre ela não me pronuncio. O Governo pode até ter razão em querer os exames e os professores não ter ao recusá-los. Aqui posso ser agnóstico sobre essa matéria. Não é sobre isto que escrevo, mas sobre o pequeno truque, habilidade, esperteza e os seus efeitos de dissolução social como norma de governação. Vai haver quem encolha os ombros e ache muito bem que se pregue uma partida a Mário Nogueira e aos seus sindicalistas da Fenprof. (No entanto, todos os sindicato, mesmo os da UGT, dirigidos por membros e simpatizantes do PSD, estão de acordo em recusar o truque do Governo.) Mas, como a sociedade portuguesa está em modo de “luta de classes”, há aí muita gente agressiva a querer vingança no tempo útil que sobra até o Governo cair. A mó já é a mó de baixo e daí muita raiva pouco contida, que serve de base à indecência. Sim, porque o que é inaceitável neste acto é que o Governo apresente face aos cidadãos um Estado cuja face é o logro e a habilidade grosseira, sem se preocupar um átomo em humilhar as pessoas, poucas que sejam, que precisam de um emprego, numa altura em que ele escasseia. É isto que é a maldade social. Não é que seja obrigatório fazer um exame, que é uma medida de política que pode ser contestada legalmente, inclusive pela greve. O objectivo principal, sabemos nós, é impedir a greve, o que já é em si mesmo grave. Mas, para isso, usa-se discricionariamente as pessoas, atirando-as a seu bel-prazer de um lado para o outro, sem qualquer vantagem social, profissional, pedagógica. O Governo, mais do que testar os conhecimentos dos professores, o que já abandonou pelo caminho, quer discipliná-los, obrigando-os a obedecer, para poder mostrar autoridade. E, como podiam ter a vontade de fazer greve, tira-lhes essa possibilidade legal com um truque. Não é para melhorar as escolas, é para mostrar quem manda. O resultado é que, se houver sarilhos, é porque andaram a pedi-los. Ao tratar-se as pessoas como cães, não admira que elas possam vir a morder.»

5.12.13

Um explicador para Crato


 


David Justino foi ministro da educação. Presentemente aconselha o Presidente da República. É professor. Tem bom senso. Não é suspeito. Nesta entrevista, sem o citar, acabou por dar uma "lição" ao incumbente da 5 de Outubro. O caos e a insegurança que Nuno Crato lançou abrupta e estupidamente no mundo da educação e do ensino superior, acabou por frustrar as expectativas que acompanharam a sua escolha. Curiosamente não vemos o primeiro-ministro muito preocupado com os danos que as trapalhadas do ilustre professor provocam num sector, o da qualificação, do qual depende também o famoso "futuro" que nunca sai do discurso único do "financês" que adoptou. Como se a educação, a cultura, a investigação e a formação superior fossem filhas de um deus menor que não cabem nas simplificações do "ajustamento". Mas não são, de facto. Crato anda à solta. E não lhe ocorre que já está a mais há demasiado tempo. Haja alguém que faça o favor de lhe explicar.

19.9.13

O prof. Crato


 


