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13.1.16

A culpa é dele?


 


No início da campanha oficial para a eleição de 24 de Janeiro, fomos surpreendidos pela retirada, por excesso e não por defeito, do PS dessa campanha. Pela primeira vez na história do partido, o secretário-geral do segundo maior partido nacional recomendou aos seus militantes e simpatizantes que apoiassem dois candidatos num sufrágio em que, tipicamente, se escolhe uma única pessoa. Aliás, fora o Bloco, o PC, o MRPP, o Livre (ainda há?) e a reformada Gama da Apre - que foi mais longe e sugeriu pau no jornalista Rodrigues dos Santos por não se ter curvado respeitosamente diante do candidato que ela apoia -, os principais partidos apenas "recomendam" o voto nesta eleição. Mas no caso do PS, mesmo com uma antiga presidente do partido no terreno, António Costa preferiu chamar ao acto as "primárias da Esquerda", como se as legislativas (e a questão governativa) ainda não estivessem encerradas. Ou como se houvesse um átomo de comparação com eleições em que os protagonistas das esquerdas, a democrática e as outras, eram respectivamente Soares, Zenha e Pintasilgo. Mesmo assim, o PS enquanto tal esteve sempre com um dos seus nas eleições presidenciais: quatro vezes com Soares, duas com Sampaio, uma com Alegre e, no processo de transição e de consolidação do regime democrático, com Eanes. Nunca esteve com dois, muito menos com o artificialismo de A. Nóvoa, que emergiu na política nacional pela mão de meia dúzia de "elites", há menos de meia dúzia de anos, e do actual PR, que lhe ofereceu palco retórico num 10 de Junho. Esse candidato, aliás, apresenta-se como o campeão das "causas", com mandatários ridiculamente a brotar por detrás de quarenta sombras, tantas quantas as "causas" que abraça, e de um evangélico "tempo novo" sem a menor substância. Quer estar, como disse no debate com a socialista M. de Belém, em "todos os espaços", o que significa que não compreende a função presidencial, que toma pela gerência de uma imensa colectividade de cultura e recreio. Duvido que, na sua pusilanimidade calculada, o secretário-geral do PS tenha contribuído para atalhar a abstenção, numa disputa débil em que nove pessoas pretextam agitadamente contra uma: Marcelo. Por sinal, a única que recentrou a eleição de 24 de Janeiro nos termos constitucionais, e politicamente adequados, ao sublinhar o papel do próximo chefe de Estado na recuperação plena do modelo semipresidencial tão desbotado pelas últimas práticas. A culpa é dele?


 


Jornal de Notícias de 11.1.2016

15.12.15

O lugar do morto


 


António Costa "fundou" um novo PS. Não se sabe quanto tempo durará mas, para já, é o que há. Ao fazê-lo, e pela forma como o fez, indirectamente acabou com quaisquer vestígios de supremacias alheias sobre a sua pessoa. A brutalidade que aplicou a Seguro serviu-lhe, de caminho, para "dessocratizar" o partido. Integrou como seus os que achou que devia integrar e afastou tentações mitómanas. Por consequência, ele que nunca falou em ter "perdido as eleições" certamente não deve ter apreciado ouvir de outro notório que as perdeu. Mais. Ou que havia uma relação causa-efeito entre esse outro e a dita derrota como alegadamente "pretendia" uma instituição judiciária. Para uns propósitos a instituição judiciária vencera (a derrota do PS), para outros perdera ("o triunfo da vontade" do visado). Este oxímoro desenlaça-se com a acusação a um PS "frouxo" e timorato em solidariedade como se os partidos fossem obras de misericórdia jurídico-política. Mal ou bem Costa é hoje primeiro-ministro. Representa uma instância nacional e não apenas partidária. Não só não deve estar interessado em desenterrar o passado como lhe colocou uma pesada laje em cima. Não se trata do "se queres viver faz-te de morto" mas, antes, "se queres viver ignora o morto". E Costa não é homem para ceder o lugar, mesmo o do morto, a ninguém.

