30.6.05

CEM

Pôr Manuel Pinho a anunciar "investimentos" e "inovações" é praticamente o mesmo que pedir a Júlio Isidro que fale da reestruturação da RTP, por exemplo. No entanto foi ele o escolhido para, com o mar ao fundo, tentar fazer o "contraponto" colorido dos próximos dias do governo, depois de cem quase sempre a preto-e-branco. Nem sequer faltaram o eterno aeroporto da Ota e a "banda larga". Houve igualmente lugar a uns murmúrios sobre "energia nuclear" e, por entre ondas de "progresso" anunciado, o governo posou para se celebrar. Descontando a parolice do gesto, aliás comum a todos os governos, julgo que Sócrates tem ainda pela frente fôlego que baste. E deve ser contido na sua gestão porque "o tempo e o modo" próximos não vão ser nada fáceis. O entusiasmo não é o mesmo de Fevereiro. Este período - vamos chamar-lhe "de adaptação" - não correu tão bem como porventura o governo e o PS esperariam. Ou como eu próprio esperava. Mas eu não conto. Daqui em diante o governo, se já estava aplicadamente vigiado, vai ficar seguramente mais escrutinado, seja por que pretexto for. Sócrates precisa de "afinar" o lado "político" da coisa e, de caminho, obrigar os seus ministros a fazerem o mesmo. Não sei se alguns já irão a tempo.

CEM

Pôr Manuel Pinho a anunciar "investimentos" e "inovações" é praticamente o mesmo que pedir a Júlio Isidro que fale da reestruturação da RTP, por exemplo. No entanto foi ele o escolhido para, com o mar ao fundo, tentar fazer o "contraponto" colorido dos próximos dias do governo, depois de cem quase sempre a preto-e-branco. Nem sequer faltaram o eterno aeroporto da Ota e a "banda larga". Houve igualmente lugar a uns murmúrios sobre "energia nuclear" e, por entre ondas de "progresso" anunciado, o governo posou para se celebrar. Descontando a parolice do gesto, aliás comum a todos os governos, julgo que Sócrates tem ainda pela frente fôlego que baste. E deve ser contido na sua gestão porque "o tempo e o modo" próximos não vão ser nada fáceis. O entusiasmo não é o mesmo de Fevereiro. Este período - vamos chamar-lhe "de adaptação" - não correu tão bem como porventura o governo e o PS esperariam. Ou como eu próprio esperava. Mas eu não conto. Daqui em diante o governo, se já estava aplicadamente vigiado, vai ficar seguramente mais escrutinado, seja por que pretexto for. Sócrates precisa de "afinar" o lado "político" da coisa e, de caminho, obrigar os seus ministros a fazerem o mesmo. Não sei se alguns já irão a tempo.

29.6.05

LER...

... este artigo de Ricardo Costa, sobre o "calendário do PS".

LER...

... este artigo de Ricardo Costa, sobre o "calendário do PS".

A CAMINHO

Com serenidade e realismo, Cavaco Silva mostrou hoje, uma vez mais, que está no bom caminho para suceder a Jorge Sampaio. Não é necessário ser "providencialista" para chegar ao óbvio. Mas talvez nunca como daqui a uns escassos meses o país terá precisado tanto dele.

A CAMINHO

Com serenidade e realismo, Cavaco Silva mostrou hoje, uma vez mais, que está no bom caminho para suceder a Jorge Sampaio. Não é necessário ser "providencialista" para chegar ao óbvio. Mas talvez nunca como daqui a uns escassos meses o país terá precisado tanto dele.

OUTRAS VOZES

Vale a pena ler este documento da Conferência Episcopal Portuguesa, Um olhar de responsabilidade e de esperança sobre a crise financeira do país. Trata-se de uma oportuna e serena reflexão sobre os dias que correm feita por pessoas que, ao contrário de nós, não passam a vida a correr estupidamente para lado nenhum. "Na busca de soluções há valores que é preciso preservar: a equidade, a convergência na complementaridade e a subsidiariedade. O contributo de todos é necessário; o que se pede a cada um deve ter em conta a sua situação peculiar, não pedindo o mesmo a pobres e ricos, não descurando os doentes e as pessoas dependentes, não fragilizando as famílias, já tão atingidas por fenómenos como a desagregação ou endividamento insustentável. Em todas as políticas, mas de modo particular nas políticas de austeridade, há grupos sociais que precisam de uma atenção particular, porque quando se agravam os seus problemas, agravam-se inevitavelmente os problemas de toda a comunidade. Problemas como o desemprego criam situações angustiantes. Estamos conscientes de que os próximos tempos conduzirão a uma profunda mudança de mentalidades a exigir estímulo a quem cria oportunidades, a requerer invenção de pronta solidariedade e a conduzir a uma opção pessoal pela sobriedade, terreno realista, contrário a promessas impossíveis."

OUTRAS VOZES

Vale a pena ler este documento da Conferência Episcopal Portuguesa, Um olhar de responsabilidade e de esperança sobre a crise financeira do país. Trata-se de uma oportuna e serena reflexão sobre os dias que correm feita por pessoas que, ao contrário de nós, não passam a vida a correr estupidamente para lado nenhum. "Na busca de soluções há valores que é preciso preservar: a equidade, a convergência na complementaridade e a subsidiariedade. O contributo de todos é necessário; o que se pede a cada um deve ter em conta a sua situação peculiar, não pedindo o mesmo a pobres e ricos, não descurando os doentes e as pessoas dependentes, não fragilizando as famílias, já tão atingidas por fenómenos como a desagregação ou endividamento insustentável. Em todas as políticas, mas de modo particular nas políticas de austeridade, há grupos sociais que precisam de uma atenção particular, porque quando se agravam os seus problemas, agravam-se inevitavelmente os problemas de toda a comunidade. Problemas como o desemprego criam situações angustiantes. Estamos conscientes de que os próximos tempos conduzirão a uma profunda mudança de mentalidades a exigir estímulo a quem cria oportunidades, a requerer invenção de pronta solidariedade e a conduzir a uma opção pessoal pela sobriedade, terreno realista, contrário a promessas impossíveis."

AVENTESMAS

Está na moda a "indignação" pelo suposto número excessivo de "nomeações" que o governo terá efectuado em três meses. Apenas três observações. Em primeiro lugar, a maior parte dessas "escandalosas" nomeações dizem respeito aos gabinetes dos membros do governo. Ninguém de boa-fé pode esperar que os ministros e os secretários de Estado não trabalhem com quem eles entendem dever trabalhar. Se nem sempre são dos "nossos" ou se, por vezes, até ficam notoriamente mal acompanhados, isso é um problema exclusivo das partes envolvidas. Em segundo lugar, é natural e saudável que o governo "renove". Não se percebe como é que se pode prosseguir uma política "diferente" com as mesmas criaturas. Finalmente, eu também me "indigno", não tanto pelas nomeações já realizadas, mas mais pela circunstância de continuar a ver muitas aventesmas do passado remoto e do passado recente nos mesmíssimos sítios onde as colocaram, caladas que nem ratos. Posso garantir que, com algumas que para aí andam, não se vai a lado nenhum.

AVENTESMAS

Está na moda a "indignação" pelo suposto número excessivo de "nomeações" que o governo terá efectuado em três meses. Apenas três observações. Em primeiro lugar, a maior parte dessas "escandalosas" nomeações dizem respeito aos gabinetes dos membros do governo. Ninguém de boa-fé pode esperar que os ministros e os secretários de Estado não trabalhem com quem eles entendem dever trabalhar. Se nem sempre são dos "nossos" ou se, por vezes, até ficam notoriamente mal acompanhados, isso é um problema exclusivo das partes envolvidas. Em segundo lugar, é natural e saudável que o governo "renove". Não se percebe como é que se pode prosseguir uma política "diferente" com as mesmas criaturas. Finalmente, eu também me "indigno", não tanto pelas nomeações já realizadas, mas mais pela circunstância de continuar a ver muitas aventesmas do passado remoto e do passado recente nos mesmíssimos sítios onde as colocaram, caladas que nem ratos. Posso garantir que, com algumas que para aí andam, não se vai a lado nenhum.

A LEI DAS COMPENSAÇÕES

Talvez para "compensar" das tormentas por que tem passado no "flanco esquerdo", o PS e o governo foram ressuscitar o referendo ao aborto. Um pouco como quem pensa: "já que não temos o da Constituição Europeia, temos este". Não é propriamente o que está a fazer mais falta ao país, nem é manifestamente uma prioridade. O que é verdadeiramente uma necessidade é dar aos hospitais públicos condições para que seja cumprida a lei em vigor em matéria de interrupção voluntária de gravidez. A ideia peregrina do recurso a clínicas privadas para se poder fazer o que os hospitais públicos deviam garantir, é apenas mais uma hipocrisia no doentio caminho perseguido por estas matérias. Eu percebo que o PS queira "cumprir" a parte do programa eleitoral que pode cumprir. Pergunto é se esta "parte", tirada sempre da gaveta de acordo com a "agenda mediática" e com as circunstâncias "ocorrentes", não vai abrir despropositadamente outras "frentes de batalha" num momento em que já estamos bem servidos delas.

A LEI DAS COMPENSAÇÕES

Talvez para "compensar" das tormentas por que tem passado no "flanco esquerdo", o PS e o governo foram ressuscitar o referendo ao aborto. Um pouco como quem pensa: "já que não temos o da Constituição Europeia, temos este". Não é propriamente o que está a fazer mais falta ao país, nem é manifestamente uma prioridade. O que é verdadeiramente uma necessidade é dar aos hospitais públicos condições para que seja cumprida a lei em vigor em matéria de interrupção voluntária de gravidez. A ideia peregrina do recurso a clínicas privadas para se poder fazer o que os hospitais públicos deviam garantir, é apenas mais uma hipocrisia no doentio caminho perseguido por estas matérias. Eu percebo que o PS queira "cumprir" a parte do programa eleitoral que pode cumprir. Pergunto é se esta "parte", tirada sempre da gaveta de acordo com a "agenda mediática" e com as circunstâncias "ocorrentes", não vai abrir despropositadamente outras "frentes de batalha" num momento em que já estamos bem servidos delas.

28.6.05

LER OS OUTROS

No Abrupto, o bonito Adeus de Pacheco Pereira sobre Eugénio de Andrade.

LER OS OUTROS

No Abrupto, o bonito Adeus de Pacheco Pereira sobre Eugénio de Andrade.

