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25.1.16

Presidente Marcelo


 


Já devem ter sido escritas e proferidas todas as palavras acerca do desfecho do acto eleitoral do dia de ontem. As que faltam - mesmo as que não faltam mas cujos produtores precisam ler-se e ouvir-se a si próprios - hão-de aparecer. Não concordo, por exemplo, com o breve escrito de Vasco Pulido Valente no Público salvo quanto à Esquerda e à Direita: a primeira saiu desfeita e a segunda está paralisada. De resto, não creio que o Presidente-eleito seja neutro. É livre e independente mas não será neutro. Todos foram mais ou menos livres e independentes (Cavaco acabou por ser o mais tolhido) mas nenhum foi neutro. Marcelo é especialmente livre e independente porque é mesmo assim. Dito isto, o "balanço" de dia 24 é simples. A frase é de VPV a propósito de um outro Presidente em que coincidimos no apoio. Queríamos os dois a mesma coisa: ele queria ganhar e eu queria que ele ganhasse. Ponto final, parágrafo.


 


Foto: Mário Cruz/EPA/JN


 

21.1.16

Marcelo presidente


 


Este artigo é descaradamente uma dupla declaração de interesses. Desde logo um apelo vigoroso ao voto no próximo domingo. A eleição do presidente da República por sufrágio universal, directo e secreto, pertence ao código genético desta democracia. O equilíbrio de poderes que a Constituição prevê não dispensa essa escolha apesar da circunstancial predominância parlamentarista e governamental. É, aliás, o único voto dirigido a uma só pessoa a qual, por isso, responde directamente perante o país sem intermediários. Mesmo que seja oriundo de partido, o presidente uma vez eleito tem de deixar o partido à porta. E os partidos, em geral, lá onde os eleitores os puseram e pela ordem que os puseram: na Assembleia da República e, indirectamente, no Governo. A indecisão, a abstenção ou a indiferença são sempre fretes prestados ao que não se quer. Não vale a pena, por omissão, desprestigiar ainda mais uma campanha que não esteve à altura do património político evidenciado pela escolha livre do presidente desde 1976. Votar, pois, e num candidato em concreto: Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo é inseparável da nossa paisagem democrática. Nos jornais, ainda antes do 25 de Abril no "Expresso", onde estava também encarregado de fintar a censura. Depois fundando, enquanto administrador, o "Semanário" dirigido por Vítor Cunha Rego. Na rádio e nas televisões, onde todos tivemos pelo menos uma ocasião furiosa de discordar fortemente dele. No Parlamento, onde foi deputado constituinte. No Governo, com a tutela dos assuntos parlamentares, onde pôde praticar o que aprendera na análise política e no comprometimento partidário intenso dos primeiros anos do regime. Na oposição, como o presidente do PSD que sucedeu a dez anos de "cavaquismo" e que soube calibrar perfeitamente os deveres de Estado com o combate aos piores delírios "guterristas". Nas autarquias, onde foi vereador e presidente de assembleia municipal. Na universidade, onde ensinou fornadas e fornadas de futuros juristas, a maior parte dos quais anda por aí a pastorear a pátria em todos os partidos. Marcelo, até por causa desta biografia ou apesar dela, não vai para Belém em modo de facção. É genuinamente independente como todos os solitários calorosos o são. Basta-lhe ajudar governos e oposições a não levarem isto levianamente para o fundo. E basta-lhe ser igual a si próprio. O mesmo Marcelo que conheci no Guincho e a quem dei, um dia, boleia dali até Cascais. O do sol e vida. Da alegria.


 


Jornal de Notícias, 18.1. 2016

13.1.16

A culpa é dele?


 


No início da campanha oficial para a eleição de 24 de Janeiro, fomos surpreendidos pela retirada, por excesso e não por defeito, do PS dessa campanha. Pela primeira vez na história do partido, o secretário-geral do segundo maior partido nacional recomendou aos seus militantes e simpatizantes que apoiassem dois candidatos num sufrágio em que, tipicamente, se escolhe uma única pessoa. Aliás, fora o Bloco, o PC, o MRPP, o Livre (ainda há?) e a reformada Gama da Apre - que foi mais longe e sugeriu pau no jornalista Rodrigues dos Santos por não se ter curvado respeitosamente diante do candidato que ela apoia -, os principais partidos apenas "recomendam" o voto nesta eleição. Mas no caso do PS, mesmo com uma antiga presidente do partido no terreno, António Costa preferiu chamar ao acto as "primárias da Esquerda", como se as legislativas (e a questão governativa) ainda não estivessem encerradas. Ou como se houvesse um átomo de comparação com eleições em que os protagonistas das esquerdas, a democrática e as outras, eram respectivamente Soares, Zenha e Pintasilgo. Mesmo assim, o PS enquanto tal esteve sempre com um dos seus nas eleições presidenciais: quatro vezes com Soares, duas com Sampaio, uma com Alegre e, no processo de transição e de consolidação do regime democrático, com Eanes. Nunca esteve com dois, muito menos com o artificialismo de A. Nóvoa, que emergiu na política nacional pela mão de meia dúzia de "elites", há menos de meia dúzia de anos, e do actual PR, que lhe ofereceu palco retórico num 10 de Junho. Esse candidato, aliás, apresenta-se como o campeão das "causas", com mandatários ridiculamente a brotar por detrás de quarenta sombras, tantas quantas as "causas" que abraça, e de um evangélico "tempo novo" sem a menor substância. Quer estar, como disse no debate com a socialista M. de Belém, em "todos os espaços", o que significa que não compreende a função presidencial, que toma pela gerência de uma imensa colectividade de cultura e recreio. Duvido que, na sua pusilanimidade calculada, o secretário-geral do PS tenha contribuído para atalhar a abstenção, numa disputa débil em que nove pessoas pretextam agitadamente contra uma: Marcelo. Por sinal, a única que recentrou a eleição de 24 de Janeiro nos termos constitucionais, e politicamente adequados, ao sublinhar o papel do próximo chefe de Estado na recuperação plena do modelo semipresidencial tão desbotado pelas últimas práticas. A culpa é dele?


