Quase no fim de um ano sem interesse algum, recomendo a leitura da entrevista de Jonathan Littell no suplemento Ípsilon do Público (sem link, se alguém o tiver...). "Esses valores em que vivemos, do consumismo, do ganhar dinheiro, não são nada. A nossa sociedade desliza pela memória que lhe resta de ter feito parte dos bons. Vive dos restos."
5 comentários:
... o FUTURO é um PUZZLE cujas PEÇAS se vão adquirindo, DIA após DIA ...
... que as PEÇAS do ANO 2008 tragam a CHAVE de muitos ENIGMAS ...
... EXCELENTE 2008 ...
Leitura obrigatória para os "TUBARÕES" , os "BANQUEIROS" e os "POLÍTICOS" deste estranho país.
Leitura obrigatória ao levantar e ao deitar, antes das orações ao senhor dos Aflitos, padroeiro do povo.
O livro desse Littell é intragável. Mas o lobby a que ele pertence tem muito poder. Beurk!
Link não há, é uma zona reservada a pagantes.
Vai aí a entrevista que editará como melhor entender.
Poderíamos descrevê-lo como um renegado.
Como assim?
Renegado pode aplicar-se a uma pessoa que se recusa a escrever na sua língua materna, por exemplo.
Bom, o francês é também como se o fosse. Foi cá que estudei.
Quer dizer que é bilingue desde criança.
Sim, sim.
Mas elegeu o francês como idioma de expressão literária e isso significa alguma coisa. Por que é que o fez?
Sei lá. Porque gosto, é a única explicação que consigo dar-lhe.
Gosta ou é um compromisso estético?
Bem, tenho uma relação especial com a tradição literária francesa, mas com a norte-americana também. Um dos meus escritores preferidos é Herman Melville. Não é uma coisa exclusiva. Também domino bem o russo, mas nunca escreverei em russo.
Por que é que escreveu um romance sobre o nazismo, quando é um tema em que já tanto se insistiu?
Ainda bem que se escreveu muito sobre esse tema. Mas isso não significa que se tenha já respondido a todas as perguntas. Em "As Benevolentes" o tema é o carrasco, o assassino, sobre o que também já muito se escreveu, mas quero abordá-lo de um ponto de vista diferente, de uma outra perspectiva. E a questão continua sem respostas adequadas. Fascina-me o tema do carrasco em geral, e mais ainda no mundo nazi, onde se pode estudar a fundo, porque há muito material, documentos, uns à disposição dos alemães, outros que estavam na mão dos soviéticos... Foi por isso que situei o meu romance nesse período. Não queria centrá-lo numa época actual, mais contemporânea. Podia tê-lo feito, mas...
Além disso, entra também verdadeiramente em profundidade, na cruzada russa, que, de tudo o que a história da humanidade conheceu, é o mais parecido com o Apocalipse.
Certo. O que constituiu o âmago da guerra ocorreu no Leste. Eu, que cresci em França, sei que se deu muita importância à ocupação, à Resistência, etc., mas isso pouco mais foi do que um episódio comparado com o confronto entre soviéticos e alemães. Foi isso a essência da guerra.
Todavia, para o romance, a Rússia cumpre o papel de cenário, também porque é lá que se desenrola a acção, mas serve para abordar o que foi inteiramente um fenómeno como o nazismo.
Era esse o objectivo. Não sei se o consegui ou não, mas tentei.
Uma das coisas mais marcantes no livro é que a filosofia, a ideologia nazi, a sua maneira de conceber o mundo assentava em bases culturais muito fortes. O protagonista da história, Max, prova isso mesmo.
Alguns historiadores estarão seguramente em desacordo com isso.
Sim, mas mais consigo, que o analisa perfeitamente no seu livro.
Sim, fui criticado precisamente por isso.
Claro que as conclusões a que chegaram foram cruéis, mas as bases eram muito fortes.
É você que o diz, o que é que posso acrescentar? Não me compete comentar o resultado. Existem muitas opiniões. Eu tenho a minha, mas.... Não vou ser eu a julgar. Tentei, logo desde o início, penetrar nas bases da sua ideologia, li imensas coisas sobre essa matéria, mas obviamente que não li tudo, e não li em alemão. Por exemplo, fui incapaz de acabar de ler "Mein Kampf" ("A Minha Luta"). Creio que compreendo o sentido de muitos dos aspectos da sua ideologia, mas há muitos outros que não conheço. Os mais emocionais são os que me parecem mais estranhos, por exemplo.
Sim, mas essa abordagem surpreende, parece muito inovadora e ousada para um romance.
Desde muito jovem recordo que parecia ser ponto assente que o comunismo foi uma ideologia mais séria do que o fascismo; que tinha a sua própria racionalidade e sentido interno e ninguém levava os nazis muito a sério. Quando comecei a investigar, apercebi-me de que os seus ideais também se baseavam em raízes sólidas. As suas diferenças em relação ao fascismo, o pensamento económico, tudo isso é bas
Intragável 'AS Benovolentes', Vitor? Para mim foi o melhor livro que li nos últimos tempos.
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