27.6.05

O PATHOS "TÉCNICO"

Sem querer parecer "mauzinho", não posso deixar de assinalar o "tema" do dia. Tudo começou com umas "incongruências" apontadas ao OE rectificativo que o governo entregou sexta-feira, pela calada da noite, na AR. Provavelmente o dia foi passado no ministério das Finanças a "remoer" os dados apresentados e - percebeu-se isso à hora dos telejornais - a pensar no que se deveria dizer cá para fora. Melhor do que eu poderia alguma vez dizer, Nicolau Santos, no texto que a seguir reproduzo com a vénia devida ao autor e ao Expresso online, resume o fundamental. Voltámos, sem nunca disso termos verdadeiramente saído, à dicotomia "técnica" vs. "política". Campos e Cunha veio a terreiro dizer pouco e dizer mal. Depois dos enxovalhos - a maior parte inteiramente merecidos - que foram dirigidos à elaboração do OE em vigor, esperava-se, pelo menos dos "técnicos", que não existissem desatenções ou - o que seria bem pior - "manipulações" na composição do "rectificativo". Como isso aparentemente não aconteceu, os "técnicos" acabaram por prestar um mau serviço à "política". E Campos e Cunha sofreu um revés político, pela via dita "técnica", cuja expressão não deixará de ser devidamente explorada, mesmo com inabilidade, pelos adversários do governo. Ora se há coisa que este ministro das Finanças agora menos precisa é de ver a sua autoridade "técnica" - já que "política" tem muito pouca - diminuida.

Adenda 1:
Uma grande trapalhada
por Nicolau Santos

Corre a manhã de segunda-feira, 27 de Julho de 2005. Na sexta-feira, às dez da noite, o Governo entregou na Assembleia da República o Orçamento Rectificativo 2005, tornado necessário porque o que tinha sido elaborado por Bagão Félix e pela maioria PSD/PP estava claramente desfasado da realidade. A questão é que, pelas primeiras apreciações, o OR, entregue tarde e a más horas, traz erros inadmissíveis, martela receitas e despesas para chegar ao défice de 6,2% e, mais grave, conclui que a despesa do Estado ultrapassa metade do que o país produz (50,2%), ao contrário do que tinha sido prometido. Até agora, contudo, as Finanças não deram nenhuma explicação e, ao que tudo indica, estão a trabalhar de novo os números do documento. A imagem de competência e rigor do ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, sofreu o seu primeiro abalo sério no lado técnico, já que, do ponto de vista político, tinha ficado fragilizado com a questão da reforma que recebe do Banco de Portugal. Na verdade, entre os valores aprovados pela Comissão Constâncio, o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) e o OR há diferenças acentuadas na composição das receitas e das despesas. Assim, do PEC para o OR aumentam as despesas em 1.570 milhões de euros e as receitas em 1.506 milhões. A receita fiscal fica 499 milhões de euros acima do PEC e 989 milhões acima da estimada pela Comissão Constâncio (que não contabilizava os aumentos de impostos entretanto anunciados). E o Governo espera arrecadar mais 7,1% em impostos, um valor muito superior ao crescimento nominal da economia. Mas o caso mais grave vem do lado das despesas. Aparentemente, o Governo mostra-se impotente para travar o seu crescimento. E assim a despesa é superior em 1.570,9 milhões de euros ao PEC e em 1.194,1 milhões aos valores da Comissão Constâncio, crescendo mais de um ponto percentual em relação ao anteriormente previsto em percentagem do PIB. E assim, a despesa das administrações públicas em percentagem do PIB atinge 50,2% contra os 49,1% inscritos no PEC. Não adianta continuar, embora existam outras incongruências relevantes: o esforço de investimento cai 8% mas as despesas de capital aumentam 15% (o que pode dar razão aqueles que dizem que, nas despesas de capital, estão contabilizadas rubricas salariais e custos administrativos que nada têm a ver com o esforço de investimento). O que importa é assinalar que este Orçamento Rectificativo, para quem queria acabar com o «monumental embuste» do OE 2005, é, ele próprio, uma enorme trapalhada, e que aparece ferido na sua credibilidade pelos erros técnicos que enferma e pelas promessas políticas que não cumpre. Convenhamos que não era desta ajuda que Luís Campos e Cunha precisava, para quem necessita de impor um enorme rigor orçamental até 2008.

Adenda 2: Vale a pena ler, em jeito de "complemento", o editorial do Diário de Notícias, da autoria de João Morgado Fernandes, O Modelo da Incapacidade.

Manuel Castells, o catalão que se transformou em guru dos modelos de desenvolvimento assentes em inovação e novas tecnologias, costuma apresentar os Estados Unidos, a Finlândia e alguns países asiáticos como casos de sucesso nos quais a Europa deveria inspirar-se para sair do buraco em que caiu. Numa das últimas vezes em que esteve em Portugal, questionado acerca da eventual existência de um modelo meridional (Espanha, Itália, França, Portugal...), foi claro: "Se existe, não o encontrámos, a não ser que se queira transformar a incapacidade em modelo." Pouco importa discutir se essa incapacidade é recente ou herdada, circunstancial ou genética. Importa, sim, estarmos conscientes da sua existência para, sem dramatismos excessivos, a vencermos, nesta fase em que, por força de uma estranha ciclotimia, somos de novo atirados da euforia para a depressão. Exemplo dessa incapacidade é a forma atabalhoada como todos, sem excepção, lidam com o problema do défice e a necessidade de serem tomadas medidas drásticas para o derrotar. Essa incapacidade começa num poder sem rasgo para apresentar, de forma estudada, consistente, estruturada, um verdadeiro plano que, em simultâneo, ataque o "monstro" e incuta confiança nos agentes económicos e nos portugueses em geral. Ao invés, o poder parece agir apenas pela força das circunstâncias, pressionado, desarticulado e revelando um elevado grau de incerteza quanto à amplitude e profundidade das medidas.A incapacidade prossegue, por exemplo, pelos sindicatos, sejam eles de professores ou polícias, cuja reacção epidérmica às iniciativas governamentais apenas contribui para degradar um pouco mais a imagem pública dos profissionais que representam. Essas são, porém, incapacidades instrumentais. Porque a pior, a mais funda, é que a sociedade portuguesa, todos e cada um de nós, teime em viver do sol e do crédito fácil, sem perceber que o investimento essencial, a força das nações, nasce de cidadãos informados e empenhados. Sem perceber que, antes de ir, é necessário decidir para onde ir.

O PATHOS "TÉCNICO"

Sem querer parecer "mauzinho", não posso deixar de assinalar o "tema" do dia. Tudo começou com umas "incongruências" apontadas ao OE rectificativo que o governo entregou sexta-feira, pela calada da noite, na AR. Provavelmente o dia foi passado no ministério das Finanças a "remoer" os dados apresentados e - percebeu-se isso à hora dos telejornais - a pensar no que se deveria dizer cá para fora. Melhor do que eu poderia alguma vez dizer, Nicolau Santos, no texto que a seguir reproduzo com a vénia devida ao autor e ao Expresso online, resume o fundamental. Voltámos, sem nunca disso termos verdadeiramente saído, à dicotomia "técnica" vs. "política". Campos e Cunha veio a terreiro dizer pouco e dizer mal. Depois dos enxovalhos - a maior parte inteiramente merecidos - que foram dirigidos à elaboração do OE em vigor, esperava-se, pelo menos dos "técnicos", que não existissem desatenções ou - o que seria bem pior - "manipulações" na composição do "rectificativo". Como isso aparentemente não aconteceu, os "técnicos" acabaram por prestar um mau serviço à "política". E Campos e Cunha sofreu um revés político, pela via dita "técnica", cuja expressão não deixará de ser devidamente explorada, mesmo com inabilidade, pelos adversários do governo. Ora se há coisa que este ministro das Finanças agora menos precisa é de ver a sua autoridade "técnica" - já que "política" tem muito pouca - diminuida.

Adenda 1:
Uma grande trapalhada
por Nicolau Santos

Corre a manhã de segunda-feira, 27 de Julho de 2005. Na sexta-feira, às dez da noite, o Governo entregou na Assembleia da República o Orçamento Rectificativo 2005, tornado necessário porque o que tinha sido elaborado por Bagão Félix e pela maioria PSD/PP estava claramente desfasado da realidade. A questão é que, pelas primeiras apreciações, o OR, entregue tarde e a más horas, traz erros inadmissíveis, martela receitas e despesas para chegar ao défice de 6,2% e, mais grave, conclui que a despesa do Estado ultrapassa metade do que o país produz (50,2%), ao contrário do que tinha sido prometido. Até agora, contudo, as Finanças não deram nenhuma explicação e, ao que tudo indica, estão a trabalhar de novo os números do documento. A imagem de competência e rigor do ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, sofreu o seu primeiro abalo sério no lado técnico, já que, do ponto de vista político, tinha ficado fragilizado com a questão da reforma que recebe do Banco de Portugal. Na verdade, entre os valores aprovados pela Comissão Constâncio, o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) e o OR há diferenças acentuadas na composição das receitas e das despesas. Assim, do PEC para o OR aumentam as despesas em 1.570 milhões de euros e as receitas em 1.506 milhões. A receita fiscal fica 499 milhões de euros acima do PEC e 989 milhões acima da estimada pela Comissão Constâncio (que não contabilizava os aumentos de impostos entretanto anunciados). E o Governo espera arrecadar mais 7,1% em impostos, um valor muito superior ao crescimento nominal da economia. Mas o caso mais grave vem do lado das despesas. Aparentemente, o Governo mostra-se impotente para travar o seu crescimento. E assim a despesa é superior em 1.570,9 milhões de euros ao PEC e em 1.194,1 milhões aos valores da Comissão Constâncio, crescendo mais de um ponto percentual em relação ao anteriormente previsto em percentagem do PIB. E assim, a despesa das administrações públicas em percentagem do PIB atinge 50,2% contra os 49,1% inscritos no PEC. Não adianta continuar, embora existam outras incongruências relevantes: o esforço de investimento cai 8% mas as despesas de capital aumentam 15% (o que pode dar razão aqueles que dizem que, nas despesas de capital, estão contabilizadas rubricas salariais e custos administrativos que nada têm a ver com o esforço de investimento). O que importa é assinalar que este Orçamento Rectificativo, para quem queria acabar com o «monumental embuste» do OE 2005, é, ele próprio, uma enorme trapalhada, e que aparece ferido na sua credibilidade pelos erros técnicos que enferma e pelas promessas políticas que não cumpre. Convenhamos que não era desta ajuda que Luís Campos e Cunha precisava, para quem necessita de impor um enorme rigor orçamental até 2008.

Adenda 2: Vale a pena ler, em jeito de "complemento", o editorial do Diário de Notícias, da autoria de João Morgado Fernandes, O Modelo da Incapacidade.