 


Jornal de Notícias de 11.1.2016

5.1.16

Os Dutras contra Marcelo


 


A toleima mais recente inventada contra Marcelo é que ele andaria a fazer de morto. Mas antes desta havia a que estava demasiado vivo: os jornais e as televisões só lhe propiciavam atenção para descaso das restantes notabilidades candidatas. Mesmo esta, a do excessivamente vivo, ainda não arrefeceu. Também usam uma carta, editada pelo malogrado Freire Antunes em livro, que escreveu ao então presidente do conselho, M. Caetano, onde "comenta" o congressso oposicionista de Aveiro à luz da dicotomia PC-restante oposição dita democrática, concluindo Marcelo pela prevalência do primeiro no evento e a fatal secundarização do "soarismo". Talvez haja alguém com suficiente imaginação para farejar "fascismo" no selo da carta ou "servilismo" nos cumprimentos endereçados a quem o remetente conhecia de bébé. Aliás, é sabido que o "marcelismo" tratou lindamente os primeiros números do Expresso onde Marcelo era director-adjunto. Se ele fosse da "situação", passar-lhe-ia pela cabeça fundar um jornal adepto de uma democracia liberal num regime em que o Pai era ministro? Com os seus dotes certamente teria procurado o dr. Dutra Faria ou o Diário da Manhã, e decerto não lhe faltariam recomendações. Estes epígonos de Saramago do DN ou, mesmo, do dr. Dutra devidamente reciclado para os devidos efeitos, andam sempre de tesoura alçada. Mas Marcelo não tem culpa destas eleições serem um deserto apesar de tanto "causalista" que por elas anda. Ora se não fosse ele, e por ele, a abstenção seria bem pior. Porque os outros só têm uma "causa" que resume as 40 de Nóvoa, as 27 de Belém, as 149 "previsões" do previdente da República Neto, os 37 panfletos da Marisa e as 50 "teses" do padre Edgar: Marcelo. Ele, calorosamente, agradece.


Foto: Miguel Manso

4.1.16

Um espectáculo sórdido


Acompanho atentamente as eleições presidenciais desde as primeiras livres em 1976. Não votei, era menor, mas já votei em 1980. E não só votei como fiz activamente parte da Comissão Nacional para a Recandidatura do Presidente Eanes", a CNARPE. O mesmo aconteceria em 1985-1986 com o Movimento de Apoio Soares à Presidência", o MASP, integrando uma obscura "comissão de juventude" onde conheci, entre outros, Seguro e Costa, e onde quem vinha da "Direita" era especialmente "acarinhado". Aliás, esta terá sido porventura a última grande campanha política para a eleição do presidente da República. A disputa de 1996 entre Sampaio e Cavaco, ganha pelo primeiro, já não teve metade da graça porque não havia mais ninguém. Jerónimo saiu de cena para Sampaio brilhar e o guterrismo, em princípio de carreira auspiciosa, fez o resto. Dez anos depois, Cavaco era o derradeiro candidato "natural". Estive com ele na derrota e na vitória, embora mais em letra de forma do que de outra maneira. Agora subscrevi a candidatura de Marcelo e, durante algumas breves semanas na primavera passada, tentei ajudar Henrique Neto "por uma Nova República" mas não deu. Com isto tudo quero significar estarmos perante as eleições presidenciais mais desinteressantes e politicamente medíocres de que tenho memória. Como se esta infelicidade não fosse suficiente, as televisões e as candidaturas combinaram uns debates improváveis, feitos a correr entre todos, enquanto a campanha não começa oficialmente. O que dará, em apenas quatro dias do novo ano e até ao final do dia de hoje, 14 (catorze) debates: duetos, tercetos, quartetos falhados e um na rádio com os dez magníficos. Ainda faltam vinte e tal e um final, em plena campanha e com todos, em canal aberto nas três generalistas. Salvo o devido respeito, é um mau serviço prestado à dignidade do cargo que esta gente (a maior parte ignora o que é que está a fazer nos boletins de voto num lamentável sinal do estado a que tudo chegou) se propõe exercer e uma ajuda à abstenção que nenhum candidato parece interessado em combater. Evitar as campanhas "tradicionais", que tiveram o seu tempo adequado e imprescindível, não implica este torpe exercício desincentivador de qualquer "esclarecimento" ou virtude cívica. O presidente eleito a 24 de Janeiro vai ter muito que se espremer para recompor as coisas. Desde logo para se recompor deste espectáculo sórdido.


Jornal de Notícias, 4.1.2016


Foto: Marcos Borga


 

30.12.15

Presidenciais curtas


 


A "lógica" encontrada para os debates televisivos entre candidatos presidenciais é nenhuma. Quem é que, mesmo gravando e vendo depois, está para gramar três debates num dia? E trinta ou quarenta e tal por junto, atamancados a correr entre o dia 1, sexta-feira, e o dia 10, data do início da campanha oficial? Até à campanha de 1985 -1986 (a de 1991 não conta porque era uma recandidatura), a última de jeito e digna de se chamar campanha política, só havia a RTP. Agora as três generalistas multiplicam-se por dois e o grosso dos debates tem lugar nas de "informação". Falta juntar aos sete previstos nos vários curtos espectáculos (45m) três candidatos que têm tanto direito aos seus minutinhos de fama como os outros. Tudo ocorre a correr na ressaca das "festas" e na vertigem dos saldos. Os principais candidatos a incumbente desdobram-se a comentar o diarismo noticioso. Fui sempre defensor da liderança institucional do PR pelo que este estado da arte superficial, "presencista" e sem um desígnio vigoroso, incomoda-me. Se há eleição em que o meio tem sido a mensagem (e a massagem) é esta. É curto.