11.12.15

O PS com vergonha da sua história


 


O parlamento aprovou um voto de saudação pela passagem dos quarenta anos do 25 de Novembro de 1975. Não fez mais que a sua obrigação. Sem o 25 de Novembro, ou seja, sem os militares do chamado "grupo dos Nove", sem Costa Gomes (sim, Costa Gomes), sem Mário Soares no plano civil, aquela que é hoje a Assembleia da República teria tido uma "história" bem distinta da que ficou estabelecida. Aliás, os famosos "acordos" de Novembro de 2015, bilateralizados entre o PS, o PC e a extrema-esquerda, só foram possíveis porque houve o 25 de Novembro de 1975. Mesmo assim seis deputados do PS aliaram-se ao PC e à extrema-esquerda contra o voto. O grosso do PS  absteve-se envergonhadamente. O que quer dizer que o PS actual convive mal com o seu lastro social-democrata. E que privilegia temores reverenciais perante outros que jamais os terão por ele. O limite para as "convergências objectivas" devia ser o da literacia democrática. Pelos vistos já não é.


 


Foto: Expresso

5.7.15

A "dramática ilustração"


 


O dr. Costa - que preside à gloriosa agremiação que nos conduziu alegremente até ao resgate da Primavera de 2011- sugeriu, sem se rir, que há que dar graças pela circunstância de haver um PS (o dele) sem o qual seríamos uma outra Grécia. Ou seja, esta seria a "dramática ilustração" de um Portugal desprovido do concurso, salvífico e tonificador, da sua magnífica pessoa. Porquê? Porque o dr. Costa imagina-se a charneira entre aquilo a que apelida delicadamente de "esquerda radical" (cujos votos, aliás, não revela o menor pejo em catar) e a "direita" não menos "radical" que apenas jura pela austeridade. Na realidade, e com estes oxímoros permanentes, o que o dr. Costa anda a fazer ao PS é transformá-lo num caminho de ninguém, sem ideias fortes (más ou boas) ou um desígnio claro por mais curto que seja. Ele é, por consequência, a "dramática ilustração" de tudo o que o país agora menos precisa.

28.6.15

Pelo deserto


 


«Portugal não olhará com muita confiança para um governo de João Galamba, Jorge Lacão e Sónia Fertuzinhos. Claro que António Costa já arranjou com certeza quatro ou cinco dos “sábios”, que lhe andaram a escrever papéis, mas que o público não conhece e em que naturalmente não confia. E o que sobra entre a emigração para o Parlamento Europeu e os “negócios” da crise preferiu ficar de fora. O socialismo não enfraqueceu só politicamente, perdendo pelo mundo inteiro deputados, maiorias, governos, presidências. Pior do que isso, o regresso ao desemprego de massa e o fracasso anunciado do Estado Social transformaram um programa e uma doutrina numa escaramuça de retaguarda em defesa do funcionalismo público (da administração ou de qualquer EP), como se dele dependesse a salvação da humanidade. Hoje, por grande que fosse a indignação com Coelho e Cavaco, ninguém iria escolher essa pífia causa como fim e direcção da sua vida política. Basta ver televisão ou ler os jornais para constatar a distância que separa o cidadão comum do que por aí gritam os “jovens” do partido. António Costa anda por esse país a ser abraçado, mexido, beijocado. Anda sem ninguém: como quem atravessa um deserto.»


Vasco Pulido Valente, Público

21.6.15

Do que a casa gasta


 


«Depois da catástrofe por que passou, o país não quer ser sujeito a uma nova experiência de engenharia financeira ou social, que nada lhe garante que possa emendar (se correr mal) ou parar a tempo (se não lhe convier). A oposição jura pelos planos que nos pretende aplicar. Só que esses planos são vastos demais, pormenorizados demais, dependentes demais de factores que a oposição não controla: e Portugal, embora frustrado e pobre, não precisa de aventuras. O PS talvez consiga ainda alguma gravidade burguesa e juntar à volta de Costa um grupo de indivíduos com um verdadeiro currículo de eficácia e prudência. Como hoje se exibe, nem lhe falta tirar a gravata ou armar um espalhafato por essas televisões. Já se percebeu do que a casa gasta.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

19.6.15

Sem responsabilidade e sem brilho


 