Manuel Castells, o catalão que se transformou em guru dos modelos de desenvolvimento assentes em inovação e novas tecnologias, costuma apresentar os Estados Unidos, a Finlândia e alguns países asiáticos como casos de sucesso nos quais a Europa deveria inspirar-se para sair do buraco em que caiu. Numa das últimas vezes em que esteve em Portugal, questionado acerca da eventual existência de um modelo meridional (Espanha, Itália, França, Portugal...), foi claro: "Se existe, não o encontrámos, a não ser que se queira transformar a incapacidade em modelo." Pouco importa discutir se essa incapacidade é recente ou herdada, circunstancial ou genética. Importa, sim, estarmos conscientes da sua existência para, sem dramatismos excessivos, a vencermos, nesta fase em que, por força de uma estranha ciclotimia, somos de novo atirados da euforia para a depressão. Exemplo dessa incapacidade é a forma atabalhoada como todos, sem excepção, lidam com o problema do défice e a necessidade de serem tomadas medidas drásticas para o derrotar. Essa incapacidade começa num poder sem rasgo para apresentar, de forma estudada, consistente, estruturada, um verdadeiro plano que, em simultâneo, ataque o "monstro" e incuta confiança nos agentes económicos e nos portugueses em geral. Ao invés, o poder parece agir apenas pela força das circunstâncias, pressionado, desarticulado e revelando um elevado grau de incerteza quanto à amplitude e profundidade das medidas.A incapacidade prossegue, por exemplo, pelos sindicatos, sejam eles de professores ou polícias, cuja reacção epidérmica às iniciativas governamentais apenas contribui para degradar um pouco mais a imagem pública dos profissionais que representam. Essas são, porém, incapacidades instrumentais. Porque a pior, a mais funda, é que a sociedade portuguesa, todos e cada um de nós, teime em viver do sol e do crédito fácil, sem perceber que o investimento essencial, a força das nações, nasce de cidadãos informados e empenhados. Sem perceber que, antes de ir, é necessário decidir para onde ir.

FINALMENTE...

... o realismo tomou conta da "alma" dos portugueses. Basta ver o que se diz por aqui, ou aqui ou ainda aqui. Fico satisfeito por, afinal, ser "maioritário". Sócrates precisa urgentemente de uma Expo, de um Euro ou de um macaco Adriano que o livre do pior. Que maravilhoso começo de semana!

FINALMENTE...

... o realismo tomou conta da "alma" dos portugueses. Basta ver o que se diz por aqui, ou aqui ou ainda aqui. Fico satisfeito por, afinal, ser "maioritário". Sócrates precisa urgentemente de uma Expo, de um Euro ou de um macaco Adriano que o livre do pior. Que maravilhoso começo de semana!

26.6.05

O SENTIDO DAS COISAS

Ler no Bloguítica, Estratégia, Estilo e Contexto. Nós - penso que o Paulo Gorjão também apoiou - os que apoiámos esta solução governativa, temos o dever de cidadania de, sem temores reverenciais, irmos "alertando", na modéstia da nossas possibilidades, para possíveis "brechas" que, uma vez abertas, podem não mais fechar. Enquanto esperava por uns amigos no aeroporto, olhei para a capa do Jornal de Notícias cujo tema era o orçamento rectificativo. Para além das habituais cativações, o famoso PIDDAC é reforçado em apenas quatro ministérios: Obras Públicas, Ciência e Ensino Superior, Trabalho e Segurança Social e Defesa, por esta ordem. Ou seja, o eterno betão sobreleva a qualificação, tão "defendida" em campanha. E, não vá dar-se o caso de a "independência nacional" tremer, segura-se a tropa. Já nem falo da Cultura, um ministério cuja "discrição" começa a ser preocupante. Enfim, era bom, para além das tiradas retóricas e comicieiras para "consumo" interno, começar a explicar às pessoas o sentido das coisas.

O SENTIDO DAS COISAS

Ler no Bloguítica, Estratégia, Estilo e Contexto. Nós - penso que o Paulo Gorjão também apoiou - os que apoiámos esta solução governativa, temos o dever de cidadania de, sem temores reverenciais, irmos "alertando", na modéstia da nossas possibilidades, para possíveis "brechas" que, uma vez abertas, podem não mais fechar. Enquanto esperava por uns amigos no aeroporto, olhei para a capa do Jornal de Notícias cujo tema era o orçamento rectificativo. Para além das habituais cativações, o famoso PIDDAC é reforçado em apenas quatro ministérios: Obras Públicas, Ciência e Ensino Superior, Trabalho e Segurança Social e Defesa, por esta ordem. Ou seja, o eterno betão sobreleva a qualificação, tão "defendida" em campanha. E, não vá dar-se o caso de a "independência nacional" tremer, segura-se a tropa. Já nem falo da Cultura, um ministério cuja "discrição" começa a ser preocupante. Enfim, era bom, para além das tiradas retóricas e comicieiras para "consumo" interno, começar a explicar às pessoas o sentido das coisas.

25.6.05

"QUEER AS FOLEIRO"

Decorreu em Lisboa uma "gay parade" à nossa medida. Este ano o propósito do pequeno desfile folclórico consistiu em tentar chamar à razão as "instituições" para a necessidade de ser cumprido o princípio constitucional da igualdade, por forma a serem permitidos casamentos entre "same sexers". Também há gente mais entusiasmada que quer chegar à adopção. E por aí fora. Eu sobre estes assuntos não sou nada politicamente correcto. A obsessão "conjugal" visa fundamentalmente "copiar" o que existe de mais piroso no "outro lado" - o ritual do casamento e o espalhafato da "cerimónia". A lei - porque de um tema jurídico se trata - deve consagrar direitos a pessoas com vida em comum, sem se preocupar com o seu sexo. Ponto final. Não me parece que seja necessário tanta palhaçada para defender isto. O mesmo se deve aplicar em relação à adopção de crianças por duas pessoas do mesmo sexo. Está por provar que um casal dito heterossexual trate melhor da educação e do bem-estar dessas crianças. Ou que um flho não possa ficar à guarda de um pai ou de uma mãe por causa da orientação sexual respectiva. Mais uma vez, não me parece que seja preciso andar de "plumas à cabeça" para constatar puras evidências. Detesto o associativismo sexista e a retórica da discriminação. Julgo, aliás, que esta "pulsão" anti-segregacionista contribui mais para "separar as águas" do que o contrário. Há pessoas que adoram espremer por aí a sua "diferença" e exibi-la como um troféu. Não é pela pilhéria e pelo mau-gosto que se consegue ser respeitado. É, sobretudo, não tentando chamar frivolamente a atenção para a circunstância de que existem "diferenças" onde elas manifestamente não devem existir. É este associativismo parolo, pindérico e pífio que mais contribui para elas virem "ao de cima", ao arrepio de se tentar viver tranquilamente o lado privado da vida de cada um. Meia dúzia de travestis, alguns "casais" mais ou menos "conspicuous", uns quantos "activistas", uma mão cheia de curiosos e dois ornamentos, a Sra. D. Inês Pedrosa e o engraçadinho Rui Zink, fizeram a "festa". Não têm por que se "orgulhar". Não são "queer as folk". São "queer as foleiro".



Adenda: Aos actuais "aprendizes de feiticeiro", gostava de lhes recordar este "poema" de Mário Cesariny, "o regresso de ulisses", escrito por alturas dos "anos de chumbo".

o regresso de ulisses

O HOMEM É UMA MULHER QUE EM VEZ DE TER UMA CONA TEM UMA PIÇA, O QUE EM NADA PREJUDICA O NORMAL ANDAMENTO DAS COISAS E ACRESCENTA UM TIC DELICIOSO À DIVERSIDADE DA ESPÉCIE. MAS O HOMEM É UMA MULHER QUE NUNCA SE COMPORTOU COMO MULHER, E QUIS DIFERENCIAR-SE, FAZER CHIC, NÃO CONSEGUINDO COM ISSO SENÃO PRODUZIR MONSTRUOSIDADES COMO ESTA FAMOSA "CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL" SOB A QUAL SUFOCAMOS MAS QUE, FELIZMENTE, VAI DESAPARECER EM BREVE.
PELO CONTRÁRIO, A MULHER, QUE É UM HOMEM, SOUBE SEMPRE GUARDAR AS DISTÂNCIAS E NUNCA PRETENDEU SUBSTITUIR-SE À VIDA SISTEMATIZANDO PUERILIDADES, COMO FILOSOFIA, AVIAÇÃO, CIÊNCIA, MÚSICA (SINFÓNICA), GUERRAS, ETC, ALGUNS PEDANTES QUE SE TOMAM POR LIBERTADORES DIZEM-NA "ESCRAVA DO HOMEM" E ELA RI ÀS ESCÂNCARAS, COM A SUA CONA, QUE É UM HOMEM.


DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS, ANTES DA ROBOTSTÂNICA GREGA, OS ÚNICOS HOMENS-HOMENS QUE APARECERAM FORAM OS HOMENS-MEDICINA, OS HOMENS-XAMAS (HOMOSSEXUAIS ARQUIMULHERES). ESSES E AS AMAZONAS (SUPER-MULHERES-HOMENS). MAS UNS E OUTRAS ERAM DEMAIS. E DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS QUE PENÉLOPE ESPERA O REGRESSO DE ULISSES. MAS O REGRESSO DE ULISSES É O HOMEM QUE É UMA MULHER E A MULHER QUE É UMA MULHER QUE É UM HOMEM.

"QUEER AS FOLEIRO"

Decorreu em Lisboa uma "gay parade" à nossa medida. Este ano o propósito do pequeno desfile folclórico consistiu em tentar chamar à razão as "instituições" para a necessidade de ser cumprido o princípio constitucional da igualdade, por forma a serem permitidos casamentos entre "same sexers". Também há gente mais entusiasmada que quer chegar à adopção. E por aí fora. Eu sobre estes assuntos não sou nada politicamente correcto. A obsessão "conjugal" visa fundamentalmente "copiar" o que existe de mais piroso no "outro lado" - o ritual do casamento e o espalhafato da "cerimónia". A lei - porque de um tema jurídico se trata - deve consagrar direitos a pessoas com vida em comum, sem se preocupar com o seu sexo. Ponto final. Não me parece que seja necessário tanta palhaçada para defender isto. O mesmo se deve aplicar em relação à adopção de crianças por duas pessoas do mesmo sexo. Está por provar que um casal dito heterossexual trate melhor da educação e do bem-estar dessas crianças. Ou que um flho não possa ficar à guarda de um pai ou de uma mãe por causa da orientação sexual respectiva. Mais uma vez, não me parece que seja preciso andar de "plumas à cabeça" para constatar puras evidências. Detesto o associativismo sexista e a retórica da discriminação. Julgo, aliás, que esta "pulsão" anti-segregacionista contribui mais para "separar as águas" do que o contrário. Há pessoas que adoram espremer por aí a sua "diferença" e exibi-la como um troféu. Não é pela pilhéria e pelo mau-gosto que se consegue ser respeitado. É, sobretudo, não tentando chamar frivolamente a atenção para a circunstância de que existem "diferenças" onde elas manifestamente não devem existir. É este associativismo parolo, pindérico e pífio que mais contribui para elas virem "ao de cima", ao arrepio de se tentar viver tranquilamente o lado privado da vida de cada um. Meia dúzia de travestis, alguns "casais" mais ou menos "conspicuous", uns quantos "activistas", uma mão cheia de curiosos e dois ornamentos, a Sra. D. Inês Pedrosa e o engraçadinho Rui Zink, fizeram a "festa". Não têm por que se "orgulhar". Não são "queer as folk". São "queer as foleiro".