Quando o prof. Crato ruminava pelas televisões e calhava ouvi-lo, nunca encontrei motivos particulares para discordar. O homem era cordato, argumentava com um módico de concordância formal e substantiva e, apesar de ser economista, tinha um particular desvelo intelectual pela matemática o que, num país em que essa literacia não é famosa, o tornava interessante. Para além disso, condenava o "eduquês", uma coisa em que a educação, do básico ao secundário, se foi transformando obsessivamente durante o regime. Talvez por causa disto, alguém o recomendou ao dr. Passos, famoso pelo seu deslumbramento kitsch pela academia. O prof. Crato começou aparentemente bem como uma espécie de supra-Isabel Alçada, a sua antecessora. A ecologia do ministério e os sindicatos reagiam sem excessos às reuniões e às propostas, e Crato, como bom maoísta que foi, "diluiu" as latências conflituais no pacote do dr. Gaspar que, por natureza, tinha as costas largas. E até caiu em melhores graças mediáticas quando, de novo na televisão, e louvando-se num relatório do qual nunca mais se ouviu falar, esquartejou, com a impiedade típica de um zeloso velho seguidor do desdentado Mao, um colega seu de governo que acabara de se demitir. Entretanto estes biombos, para não sair do recorte chinês, foram caindo e o prof. Crato acabou exposto recentemente com as "novidades" divulgadas para o novo ano lectivo. Hiper liberal como qualquer ex-maoísta que se preze deve ser, o prof. Crato tem andado para aí a defender a "liberdade de escolha" como se vivessse na Noruega ou na Finlândia. E como se os destinatários da dita "liberdade de escolha" tivessem rendimentos per capita equivalentes aos desses maravilhosos países. O resultado está à vista. Uma trapalhada, quer pelo lado dos professores, quer pelo lado dos alunos, nas sucessivas "aberturas" do ano lectivo, o desvirtuamento ético do papel da escola pública numa democracia liberal, uma mexida deletéria no ensino do inglês que não se compreende, etc., etc. Em resumo, um conjunto de infelicidades que recomendam pelo menos, como Marcelo sugeriu em relação a outros dois membros do governo, que se cale.

18.8.13

Que viva tempos interessantes


 


Não sei em que contexto o dr. Marques Mendes adjectivou o prof. Crato como "medroso". Recorde-se que o prof. Crato foi chamado ao altar da pátria para "corrigir" quer o "eduquês" devastador da actividade neuronal das criancinhas, quer para "equilibrar" o que os seus antecessores teriam desequilibrado: a tensão professoral permanente, o parque escolar, a disciplina, a qualificação "desinfantilizada" das criancinhas. No superior, ao qual pertence, Crato preferiu aplicar prontamente a contabilidade analítica que é como quem diz, a penúria. O início do ano escolar entretanto promete um pequeno tumulto. Com a "reforma do Estado" reduzida à referida contabilidade analítico-criativa - e sendo o ministério a que Crato superintende um dos mais vastos em "recursos humanos" -, as escolas, em Setembro, como muitos directores de escolas e agrupamentos não se têm cansado de repetir, abrirão no caos. Desde a colocação dos professores à colocação dos próprios alunos (estou a acompanhar o caso do filho de um amigo, com contornos kafkianos, apesar de a coisa passar por um dos supostos melhores agrupamentos escolares da área de Lisboa, o Vergílio Ferreira da eterna dra. Esperança), sem falar no pessoal "administrativo" sob a cabeça do  qual paira o cutelo da "reforma", i.e., do despedimento "requalificado", é fácil prever o pior. O prof. Crato pelos vistos só não se revelou "medroso" quando foi a correr a Carnaxide, sob o alto patrocínio do senhor primeiro-ministro, dar uma entrevista sobre um relatório da sua Inspecção que visava um colega de governo que se demitira escassas horas antes. Aliás, seria interessante que a IGE desse a conhecer o follow up desse relatório. Ou foi só para aquele dia, para aquela noite e para aquele fim? Como recomendavam os seus antigos amigos chineses, que o prof. Crato possa viver tempos interessantes. Pelo menos na abertura do ano lectivo.


 