16.12.15

O "centro" acabou



 


Prosélitos de extracção variada andam preocupados com as desventuras de uma coisa a que chamam "centro". O "centro" andaria desaparecido. Sobretudo nos antecedentes e no lastro das eleições legislativas. Ora porque António Costa o desfez ao acabar com a mitologia do "arco da governação", encostando-o à sua esquerda, ora porque Passos Coelho e Paulo Portas representariam a "direita radical". E teriam esvaziado esse magnífico "centro". A lamechice é perpetrada com propósitos óbvios, quase sempre pelo mesmo coro de órfãos e órfãs do "centrão" da política e da maquinaria inerme do regime. Acontece que o "centro" é uma ficção utilitarista do activo comunicacional e da aposentadoria política prospectiva, usada para desgastar as "situações" internas partidárias. De um lado, para "obrigar" Costa a "pedir a mão" que ele manifestamente não tenciona pedir. Do outro, para "cortar" a putativa mão de Passos se ele agora decidisse "ir à vida" sozinho.


De resto, é contar pelos dedos da dita mão as vezes que o "centro" decidiu o poder no regime por se ter colocado contra quem se colocou. Em 1976, contra os resquícios revolucionários, elegeu Eanes. Em 1979, contra o "país das maravilhas" que só existia na cabeça do dr. Soares, escolheu a Aliança Democrática. Em 1987, contra o alvoroço "eanista" do PRD e contra a pusilanimidade de Constâncio, confiou-se a Cavaco. Antes, em 1986, permitiu que Soares fosse à segunda volta depois de ajudá-lo a derrotar Zenha.


Neste século, o "centro" apenas consentiu um poder absoluto: o primeiro de Sócrates. É claro que elegeu Cavaco duas vezes tal como irá eleger, em Janeiro, Marcelo Rebelo de Sousa. Vai ser a última. Porque o que Costa percebeu melhor do que ninguém foi que a retórica do "centro" esvaíra-se. Ignorou-a quando viu que ia perder e instaurou, com sucesso, a dicotomia "esquerda-direita", ou melhor, esquerdas e direitas. Daqui em diante, e não é preciso ir buscar Alain para isso, quem não se afirmar das esquerdas é das direitas. E não vem mal ao Mundo por tal circunstância aparentemente ominosa. Salvo os candidatos presidenciais que, neste sistema de meias-tintas semi qualquer coisa, são obrigados a reclamar-se "de todos os portugueses" para chegar a Belém. Ao menos que estas provações outonais de 2015 tenham servido para chamar o nome às coisas. Longa vida, pois, às esquerdas e às direitas. O "centro", tal como o papagueiam, acabou.


 


Jornal de Notícias, 14.12.2015



 

11.12.15

Marcelo, uma nação independente


 


Uma nova sondagem mostra um Marcelo todo-o-terreno. Ganha à primeira, fartamente, ganha à segunda, largamente. Nóvoa e Belém somam 29% das intenções de voto contra as 6% que cabem a Edgar e Marisa (3 cada um). Neto e Morais chegam individualmente à unidade. Marcelo paira sobre todo o regime como nunca nenhum candidato antes dele pairou, salvo nas recandidaturas (a de Soares, sobretudo). Isto  sem a habitual parafernália das campanhas. Pelo contrário, Marcelo optou por uma campanha imaterial sobre todos os aspectos. Ele é simultaneamente candidato, porta-voz, cartaz, pendão, rede social, jornal, televisão, rádio, Ipad, livro, comissão política, mandatário nacional, regional e distrital, director de campanha, manifesto eleitoral, esquerda, direita, centro e telemóvel. É, em suma e nas palavras de Fernando Pessoa, uma "nação independente". 


 


Foto: Pedro Azevedo

10.12.15

Nóvoa noves fora nada


Enquanto comia uma maçã, assisti de pé à entrevista de António Nóvoa à SIC ontem à noite. Reparei que foi mais curta que a de Marcelo. Não se perdeu nada. O homem referiu-se mais do que uma vez a antigos Presidentes que o apoiam. A Eanes, pelo menos duas. Aliás, nos cartazes que espalhou por aí Nóvoa nem sequer aparece. O que se lê são frases dos três: Soares, Sampaio e Eanes. De resto, nada. Nóvoa pretende cavalgar o chamado "novo ciclo" pelo que se deixou de "desassossegos". O respeitinho é bonito e no "tempo novo" manda Costa que ele babujou o tempo inteiro. Mesmo assim o que transpareceu foi um tipo atarantado com aquilo em que se enfiou. Que divide efusivamente o país entre "esquerda" e "direita". Da mesma maneira que, num lindo momento folclórico, o dividiu entre o Norte e o Sul: "tudo no meu corpo é Minho, todo o meu corpo é Norte". Até me engasguei. Não ressuma ali um vestígio de uma ideia ou do que quer que seja que justifique um putativo voto. Como escreve Manuel Maria Carrilho, "nunca foi politicamente nada, a não ser, aos 60 anos, um ilustre desconhecido da política promovido a candidato presidencial por uma “ardente” brigada do reumático."

9.12.15

o bom do marcelo

Uma sondagem coloca Marcelo Rebelo de Sousa vencedor a 24 de Janeiro. Dele para baixo é tudo muito mau. Os candidatos Nóvoa e Belém não chegam juntos a 27% das intenções de voto. Os restantes não passam de um dígito. E Neto não atinge sequer a unidade. Não será bem assim mas não será muito diverso. Marcelo alegadamente "come" em todos os eleitorados. O que significa ser o que melhor cresce da sua área política originária para o país. Sozinho, sem dar troco aos apoios, Marcelo saiu do estúdio da televisão sem nunca verdadeiramente ter de lá saído. Sai em Janeiro.


 


Adenda, a propósito: O artigo de 7.12.2015 no Jornal de Notícias.