Adenda: Aos actuais "aprendizes de feiticeiro", gostava de lhes recordar este "poema" de Mário Cesariny, "o regresso de ulisses", escrito por alturas dos "anos de chumbo".

o regresso de ulisses

O HOMEM É UMA MULHER QUE EM VEZ DE TER UMA CONA TEM UMA PIÇA, O QUE EM NADA PREJUDICA O NORMAL ANDAMENTO DAS COISAS E ACRESCENTA UM TIC DELICIOSO À DIVERSIDADE DA ESPÉCIE. MAS O HOMEM É UMA MULHER QUE NUNCA SE COMPORTOU COMO MULHER, E QUIS DIFERENCIAR-SE, FAZER CHIC, NÃO CONSEGUINDO COM ISSO SENÃO PRODUZIR MONSTRUOSIDADES COMO ESTA FAMOSA "CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL" SOB A QUAL SUFOCAMOS MAS QUE, FELIZMENTE, VAI DESAPARECER EM BREVE.
PELO CONTRÁRIO, A MULHER, QUE É UM HOMEM, SOUBE SEMPRE GUARDAR AS DISTÂNCIAS E NUNCA PRETENDEU SUBSTITUIR-SE À VIDA SISTEMATIZANDO PUERILIDADES, COMO FILOSOFIA, AVIAÇÃO, CIÊNCIA, MÚSICA (SINFÓNICA), GUERRAS, ETC, ALGUNS PEDANTES QUE SE TOMAM POR LIBERTADORES DIZEM-NA "ESCRAVA DO HOMEM" E ELA RI ÀS ESCÂNCARAS, COM A SUA CONA, QUE É UM HOMEM.


DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS, ANTES DA ROBOTSTÂNICA GREGA, OS ÚNICOS HOMENS-HOMENS QUE APARECERAM FORAM OS HOMENS-MEDICINA, OS HOMENS-XAMAS (HOMOSSEXUAIS ARQUIMULHERES). ESSES E AS AMAZONAS (SUPER-MULHERES-HOMENS). MAS UNS E OUTRAS ERAM DEMAIS. E DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS QUE PENÉLOPE ESPERA O REGRESSO DE ULISSES. MAS O REGRESSO DE ULISSES É O HOMEM QUE É UMA MULHER E A MULHER QUE É UMA MULHER QUE É UM HOMEM.

PERDAS E GANHOS

Todos os "comentadores" esperaram pela apresentação do orçamento rectificativo na sexta-feira. O governo, na senda do silêncio pedagógico que constitui o seu modo mais conhecido de falar, aguardou a chegada da noite e, cerca das 22 horas, entregou o dito orçamento na Assembleia da República. Nada disso impediu que alguns serões televisivos fossem preenchidos a "analisar" o documento e as suas propostas. A crédito do governo fica, aparentemente, a coragem de defender um diploma sem travestismos nem fórmulas mágicas. Ou seja, como tem sido amplamente divulgado, se não se fizesse nada, o défice rondaria os 6,8% no final do ano. Com as "medidas" que o orçamento rectificativo contempla, prevê-se uma redução de cerca de 0,6% nesse défice. Conta-se ir diminuindo até 2008, altura em que não seriam ultrapassados os miríficos 3%. Acontece que, por causa destes escassos zero vírgula seis, o governo e o PS andam por aí a ser impiedosamente chamuscados. Não teria sido preferível - já que tem que ser feito, e o governo e o PS inevitavelmente chamuscados- fazer "o mal" todo de uma vez e, preferencialmente, bem feito? Perpassou de imediato a ideia de que é demasiada "parra" para tão pouca "uva", sobretudo à custa do aumento do IVA a partir de Julho. É que nada ou muito pouco vai ajudar daqui em diante. O preço do petróleo, o impasse europeu, a má gestão do "dossier" autárquico, a excitação corporativa, a ansiedade da opinião pública e a necessidade de sobrevivência da que se publica, tudo isto resulta numa mistura explosiva que rebentará, mais tarde ou mais cedo, à porta de Sócrates. E Sócrates está exactamente como Barroso no início, com a diferença que este tinha uma ministra das Finanças com maior "autoridade" política. Como demonstra um estudo do Instituto de Ciências Sociais, coordenado por António Barreto e divulgado esta semana na Casa de Mateus, o eleitorado move-se por objectivos de curto prazo, o que justifica o que assistimos desde Dezembro de 2001 até ao último 20 de Fevereiro em matéria de resultados eleitorais. Não foi nada de excessivamente "profundo" que concedeu a maioria absoluta ao PS há uns meses (a deriva "santanista" e a falta de confiança no PSD e no governo, no essencial). Cada vez mais pesa a contingência no modo de decisão do "povo". O governo tem de contar com ela, sem abdicar de exercer a autoridade democrática, com sentido de oportunidade e de utilidade. Só assim estará apto a perder muito provavelmente as eleições autárquicas e as presidenciais sem, por isso, perder a razão ou o poder.

PERDAS E GANHOS

Todos os "comentadores" esperaram pela apresentação do orçamento rectificativo na sexta-feira. O governo, na senda do silêncio pedagógico que constitui o seu modo mais conhecido de falar, aguardou a chegada da noite e, cerca das 22 horas, entregou o dito orçamento na Assembleia da República. Nada disso impediu que alguns serões televisivos fossem preenchidos a "analisar" o documento e as suas propostas. A crédito do governo fica, aparentemente, a coragem de defender um diploma sem travestismos nem fórmulas mágicas. Ou seja, como tem sido amplamente divulgado, se não se fizesse nada, o défice rondaria os 6,8% no final do ano. Com as "medidas" que o orçamento rectificativo contempla, prevê-se uma redução de cerca de 0,6% nesse défice. Conta-se ir diminuindo até 2008, altura em que não seriam ultrapassados os miríficos 3%. Acontece que, por causa destes escassos zero vírgula seis, o governo e o PS andam por aí a ser impiedosamente chamuscados. Não teria sido preferível - já que tem que ser feito, e o governo e o PS inevitavelmente chamuscados- fazer "o mal" todo de uma vez e, preferencialmente, bem feito? Perpassou de imediato a ideia de que é demasiada "parra" para tão pouca "uva", sobretudo à custa do aumento do IVA a partir de Julho. É que nada ou muito pouco vai ajudar daqui em diante. O preço do petróleo, o impasse europeu, a má gestão do "dossier" autárquico, a excitação corporativa, a ansiedade da opinião pública e a necessidade de sobrevivência da que se publica, tudo isto resulta numa mistura explosiva que rebentará, mais tarde ou mais cedo, à porta de Sócrates. E Sócrates está exactamente como Barroso no início, com a diferença que este tinha uma ministra das Finanças com maior "autoridade" política. Como demonstra um estudo do Instituto de Ciências Sociais, coordenado por António Barreto e divulgado esta semana na Casa de Mateus, o eleitorado move-se por objectivos de curto prazo, o que justifica o que assistimos desde Dezembro de 2001 até ao último 20 de Fevereiro em matéria de resultados eleitorais. Não foi nada de excessivamente "profundo" que concedeu a maioria absoluta ao PS há uns meses (a deriva "santanista" e a falta de confiança no PSD e no governo, no essencial). Cada vez mais pesa a contingência no modo de decisão do "povo". O governo tem de contar com ela, sem abdicar de exercer a autoridade democrática, com sentido de oportunidade e de utilidade. Só assim estará apto a perder muito provavelmente as eleições autárquicas e as presidenciais sem, por isso, perder a razão ou o poder.

24.6.05

LER...

... e completar, no Random Precision, o "elenco" das "100 +", as frases supostamente mais célebres recolhidas do cinema. Eu junto uma de que gosto particularmente. Pertence a As Good As It Gets (Melhor é Impossível), um filme de James Brooks, de 1997, com Jack Nicholson, o célebre "Mr. Udall", uma espécie de "alter ego" meu:

"You make me want to be a better man".

LER...

... e completar, no Random Precision, o "elenco" das "100 +", as frases supostamente mais célebres recolhidas do cinema. Eu junto uma de que gosto particularmente. Pertence a As Good As It Gets (Melhor é Impossível), um filme de James Brooks, de 1997, com Jack Nicholson, o célebre "Mr. Udall", uma espécie de "alter ego" meu:

"You make me want to be a better man".

23.6.05

ELOGIO

Por causa de um comentário menos "correcto" sobre uma decisão judicial, Maria de Lurdes Rodrigues foi atacada miseravelmente pelos sindicalistas que pastoreiam professores e juízes. Até agora, a ministra da Educação, ao contrário do que aconteceu com os seus últimos infelizes antecessores, tem sabido, com discrição e eficácia, tratar da sua intendência. Não conheço a senhora de lado nenhum, nem me foi passada procuração para a defender. Porém, cada vez que vejo emergir um ilustre representante de "classe" indignado contra a ministra e a "apelar" a Jorge Sampaio, a minha admiração por ela vai crescendo. E tanto mais cresce quando se sabe que não se trata exactamente de uma "política" profissional. Como sou parco em elogios, julgo que estamos esclarecidos.

ELOGIO

Por causa de um comentário menos "correcto" sobre uma decisão judicial, Maria de Lurdes Rodrigues foi atacada miseravelmente pelos sindicalistas que pastoreiam professores e juízes. Até agora, a ministra da Educação, ao contrário do que aconteceu com os seus últimos infelizes antecessores, tem sabido, com discrição e eficácia, tratar da sua intendência. Não conheço a senhora de lado nenhum, nem me foi passada procuração para a defender. Porém, cada vez que vejo emergir um ilustre representante de "classe" indignado contra a ministra e a "apelar" a Jorge Sampaio, a minha admiração por ela vai crescendo. E tanto mais cresce quando se sabe que não se trata exactamente de uma "política" profissional. Como sou parco em elogios, julgo que estamos esclarecidos.

22.6.05

UM POEMA

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos


Eugénio de Andrade

UM POEMA

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos


Eugénio de Andrade

A CAIXA DE PANDORA

Quando vejo milhares de agentes da autoridade- PSP, GNR e SEF - a desfilarem pelas ruas de Lisboa, chamando "gatuno" e "mentiroso" ao governo, por interposto ministro da tutela, vem-me à memória uma manifestação que seguiu o mesmo percurso, em 1975. Chamavam-se "SUV", "Soldados Unidos Vencerão", eram membros - na altura fardados - das forças armadas e reclamavam "poder popular". A adjectivação de hoje, dirigida a um governo de maioria absoluta socialista, vinda de pessoas responsáveis pela segurança pública, é, no mínimo, grotesca se não fosse preocupante. Isto apesar de todos os legítimos "direitos", naturalmente. Está definitivamente destapada a "Caixa de Pandora" de que Pacheco Pereira falou outro dia. Habituem-se.

A CAIXA DE PANDORA

Quando vejo milhares de agentes da autoridade- PSP, GNR e SEF - a desfilarem pelas ruas de Lisboa, chamando "gatuno" e "mentiroso" ao governo, por interposto ministro da tutela, vem-me à memória uma manifestação que seguiu o mesmo percurso, em 1975. Chamavam-se "SUV", "Soldados Unidos Vencerão", eram membros - na altura fardados - das forças armadas e reclamavam "poder popular". A adjectivação de hoje, dirigida a um governo de maioria absoluta socialista, vinda de pessoas responsáveis pela segurança pública, é, no mínimo, grotesca se não fosse preocupante. Isto apesar de todos os legítimos "direitos", naturalmente. Está definitivamente destapada a "Caixa de Pandora" de que Pacheco Pereira falou outro dia. Habituem-se.