«O PS nunca se distinguiu pela especial competência da gente que o dirigiu e governou o país durante mais de 20 anos. Algumas personagens foram com certeza melhor do que outras, mas nenhuma (tirando Salgado Zenha e José Manuel Medeiros Ferreira) deixou uma obra durável e uma memória presente e calorosa. Mesmo agora, com uma eleição decisiva à porta, o pequeno grupo que rodeia Costa não se recomenda pelo que fez, nem muito menos pelo que diz. Na intimidade presumo que se acha mutuamente uma esperança; em público não passa da cartilha que já repetia no tempo de Seguro, e volta hoje a repetir com Costa, ornamentada por um vaguíssimo calão económico e por meia dúzia de promessas, que o cidadão comum não leva a sério, tanto mais que são aéreas e na sua maior parte hipotéticas. O dr. Costa deu anteontem uma entrevista a este jornal em que, entre chover sobre o molhado e soltar livremente a sua fantasia, resolveu tratar de um problema real: a reforma do Estado. Pondo de lado a crítica sem sentido à coligação, Costa identificou três pontos, dignos do seu particular zelo: o mar, a modernização administrativa e (calculem!) o desenvolvimento e ordenamento regional. Mas, para chegar aos seus fins nestes três pontos cruciais, Costa não inventou melhor do que fabricar três novos ministérios, que permitam “existir um ministro (claro) com a função transversal”, que “articule” e defina as “políticas sectoriais”. Não quero dar um desgosto a este novo salvador da Pátria, só gostava de o informar que desde 1980 que se fala nessa tremenda habilidade; que Sá Carneiro teve um ministério da Reforma Administrativa; e Cavaco um ministério do Mar. Isto só serviu, como é natural, para provocar um prodigioso número de querelas de competências; para aumentar o funcionalismo; e para paralisar o Estado nas matérias em que precisamente se queria que aumentasse a sua putativa eficácia. O que na situação em que estamos não aquece, nem arrefece, mas mostra bem por dentro a cabeça de António Costa: uma cabeça de alto funcionário, dedicada a fortalecer a administração central, a diminuir a força e a autoridade dos privados (que “ganham milhões com o outsourcing”) e, entretanto, a rabiscar organigramas para deleite dos militantes, que lá se tencionam pendurar. O PS um partido moderno? Não, um partido de burocratas sem responsabilidade e sem brilho.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

6.6.15

O apagão


 


O Coliseu, sempre o Coliseu, recebe por estes dias de canícula uma "convenção" do PS. O espectáculo começou com uma guest star - uma estrela cadente vinda do planeta PSD e que imagina que ainda brilha - chamada António Capucho. Parece que, sem se rir, o homem evocou Sá Carneiro e o seu acrisolado afecto à social-democracia que, pelos vistos, terá encarnado em António Costa. Costa está habituado a recolher despojos reutilizáveis a título de idiotas úteis: Sá Fernandes, Helena Roseta e, agora, esta pseudo sumidade. Junta-se-lhes, claro está, António Nóvoa, o emplastro mal amado internamente para as presidenciais que a velha assessoria do Sampaio genuíno (da qual brota o improvável candidato) impôs ao PS. Mas o mais interessante desta "convenção" é o "apagão" que ela representa. É como se o PS tivesse saltado, por artes holográficas, directamente do derradeiro congresso de Sócrates, salvo erro em Matosinhos, para o Coliseu em Lisboa. Com, porém, duas diferenças de peso: o dito Sócrates, ausente por motivos bastamente conspícuos, e António José Seguro que o actual secretário-geral removeu da história do partido na "linha", aliás, de outro secretário-geral de outro conhecido partido da extinta URSS. Fora isso, a "convenção" traduz-se numa apoteose patética do "socratismo" e na negação doentia do "segurismo". Abre-se um canal de televisão e lá está o friso encantador de 2005-2011, desde o organizador das festividades, Correia de Campos, até aos grupinhos "temáticos" onde pululam antigos ministos, secretários de Estado e "criações" deputacionais de Sócrates. As gentes de Seguro são olimpicamente ignoradas como se tal nome jamais tivesse liderado o partido ou, sequer, oferecido dois sucessos eleitorais nacionais sobre a "situação". Como é que Costa quer crescer para o país quando se diminui, e diminui os seus, em casa?