18.11.15

Os candidatos presidenciais e a situação


 


Jornal de Notícias, 18.11.2015


A pirueta perpetrada no resultado das legislativas mantém as atenções centradas na chamada governabilidade. E em Cavaco Silva. Os mais inquietos, sobretudo os "transformistas de 4 de Outubro", abundam na necessidade de "rapidez" na decisão e nos insultos mais ou menos velados ao presidente. Mas, com os poderes cerceados pelos zelotas da revisão de 1982, este tem de decidir com a ponderação que as circunstâncias exigem. Circunstâncias que são da mais diversa natureza. Desde as formais impostas pela Constituição - Governo demitido e em gestão e impossibilidade de dissolução do Parlamento até 4 de Abril - até às políticas: emergência de uma maioria informal, atípica, que apenas aceita a "entrada em funções" de um Governo minoritário do PS devidamente "vigiado" pela ala mais minoritária da aritmética parlamentar. Onde existia uma coligação eleitoral e de Governo vencedora, sem maioria absoluta, passou a estar uma frente não eleitoral perdedora, disposta a somar votos de deputados para sustentar precariamente um segundo Governo minoritário. Se o PR não precisasse de tempo para avaliar estas subtilezas do espírito e da engenharia partidária é que seria preocupante. Tudo isto conduz a que as eleições presidenciais marchem a reboque destas circunstâncias. E que os candidatos presidenciais sejam rebocados pelo tacticismo que as mesmas impõem a todos os agentes políticos. Não há dia ou hora em que os candidatos não apareçam para comentar o curto termo como se não estivessem a candidatar-se a um mandato de cinco anos. E, mais relevante do que isso, para exercer em plenitude as competências que a Constituição prevê para o chefe do Estado. Julgo que um candidato presidencial não se propõe minimizar o seu papel político e institucional enquanto PR. Não se candidata, decerto, para poucochinho ou para "valet de chambre" de qualquer partido ou facção. Percebe-se assim que Marcelo, o mais provável sucessor de Cavaco Silva, não diga mais sobre o tempo que passa do que aquilo que pretende dizer. Mesmo que isso incomode a coligação e muitos dos seus putativos eleitores. Por falar em directo para o país, sem mediadores, é inevitável que o iconoclasta Marcelo desagrade a alguns por querer agradar a praticamente todos. Faz parte do guião. E Marcelo, até por ser o mais livre dos candidatos verosímeis, é o mais "natural" de todos eles. Quem de direito tome nota. Até porque não há outro no deserto das presidenciais.

10.10.15

"Espírito de convergência e afecto"


 


Há uns meses imaginei que Henrique Neto pudesse protagonizar uma candidatura presidencial por uma Nova República. Com uma biografia respeitável, Neto parecia estar em condições de mobilizar algumas elites do centro-esquerda ao centro-direita, sem apoucar a função partidária, e de chamar a elas correntes da opinião pública não completamente confortáveis com a "situação" e com a "oposição". A sua declaração de Março era inovadora e potenciava um papel diferente ao PR. Mas rapidamente Neto triturou esse potencial com uma obsessão ensimesmada, não pela ponderação desse papel, mas antes por um hipotético "programa de governo" que nenhum PR, nos pressupostos constitucionais em vigor, pode dirigir. Neto ficou assim capturado pela sua vaidade e limitado como candidato necessário a Belém. Na realidade tem dado permanentes sinais de que preferia candidatar-se a um cargo executivo e num sector específico. Em suma, "encalhou" no Porto de Sines e nunca mais de lá saiu. Ontem à tarde, todavia, chegou o Presidente. Se existissem dúvidas, o notável discurso de apresentação da sua candidatura presidencial cessaram com elas. Marcelo, como sempre previ contra a opinião do meu saudoso Amigo Medeiros Ferreira, "saiu" do estúdio para o país. «Conheço muito bem a Cconstituição que nos rege. Sei qual é nela o papel do Presidente da República. Estou consciente de como o estado do mundo e da Europa não deixam antever anos fáceis e de como Portugal tem de sair claramente de um clima de crise financeira, económica e social, pesada e injusta, que já durou tempo de mais. Para isso considero essencial que haja, como nas democracias mais avançadas, convergências alargadas sobre aspectos fundamentais de regime. Considero ainda que não há desenvolvimento, nem justiça, nem mais igualdade com governos a durarem seis meses ou um ano, com ingovernabilidade crónica e sem um horizonte que permita aos governados perceberem aquilo com que podem contar no quadro da composição parlamentar resultante daquilo que votam. Mas a estabilidade e a governabilidade têm de estar ao serviço do fim maior e o fim maior na política é o combate à pobreza, é a luta contra as desigualdades, é a afirmação da justiça social.» É isto: «uma caminhada feita por Portugal, com independência, com sentido nacional, com espírito de convergência e com afecto.»

14.8.15

Uma entrevista inteligente


 


Marcelo a Nuno Saraiva no Diário de Notícias. Alguns excertos de uma entrevista inteligente.


A questão da notoriedade já não se coloca, não há quem não o conheça.


Coloca-se em termos muito diferentes. Estando há 14 anos sistematicamente na televisão e com as audiências que tenho tido, há um reconhecimento relativamente generalizado de quem sou. De vez em quando, ainda tenho esse bálsamo, essa alegria que é ir a um sítio em que há uma pessoa ou duas que não me conhecem. E isso é um bálsamo porque, quando me conhecem, isso significa a pessoa ter o dever de falar, ouvir, aconselhar, partilhar e, quando são várias pessoas ao mesmo tempo, de fazer selfies… Enfim, tudo aquilo que imagina. E não me resguardo, o que é um comportamento muito diferente de outras pessoas que conheço e que estão na política ou estão, por exemplo, na televisão; não é que não façam uma vida normal, mas não se expõem tanto.


Com a capacidade de mobilização que toda a gente lhe reconhece porque é que adia para outubro a decisão sobre as presidenciais?