FALHANÇO

Ficámos a saber duas coisas más. A primeira não é propriamente uma novidade e é, de longe, a mais grave. Trata-se da economia. Façam as contas às vezes que nos falaram na "retoma" nos últimos três anos. Não existe "retoma" nenhuma e, bem pelo contrário, a economia portuguesa, pindérica e dependente de outras que não "arrancam", está em estado comatoso. Ainda ontem, no carro, ouvi o sr. ministro da Economia a prometer "inovação" e "desenvolvimento". O dr. Pinho pretenderá fazer isto com quem e em que economia? É, realmente, um dos mais pesados mistérios deste governo. Depois vêm as eternas finanças e o "programa" do dr. Campos e Cunha. Bruxelas, em mais um momento de demonstração da sua inequívoca pulsão controleira, já avisou que este "programa" não chega. Ou seja, o dr. Cunha terá de se espremer - e, por tabela, tentar espremer-nos - para arranjar mais receita e cortar a fundo na despesa. Como aqui se avisou repetidamente, este governo jamais teria um minuto de estado de graça. Não imaginei, apesar do meu pessimismo estrutural, que atingisse tão rapidamente um "estado de desgraça" que, diga-se de passagem, não é tanto seu quanto do país e da sua endémica miséria. Tudo somado, não vaticino uma longa estadia aos ministros da Economia e das Finanças nos respectivos postos. Os tempos que aí estão requerem capacidade e legitimidade políticas fortíssimas. Por exemplo, e até pela sua experiência europeia, o "negas" dr. Vitorino poderia perfeitamente ter ficado nas Finanças nesta fase inicial da legislatura na qual se exige maior investimento - estritamente político - de afirmação da estratégia governamental, partindo do princípio que ela existe. Manuela Ferreira Leite, uma excelente "técnica", "quebrou" justamente no combate político e por causa da sua "teimosia" técnica. Ousar contornar o círculo vicioso imposto por Bruxelas, tem um custo que só a política pode pagar. Para além disso, sabe-se também que é a "economia", em estado de devastação, que "paga", a final, o "arrastão" financeiro. Como disse na TVI o Miguel Sousa Tavares, até Jorge Sampaio, à medida que se aproxima do final do mandato, vai percebendo o tremendo falhanço a que presidiu pacatamente durante dez anos. Esse falhanço tem um nome e pinta-se a vermelho e verde quando, na realidade, devia pintar-se de vergonha.

FALHANÇO

Ficámos a saber duas coisas más. A primeira não é propriamente uma novidade e é, de longe, a mais grave. Trata-se da economia. Façam as contas às vezes que nos falaram na "retoma" nos últimos três anos. Não existe "retoma" nenhuma e, bem pelo contrário, a economia portuguesa, pindérica e dependente de outras que não "arrancam", está em estado comatoso. Ainda ontem, no carro, ouvi o sr. ministro da Economia a prometer "inovação" e "desenvolvimento". O dr. Pinho pretenderá fazer isto com quem e em que economia? É, realmente, um dos mais pesados mistérios deste governo. Depois vêm as eternas finanças e o "programa" do dr. Campos e Cunha. Bruxelas, em mais um momento de demonstração da sua inequívoca pulsão controleira, já avisou que este "programa" não chega. Ou seja, o dr. Cunha terá de se espremer - e, por tabela, tentar espremer-nos - para arranjar mais receita e cortar a fundo na despesa. Como aqui se avisou repetidamente, este governo jamais teria um minuto de estado de graça. Não imaginei, apesar do meu pessimismo estrutural, que atingisse tão rapidamente um "estado de desgraça" que, diga-se de passagem, não é tanto seu quanto do país e da sua endémica miséria. Tudo somado, não vaticino uma longa estadia aos ministros da Economia e das Finanças nos respectivos postos. Os tempos que aí estão requerem capacidade e legitimidade políticas fortíssimas. Por exemplo, e até pela sua experiência europeia, o "negas" dr. Vitorino poderia perfeitamente ter ficado nas Finanças nesta fase inicial da legislatura na qual se exige maior investimento - estritamente político - de afirmação da estratégia governamental, partindo do princípio que ela existe. Manuela Ferreira Leite, uma excelente "técnica", "quebrou" justamente no combate político e por causa da sua "teimosia" técnica. Ousar contornar o círculo vicioso imposto por Bruxelas, tem um custo que só a política pode pagar. Para além disso, sabe-se também que é a "economia", em estado de devastação, que "paga", a final, o "arrastão" financeiro. Como disse na TVI o Miguel Sousa Tavares, até Jorge Sampaio, à medida que se aproxima do final do mandato, vai percebendo o tremendo falhanço a que presidiu pacatamente durante dez anos. Esse falhanço tem um nome e pinta-se a vermelho e verde quando, na realidade, devia pintar-se de vergonha.

21.6.05

O CANALIZADOR POLACO

Por falar em "inovação e desenvolvimento", a Grande Loja descobriu a forma que os polacos arranjaram para chamar a atenção para o seu turismo. O poster que se reproduz de seguida - com a fotografia de um canalizador a "promover" a Polónia como destino de férias - pertence a uma campanha do departamento de Turismo da Polónia, a pensar na melhor maneira de contrariar o medo francês face à "concorrência" polaca, assente no célebre "síndrome do canalizador polaco", tão discutido por alturas do refendo à Constituição Europeia. Com o devido respeito, acho que só contribuíram para o aumentar e não necessariamente pelas piores razões.


O CANALIZADOR POLACO

Por falar em "inovação e desenvolvimento", a Grande Loja descobriu a forma que os polacos arranjaram para chamar a atenção para o seu turismo. O poster que se reproduz de seguida - com a fotografia de um canalizador a "promover" a Polónia como destino de férias - pertence a uma campanha do departamento de Turismo da Polónia, a pensar na melhor maneira de contrariar o medo francês face à "concorrência" polaca, assente no célebre "síndrome do canalizador polaco", tão discutido por alturas do refendo à Constituição Europeia. Com o devido respeito, acho que só contribuíram para o aumentar e não necessariamente pelas piores razões.


SOBRE...

... o enorme embuste que é a "formação" na administração pública, vale a pena ler este post do Jumento.

SOBRE...

... o enorme embuste que é a "formação" na administração pública, vale a pena ler este post do Jumento.

LER...

... este curioso "dossier" sobre a blogosfera - 1,2,3,4,5,6,7 -, as suas repercussões políticas, sociais e, pelos vistos, judiciais, a partir de um caso concreto ocorrido em França. O título de capa do Libération não deixa margem para dúvidas: Au blog, citoyens!. Nos EUA, ler ainda este "comité para a protecção dos bloggers".

LER...

... este curioso "dossier" sobre a blogosfera - 1,2,3,4,5,6,7 -, as suas repercussões políticas, sociais e, pelos vistos, judiciais, a partir de um caso concreto ocorrido em França. O título de capa do Libération não deixa margem para dúvidas: Au blog, citoyens!. Nos EUA, ler ainda este "comité para a protecção dos bloggers".

SARTRE, O DIA DO ANO CEM

"Eu sinto-me não como uma poeira aparecida no mundo, mas como um ser esperado, provocado, prefigurado. Resumindo, como um ser que só parece poder vir de um criador, e essa ideia de uma mão criadora que me tivesse criado reenvia-me a Deus. Naturalmente isto não é uma ideia clara e precisa a que recorro cada vez que penso em mim; ela contradiz muitas outras ideias minhas; mas existe, vaga. E quando penso em mim, penso muitas vezes um pouco assim, à falta de poder pensar de outro modo. Porque a consciência em cada um justifica a sua maneira de ser, e não está presente como uma formação gradual ou feita de uma série de acasos, mas pelo contrário como uma coisa, uma realidade que existe constantemente, que não está formada, que não é criada, mas que surge como existindo constantemente por inteiro. Além disso, a consciência é a consciência do mundo, por conseguinte não se sabe muito bem se se quer dizer a consciência ou o mundo, e por conseguinte reencontramo-nos na realidade".


De uma entrevista de Simone de Beauvoir a Jean-Paul Sartre, no Verão de 1974, publicada em A Cerimónia do Adeus

SARTRE, O DIA DO ANO CEM

"Eu sinto-me não como uma poeira aparecida no mundo, mas como um ser esperado, provocado, prefigurado. Resumindo, como um ser que só parece poder vir de um criador, e essa ideia de uma mão criadora que me tivesse criado reenvia-me a Deus. Naturalmente isto não é uma ideia clara e precisa a que recorro cada vez que penso em mim; ela contradiz muitas outras ideias minhas; mas existe, vaga. E quando penso em mim, penso muitas vezes um pouco assim, à falta de poder pensar de outro modo. Porque a consciência em cada um justifica a sua maneira de ser, e não está presente como uma formação gradual ou feita de uma série de acasos, mas pelo contrário como uma coisa, uma realidade que existe constantemente, que não está formada, que não é criada, mas que surge como existindo constantemente por inteiro. Além disso, a consciência é a consciência do mundo, por conseguinte não se sabe muito bem se se quer dizer a consciência ou o mundo, e por conseguinte reencontramo-nos na realidade".


De uma entrevista de Simone de Beauvoir a Jean-Paul Sartre, no Verão de 1974, publicada em A Cerimónia do Adeus

TRÊS SÉRIES

Six Feet Under, Sete Palmos de Terra

Desperate Housewives, Donas de Casa Desesperadas

Sex and The City

Nada, ou quase nada, neste país pateta me interessa observar a partir das televisões. Para além desses amigos silenciosos que são os livros, em casa também se pode escolher a companhia. Descobri recentemente o frívolo prazer de assistir a três séries norte-americanas, sem quaisquer complexos "intelectuais". Aliás, os "argumentos" e as "personagens" são suficientemente interessantes para acompanhar a peripécia de trás para diante ou vice-versa, ao acaso. Se quisermos, não são tanto as "histórias" quanto os "ambientes" que contam, umas vezes de uma forma divertida, outras vezes irónica, outras ainda, e sobretudo, "séria". O resto são tretas ou Manuel Luis Goucha, o clone "masculino" da Fátima Lopes.

TRÊS SÉRIES

Six Feet Under, Sete Palmos de Terra

Desperate Housewives, Donas de Casa Desesperadas

Sex and The City

Nada, ou quase nada, neste país pateta me interessa observar a partir das televisões. Para além desses amigos silenciosos que são os livros, em casa também se pode escolher a companhia. Descobri recentemente o frívolo prazer de assistir a três séries norte-americanas, sem quaisquer complexos "intelectuais". Aliás, os "argumentos" e as "personagens" são suficientemente interessantes para acompanhar a peripécia de trás para diante ou vice-versa, ao acaso. Se quisermos, não são tanto as "histórias" quanto os "ambientes" que contam, umas vezes de uma forma divertida, outras vezes irónica, outras ainda, e sobretudo, "séria". O resto são tretas ou Manuel Luis Goucha, o clone "masculino" da Fátima Lopes.