Adenda (comentário de um leitor): «O Prof. Crato é inteligente, mas é provinciano. A proposta de dar certas liberdades às escolas no país da cunha é assustadora. Imagino os agrupamentos escolares da província - ou mesmo das cidades - a contratar. Perguntem aos professores de Educação Física como funcionam as contrataçóes em certas autarquias... Tal como é absurda a proposta do cheque-ensino. Nos últimos 20 anos o Estado investiu uma fortuna no parque escolar. Nos tempos de Guterres foram construídas inúmeras escolas de Ensino Básico (com ensino até ao nono ano) para substituir as antigas Escolas de Ensino Básico Mediatizado, vulgarmente conhecidas como telescolas. Em boa verdade em algumas regiões investiu-se mais que o necessário e agora, nessas áreas, há um excesso de oferta para o número de alunos. Nesses anos, muitas freguesias reclamaram pela sua escola de Ensino Básico. Depois, nos anos Sócrates, surgiu a Parque Escolar e a renovação «milionária» dos liceus. Em algumas cidades e regiões do país existem ainda escolas com contrato de associação que «concorrem» com escolas públicas onde existem professores com «horário zero» e capacidade para acolher mais alunos. Há pais «assustados» com a possibilidade dos filhos frequentarem escolas a 10 ou 15 quilómetros de distância mas no interior existem alunos que percorrem 50 a 70 quilómetros até à escola secundária mais próxima: caso dos alunos das aldeias da freguesia de Martinlongo, no Algarve.  Com o parque escolar montado nas últimas décadas e a taxa de natalidade em queda, é um absurdo enveredar pelo cheque-ensino. Trata-se de uma mera opção ideológica e provinciana. Nós não precisamos de imitar holandeses ou suecos. Presicamos sim de criar soluções adequadas à nossa realidade. »

7.6.13

Uma questão de adultos

A anunciada greve dos professores a exames e a avaliações representa o regresso da instabilidade às escolas. Depois de nos últimos anos se ter privilegiado os "direitos" de toda a gente envolvida - alunos (que batem nos professores) , pais dos alunos (que entravam nas escolas para igualmente bater nos professores), professores, sindicatos - e desprezado a disciplina, o pilar do funcionamento de uma escola, com a consequente desautorização da figura, igualmente essencial, do professor, parecia que as coisas tinham atingido alguma moderação e algum equilíbrio. O poder político que precedeu o actual começou bem e acabou pessimamente nesta matéria. Confundiu uma classe inteira com uma nomenclatura sindical profissionalizada. Contribuiu para lesar a preeminência e a autoridade do professor na aula. Até o computador o precedia e, se fosse preciso, o anulava. Por consequência não aprecio o argumentário das "coitadinhas das criancinhas que não podem fazer exames". Não é por aí. Os professores (e os alunos) fazem parte de uma realidade mais complexa que tem a ver com a qualificação geral do país. Não pode ser resumida a uma questão de mercearia com cada um dos lados a usar o lápis que traz na orelha. Na tropa aprendia-se que há deveres e direitos e que aqueles precedem estes. Na escola também é preciso começar por aí em vez de se instaurar um novo "eduquês-financês" politiqueiro pejado de "professores coitadinhos" e de "alunos coitadinhos". É tempo de tratar isto como adultos.

24.4.13

Em que é que ficamos?


 


Confesso que não assisti à entrevista do prof. Crato à RTP. A última que lhe surpreendi - com Ana Lourenço, na SICN, a quem, segundo julgo saber, praticamente a solicitou e não o habitual e contrário - não me deixou boas recordações sobretudo pelo "sentido de oportunidade" que revelou. O resto é, naturalmente, do foro caracterológico. Terá desta vez elaborado sobre as criancinhas e o ensino da matemática. Apesar de a figura me irritar, Santana Castilho talvez entenda mais destas coisas "educativas" (confesso-me reaccionário em matéria de escolas secundárias, desde a organização dos curricula até à disciplina) do que eu. Todavia, custa-me acreditar que um economista como o ministro da educação, prestigiado na doxa como matemático e gestor, tivesse afirmado, a propósito dos «nossos resultados em Matemática», que «estávamos a ser comparados com os medíocres e continuávamos abaixo da média». Ora Castilho, no Público, assevera que «fomos 15º em 50 países. Ficámos muito acima da média. Fomos o país do mundo que mais progrediu nos resultados em Matemática. Ultrapassámos a Alemanha, Irlanda, Áustria, Itália, Suécia, Noruega e Espanha, entre outros.» Em que é que ficamos?