20.5.15

Antecipar o passado


 


O dr. Costa decidiu "antecipar" a apresentação de uma coisa a que chamaram "o programa do PS para as eleições legislativas". O respectivo "gabinete de estudos", presidido pelo dr. Tiago Silveira, encarregou-se do exercício. O dr. Costa andava manifestamente incomodado com o documento que o dr. Centeno, um generoso académico do Banco de Portugal, lhe tinha preparado. E precisava de sobrepor o que quer que fosse a essa papeleta respeitável para sossegar os seus. Surgiu, assim, esta tábua das "21 causas" ("causas" é um termo que cai sempre bem na matilha) que o próprio dr. Costa resumiu eloquentemente: "tem mais despesa mas também tem menos despesa; e tem mais receita mas também tem menos receita". Depois seguiu-se o dr. Silveira para "desenvolver" esta magnífica oferta do PS ao país. A dra. Edite Estrela, por exemplo, estava embevecida. Não era para menos. Acabara de assistir a uma extraordinária antecipação do passado que ela espera que o dr. Costa volte a prodigalizar. Apesar da relativa juventude, o dr. Silveira das "causas" vem directamente desse passado que pessoas como a dra. Estrela pretendem ver redimido e regressado. Há apenas quatro anos era secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. Antes disso tinha passado pela justiça por recomendação do dr. Costa ao então 1º ministro,  engº. Sócrates, o qual, enquanto secretário-geral do PS, também o colocou como porta-voz do partido. Nesta matéria o dr. Costa desilude. Promete, com mais passado, menos futuro.

1.5.15

Degradação


«Meia dúzia de homens de músculo político agarraram na criatura e resolveram enfiar a dita sem grande cerimónia pela goela aberta de um povo miserável e de uma “classe dirigente” sem destino ou vergonha. Claro que os socialistas nunca na vida mostraram o menor escrúpulo em organizar esta espécie de operação. Basta lembrar que o dr. António Costa tomou o partido de assalto com uma grande dose de brutalidade e demagogia, perante a equanimidade e o deleite dos seus queridíssimos camaradas. Agora, a ideia é fazer o mesmo com o país: a tradição ajuda. Soares como Sampaio estão ali para o trabalho sujo. Sampaio com o vácuo de uma cabeça onde nunca entrou nada; Soares com ar rusé, que de quem continua a puxar os fios da intriga. E Manuel Alegre com a sua insofrível jactância e pretensão moral. O candidato, esse, não conta. Cita Sophia de Mello Breyner, “Zeca” Afonso e Sérgio Godinho, e com esta mistura de um lirismo torpe faz declarações sem propósito ou consequência. Promete (imaginem só) não se “resignar” à “destruição do Estado Social”, à pobreza, ao desemprego, à “exclusão” ou à mais leve força que “ponha em causa a dignidade humana”. Como tenciona fazer isto, não confessa. Promete “agir” com “integridade e honradez”, coisa que deve tranquilizar a populaça já com muito pouco para espremer. E promete, para nossa perplexidade e espanto, não assistir “impávido” à “degradação da nossa vida pública”. Não percebe ele que a sua própria candidatura, fabricada por meia dúzia de maiorais do PS, à revelia dos portugueses (que nem o conhecem), é o mais grave e humilhante sinal da “degradação da nossa vida pública”?»


 


Vasco Pulido Valente, Público

24.4.15

Alívio ou desastre?


 


«O PS ficou sozinho no meio das querelas portuguesas, com um arzinho responsável e sabichão, mas terrivelmente desamparado. Quem vai votar por ele? A direita não, por costume e prudência. A esquerda não, porque vê nas contorções de Costa uma segunda “evolução na continuidade”, que não muda o essencial e se finge inovadora e salvífica. O eleitorado, esse, que não sabe interpretar as contas da “comissão” dos sábios do partido, por enquanto não se manifesta (...). O PS, como um bom aluno, um dos melhores da classe, jura agora respeitar os compromissos que Portugal tomou e, principalmente, os credores da sua imensa dívida — com a Europa e os mercados não se brinca. Mas, respeitando a autoridade, não lhe sobra grande espaço para promover o crescimento ou para aliviar a vária miséria dos portugueses. Depois de muito anseio e algumas voltinhas, Costa acabou por engolir a receita tradicional: “aliviar” a crise, prolongando por mais tempo a austeridade. Isto evidentemente não traz, no imediato, um especial alívio ao português comum: e — pior ainda — não garante que o alívio de hoje não seja amanhã o princípio de um novo desastre.»  