Não se é candidato por uma questão de notoriedade. Se fosse por isso, teríamos aí uma série de figuras a quererem ser candidatos à Presidência da República. Só a referi no caso de Lisboa [autárquicas de 1989] porque era dramaticamente baixa. Não havia a televisão que há hoje, não havia internet. Era tudo mais lento em termos de ganhos e, do outro lado, estava uma pessoa [Jorge Sampaio] que tinha notoriedade porque aparecia todos os dias como líder da oposição. Mas não basta. A pessoa quando avança para uma candidatura tem de ponderar uma série de factores importantes. Há uns que são intemporais. A visão que tem do país, da Constituição, do Presidente da República. Mas não basta, porque há muita gente com uma visão sobre o país – é natural que tenha, cada um tem a sua –, há até alguma gente, menos, com uma visão sobre a Constituição, implica conhecê-la. E há alguma gente, bastante, com uma visão sobre o que é o Presidente. Mais difícil é ver o que é o Presidente na Constituição. Depois isso cabe ou não no perfil constitucional? Isso não se muda do pé para a mão e o Presidente sozinho não a muda. Quem muda são os partidos por revisão constitucional, e exigindo um amplo acordo. Há outros factores importantes e entre eles a noção de que, no quadro das hipóteses disponíveis num determinado momento, há um dever de avançar por se considerar que se está em melhores condições para desempenhar o cargo. E isso implica apreciar o quadro das várias hipóteses disponíveis, implica comparar, implica também fazer uma autoavaliação: como é que a pessoa está fisicamente? E psicologicamente? E a sua disponibilidade familiar? Imagine-se os filhos ou os netos, no meu caso, que estão num país muito distante. Há vários factores ponderados em conjunto. Além destas razões todas, há uma outra, a meu ver muito importante, que é não misturar eleições. As legislativas são eleições para o governo do país. Embora se elejam deputados, acaba por se querer eleger um primeiro-ministro e um governo. Eleger um Presidente é coisa diversa. Misturar as duas traria a tentação de sobreposição de discursos. Por um lado, os partidos estarem a concorrer e, ao mesmo tempo, falarem da Presidência da República, do tipo de Presidente ou do candidato a Presidente. Por outro lado, os candidatos presidenciais, às tantas, ficarem com tiques de primeiros-ministros, quase sentindo a obrigação de ter programas de governo para justificar o porque é que estou agora a lançar-me? Porque vou mudar isto e aquilo e aqueloutro. Às tantas, uma parte do que se diz é o que o governo ou o Parlamento podem fazer, mas o Presidente não pode. Se já é complicado votar à saída da crise, com a Europa com uma série de indefinições, se já é complicado ter duas eleições practicamente coladas, entendi sempre que não valia a pena aumentar a complicação em termos de discurso e de candidaturas. Sendo dois filmes que eram sucessivos no tempo mas diferentes entre si.


O facto de ter o seu capital de notoriedade ajuda a que possa protelar o mais possível essa decisão.


Não, até vou dizer mais sobre isto. Um dos riscos grandes da sobreposição das candidaturas era aprisionar os candidatos presidenciais. E os candidatos presidenciais, na letra da Constituição, são independentes, embora vários deles, resultantes de áreas dos principais partidos, tenham tido o apoio desses partidos. Nesta situação concreta da vida portuguesa, entendo que há um anseio na opinião pública que é justificado no sentido de reduzir ao mínimo a ligação entre os partidos e as candidaturas presidenciais. O ideal seria não haver qualquer ligação entre uma candidatura presidencial e um ou vários partidos políticos. E como é que isso se materializa? O candidato presidencial pode dizer, embora agradecendo as manifestações de partidos para o apoiar, que prescinde porque não é apenas desnecessário como não desejável esse tipo de vinculação.(...)


Que perfil tem de ter o próximo Presidente da República?


Tem de ser resultado, por um lado, da Constituição e, por outro lado, da conjuntura vivida. A Constituição é o que é, não vejo que seja fácil – até por aquilo que é a conjuntura vivida – haver um acordo de revisão que mexa no sistema de governo, presidencializando- o . Era útil se isso acontecesse? Não. O que está na Constituição está bem. Há pontos a rever e a retocar mas, genericamente, está bem. Neste quadro, tem de caber na Constituição o que o próximo Presidente deve ser e deve fazer, mas não pode ignorar o país que temos. É um país que está a sair de uma crise, uma saída que pode ser mais rápida ou mais lenta e que não é homogénea. Há sectores sociais que saem mais depressa do que outros. Vai ser assimétrica, desigual. Há uma forte probabilidade de instabilidade e de mais difícil governabilidade nos próximos anos. Porque não haverá maiorias absolutas. A esta distância das eleições legislativas, parece muito difícil o salto de 37% ou 38% para 44% ou 45%. Num lado ou noutro. O que obriga a um esforço de, não apenas convergência de regime – e essa tem conhecido um recuo nos últimos anos.(...) Vai ser preciso que o próximo Presidente, até porque provavelmente vai coexistir com mais do que um governo, seja capaz de fazer pontes, de dialogar com os vários interlocutores, que esteja numa posição central para o poder fazer porque o diálogo vai fazer-se essencialmente ao centro, uma vez que os dois principais partidos estão um no centro-esquerda, para a esquerda, e outro no centro-direita, para a direita. E que tenha, se possível, alguma experiência nesse tipo de actuações. O perfil anda por aí. Quando vejo divagações teóricas sobre o que deve ser o Presidente... Não é que o Presidente não tenha uma ideia sobre o sistema político. Participei em revisões constitucionais em que isso foi um tema muito tratado, como a de 1997 que abriu para a redução do número de deputados, para a mudança do sistema eleitoral. Não é que um Presidente não deva ter um papel importante, pensando sobre domínios das políticas sociais ou da administração pública ou da justiça. Mas o que se espera do Presidente é o que cabe na Constituição: antes do mais, trabalhar para a governabilidade, para a estabilidade e para as convergências de regime. (...)


Sendo um crente assumido, tem medo da morte?