14.7.12

A história de um fracasso

A coisa começou com Veiga Simão ou, mesmo antes, talvez com Hermano Saraiva. No PREC, os militares chegaram a ministros da educação com o interlúdio Vitorino Magalhães Godinho que, muito sensatamente, quis fechar as escolas para pensar o que fazer com elas. Saiu, evidentemente, e o festim continuou: até Vasco Gonçalves acumulou a pasta interinamente. Com Soares veio Cardia, um modelo de coragem inteligente em tempos ainda quase revolucionários. Entre Cardia e Roberto Carneiro é praticamente tudo esquecível e irrelevante, com a excepção do "barthesiano" José Augusto Seabra. Depois de Carneiro é sensivelmente a mesma coisa. Até Manuela Ferreira Leite aceitou fazer um favor improvável ao amigo primeiro-ministro. Guterres trazia na bagagem a promessa da qualificação e aquele jargão colorido de as pessoas não serem negócios. Deslumbrado com os poderes da internet, Guterres (os ministros da educação dele não relevam, salvo Marçal Grilo) "era" o ministro da educação e só não foi da cultura porque Manuel Maria Carrilho é uma personalidade política pouco afoita ao pensamento débil. O interregno da "direita", com Barroso e Lopes, não pesa nesta história apesar da seriedade simpática de David Justino. Sócrates foi um caso mais sério. Maria de Lurdes Rodrigues começou bem mas as necessidades da propaganda do chefe - com as"oportunidades", os "magalhães" e o ódio cego aos professores, confundidos com os sovietes da "fenprof", como se a educação se fizesse por obra e graça dos meninos e dos paizinhos deles - deram cabo dela. Isabel Alçada não conta. Pelo lado do "superior", Mariano Gago - que tinha sido um relativamente prestigiado ministro da ciência e do dito com Guterres - entrou quase mudo e saiu calado, com as universidades exauridas e a investigação depauperada. Mas era na educação que estava. Acabo de ler que cerca de dois mil e quinhentos alunos que perpetraram exames nacionais de filosofia não passaram dos cinco (5) valores e que a "média nacional" na disciplina foi de 7,9. Isto quer dizer que os alunos não só mal sabem escrever como não sabem pensar, e nem sequer são "treinados" para o efeito. Isto sobretudo quer dizer, ao olhar para o "historial" que descrevi desde a década de 70 do século passado até aos nossos dias, que perdemos a batalha da qualificação. Na filosofia, como na vida, é mais importante perguntar que responder. Toda a sua história, aliás, não é muito mais que isso: colocar problemas. Os resultados dos exames nacionais revelam um problema de outra natureza, porventura oposta ao que absorve a filosofia. E igualmente sem resposta mas pelas piores razões. Um fracasso.

26.3.11

QUE LINDO FUTURO

A imagem, por si, é a mensagem e a massagem. Uma escritora de livros infantis, ainda ministra da educação do Portugalório, contempla a aventura por vir. A seu lado, duas raparigas e dois rapazes - os "melhores" alunos do secundário -, em vez de exibirem livros, mostram réplicas de cheques que lhes devem ter sido entregues pelos "resultados". A educação não pode ser tratada como uma prostituta notória à semelhança do que ainda ontem aconteceu no parlamento. Agora é que sim. Agora é que não. Que lindo futuro.

QUE LINDO FUTURO

A imagem, por si, é a mensagem e a massagem. Uma escritora de livros infantis, ainda ministra da educação do Portugalório, contempla a aventura por vir. A seu lado, duas raparigas e dois rapazes - os "melhores" alunos do secundário -, em vez de exibirem livros, mostram réplicas de cheques que lhes devem ter sido entregues pelos "resultados". A educação não pode ser tratada como uma prostituta notória à semelhança do que ainda ontem aconteceu no parlamento. Agora é que sim. Agora é que não. Que lindo futuro.

27.1.11

MISTURAS

Aquelas massas do SOS parece que se deslocaram hoje até Fátima. Simultaneamente fecharam escolas. Misturar a fé com um acto certamente ilegítimo e porventura ilícito não ajuda um átomo a causa.