 


Vasco Pulido Valente, Público

23.4.15

A "vontade transformadora"


 


Francisco Assis é indiscutivelmente uma forma de vida inteligente no meio da nomenclatura oficiosa do PS, sensivelmente a mesma há décadas. Pensa por si, não é oportunista, tem um módico de biografia que lhe permite ser lido ou escutado com alguma atenção contrariamente a algumas e alguns cristãos-novos partidários velhíssimos em sabujice rasca e videirinha. Todavia é pueril quando fala na "vontade transformadora" do PS. Na realidade, quer para as eleições legislativas, quer para as presidenciais onde já pôs (com complacências várias que a seu tempo se tornarão clarinhas como água) a sua marioneta vaga em exercícios de aquecimento, o PS não pretende "transformar" nada mas, sim, manter  o que for possível manter do regime sem o reformar. Um ou outro rosto novo, uma ou outra "ideia" mais agradável, um ou outro "ajustamento" distinto do "ajustamento" dos outros não fazem exactamente uma primavera. É que faz agora ainda muito pouco tempo que o PS não queria "transformar" nada e tão somente "ficar" por "ficar". Até Teixeira dos Santos se espantou com tamanha lata como recentemente reconheceu numa entrevista à TVI. Costa já informou, com a sua delicadeza habitual, que o documento que encomendou não é a "bíblia". E só corre para ter mais um voto, quer lá saber de "transformações". Quem se se esquecer disto, não entende nada do que se vai seguir.

12.4.15

Igual a si próprio


 


Em inglês, numa entrevista televisiva gravada algures, António Guterres despediu-se das eleições presidenciais de 2016. Em todo este equívoco acabou por não estar à altura do que esperavam dele: no PS e, pelos vistos, no país. Permitiu que a nomenclatura "costista" andasse ainda mais torturada e baralhada do que já andava. E ignorou olimpicamente os "sinais" das sondagens que o davam como imbatível. Escolheu, e é um direito seu, uma outra vida fora de uma política doméstica cada vez mais mediocratizada. Nunca seria, claro, um bom batalhador por uma nova República. Mas, dentro do enquistamento sistémico em vigor, ainda era apresentável. Entretanto foi a Évora imagino que, para além da parte privada da coisa, em missão. Alguém precisava dizer duas ou três coisas a Sócrates com um módico de autoridade. Desde logo que as procissões "socráticas" de alguns dos agora, de novo, dirigentes do PS não ajudam Costa. Sobretudo não ajuda não estarem calados. Depois é preciso que a "politização" do processo judicial, por tabela, não acabe por prejudicar o mesmo Costa. Finalmente é preciso convencer Sócrates e os "dele" que, se calhar, o PS terá de apoiar alguém para Belém que "omita" o antigo líder. Mesmo sem ser candidato a candidato, Guterres foi igual a si próprio.

6.4.15

Um gesto pequenino


 


Leio que o dr. Costa, candidato a 1º ministro em full time, recusou o nome do eng. João Proença, ex-secretário-geral da UGT e seu camarada de partido, para substituir Silva Peneda na presidência do Conselho Económico e Social. A ele prefere Vítor Ramalho - um velho cortesão soarista, embotado e tão "consensual" como uma lapa grelhada - porque é "dele". Proença cometeu o pecado original de ter sido fiel a Seguro e isso, neste PS de 2005-2011 corrigido e aumentado, é imperdoável. Para quem quer "crescer" para o país, este gesto pequenino do dr. Costa não está mal.

3.4.15

Uma falácia


 