20.6.05

GLÓRIAS

Ontem, durante uns breves e risíveis minutos, as televisões, com destaque para a pública, deram grande ênfase à "vitória" de um moço português numa competição de fórmula Um, nos EUA. Por instantes receei que o Prof. Marcelo apelasse novamente ao estendal verde e rubro. Postas as coisas no devido sítio, constatou-se que o maravilhoso terceiro lugar alcançado pelo rapaz resultou de uma prova com... seis condutores. A maioria dos inscritos não correu, não sei porquê. Apesar de tudo, fez melhor figura que Durão Barroso - a outra nossa grande glória internacional contemporânea - na passada madrugada de sábado, em Bruxelas. É o melhor que se pode arranjar, já que Guterres só agora começou a dar os primeiros passos e a distribuir as primeiras solidárias carícias.

GLÓRIAS

Ontem, durante uns breves e risíveis minutos, as televisões, com destaque para a pública, deram grande ênfase à "vitória" de um moço português numa competição de fórmula Um, nos EUA. Por instantes receei que o Prof. Marcelo apelasse novamente ao estendal verde e rubro. Postas as coisas no devido sítio, constatou-se que o maravilhoso terceiro lugar alcançado pelo rapaz resultou de uma prova com... seis condutores. A maioria dos inscritos não correu, não sei porquê. Apesar de tudo, fez melhor figura que Durão Barroso - a outra nossa grande glória internacional contemporânea - na passada madrugada de sábado, em Bruxelas. É o melhor que se pode arranjar, já que Guterres só agora começou a dar os primeiros passos e a distribuir as primeiras solidárias carícias.

A LADO NENHUM

Paulo Sucena, o soba da FENPROF, ainda não percebeu, ao fim de décadas de postulado, que o país não simpatiza com a "causa" dos professores. A circunstância de prestarem "serviços de linha", como os médicos ou os enfermeiros, permite-lhes uma visibilidade política e social a que raros núcleos funcionários têm acesso. A demagogia miserável com que se "queixam", depois de terem sido dos mais beneficiados pelo "sistema retributivo" público, tolha-lhes a hipótese de compreenderem a nobreza da missão que lhes está confiada: ensinar. Se é com gente desta que se pensa apostar na "qualificação" democrática da pátria, vou ali e já venho. Não se admirem, pois, da desconfiança crescente dos papás em relação ao ensino público. Na verdade, com múmias como Sucena, não vamos mesmo a lado nenhum.

A LADO NENHUM

Paulo Sucena, o soba da FENPROF, ainda não percebeu, ao fim de décadas de postulado, que o país não simpatiza com a "causa" dos professores. A circunstância de prestarem "serviços de linha", como os médicos ou os enfermeiros, permite-lhes uma visibilidade política e social a que raros núcleos funcionários têm acesso. A demagogia miserável com que se "queixam", depois de terem sido dos mais beneficiados pelo "sistema retributivo" público, tolha-lhes a hipótese de compreenderem a nobreza da missão que lhes está confiada: ensinar. Se é com gente desta que se pensa apostar na "qualificação" democrática da pátria, vou ali e já venho. Não se admirem, pois, da desconfiança crescente dos papás em relação ao ensino público. Na verdade, com múmias como Sucena, não vamos mesmo a lado nenhum.

19.6.05

SÓ AGORA...

... é que o inefável optimista que é o Prof. Marcelo reparou que a nossa sociedade vive uma espécie de "arrastão moral". Há um ano atrás, por esta altura, não houve palonço que não pusesse uma bandeira à janela ou no automóvel, justamente a mando do dito Prof. Marcelo. O futebol ia salvar-nos. Não nos salvou de coisa alguma. Já nessa altura havia "arrastão moral", como aliás subsiste de há anos e anos para cá, nas mais diversas áreas. Marcelo acha que qualquer dia não se pode acreditar em nada. O grave não é ele dizer isto. Grave é ele ainda acreditar.

SÓ AGORA...

... é que o inefável optimista que é o Prof. Marcelo reparou que a nossa sociedade vive uma espécie de "arrastão moral". Há um ano atrás, por esta altura, não houve palonço que não pusesse uma bandeira à janela ou no automóvel, justamente a mando do dito Prof. Marcelo. O futebol ia salvar-nos. Não nos salvou de coisa alguma. Já nessa altura havia "arrastão moral", como aliás subsiste de há anos e anos para cá, nas mais diversas áreas. Marcelo acha que qualquer dia não se pode acreditar em nada. O grave não é ele dizer isto. Grave é ele ainda acreditar.

LER...

... no Público de domingo, sem link, o notável artigo de Mário Mesquita, Apologia do Herói Imperfeito.

A vasta mobilização desencadeada pela morte de Cunhal, além de significar o peso da sua influência política e ideológica, a homenagem à sua luta contra a ditadura, o respeito pelo modelo de fidelidade aos seus ideais, indica igualmente o apreço de muitos portugueses por uma referência segura, nesta sociedade portuguesa algo desorientada, aparentemente condenada à gestão política baça, sem horizontes de esperança, com a esquerda democrática resignada a substituir os políticos pelos "guarda-livros".

LER...

... no Público de domingo, sem link, o notável artigo de Mário Mesquita, Apologia do Herói Imperfeito.

A vasta mobilização desencadeada pela morte de Cunhal, além de significar o peso da sua influência política e ideológica, a homenagem à sua luta contra a ditadura, o respeito pelo modelo de fidelidade aos seus ideais, indica igualmente o apreço de muitos portugueses por uma referência segura, nesta sociedade portuguesa algo desorientada, aparentemente condenada à gestão política baça, sem horizontes de esperança, com a esquerda democrática resignada a substituir os políticos pelos "guarda-livros".

OS CEM DIAS E O TEMOR SEM ROSTO

O fim de semana não correu bem a José Sócrates, um primeiro-ministro que comemora os seus inaugurais cem dias. Tudo começou na longa noite de sexta-feira em Bruxelas. A emergência de Tony Blair, o fracasso das negociações orçamentais e a clara derrota do "eixo" ao qual Portugal estava ancorado por causa da sua teimosia em relação à aprovação do Tratado Constitucional Europeu, marcaram a sua infeliz conferência de imprensa que passou praticamente despercebida. Ao falar na madrugada de sábado, Sócrates deu a ideia - talvez deliberada - de que o "acordo" a que se tinha chegado em matéria financeira, na quinta-feira, era bom para o país. Ou seja, até parecia que o dito "acordo" estava já em vigor, quando, na realidade, não passou de wishful thinking por causa do veio a seguir. Dito de outra forma: Portugal veio de Bruxelas com uma mão atrás e outra à frente. Mais realista, foi essencialmente isto que Campos e Cunha transmitiu aos deputados do PS no Algarve: Portugal perdeu. Depois, neste mesmo Algarve, e perante os mesmos deputados, Sócrates foi falar em "moralidade" para justificar as "medidas" que afectam os detentores de cargos políticos. A inovocação da "moral" no seio da política costuma ser desastrosa para além de ser populista. E mesmo sendo populista, é duvidoso que produza grande efeito atendendo ao grau de irritação e de incómodo crescentes que outras "medidas" anunciadas estão a provocar em determinados sectores. Não vale nunca a pena tapar o sol da política com a peneira da "moralidade". Ninguém acredita. Nem sequer os seus próprios deputados, seguramente. José Gil, num texto complexo mas certeiro, ensaiava, na Visão desta semana, uma explicação para o sentimento, algures entre a simpatia e a perplexidade, que o governo de José Sócrates nos deixa em apenas cem dias. São dele as palavras seguintes, registadas sem mais comentários.

Um aspecto do Governo a quem os portugueses deram a maioria absoluta, supreende: é um governo sem imagem. O seu primeiro-ministro é sem imagem; o ministro que mais aparece nos media, o ministro das Finanças, não tem imagem. Os que tendem a afirmar uma personalidade mais singular, são logo remetidos para o silêncio. Para começar, essas características correspondem adequadamente ao momento crítico que a sociedade atravessa. A crise ameaça transformar-se em caos, as pessoas esperam, num temor sem rosto. E a oposição também não o tem.


Não se trata de um estilo de governação. Porque nenhum traço é verdadeiramente marcante. Por agora, parece apenas uma estratégia para atenuar a crise nos espíritos, não agudizar, não criar ruído, ao mesmo tempo que se criam ondas. Estratégia de neutralização da angústia da população e de esvaziamento dos media, que a amplificam. Repare-se: não há um discurso legitimador das medidas já tomadas - as justificações (em nome da "justiça para todos", da moralidade na prática política) são pontuais, a propósito de derrapagens demasiado evidentes. Nada de grandes valores, de grandes posições ideológicas, nem sequer de traços gerais de metodologias da acção (...) Como se se quisesse criar a ideia de uma necessidade natural, técnica, absoluta, desta política, sem alternativa possível, necessidade que se justificaria pela própria natureza da crise.


A imagem do Governo não afirma nem a tecnocracia, nem o humanismo, nem o socialismo, nem o neoliberalismo. Quer-se mudar Portugal. abrindo um espaço para a acção. Porém, este período não pode durar sempre. A ausência de imagem não será sempre eficaz, como é o caso. Virá o momento em que o primeiro-ministro e o Governo terão de produzir uma imagem (mesmo inovadora) decifrável da sua política, sob pena de incorrer nos mais variados riscos, o menor dos quais não é o de governar contra o povo.

OS CEM DIAS E O TEMOR SEM ROSTO

O fim de semana não correu bem a José Sócrates, um primeiro-ministro que comemora os seus inaugurais cem dias. Tudo começou na longa noite de sexta-feira em Bruxelas. A emergência de Tony Blair, o fracasso das negociações orçamentais e a clara derrota do "eixo" ao qual Portugal estava ancorado por causa da sua teimosia em relação à aprovação do Tratado Constitucional Europeu, marcaram a sua infeliz conferência de imprensa que passou praticamente despercebida. Ao falar na madrugada de sábado, Sócrates deu a ideia - talvez deliberada - de que o "acordo" a que se tinha chegado em matéria financeira, na quinta-feira, era bom para o país. Ou seja, até parecia que o dito "acordo" estava já em vigor, quando, na realidade, não passou de wishful thinking por causa do veio a seguir. Dito de outra forma: Portugal veio de Bruxelas com uma mão atrás e outra à frente. Mais realista, foi essencialmente isto que Campos e Cunha transmitiu aos deputados do PS no Algarve: Portugal perdeu. Depois, neste mesmo Algarve, e perante os mesmos deputados, Sócrates foi falar em "moralidade" para justificar as "medidas" que afectam os detentores de cargos políticos. A inovocação da "moral" no seio da política costuma ser desastrosa para além de ser populista. E mesmo sendo populista, é duvidoso que produza grande efeito atendendo ao grau de irritação e de incómodo crescentes que outras "medidas" anunciadas estão a provocar em determinados sectores. Não vale nunca a pena tapar o sol da política com a peneira da "moralidade". Ninguém acredita. Nem sequer os seus próprios deputados, seguramente. José Gil, num texto complexo mas certeiro, ensaiava, na Visão desta semana, uma explicação para o sentimento, algures entre a simpatia e a perplexidade, que o governo de José Sócrates nos deixa em apenas cem dias. São dele as palavras seguintes, registadas sem mais comentários.