MISTURAS

Aquelas massas do SOS parece que se deslocaram hoje até Fátima. Simultaneamente fecharam escolas. Misturar a fé com um acto certamente ilegítimo e porventura ilícito não ajuda um átomo a causa.

25.1.11

A SONSA


Muito bem apanhada, a sonsa. De qualquer forma, manifestações com caixões é coisa de um mau gosto inexcedível e inqualificável. Se aquilo são católicos, valha-me Deus.

A SONSA


Muito bem apanhada, a sonsa. De qualquer forma, manifestações com caixões é coisa de um mau gosto inexcedível e inqualificável. Se aquilo são católicos, valha-me Deus.

31.12.10

BURROS COM ORELHAS DE BURRO


Há dias andaram para aí todos babados com uma relatório do PISA/OCDE. Parecia que, num átomo, Portugal deixara de ser assustadoramente periférico e bruto e que as gerações futuras prometiam um paraíso de saber e ponderação capaz de, uma vez mais, "dar novos mundos ao mundo" nem que fosse a título meramente virtual. Sócrates, no Natal, louvou-se nisso, nas pás eólicas e consta que foi para São Bento movido a electricidade. Todavia, o seu próprio ministério da educação encarregou-se de desfazer o mito. A massa educanda é genericamente burra e não se comove com o facto. «Os alunos portugueses afinal estão ainda longe de conseguir desempenhar tarefas tão simples como, por exemplo, interpretar um texto poético, solucionar um exercício matemático com mais de duas etapas ou enfrentar um enunciado que não seja simples e curto.» Simples e curtos como eles, na realidade, são.

BURROS COM ORELHAS DE BURRO


Há dias andaram para aí todos babados com uma relatório do PISA/OCDE. Parecia que, num átomo, Portugal deixara de ser assustadoramente periférico e bruto e que as gerações futuras prometiam um paraíso de saber e ponderação capaz de, uma vez mais, "dar novos mundos ao mundo" nem que fosse a título meramente virtual. Sócrates, no Natal, louvou-se nisso, nas pás eólicas e consta que foi para São Bento movido a electricidade. Todavia, o seu próprio ministério da educação encarregou-se de desfazer o mito. A massa educanda é genericamente burra e não se comove com o facto. «Os alunos portugueses afinal estão ainda longe de conseguir desempenhar tarefas tão simples como, por exemplo, interpretar um texto poético, solucionar um exercício matemático com mais de duas etapas ou enfrentar um enunciado que não seja simples e curto.» Simples e curtos como eles, na realidade, são.

12.12.10

PORTUGALÓRIO DOS PEQUENINOS

«Segundo o PISA (Programme for International Student Assement), um programa da OCDE, os resultados dos alunos portugueses em "literacia" (?) em Leitura, Matemática e Ciências ficaram pela primeira vez próximos da média. Isto produziu uma euforia inexplicável. É certo que andámos muito tempo pelo fim da tabela, mas não se vê hoje grande motivo para celebrações. No Parlamento, houve uma festa em que toda a gente participou. Sócrates disse logo ao Diário de Notícias que o seu Governo será lembrado pela "aposta" (sempre esta reles palavra) que fez "na ciência e na educação" (e não, claro, pela bancarrota do Estado e do país). Falta agora o Presidente da República chorar em público. E, no entanto, mesmo nesta classificação, que varia de ano para ano e não indica um progresso sólido e seguro, Portugal continua muito atrás de muitos países da Europa. De resto, o PISA avalia alunos de 15 anos, que têm ainda o fim do secundário e a universidade à frente. Claro que a base de partida conta. Só que, se não for seguida por um ensino superior de grande qualidade, não leva ninguém a parte alguma; e o nosso ensino superior é genericamente mau, desorganizado e pobre. Há em Portugal muito pouca investigação de reconhecida relevância e a vida académica praticamente não existe. Basta passar um dia em Harvard ou em Oxford para se perceber a diferença. O que não admira. As tradições da ditadura duraram muito para lá do razoável (e, em certa medida, ainda duram) e a élite, se a palavra se aplica, que substituiu a do "salazarismo" não se recomenda. O que, de qualquer maneira, não importa muito. Ao contrário do que julgam os políticos desta democracia em que vivemos, um país não é rico porque é educado, é educado porque é rico. E se fosse necessária uma prova irrecusável desse melancólico facto, bastava olhar para as taxas de "abandono" e de "repetência" e para o número crescente de infelizes que tiraram uma licenciatura, um mestrado ou até um doutoramento para transitar imediatamente para o desemprego. A educação vale numa economia que precisa dela e a pode usar, não vale (ou vale menos) numa economia de baixa tecnologia, persistentemente atrasada e subdesenvolvida. As crianças de 15 anos que treparam com mérito na tabela do PISA não garantiram um futuro melhor para si próprias, nem anunciam dias melhores para Portugal.»