«O menos que se pode dizer da operação que levou António Costa a secretário-geral do PS e a candidato a primeiro-ministro é que não foi “elegante”. Nessa altura, muita gente desculpou ou justificou a grosseria e a brutalidade da coisa, porque esperava de António Costa uma nova oposição ao governo lúcida e compreensível e, sobretudo, com princípio, meio e fim. A discrição e as meias-frases na Quadratura do Círculo davam a impressão de esconder um pensamento sólido e um plano político original, que nos tirasse do lugar-comum e da pura irrelevância do debate instituído. Infelizmente, não aconteceu nada disso. Nem nos rituais do Congresso Socialista, nem a seguir em meia dúzia de entrevistas de uma “prudência” claramente exagerada e de uma ambiguidade extrema, António Costa saiu da mastigação das velhas lamúrias da esquerda e da extrema-esquerda. Esperança não trouxe nenhuma; e extinguiu depressa o entusiasmo das “primárias” do PS, em que não se sabe ao certo quem votou. Apareceu então um putativo salvador que se calava ou, quando se mexia, era como se andasse a pisar ovos. O que, de resto, não o salvou de erros sem desculpa. Prometeu baixar o IVA da restauração para 13% (como se os 23% não tivessem também o objectivo de melhorar a qualidade dos serviços prestados); prometeu a “reposição total” dos salários (do Estado, claro) e das pensões, sem explicar onde iria buscar o dinheiro para essa extravagância; prometeu que os municípios passariam a reter uma indeterminada percentagem do IVA, gerado localmente; e prometeu um “programa nacional” de “requalificação urbana”, aparentemente financiado pela “Europa”. Ora isto por um lado é muito, e por outro lado muito pouco. Meia dúzia de medidas não faz um plano estratégico; e um plano estratégico precisa de uma inspiração unificadora, capaz de ser adoptada e compreendida pelo cidadão comum.  Mas, para nossa desgraça, António Costa, talvez por falta de inspiração própria, não mostrou até agora capacidade para inspirar ninguém. No governo foi um razoável ministro; na câmara um administrador sofrível; e no partido um ambicioso hábil. O que não chega para um país sem futuro certo ou destino visível. Tropeçando de papel em papel e de comissão em comissão, António Costa vai fatalmente desaparecer, já desapareceu, no cansaço e no desespero dos portugueses.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

15.3.15

As coisas são o que são


 


«António Costa deu uma entrevista à televisão que veio confirmar o pior sobre a vacuidade e as fantasias do Partido Socialista (...). O que separa Costa de Passos Coelho é simplesmente a questão da política de desenvolvimento, em que as duas partes se iludem com o mesmo fervor e se perdem na mesma irrelevância. Tirando a má-fé, a que por situação e profissão em geral não escapam, acabam ambas num vácuo, que meia dúzia de tecnocratas se esforçam por disfarçar com uma conversa esotérica para iniciados. Ainda por cima, a “zona euro”, como já abundantemente se provou, favorece os fortes e conserva os fracos na usual miséria. Paul Krugman, de que a esquerda tanto gosta, ganhou um prémio Nobel por explicar essa evidência. Na Europa de hoje, Portugal, como o sul de Itália (o antiquíssimo Mezzogiorno), será perpetuamente uma região esfolada e desprezada, sem esperança de regeneração. Não admira por isso que, na ausência de uma clara concepção do Estado e do seu papel e de uma clara visão do estatuto e possibilidades de Portugal na Europa, António Costa reverta a ilusões, sem fundamento nem desculpa (...). Ainda julga que irá negociar o nosso desastroso estatuto. Mas ninguém irá negociar com ele. As coisas são o que são; e faz pena assistir ao naufrágio de um homem em quem os portugueses passageiramente confiaram.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


Foto: Ephemera

8.2.15

Fazer de conta


 


À semelhança de Franco e Salazar, Costa e o seu homólogo espanhol encontraram-se em Badajoz. E Costa, tal qual Seguro, vai ao rendez-vous socialista paralelo ao Conselho Europeu da próxima semana onde não abundam primeiros-ministros socialistas. Tudo isto faz parte de uma "estratégia" conhecida no mundo profano por "fazer de conta". Desde que ganhou o PS, Costa anda a fazer de conta que tem uma "alternativa" e que, além disso, é a "alternativa" e que tem "ideias" evidentemente melhores, claras e distintas, das da coligação governamental.  Este cartesianismo partidário é quase tão recomendável como o do seu pai filosófico: pouco. Costa não é uma alternativa ao "arco da governação", nem sozinho nem acompanhado. É uma peça da mobília como outra qualquer, com os mesmos defeitos e virtudes, apenas disponível para esperar praticamente sentado que o poder - mesmo o relativo e bem longe das megalomanias de Maio de 2014 - lhe caia em cima da mesa. Tem sido essa, aliás, a "ambição" de todos os que o antecederam no referido "arco" desde pelo menos este milénio. O que, mais tarde ou mais cedo, os acaba por revelar.

