21.7.05

A ESCOLHA

Entre duas nulidades pomposas e politicamente débeis - Manuel Pinho e Mário Lino -, e uma criatura séria, mas politicamente desapoiada e imatura - Campos e Cunha-, Sócrates não hesitou. A não ser no Parlamento, nunca vimos o primeiro-ministro "ao lado" do ex-ministro das Finanças. Pelo contrário, quando houve cheiro e anúncios de (falsos) milhões, Sócrates nunca faltou aos espectáculos. O betão e os nababos do "poder" local estão de parabéns. Teixeira dos Santos, que, por mero acaso, estava logo ali à mão de semear, já garantiu a OTA. Por mais que Sócrates e o novo ministro tenham rapidamente "garantido" a continuação do "rigor", não é preciso meter explicador para entender como é que as coisas se vão passar daqui em diante. A retórica opaca de Pinho e Lino serve perfeitamente para os estrados dos comícios autárquicos. O "rigor" rapidamente passará de moda e ninguém vai quer ouvir falar mais de impostos. Campos e Cunha, sobretudo depois do artigo do Público e de uma presença cansada numa Comissão parlamentar, traçou para si próprio um destino bem longe da Praça do Comércio. Nem sei mesmo se se sentia bem acompanhado pelos seus ambiciosos secretários de Estado, gestores cuidadosos de "agendas" próprias e muito bem "pilotadas", tantas vezes à distância. Será curioso verificar quais é que permanecem com Teixeira dos Santos ou quais são os que se "solidarizam" com o primeiro que os escolheu ou aceitou. Voltamos, pois, ao velho problema da credibilidade. Desde há três anos que o país é governado por amadores. O que tem um preço inelutável. Apesar da rapidez com que Sócrates "resolveu" o episódio - uma vez mais dando consistência ao murmúrio de que tudo não passa de uma boa gestão das "questões de forma" -, abre-se inequivocamente um novo e preocupante "ciclo" em apenas cinco meses de nova "situação". O recurso a um "camarada" confiável, como Teixeira dos Santos, independentemente dos seus maravilhosos atributos técnicos e académicos (os jornais da "especialidade" já se babaram), tranquiliza muita gente que não devia sentir-se tranquila. Não julguem Sócrates e o PS que, com a remoção de Campos e Cunha, o "ciclo" eleitoral surge mais animador. Não surge. Os portugueses, mesmo distraídos e em férias, de vez em quando "intervalam" no seu torpor cívico. Campos e Cunha, que não percebia nada de "política", foi sacrificado por ela. Mas não o foi seguramente pela "melhor".


Adenda: Como Campos e Cunha partiu, posso revelar que, em Março, pouco depois da sua posse, pôs-se a hipótese de eu ir integrar o seu gabinete. As pessoas que amavelmente se lembraram de mim (coitadas) devem ter explicado a quem "de direito" quem eu era e o que tinha feito. Como o senhor não me conhecia de lado nenhum, deve ter legitimamente perguntado a quem me conhecia quem eu era. Esses anónimos que eu não sei quem são mas que, pelos vistos, me "conhecem", fizeram chegar a mensagem que eu era demasiado "complicado". Tive pena de nunca ter podido explicar a Campos e Cunha a minha "complicação". Talvez ele perceba agora que, se calhar, a "complicação" já lá estava. E se calhar para lhe sobreviver, como sobrevivem todos os bons e espertos "descomplicados" deste mundo.

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