Um aspecto do Governo a quem os portugueses deram a maioria absoluta, supreende: é um governo sem imagem. O seu primeiro-ministro é sem imagem; o ministro que mais aparece nos media, o ministro das Finanças, não tem imagem. Os que tendem a afirmar uma personalidade mais singular, são logo remetidos para o silêncio. Para começar, essas características correspondem adequadamente ao momento crítico que a sociedade atravessa. A crise ameaça transformar-se em caos, as pessoas esperam, num temor sem rosto. E a oposição também não o tem.


Não se trata de um estilo de governação. Porque nenhum traço é verdadeiramente marcante. Por agora, parece apenas uma estratégia para atenuar a crise nos espíritos, não agudizar, não criar ruído, ao mesmo tempo que se criam ondas. Estratégia de neutralização da angústia da população e de esvaziamento dos media, que a amplificam. Repare-se: não há um discurso legitimador das medidas já tomadas - as justificações (em nome da "justiça para todos", da moralidade na prática política) são pontuais, a propósito de derrapagens demasiado evidentes. Nada de grandes valores, de grandes posições ideológicas, nem sequer de traços gerais de metodologias da acção (...) Como se se quisesse criar a ideia de uma necessidade natural, técnica, absoluta, desta política, sem alternativa possível, necessidade que se justificaria pela própria natureza da crise.


A imagem do Governo não afirma nem a tecnocracia, nem o humanismo, nem o socialismo, nem o neoliberalismo. Quer-se mudar Portugal. abrindo um espaço para a acção. Porém, este período não pode durar sempre. A ausência de imagem não será sempre eficaz, como é o caso. Virá o momento em que o primeiro-ministro e o Governo terão de produzir uma imagem (mesmo inovadora) decifrável da sua política, sob pena de incorrer nos mais variados riscos, o menor dos quais não é o de governar contra o povo.

18.6.05

RIDÍCULO...

... isto, via Grande Loja. De um aprendiz de governante que quase chora - se não se deu mesmo o caso de ter chorado - na sua tomada de posse, deve esperar-se o pior.

RIDÍCULO...

... isto, via Grande Loja. De um aprendiz de governante que quase chora - se não se deu mesmo o caso de ter chorado - na sua tomada de posse, deve esperar-se o pior.

JUÍZO NA JUSTIÇA

Os senhores magistrados estão "em luta". Parece que as "reformas" - o célebre doce eufemismo de sempre - que o dr. Costa prepara para o sector não lhes agradam. A mais populista de todas - as "férias normais" - ainda menos. Segundo alguma imprensa, já conspiram, imagine-se, com o sr. Carvalho da Silva. "Ameaçam" paralisar o sector. Outro eufemismo: o "sector" já está naturalmente paralisado. Custa imenso a estas estimáveis criaturas descer da hiper-realidade em que sempre viveram, sobretudo depois das "conquistas" corporativas que obtiveram após o 25 de Abril. A mexer, que mexam os "deles", nunca a nojenta política. Convém, porém, lembrar que, por mais obnóxio que o dr. Costa possa ser, ele emana de uma coisa chamada poder político democrático. O governo a que ele pertence está legitimado pelo voto e, por sinal, até tem um apoio parlamentar maioritário. Apesar do nosso conceito "napoleónico" de justiça, os poderes "de facto" não devem sobrepôr-se aos poderes eleitos e sufragados livremente. O governo tem o direito e o dever de ter uma "política" para o sector da justiça que não tem forçosamente de coincidir com as ambições de classe dos magistrados ou dos advogados. A justiça é uma política pública democrática ao serviço dos cidadãos e não um simples feudo enxertado na sociedade ou acima dela. É preciso não esquecer que, enquanto funcionários públicos na verdadeira acepção da palavra, os magistrados são - e correctamente - bastante bem remunerados. E que a missão que desempenham - a administração da justiça, os juízes, e a titularidade da acção penal, os procuradores - é um eminente serviço de soberania que não pode ser confundido com mesquinhos interesses de contingência. Juízo, pois, na justiça.

JUÍZO NA JUSTIÇA

Os senhores magistrados estão "em luta". Parece que as "reformas" - o célebre doce eufemismo de sempre - que o dr. Costa prepara para o sector não lhes agradam. A mais populista de todas - as "férias normais" - ainda menos. Segundo alguma imprensa, já conspiram, imagine-se, com o sr. Carvalho da Silva. "Ameaçam" paralisar o sector. Outro eufemismo: o "sector" já está naturalmente paralisado. Custa imenso a estas estimáveis criaturas descer da hiper-realidade em que sempre viveram, sobretudo depois das "conquistas" corporativas que obtiveram após o 25 de Abril. A mexer, que mexam os "deles", nunca a nojenta política. Convém, porém, lembrar que, por mais obnóxio que o dr. Costa possa ser, ele emana de uma coisa chamada poder político democrático. O governo a que ele pertence está legitimado pelo voto e, por sinal, até tem um apoio parlamentar maioritário. Apesar do nosso conceito "napoleónico" de justiça, os poderes "de facto" não devem sobrepôr-se aos poderes eleitos e sufragados livremente. O governo tem o direito e o dever de ter uma "política" para o sector da justiça que não tem forçosamente de coincidir com as ambições de classe dos magistrados ou dos advogados. A justiça é uma política pública democrática ao serviço dos cidadãos e não um simples feudo enxertado na sociedade ou acima dela. É preciso não esquecer que, enquanto funcionários públicos na verdadeira acepção da palavra, os magistrados são - e correctamente - bastante bem remunerados. E que a missão que desempenham - a administração da justiça, os juízes, e a titularidade da acção penal, os procuradores - é um eminente serviço de soberania que não pode ser confundido com mesquinhos interesses de contingência. Juízo, pois, na justiça.

ONDE É QUE ESTÁ?

Neste post de RAF, do Blasfémias, um blogue que acompanho com regularidade, fala-se de "uma juventude que tem ânsia de pensar" (sic). Com o devido respeito, Rodrigo, depois de tantas baboseiras ditas e escritas nos últimos dias, importa-se de me dizer onde é que pára essa gloriosa "juventude" e, já agora, essa "ânsia" de que fala?

ONDE É QUE ESTÁ?

Neste post de RAF, do Blasfémias, um blogue que acompanho com regularidade, fala-se de "uma juventude que tem ânsia de pensar" (sic). Com o devido respeito, Rodrigo, depois de tantas baboseiras ditas e escritas nos últimos dias, importa-se de me dizer onde é que pára essa gloriosa "juventude" e, já agora, essa "ânsia" de que fala?

SOMOS TODOS PORTUGAL?

O Senhor Presidente da República esteve em visita folclórica ao bairro da Cova da Moura, nos arredores de Lisboa. Pregou pela "tolerância" e pela "lei", assistiu a um jogo de futebol - a verdadeira "raíz" da "identidade nacional" democrática -, distribuiu os habituais apertos de mão e garantiu, à sua maneira, que "somos todos Portugal". Na sua ingenuidade voluntarista, Sampaio não sossegou ninguém. Nem os habitantes do bairro, nem os que olham para o bairro como um gueto duvidoso. Tal como Salazar na sua obsessão colonial, também este regime com trinta e um anos de idade, falhou no propósito - sempre o mesmo - da miscigenação das raças, agora mais conhecida pela democrática "integração". Acontece que ninguém perguntou às gentes a "integrar" se elas desejavam efectivamente ser "integradas". E muitos dos mecanismos criados e mantidos pelo Estado para assegurar essa "integração" - voluntária ou "à força" - não conseguem escapar a uma estafada retórica burocrática que nada resolve. A peripécia do "arrastão", bem como a patética manifestação "branca" do Martim Moniz, apenas evidenciam que, ao contrário do que por aí se prega, existe um mal estar larvar. Eventualmente pequenino, mas existe. Os sociólogos e demais "especialistas", imediatamente chamados a perorar, não descolam da trivialidade. A "realidade" jamais lhes consegue entrar na cabeça, cheia de lugares-comuns apanhados nos calhamaços e nas vulgatas que passam a vida a ler. Pelo contrário, é esta "realidade" que começa a "entrar" na cidadania e quase sempre pelas piores razões. O fracasso da "coesão social", da "integração" e da "solidariedade" está à vista para quem o quiser ver. "Somos todos Portugal" ? Onde ?

SOMOS TODOS PORTUGAL?

O Senhor Presidente da República esteve em visita folclórica ao bairro da Cova da Moura, nos arredores de Lisboa. Pregou pela "tolerância" e pela "lei", assistiu a um jogo de futebol - a verdadeira "raíz" da "identidade nacional" democrática -, distribuiu os habituais apertos de mão e garantiu, à sua maneira, que "somos todos Portugal". Na sua ingenuidade voluntarista, Sampaio não sossegou ninguém. Nem os habitantes do bairro, nem os que olham para o bairro como um gueto duvidoso. Tal como Salazar na sua obsessão colonial, também este regime com trinta e um anos de idade, falhou no propósito - sempre o mesmo - da miscigenação das raças, agora mais conhecida pela democrática "integração". Acontece que ninguém perguntou às gentes a "integrar" se elas desejavam efectivamente ser "integradas". E muitos dos mecanismos criados e mantidos pelo Estado para assegurar essa "integração" - voluntária ou "à força" - não conseguem escapar a uma estafada retórica burocrática que nada resolve. A peripécia do "arrastão", bem como a patética manifestação "branca" do Martim Moniz, apenas evidenciam que, ao contrário do que por aí se prega, existe um mal estar larvar. Eventualmente pequenino, mas existe. Os sociólogos e demais "especialistas", imediatamente chamados a perorar, não descolam da trivialidade. A "realidade" jamais lhes consegue entrar na cabeça, cheia de lugares-comuns apanhados nos calhamaços e nas vulgatas que passam a vida a ler. Pelo contrário, é esta "realidade" que começa a "entrar" na cidadania e quase sempre pelas piores razões. O fracasso da "coesão social", da "integração" e da "solidariedade" está à vista para quem o quiser ver. "Somos todos Portugal" ? Onde ?

HABITUEM-SE

"Europe had reached a moment when it had to make fundamental changes and reforms because the ‘no’ votes in the two referendums could not be ignored." Já a madrugada ia alta quando Tony Blair resumiu o essencial. Ao contrário do que os comentadores e os adeptos da "Europa redonda" anunciaram com melancolia, a Europa, depois da cimeira de Bruxelas, deu afinal um passo em frente. Como construção democrática, conflitual e negociada que sempre foi, a União Europeia, só por cegueira ou qualquer outra grave deficiência intelectual e política, poderia ficar indiferente ao que os seus "povos" pensam dos conchavos organizados permanentemente em torno de apenas duas ou três figuras de proa perfeitamente descredibilizadas. Como não gosto particularmente de Blair, estou à vontade para saudar a sua entrada em cena, sobretudo a partir de 1 de Julho. É preciso colocar as coisas no sítio adequado e devolver alguma "democracia" aos interstícios da União. Para os mendigos como nós, esta cimeira representou um rude golpe. Nem Constituição, nem dinheiro fresco. Nada. Não é mau. Temos que começar, de uma vez por todas, a perceber o que valemos e, a partir daí, a viver de acordo com o que valemos. O "mote" não é "habituem-se"? Pois então, habituem-se.