Não. Não. É a dimensão, no fundo, mais importante da minha vida. E digo-lhe que num caso de dúvida, numa decisão, o que vai fazer pesar para um lado ou para o outro, é aquilo que entendo que um cristão deveria preferencialmente fazer. A morte é uma passagem, mesmo. E é uma passagem que começa a preparar-se desde sempre, que começa a preparar-se durante a vida. Não se prepara apenas no momento da aproximação à morte. Muitos não crentes que se convertem, ou não se convertem mas fazem essa tentativa de aprendizagem de preparação para a morte, e muitos crentes que têm o temor da morte e têm de aprender a lidar com a morte, deixam isso para a última hora. Um crente, na minha visão, está preparado para morrer a qualquer momento.


E isso não é um paradoxo em alguém que é hipocondríaco?


É um bocadinho paradoxal. Como é um bocadinho paradoxal se há alguma pessoa que é considerada muito cerebral e muito racional ter uma fé muito bruta e prevalecente. A hipocondria, se quiser, é o sucedâneo do médico que gostaria de ter sido, mais do que uma coisa obsessiva que realmente domine os meus comportamentos. A morte vai-se preparando no dia-a-dia. Porque a morte é vida, também ela, à sua maneira. É a passagem para outro tipo de vida. É evidente que não acredito no Céu no sentido clássico de ser o lugar ideal onde todos nos encontramos – que seria difícil, os biliões e biliões de seres humanos e andarmos à procura “onde é que está o fulano tal?” Mas acredito no Purgatório. Acho que há um Purgatório, há uma punição por aquilo que é o saldo negativo do haver-dever, do que deixamos de dar aos outros. É isso que vai sendo essencialmente julgado, o que é que demos aos outros comparado com aquilo que, egoisticamente, demos a nós mesmos. Os pecados todos são pecados de egoísmo. E, portanto, nessa avaliação, há os que têm um percurso mais longo porque olharam para si mesmos de mais e de menos para os outros. E outros têm um percurso mais curto, alguns mesmo nulo ou instantâneo. Aqueles infelizes, aquelas crianças que nasceram e morreram num clima de guerra ou de fome, sem serem ouvidos nem achados, em que as pessoas se perguntam onde é que esteve Deus no momento daquele nascimento ou daquela morte. Pois esses vão directos para o Céu. Não há Purgatório para eles.


Nunca teve dúvidas relativamente à sua fé?


É evidente, pois se a Madre Teresa de Calcutá e se os santos todos tiveram dúvidas, um pobre pecador tem imensas dúvidas. Há uma fase da vida, a adolescência, em que é da lógica das coisas ter muitas dúvidas. Coincidiu, felizmente, com o Vaticano II, que foi uma forma de avançar para além das dúvidas. Mas, permanentemente, colocamo- nos dúvidas. E a fé é uma fé que não é irracional. É uma fé que é feita de admitir que há dúvidas e há realidades difíceis de explicar mas, ainda assim e para além disso, acredito. E, portanto, a morte sucederá. A minha última construção sobre a morte é a seguinte: a morte surgirá quando – porque sou também, o que é curioso para alguém que é muito racional, providencialista – estiver esgotada a missão que posso cumprir. E, muitas vezes, o próprio não é o melhor juiz. E só se aperceberá mais tarde ou nunca se aperceberá desse juízo, que é um juízo divino. E aí, esgotada essa missão, a pessoa morreu. E, portanto, não é uma realidade que me angustie.

18.7.15

Só lá para Outubro


 


Confesso que os mais recentes "desenvolvimentos" europeus, a par com as exibições políticas caseiras por via da pré-campanha legislativa, empurraram-me para uma maior indiferença relativamente ao desfecho das eleições deste ano. Expliquei isso, em parte, no Jornal de Notícias. As sondagens, aliás, vêm confirmando que o "problema" não é apenas meu e que não há princípio da caridade que salve os principais protagonistas. De tal forma que estou propenso a concordar com o chefe da campanha do dr. Costa, Ascenso Simões, quando descortina algumas virtudes numa maioria relativa. Quando o dr. Passos, numa entrevista, afirmou ser-lhe indiferente que a maioria lhe pertença, ou ao dr. Costa, desde que seja absoluta para que o tratado orçamental vigore enquanto programa de governo, então mais vale guardar as bandeirinhas para outras legislativas precoces. Daí as presidenciais poderem ter mais interesse. Pelo menos para mim. Mas só lá para Outubro.

5.7.15

O presidente ainda não chegou às presidenciais


 


A uma vetusta notabilidade do PSD, o dr. Balsemão, venerando empresário de comunicação social desde o século passado, ocorreu que "milhões" de portugueses (palavra de honra) anseiam pela candidatura presidencial do dr. Rui Rio. Como tal, convidou-o a montar "o cavalo do poder" que raramente passa à porta de quem, como o dito Rio, terá tão nobre vocação político-tauromáquica. Ora segundo o sempre bem informado dr. Marques Mendes, Rio estará a selar o referido "cavalo" já para a segunda quinzena do mês corrente. Como o que vou dizer a seguir é mais do que do tempo e presença do dr. Balsemão, cuja prestação como 1º ministro persiste inolvidável em cabeças tão insuspeitas como a do Doutor Cavaco saison 1981-1985, talvez conviesse ao "número um" do PSD atentar em duas ou três coisas todas ligadas pela mesma funesta consequência política. Em 1980, precisamente nos idos de Julho, a então Aliança Democrática foi ao Rossio fazer um comício para apresentar o seu candidato presidencial: o general Soares Carneiro. Em Outubro, nas eleições legislativas, a AD renovou a maioria absoluta e, numa conferência de imprensa, anunciou-se essa vitória como a "primeira volta das presidenciais". Em Dezembro, após uma campanha tão dramática quanto trágica, o incumbente Eanes ficava. Cinco anos depois, já Cavaco presidia ao PSD e com eleições legislativas igualmente em Outubro, Freitas do Amaral recebeu o apoio do presidente do PSD para Belém num encontro na sua sede de candidatura. Cavaco ganhou as legislativas, sem maioria, mas, mesmo 1º ministro, empenhou-se de norte a sul na campanha de Freitas até Fevereiro de 1986. Soares ganhou na 2ª volta. Finalmente, vai para dez anos,  o mesmo Soares "impôs-se" ao PS maioritário de Sócrates como candidato a um terceiro mandato contra um Cavaco ainda por vir. Foi em Agosto, no Hotel Altis, diante da euforia de centenas de pessoas e das televisões. Citou-se até Pessoa por causa das finanças e das bibliotecas. Mas foi Cavaco, o último a aparecer, quem venceu e à 1ª volta. É evidente que em 2015 a situação é distinta. Nenhum dos principais contendores das legislativas declarou apoios presidencias. E nem sequer é previsível que o façam antes delas embora algumas "aparições" acabem por os obrigar a pronunciar-se como tem acontecido ao pobre dr. Costa vezes sem conta. O que não beneficia qualquer das partes a menos que haja algo assumido previamente, à semelhança das histórias que contei, o que, porém, não ressume a menor garantia de um desfecho feliz. Embora estime o candidato Henrique Neto, e mesmo com a eventualidade de um ensimesmado Rio presente nos próximos tempos, creio que o próximo PR ainda está para chegar às eleições presidenciais. E podem tirar o cavalinho (do poder) da chuva que ele não chegará seguramente antes de Outubro