30.1.15

Um erro


 


O dr. Costa mal apeou o dr. Seguro, substituiu a liderança parlamentar do PS por Ferro Rodrigues. O antigo secretário-geral é uma sombra daquilo que representou, mal ou bem, no princípio da década. Obteve um resultado honroso, depois de Guterres, contra Barroso e ganhou-lhe umas europeias. Zangou-se com Sampaio e bateu galhardamente com a porta. Com a emergência de Sócrates, Ferro voou até Paris onde foi um apagadíssimo embaixador na OCDE. Com a queda do "socratismo" regressou a deputado e a vice-presidente do parlamento. Não se distinguiu especialmente a não ser na intendência partidária ao ser dos primeiros a declarar o seu acrisolado apoio a Costa contra Seguro. Costa devolveu a gentileza oferecendo-lhe um lugar que já tinha sido seu quando Ferro mandava no partido. Acontece que o tempo, esse cruel escultor, é impiedoso. A "imagem" do ersatz do secretário-geral do PS na AR é a de um homem fatigado que lê umas fichas, sob a forma de discursos, sem rasgo, entusiasmo ou convicção. É evidente que a "sorte" do PS me é indiferente. Mas ao próprio PS não deveria ser uma vez que aspira o poder daqui a uns meses. Se ainda não perceberam que a escolha de Ferro para líder parlamentar foi um erro, arranjem quem lhes explique porquê,

3.10.14

«Quem é ele?»


«O país não o conhece. Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, era um brilhantíssimo aluno na Faculdade de Direito. Depois trabalhou no escritório de advogados de Jorge Sampaio, Vera Jardim e Júlio Castro Caldas. E a seguir (suponho) na Assembleia da República. O que não o distingue dos milhares de indivíduos da classe média e da idade dele que tentaram a mesma carreira. Esta bagagem típica e ligeira mostra só a superfície do homem. Para falar francamente, e tirando o seu desatinado amor pelo PS, não há maneira de apurar o que ele pensa: sobre a situação da Europa e do mundo, sobre a farsa da reforma do Estado, sobre a dívida e o défice, sobre a educação e a saúde, sobre a Segurança Social e por aí fora. Por mim, e sem maldade, desconfio que muito bom português votou num buraco. Seja como for, António Costa talvez se pudesse revelar (e é de uma revelação que no fundo se trata) através da gente que goza da reputação (neste momento invejável) de o ajudar e aconselhar. Acontece que os jornais trazem umas dezenas de nomes, mas nem um único tem uma reputação nacional e, com meia dúzia de excepções, quase todos seguiram a via-sacra, que o próprio Costa no seu tempo seguiu: partido, adjunto (ou assessor), uma freguesia qualquer, uma ignota secretaria de Estado e expedientes do estilo, perfeitos para provar a “fidelidade” ao “chefe” e para o servir. As “primárias” substituíram o deserto que rodeava Seguro por outro deserto, que não animará o país daqui a três meses.»


Vasco Pulido Valente, Público

28.9.14

Back to basics

Pouco depois das vinte horas, na RTP, o primeiro socialista a celebrar a anunciada vitória de A. Costa nas "primárias" do PS foi José Sócrates, antecipando-se ao putativo vencedor. Assim sendo, é o regresso de um "clássico" - que nunca deixou de estar presente - ao "clássico" da política portuguesa das últimas décadas: supremacia de um "sistema" que é transversal a todo o regime, nas suas manifestações políticas, económicas, sociais, culturais e, sobretudo, comunicacionais para seguir os termos canónicos. Não faço a menor ideia, nem me interessa, aliás, como é que A. Costa vai conviver com o "sistema" interno e externo que o apoiou e que não deixará de reclamar oportunamente os seus direitos. Mas é disso, sobretudo, que vai depender ele "crescer" dos militantes e dos simpatizantes para o país e obter, não a maioria absoluta (nem ele nem ninguém lá vai), mas a proeminência da praxe para mandar nisto. Lamento que uma pessoa decente e séria como o António José Seguro - mais uma - saia de cena. Mas, como Jorge de Sena pergunta na epígrafe deste blogue, «se as pessoas têm a vocação de criado, se as pessoas têm a vocação de escriba, por que é que não hão-de ser criados e não hão-de ser escribas?»


 


Adenda: Escrevi isto antes do A. J. Seguro falar. Digno e sério, como referi, foi embora sem mais. Fez bem. A "mesmice" aos mesmos rapidamente e em força.