Vasco Pulido Valente, Público

PORTUGALÓRIO DOS PEQUENINOS

«Segundo o PISA (Programme for International Student Assement), um programa da OCDE, os resultados dos alunos portugueses em "literacia" (?) em Leitura, Matemática e Ciências ficaram pela primeira vez próximos da média. Isto produziu uma euforia inexplicável. É certo que andámos muito tempo pelo fim da tabela, mas não se vê hoje grande motivo para celebrações. No Parlamento, houve uma festa em que toda a gente participou. Sócrates disse logo ao Diário de Notícias que o seu Governo será lembrado pela "aposta" (sempre esta reles palavra) que fez "na ciência e na educação" (e não, claro, pela bancarrota do Estado e do país). Falta agora o Presidente da República chorar em público. E, no entanto, mesmo nesta classificação, que varia de ano para ano e não indica um progresso sólido e seguro, Portugal continua muito atrás de muitos países da Europa. De resto, o PISA avalia alunos de 15 anos, que têm ainda o fim do secundário e a universidade à frente. Claro que a base de partida conta. Só que, se não for seguida por um ensino superior de grande qualidade, não leva ninguém a parte alguma; e o nosso ensino superior é genericamente mau, desorganizado e pobre. Há em Portugal muito pouca investigação de reconhecida relevância e a vida académica praticamente não existe. Basta passar um dia em Harvard ou em Oxford para se perceber a diferença. O que não admira. As tradições da ditadura duraram muito para lá do razoável (e, em certa medida, ainda duram) e a élite, se a palavra se aplica, que substituiu a do "salazarismo" não se recomenda. O que, de qualquer maneira, não importa muito. Ao contrário do que julgam os políticos desta democracia em que vivemos, um país não é rico porque é educado, é educado porque é rico. E se fosse necessária uma prova irrecusável desse melancólico facto, bastava olhar para as taxas de "abandono" e de "repetência" e para o número crescente de infelizes que tiraram uma licenciatura, um mestrado ou até um doutoramento para transitar imediatamente para o desemprego. A educação vale numa economia que precisa dela e a pode usar, não vale (ou vale menos) numa economia de baixa tecnologia, persistentemente atrasada e subdesenvolvida. As crianças de 15 anos que treparam com mérito na tabela do PISA não garantiram um futuro melhor para si próprias, nem anunciam dias melhores para Portugal.»

