26.3.10

NÓS, OS POR VEZES VENCIDOS DO CATOLICISMO*

Não deve ser fruto do acaso a "descoberta" de tanta pedofilia ligada a padres. Sobretudo quando alguns desses casos passaram pelo crivo do então prefeito para a congregação da fé, o cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI. Choca o silêncio burocrático, frio e racional do cardeal perante cartas e cartas em que era referido um padre abusador de crianças surdas-mudas? Faz impressão que o decurso do tempo e a remoção do indivíduo para outros lados tivessem "resolvido" o assunto que cessou, por morte natural do dito padre, em 1998? E custa, sobretudo a um cristão católico, apostólico, romano, tanto rumor de tanta nojice? Choca, faz impressão e custa, sim. Durante grande parte da minha vida vi a religião - a minha, a católica - de longe e como coisa resolvida de forma inteiramente privada. A agonia de João Paulo II e a escolha de Ratzinger para lhe suceder aproximaram-me, porventura por motivos puramente intelectuais, mais da Igreja. Mas continuei, como continuo, a sentir a fé como uma coisa pessoal. Nunca valorizei especialmente os intermediários, vulgo, os sacerdotes porque são homens e, por definição, desconfio da natureza humana. Um criminoso pode ser várias coisas tais como padre, dirigente partidário ou advogado. Isso não faz da Igreja, do partido ou das ordens dos advogados albergues de criminosos. Nem faz especialmente do Papa um cúmplice de criminosos. Apesar do horrível que existe nisto tudo, não há coincidências.

* o título releva de um conhecido poema de Ruy Belo:

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
“Meu deus meu deus porque me abandonaste?”

9 comentários:

Anónimo disse...

A hierarquia da Igreja Católica foi negligente e conivente com maus padres? Foi.
Precisa das nossas orações para que obtenham perdão os que pecaram e os que calaram.
E precisam das nossas orações aqueles bem intencionados a quem parecia que a Igreja de Cristo tinha abandonado mais que o marxismo (que pouco os abandonou).

radical livre disse...

a condição humana é a mesma para todos os homens. só a educação (não confundir com instrução) e a firmeza de carácter podem evitar problemas de falta de civismo.

a campanha anti Igrja Católica é absolutamente necessária para esconder os podres das sociedades europeias mais ou menos socializantes.
o problema não se coloca face ao Islão. como em relação a esta religião não se colocam a escravatura e charia. de cócoras por causa do petróleo e dos dólares do ouro negro.

com o ps no poder desaparecem os problemas dos portugueses.

disse...

E não é que -- coisa rara! -- desta vez concordo consigo?

Anónimo disse...

"Apesar do horrível que existe nisto tudo, não há coincidências."

Tal como tambem não é coincidencia que a grande maioria dos casos de pedofilia na Igreja Católica sejam casos de pedofilia homossexual. Há casos de pedofilia heterossexual mas em numero reduzido.
Tudo isto levanta questões politicamente incorrectas, acerca da adequabilidade dos homossexuais ao exercicio da função celibatária de padre.

vasco disse...

Não questiono a fé (longe de mim questionar a fé), mas não gosto de padres - tal como não gosto de seguradoras.

José Maia disse...

Esta saga Almodovariana é um modo confortável que a frivolidade ocidental encontrou para se redimir dos seus remorsos. Descobrir pedofilia e outros crimes na Igreja é meio caminho andado para as pessoas comuns, que são umas bestas, se livrarem da interpelação incómoda que esta lhes faz. Assim, enquanto houver criminosos entre os "puros" não se anda chocado mas contente.

O anónimo das "questões politicamente incorrectas" faz, a la César das Neves, uma conclusão do particular para o geral. Não se lembra que as instituições da Igreja raras vezes são mistas, já que as meninas estão sempre ao cuidado de religiosas. Experimente-se barrar a entrada de homossexuais ao sacerdócio e aí é que vamos ver o que é falta de vocações. Para os outros há muita "gaja boa" a comer e dinheiro para as levar de férias. Neste contexto, nada pior do que a consciência pacificada de gente "normal".

Anónimo disse...

Excelente 'o como' e o que escreveu. Concordo em absoluto mas não deixo de manifestar a minha estupefacção e indignação pelos ataques ultrajantes seguidos (prèviamente programados e a uma média de três/quatro por ano) à Igreja e ao Papa, sempre com a desculpa semi-encoberta de que só estão a atacar os padres pedófilos. Há muito mais por detrás destes ataques sobretudo ao Papa, mas não só, toda a hierarquia está incluída, que se agudizam a cada dia que passa - isto acontece a nível mundial e simultâneos, não esquecer - do que à primeira vista nos possa parecer. Muitíssimo mais. Esperemos para ver se é ou não assim.
Maria

M.Abrantes disse...

Não me impressionam os ataques à Igreja. O que me impressiona é a frequência com que ela se põe a jeito.

Anónimo disse...

Concordo inteiramente com o que escreveu.
Cumprimentos.
D.O.