25.6.15

Fazer a ponte entre pessoas com ideias diferentes


 


«O papel do Presidente é fazer pontes. Não é ter um programa de Governo, não é ter um programa político, não é fazer aquilo que tem na cabeça. É evidente que cada candidato tem as suas ideias (…), mas um candidato a Presidente não é um candidato a primeiro-ministro, não tem um programa de governo. Tem as suas ideias, sabe o que defende para o país, mas tem de ter a humildade para ser sobretudo alguém que faz a ponte entre pessoas com ideias diferentes. Pode acontecer que nos próximos cinco anos, termos um só Presidente e dois ou três governos. [Nesse sentido], vai ser preciso um grande esforço de aproximação e convergência para ultrapassar as clivagens [que existem entre PS e PSD] já daqui a três meses.»


 


Marcelo Rebelo de Sousa

20.6.15

Da natureza das coisas


 


Entre ontem e hoje, os órgãos de comunicação social que a encomendaram (RTP, DN e JN) têm estado a divulgar os resultados de uma sondagem da Católica. Para as legislativas a sondagem empata tecnicamente a Coligação com o PS, com ligeira vantagem para a primeira (recordo que nas "europeias" outra, da Aximage, a dada altura também deu um resultado parecido). E revela que 55% dos inquiridos não entende que a oposição seja propriamente uma alternativa. Isto somado desfaz a mitomania sebástica do dr. Costa, e dos seus aliados um pouco por todo o lado, de que bastava ele aparecer e a Pátria, reconhecida, seguiria atrás respeitosa e trémula de fervor salvífico. Não segue (ou segue tanto como seguia nas sondagens com Seguro) apesar de 54% dos questionados "achar", contra 32%, que o PS chega à frente no sufrágio. Mas o mais impressionante, e não menos simultaneamente óbvio, é 65% não acreditar que saia dali qualquer maioria absoluta o que aponta, como sempre suspeitei, para a necessidade de novas legislativas em 2016. O que torna, repito-me, as presidenciais mais interessantes do que pareceriam à primeira vista. Tudo visto e ponderado nesta matéria pela sondagem, Marcelo Rebelo de Sousa emerge como o único candidato natural e transversal. Ou seja, como aquele que pode, logo numa 1ª volta, crescer suficientemente do seu "espaço natural" para o país e ser eleito. É claro que os resultados das legislativas irão determinar muitos movimentos ainda imprevistos. Todavia, fique à frente quem ficar, Marcelo deverá ter condições para, no seu último comentário televisivo que coincidirá com a noite desse acto, afirmar-se candidato simplesmente com uma ou duas palavras. Em 1988, a semanas da eleição presidencial, Mitterrand estava numa entrevista numa televisão. Às tantas perguntaram-lhe, estilo "e já agora", se era recandidato ao Eliseu. Ele disse que "sim". "Naturalmente", acrescentou.

30.5.15

O antigo amanuense de Marcelo


 


Alguém fez uma maldade ao dr. Rio e à coligação. Sugere-se que o primeiro poderá ser candidato presidencial com o apoio da "direcção nacional do PSD" e visto "agradavelmente" pelos "centristas". O antigo secretário-geral do PSD, quando Marcelo Rebelo de Sousa era seu presidente, como já disse por aqui, não passa politicamente da ponte D. Luís. Aliás, seria a primeira vez que um candidato "regional" seria suportado por partidos de raiz nacional. E seria meio caminho andado para ambas as partes se "afogarem" nas águas que passam debaixo da referida ponte. O dr. Costa, de quem Rio é "cúmplice" pela sempre extraordinária via autárquica, agradeceria penhoradamente.

27.5.15

O candidato artificial


 



