11.5.09

BROKEN WINDOWS?


Este artigo do director do "i" vem com uns anitos de atraso. Em 1997 e 1998, por razões profissionais ligadas à altura ao controlo da actividade policial, estive em Nova Iorque onde me familiarizei com o "NYPD" e a famosa teoria das "broken windows". Quando cá chegámos, fizemos um briefing aos chefes das nossas polícias - PSP e GNR - na presença do então MAI, o dr. Jorge Coelho. Foi precisamente em Maio de 1998, vai para onze anos. Depois, talvez no Natal de 2000, não me recordo bem, andei de noite a visitar postos e esquadras, respectivamente da GNR e da PSP, na Margem Sul. Um dos postos da GNR metia dó e recomendámos o fecho imediato. E também fomos à Bela Vista. A esquadra era - presumo que não terá mudado muito entretanto - um verdadeiro tugúrio perfeitamente aberto a qualquer um, bem ou mal intencionado. Se repararem nas datas, o governo era, como hoje, socialista. O dr. Coelho saiu, veio o dr. Gomes - que demorou pouco tempo - e Guterres fechou a coisa com Severiano Teixeira. Sócrates começou com um super-ministro da administração interna, António Costa, e vai terminar com Pereira, sem comentários. Quando eu expliquei ao dr. Coelho que o nosso "sistema" era demasiado "garantístico", recordo-me de ele ter elogiado vagamente os EUA porque desconfiava do êxito absoluto da tal teoria das "janelas partidas". De facto, as "broken windows" tornaram a Manhattan de Giuliani mais segura - isto, é a Nova Iorque que vemos nos filmes e que os turistas apreciam, de Times Square ao Central Park, passando pelo metro e pelas estações de comboio - mas "exportaram" muita criminalidade "urbana" para as cercanias, sobretudo para o norte da ilha e para o outro lado do Hudson. Não quero com isto afirmar que as "broken windows" falharam e que representaram uma mera operação de cosmética bem sucedida. Não. Todavia, espero que o director do "i" não esteja a recomendar ao governo que aplique algo que conhece há pelo menos uma década. Com a tendência para a superficialidade propagandística que tem, era de certeza pior a emenda que o soneto. Bela Vista é um caso de polícia? Sem dúvida. Não tenho é a certeza que a autoridade política saiba lidar com ele, não apenas enquanto tal mas igualmente como sintoma de qualquer coisa de mais perverso que o regime construiu à sombra de estafadas boas intenções meramente proclamatórias de carácter "social". E eu não sou nem da esquerda "justicialista", religiosa ou ateia, nem da direita empertigada.


9 comentários:

Anónimo disse...

Faz falta muita gente como você, João Gonçalves. Faz falta gente que sabe do que fala, com inteligência e seriedade. O "Portugal dos pequeninos" é, de longe, o melhor blog. Mérito do seu autor.

Pedro Homem de Gouveia disse...

Conheço a teoria. Não se pode dizer que não resulte em Portugal porque... nunca foi de facto experimentada.

Note-se que a implementação desta estratégia não se resume ao arranjo das janelas partidas... envolve toda uma remodelação das práticas de policiamento.

O "community policing", que por cá se ficou por uma pálida aproximação, com os programas de policiamento das escolas e de apoio a idosos.

Mais na excelente obra de George Kelling, "Fixing Broken Windows".

Sobre os bairros sociais, há uma outra obra muito interessante, da década de 70, autoria de Oscar Newman, "Defensible Space".

garganta funda.... disse...

Já meu avó dizia: "os bairros sociais são a coisa mais anti-social que existe...".

Jacinto disse...

"A consciência é o medo da Polícia",segundo Eça.
Nesta lixeira abandonada , creio que a coisa se continua a resumir a isso...
Só que o medo mudou de campo - e o seu "perfil" da triste e abúlica criatura que "faz de" ministro da AI diz tudo.

joshua disse...

Não é por acaso que, no reino propagandesco socratínico, tem sido incomparavelmente mais penoso ao MAI 'fazer de conta' com aquele fazer de conta descarado e mascarador triunfal detectável nos demais ministérios e departamentos. Há limites para o espectáculo circense que Medina Carreira tem denunciado.

A figura inconvicta e insegura do titular do MAI como que antecipa uma bomba no rastilho difuso da Bela Vista.

Anónimo disse...

Julgo que pelo menos para o João, bem como para muitos dos seus leitores, o seguinte (já)não é novidade nenhuma:

Como resultado das politicas seguidas há muito tempo, nada mais se tem feito do que "TIRAR DE ONDE É PRECISO PARA ONDE PARECE".

Homens como Medina Carreira e outros, têm-no dito vezes sem conta, não sendo ouvidos.

A

Rui

Wegie disse...

Cit:"A reforma Penal de 2007 foi objecto de crítica por ter reduzido o âmbito de aplicação da prisão preventiva a crimes pouco graves...A reforma terá permitido a libertação de pessoas que, ao cometerem pequenos crimes, terão já revelado um perfil de perigosidade. Ora, cabe perguntar se os autores dessas críticas não pretenderão, afinal, uma solução de ‘broken windows’."
Fernanda Palma (Professora de Direito e mulher do MAI) in Correio da Manhã,28/12/08

Comments:Com este Código do Processo Penal não há "broken windows" para ninguém.

Fado Alexandrino disse...

Sobre este assunto há um livro muito interessantue que já citei várias vezes:

Tolerância Zero de Georges Fenech ISBN 972-670-368-9 da Editorial Inquérito

Obviamente demito-o disse...

"mas "exportaram" muita criminalidade "urbana" para as cercanias, sobretudo para o norte da ilha e para o outro lado do Hudson."

Ah, então foi para aí que foram. A lenda urbana era que todos tinham sido mortos a par dos sem-abrigo e os corpos escondidos nos túneis abandonados do metro de Nova Iorque. Parvoíces à parte, em Portugal nada de "broken windows policy", porque em 10.8 milhões não se vê um Giuliani. Imagine-se um Rudolph a trabalhar no Banco de Portugal, se teria havido lugar a alguma tropelia criminosa do BPP ou BPN.