Vasco Pulido Valente, Público

8.12.10

O SENHOR QUE SABE MUITO


«Esta é a prova dos nove, os nossos alunos sabem mais», diz, muito contentinho, o 1º ministro ao Público. Sócrates pertence àquela trupe de políticos que exploram até ao tutano um "evento", uma estatística, uma décima, uma coluna num jornal, um número em mil. A semana passada tinha falhado a bola mundial. Por consequência, precisava de um "sinal". Agarrou-se a este "quadro" e lançou o foguetório. Todavia, se explorarmos devidamente o "quadro", o que é que ele nos diz? A média de pontos da OCDE para avaliar os níveis de literacia dos alunos de 15 anos em leitura, matemática e ciências oscila entre 493 e 501 pontos (1ª linha). Em apenas um dos índices considerados (o da coluna 4, relativo à capacidade para avaliar e reflectir acerca do que é lido), Portugal surge ligeiramente à frente da média: 496/494. Mesmo assim, e segundo os critérios da OCDE enunciados no topo do quadro, os dois pontos nem sequer são estatisticamente relevantes. Tal como o não são aqueles em que surge abaixo da dita (deve ser aqui que reside a alegria socrática), todos os restantes salvo quatro em sete (ou seja, em que é estatiscamente significativo estar abaixo da média da OCDE), a saber, na capacidade de aceder aos textos e de pesquisar neles, de interpretar coerentemente, a matemática e a ciência. Do derradeiro relatório para este, de 2009, houve "progressos"? Houve mas nada que justifique o provinciano deslumbramento. Ainda há dias, Sócrates, na América Latina (onde é que havia de ser?), defendeu junto da viúva Kirschner as vantagens "pedagógicas" (?) do Magalhães. Que não haja equívocos. A única "ideia" de Sócrates para a educação e para a qualificação é pintar escolas, oferecer computadores e "abrir" a banda larga. A escola, enquanto lugar privilegiado de aprendizagem e de indução de método e disciplina, desapareceu. Se a OCDE ainda consegue apresentar estes magros dados, aos professores portugueses seguramente os deve e nunca à política errática, disparatada e demagógica alimentada por Sócrates em relação à educação em cinco anos. «Os nossos alunos sabem mais?» Não, senhor 1º ministro. O senhor é que sabe muito.

O SENHOR QUE SABE MUITO


«Esta é a prova dos nove, os nossos alunos sabem mais», diz, muito contentinho, o 1º ministro ao Público. Sócrates pertence àquela trupe de políticos que exploram até ao tutano um "evento", uma estatística, uma décima, uma coluna num jornal, um número em mil. A semana passada tinha falhado a bola mundial. Por consequência, precisava de um "sinal". Agarrou-se a este "quadro" e lançou o foguetório. Todavia, se explorarmos devidamente o "quadro", o que é que ele nos diz? A média de pontos da OCDE para avaliar os níveis de literacia dos alunos de 15 anos em leitura, matemática e ciências oscila entre 493 e 501 pontos (1ª linha). Em apenas um dos índices considerados (o da coluna 4, relativo à capacidade para avaliar e reflectir acerca do que é lido), Portugal surge ligeiramente à frente da média: 496/494. Mesmo assim, e segundo os critérios da OCDE enunciados no topo do quadro, os dois pontos nem sequer são estatisticamente relevantes. Tal como o não são aqueles em que surge abaixo da dita (deve ser aqui que reside a alegria socrática), todos os restantes salvo quatro em sete (ou seja, em que é estatiscamente significativo estar abaixo da média da OCDE), a saber, na capacidade de aceder aos textos e de pesquisar neles, de interpretar coerentemente, a matemática e a ciência. Do derradeiro relatório para este, de 2009, houve "progressos"? Houve mas nada que justifique o provinciano deslumbramento. Ainda há dias, Sócrates, na América Latina (onde é que havia de ser?), defendeu junto da viúva Kirschner as vantagens "pedagógicas" (?) do Magalhães. Que não haja equívocos. A única "ideia" de Sócrates para a educação e para a qualificação é pintar escolas, oferecer computadores e "abrir" a banda larga. A escola, enquanto lugar privilegiado de aprendizagem e de indução de método e disciplina, desapareceu. Se a OCDE ainda consegue apresentar estes magros dados, aos professores portugueses seguramente os deve e nunca à política errática, disparatada e demagógica alimentada por Sócrates em relação à educação em cinco anos. «Os nossos alunos sabem mais?» Não, senhor 1º ministro. O senhor é que sabe muito.