A "biografia" começou, vai para três anos, num 10 de Junho sob o Alto Patrocínio do Senhor Presidente da República. Conseguiu cativar um pequeno núcleo académico que, de repente, o imaginou subtil depois de umas picardias televisivas espúrias contra o "socratismo" educativo. A seguir deu por si empurrado para as "grandoladas" promovidas pela nova "aliança ex-povo-ex-MFA", a saber, o dr. Soares, os seus bonzos, o notável coronel Lourenço e a extrema-esquerda festiva. Falou, debitou poesia e exibiu o cravo da praxe. Guardou-o para o congresso albanês do dr. Costa onde perorou sem ser ouvido. Ora este descendente apolítico de um híbrido improvável - que junta o "otelismo" GDUP de 1976 ao "movimento pelo aprofundamento da democracia (MAD)" da saudosa Lurdes Pintasilgo passando por alguma descendência nobre da ala militar triunfante no "25 de Novembro" e pelo efémero PRD - apresentou anteontem uma "carta de princípios", no Teatro Rivoli (sempre teatros) do Porto, daquilo que concebe como um mandato presidencial protagonizado pela sua magnífica pessoa. Com receio que o termo "presidencialismo" assuste algum PS mais perplexo, António Nóvoa promete não ser "passivo" nem "cerimonial". Prefere aventurar-se por um caudilhismo romântico e basista que alegadamente "respeita" o prevenido na Constituição para o PR. O resto é, sem remédio, o artificialismo Nóvoa. "É preciso unir uma sociedade rasgada, juntando os portugueses, as portuguesas, numa luta comum, sem medo de existir (aqui uma leve "inscrição" José Gil). Não há destinos marcados", um momento anti-Tony de Matos. Com Nóvoa o destino não marca a hora (marca-a ele, como veremos) porque vive "impacientemente" já que a "esperança é hoje". Talvez para os "jovens, rapazes e raparigas", à moda da Mocidade Portuguesa. Todavia, e apesar deste palavreado oco, "as palavras não são só palavras. São pessoas, são vidas, são passado e são futuro". É Gil outra vez: "inscrever um outro conhecimento da vida e do país real, através do encontro e da escuta". Finalmente, a "mensagem". "Esta é, tem que ser, novamente, a nossa hora, a hora de todas as mulheres e homens deste país, a hora de Portugal". É a resposta retórica da eminência Nóvoa a Pessoa quanto este pergunta "Quando é a Hora?", e mais adiante responde: "É a Hora!". A ideia de hordas de espectadores a abandonar teatros, à pressa, para ir cumprir "a hora de Portugal" do prof. Nóvoa é inverosímil. Tanto quanto o candidato que a quer mandar cumprir.


 



 


Jornal de Notícias


 


Adenda: Depois de escrita esta crónica, reparei que o General Ramalho Eanes baptizou António Nóvoa como "um provocador de reflexões". Já antes era tido por um "transportador de desassossego". Fica-se na dúvida a que é que o homem, na realidade, se candidata com tanto engendramento. A algum prémio literário parecido com aquele que Pessoa disputou com Mensagem e que foi arrebatado por A Romaria do Padre Vasco Reis? A Belém de certeza é que não.

22.5.15

Eanes e o "transportador de desassossegos"


 


Lamento, pela admiração antiquíssima e pela amizade, que o General Ramalho Eanes, estribado em dois ou três lugares-comuns absolutamente pueris, se ligue à candidatura efémera de António Nóvoa. Não imagino o herói militar do 25 de Novembro, e candidato presidencial por uma democracia liberal em 1976, louvar-se em alguém que está para as eleições de 2016 como Otelo esteve para as primeiras presidenciais. Ou Pintasilgo para as de 1986 apesar de ser ainda hoje incomparável o seu legado com esta pura invenção académica e ensimesmada. Não, Senhor Presidente Eanes, Nóvoa não é propriamente um ex voto da "Pátria e dos grandes valores nacionais" e, muito menos, da "sua história,  cultura e ética de inspiração cristã". Depois do que lhe conhecemos, ele próprio deve estar admirado com tamanhos atributos que, apesar do enamoramento pelo que vê ao espelho quando se contempla, não imaginava possuir. Porque, de facto, não os possui. Isto é, o homem apresenta um vazio no lugar da biografia política que, fosse esse o caso, o poderia recomendar para a chefia do Estado. Acho que Maria de Fátima Bonifácio lhe explica isto melhor do que eu. «Nóvoa revolta-se contra “uma austeridade” que fragilizou e empobreceu Portugal e indigna-se com uma “política” incapaz de apresentar “uma única ideia de futuro”. Lê-se e pasma-se: ele próprio não apresenta nem a sombra de metade duma (...). A sua ideia de campanha eleitoral é todo um programa para a Presidência. Informal, basista, feita de “redes animadas pelas pessoas”; sem a “organicidade” que mata a imaginação e coarcta a iniciativa espontânea das “pessoas”. Nóvoa espera delas quase tudo, incluindo as ideias que ele não tem. Resultará? Há “risco”, mas o “transportador de desassossegos” (assim lhe chama Barata Moura) “preferirá sempre morrer ingénuo do que amargurado”. Não lhe ocorre que a ingenuidade na fase adulta da vida ou indica estupidez e imperdoável inexperiência, ou significa que se passou pela vida sem dar por ela, em estado de permanente distracção. Mas grave é apenas a hipocrisia, porque a universidade é um meio humano como qualquer outro: com invejas, raivas, disputas, competições e por aí fora, como na política. E, tal como na política, não se chega a reitor sem muito jogo de cintura. Nóvoa não é puro e virginal (...). Ao cabo de tantos e tantos anos, e de tantos esforços, Nóvoa ainda não assimilou um dado elementar da vida política portuguesa, a saber, que a extrema-esquerda recusa liminarmente todo o “entendimento” com qualquer partido integrante do “insuportável” arco da governação (...). Inquirido, há dias, se se sentia mais próximo do Partido Socialista ou do Partido Comunista, o candidato à Presidência da República respondeu: “Não sei.” Está tudo dito. Politicamente, António Nóvoa não sabe o que é, nem quem é. Sabe que lhe falta o cursus honorum da política, mas acha natural o desígnio de se projectar logo para o topo. De resto, salvo um convívio informal com a LUAR nos seus tempos de juventude, que lhe proporcionou o conhecimento de Zeca Afonso e “os momentos mais importantes da sua vida”, nunca se conspurcou no antro dos partidos. A sua candidatura, que ainda não recebeu o apoio declarado de nenhuma dessas agremiações, é “pessoal”. Esta circunstância confere-lhe uma “independência” “na qual sectores militares se revêem com alguma simpatia”. Eis o que nos deve tranquilizar a todos. Tanto mais que “sempre [foi] muito desalinhado”. “Nunca me filiei.” Não tenhamos dúvidas de que este “transportador”, caso António Costa cometa o erro colossal de o impor ao PS, vai derramar sobre as nossas cabeças (e sobre a dele) uma chuva de “desassossegos”.»