HABITUEM-SE

"Europe had reached a moment when it had to make fundamental changes and reforms because the ‘no’ votes in the two referendums could not be ignored." Já a madrugada ia alta quando Tony Blair resumiu o essencial. Ao contrário do que os comentadores e os adeptos da "Europa redonda" anunciaram com melancolia, a Europa, depois da cimeira de Bruxelas, deu afinal um passo em frente. Como construção democrática, conflitual e negociada que sempre foi, a União Europeia, só por cegueira ou qualquer outra grave deficiência intelectual e política, poderia ficar indiferente ao que os seus "povos" pensam dos conchavos organizados permanentemente em torno de apenas duas ou três figuras de proa perfeitamente descredibilizadas. Como não gosto particularmente de Blair, estou à vontade para saudar a sua entrada em cena, sobretudo a partir de 1 de Julho. É preciso colocar as coisas no sítio adequado e devolver alguma "democracia" aos interstícios da União. Para os mendigos como nós, esta cimeira representou um rude golpe. Nem Constituição, nem dinheiro fresco. Nada. Não é mau. Temos que começar, de uma vez por todas, a perceber o que valemos e, a partir daí, a viver de acordo com o que valemos. O "mote" não é "habituem-se"? Pois então, habituem-se.

17.6.05

NOVENTA DIAS

Passaram três meses sobre a entrada em funções deste governo. Apesar de tudo, existe a noção de que perpassa pela mente do primeiro-ministro e de alguns governantes que é preciso – finalmente, diria eu – fazer o que tem de ser feito. Na Educação, por exemplo, onde os sindicatos tentam a todo o custo que se mantenha um sorvedouro inexplicável de dinheiros públicos. Na Saúde, onde é fácil dar lastro ao perfume de ambiguidade entre o público e o privado, sempre pago pelo primeiro. Na Agricultura, onde tudo indica que existe um esforço sério para dinamizar uma estrutura estranhamente pesada e, em muitos aspectos, anquilosada. Há, porém, casos em que surgem muitas interrogações. Nas Obras Públicas, sempre politicamente tentadoras, parece que há uma clara vertigem no sentido de “dar passos maiores do que a perna”. E na Economia, já percebemos que um bom técnico raramente faz a mínima ideia do que seja exercer um lugar político. Não é que não pairem por ali excelentes ideias sobre a "economia". No entanto, não estou seguro que essas ideias "entrem" nesta "economia" ou que esta "economia" esteja em condições de absorver essas ideias. Por cima de tudo isto, estão inevitavelmente as Finanças. O Plano apresentado pelo seu titular e as “medidas” que o desenvolvem vão inevitavelmente suscitar alguma acrimónia. O velório financeiro geral, solicitado uma vez mais à pátria, precisa de uma boa sustentação política para se “aguentar”. Ninguém está para se maçar ou ser maçado. Qualquer deriva imprevista, qualquer precipitado amadorismo ou qualquer opacidade “técnica” podem deitar tudo a perder. Pedro Silva Pereira, apesar do seu esforçado mimetismo “socrático”, não “comunica” bem. António Costa, o melhor “político” do governo, tem aparecido precocemente crispado por questões de “lana caprina”. Acontece que o governo não pode estar permanentemente a contar com Jorge Coelho, o seu “batedor” de serviço, para lhe sinalizar o caminho ou para barrar percursos menos avisados. O anúncio “torrencial” de medidas também não ajuda nada. Tem sido igualmente Coelho quem tem evitado o pior, mesmo que à conta de um voluntarismo excessivo. Em suma, e para que as nossas “contas” e as de José Sócrates não se baralhem, não basta fazer “o que deve ser feito”. É preciso também fazer bem feito. (continua)

NOVENTA DIAS

Passaram três meses sobre a entrada em funções deste governo. Apesar de tudo, existe a noção de que perpassa pela mente do primeiro-ministro e de alguns governantes que é preciso – finalmente, diria eu – fazer o que tem de ser feito. Na Educação, por exemplo, onde os sindicatos tentam a todo o custo que se mantenha um sorvedouro inexplicável de dinheiros públicos. Na Saúde, onde é fácil dar lastro ao perfume de ambiguidade entre o público e o privado, sempre pago pelo primeiro. Na Agricultura, onde tudo indica que existe um esforço sério para dinamizar uma estrutura estranhamente pesada e, em muitos aspectos, anquilosada. Há, porém, casos em que surgem muitas interrogações. Nas Obras Públicas, sempre politicamente tentadoras, parece que há uma clara vertigem no sentido de “dar passos maiores do que a perna”. E na Economia, já percebemos que um bom técnico raramente faz a mínima ideia do que seja exercer um lugar político. Não é que não pairem por ali excelentes ideias sobre a "economia". No entanto, não estou seguro que essas ideias "entrem" nesta "economia" ou que esta "economia" esteja em condições de absorver essas ideias. Por cima de tudo isto, estão inevitavelmente as Finanças. O Plano apresentado pelo seu titular e as “medidas” que o desenvolvem vão inevitavelmente suscitar alguma acrimónia. O velório financeiro geral, solicitado uma vez mais à pátria, precisa de uma boa sustentação política para se “aguentar”. Ninguém está para se maçar ou ser maçado. Qualquer deriva imprevista, qualquer precipitado amadorismo ou qualquer opacidade “técnica” podem deitar tudo a perder. Pedro Silva Pereira, apesar do seu esforçado mimetismo “socrático”, não “comunica” bem. António Costa, o melhor “político” do governo, tem aparecido precocemente crispado por questões de “lana caprina”. Acontece que o governo não pode estar permanentemente a contar com Jorge Coelho, o seu “batedor” de serviço, para lhe sinalizar o caminho ou para barrar percursos menos avisados. O anúncio “torrencial” de medidas também não ajuda nada. Tem sido igualmente Coelho quem tem evitado o pior, mesmo que à conta de um voluntarismo excessivo. Em suma, e para que as nossas “contas” e as de José Sócrates não se baralhem, não basta fazer “o que deve ser feito”. É preciso também fazer bem feito. (continua)

16.6.05

AGORA...

... já são praticamente todos a favor de uma "pausa" - um eufemismo delicodoce para não desagradar a ninguém - no processo de ratificação do Tratado Constitucional Europeu. E os referendos já não são o que eram ou o que se esperava deles. Até por cá se admite "esquecer" o referendo em Outubro. É por isto que Durão Barroso emerge cada vez mais e melhor no seu papel de catalisador de hipocrisias. Nós, os pedintes, apenas queremos ver a "cor do dinheiro" dentro do famoso "envelope". No resto, vale sempre o mesmo "Maria, vai com as outras".

AGORA...

... já são praticamente todos a favor de uma "pausa" - um eufemismo delicodoce para não desagradar a ninguém - no processo de ratificação do Tratado Constitucional Europeu. E os referendos já não são o que eram ou o que se esperava deles. Até por cá se admite "esquecer" o referendo em Outubro. É por isto que Durão Barroso emerge cada vez mais e melhor no seu papel de catalisador de hipocrisias. Nós, os pedintes, apenas queremos ver a "cor do dinheiro" dentro do famoso "envelope". No resto, vale sempre o mesmo "Maria, vai com as outras".

CARLO MARIA GIULINI (1914-2005)




No silêncio, como convém a um músico superior, Carlo Maria Giulini desapareceu também esta semana. Tratava-se, na minha modesta opinião, de um dos maiores dirigentes de orquestra do século XX. Uma vez mais são as suas gravações que aí ficam para o atestar. Tive a felicidade de o ver dirigir Brahms no ciclo das "grandes orquestras mundiais", no Coliseu. Karajan, insuspeito, disse que Giulini era o melhor de entre eles. Não sei se era ou não. Sei apenas que era dos mais sublimes.

CARLO MARIA GIULINI (1914-2005)




No silêncio, como convém a um músico superior, Carlo Maria Giulini desapareceu também esta semana. Tratava-se, na minha modesta opinião, de um dos maiores dirigentes de orquestra do século XX. Uma vez mais são as suas gravações que aí ficam para o atestar. Tive a felicidade de o ver dirigir Brahms no ciclo das "grandes orquestras mundiais", no Coliseu. Karajan, insuspeito, disse que Giulini era o melhor de entre eles. Não sei se era ou não. Sei apenas que era dos mais sublimes.

EUGÉNIO

Nem sempre o homem é um lugar triste.
Há noites em que o sorriso
dos anjos
o torna habitável e leve;
com a cabeça no teu regaço
é um cão ao lume a correr às lebres.


De O Outro Nome da Terra


Não falei do outro morto ilustre, o Eugénio de Andrade. Numa outra encarnação, mais dada às "letras" nos jornais, desloquei-me ao Porto, essa cidade que tanto gosto, para entrevistar Agustina. Lá estive na casa do Campo Alegre. Era Inverno e a escritora acolheu-me ao pé de uma mesa que escondia uma lareira, suponho que eléctrica. Pelas pernas, pôs uma manta. Entrava e saía constantemente um amável cão. Mostrou-me os jardins com uma maravilhosa vista para o Douro e ofereceu-me um exemplar da sua "Florbela Espanca", dedicando-o à "lembrança de uma conversa de longos caminhos, minuciosos e inacabados". Falámos inevitavelmente de Eugénio de Andrade e eu mencionei que trazia o seu telefone de casa para um contacto. Cá fora, numa cabine de telefone público - não havia telemóveis -, marquei esse número que nunca chegou a ser atendido. Desencontrei-me, pois, desse encontro não marcado com o poeta. No seu desaparecimento, praticamente ninguém se poupou nas palavras. Logo sobre Eugénio, um poeta com uma noção tão perfeitamente enxuta do seu uso. Uma das melhores "falas" sobre Eugénio de Andrade pertence a Joaquim Manuel Magalhães, poeta também, e seu amigo. Foi ele quem me contou - estava eu na tropa em Tavira - a "origem" de "As Mãos e os Frutos", presumo que sem qualquer espécie de ironia. Eugénio também tinha estado na tropa em Tavira. E aqueles poemas ali terão sido escritos ou pressentidos, numa época em que notoriamente as mulheres ainda estavam longe de ter guarida em quartéis. "A tua vida é uma história triste./A minha é igual à tua./Presas as mãos e preso o coração,/enchemos de sombra a mesma rua." Ou : "Os teus olhos férteis de promessas/vão-se, e a noite fica fechada". Ou ainda esse magnífico "Espera": "Horas, horas sem fim/pesadas, fundas,/esperarei por ti/até que todas as coisas sejam mudas./ Até que uma pedra irrompa/e floresça./Até que um pássaro me saia da garganta/e no silêncio desapareça." É preciso dizer mais alguma coisa?