O quinquénio do "11 de Setembro" tem sido pretexto para muitas coisas. Escrevo sem ter lido um único texto sobre o assunto e apenas com algumas imagens de televisão que apanhei por acaso (estive a banhos). Aliás, logo de manhã, fiquei imediatamente elucidado. Duas aventesmas que alimentam um dos inenarráveis "programas da manhã" das televisões generalistas, esclareceram logo o propósito. "Vamos falar do dia que mudou para sempre as nossas vidas", disse a dupla risonha. Pode ser que me engane, mas fiquei com a ideia de que continuam tão idiotas como eram há cinco, seis ou quinze anos. Não mudaram nada. Houve - e, pelos vistos, continua a haver - documentários, ficções e depoimentos para todos os gostos. De vez em quando emerge aquela irritante e inevitável pergunta "onde é que você estava quando...". Escutei o depoimento de Maria Filomena Mónica à RTP, a qual também não escapou ao cliché do "onde é que estavas". Todavia, e no fundamental, estou de acordo com ela. O "11 de Setembro" resolveu por instantes um problema de existência política ao até aí inexistente e praticamente asnático George W. Bush. Daí em diante, começou o delírio sobre os cadáveres de quase três mil pessoas. Meses depois, sem conseguirem dar conta do recado - a Al Qaeda e respectivas acólitos -, Bush e o seus fiéis aliados europeus - onde, pelo meio, apareceu para oferecer sala e café, o dr. Barroso - irromperam pelo Iraque na esperança de extirparem o terrorismo, a partir de Badgade, e, subsequentemente, construirem lá uma subtil "democracia ocidental". Os talibãs do Afeganistão também foram devidamente sovados e corridos do poder, se bem que as misteriosas montanhas onde se albergam os líderes da Al Qaeda persistam indemnes. Num caso e no outro, o resultado está vista. Ainda há umas semanas, esse "baluarte ocidental" que é Israel, sofreu uma humilhação no Líbano, depois de o ter metodicamente destruído, sem que o exercício tivesse beliscado, no fundamental, o Hezbollah, um putativo "filho" da Síria e do Irão. Tudo somado, e a não ser para lembrar os mortos, o "11 de Setembro" não merece sequer um toque de corneta. O terrorismo internacional, que supostamente teve ali o seu "acmé", continua, neste momento, relativamente próspero. Todas as lágrimas muito honestamente derramadas pelo colapso, em directo, do World Trade Center, não explicam tudo. Quando Clinton deixou a Casa Branca, não podia imaginar - nem nós- o que ia representar W. Bush para o mundo. O "ocidente", por causa das borradas dele e dos seus aliados, com Blair à cabeça, vive permanentemente no pânico de ser atacado e viu o que de melhor constitui o seu património - as liberdades, os direitos e as garantias - substituído pela paranóia securitária mais absurda. Enquanto andaram - e andam - entretidos com o Iraque, houve Madrid, Londres, a Indonésia e outros. Enquanto andaram - e andam - entretidos com o Iraque, o Irão tratou da sua vidinha. Não vale a pena ir mais longe. O "11 de Setembro", tendo sido um horror, nem por isso pode deixar de ponderar-se onde é que esse horror terminou - para milhares de pessoas terminou nesse dia - e o embuste começou. Por tudo isto, penso que é muito cedo para se apresentarem verdades definitivas sobre o que realmente aconteceu naquele dia onde toda a gente estava forçosamente nalgum lado. Como George W. Bush - numa escolinha a ler histórias de encantar às crianças e, depois, pelos ares dos EUA, como uma barata tonta, sem saber onde aterrar - também. Mais do que o dia, vale a pena atentar nas consequências devastadoras desse dia. E tentar perceber, no jogo de enganos e de lágrimas de crocodilo que é a "vida internacional", o que é que aconteceu, sem demagogias melodramáticas e inúteis.
12 comentários:
Um presidente com cara de G...
Kaput.
Z
O melhor post que já li nos últimos meses.
Em completa sintonia.
uma verdadeira surpresa a qualidade do texto!
«O "ocidente", por causa das borradas dele e dos seus aliados, com Blair à cabeça, vive permanentemente no pânico de ser atacado»
Em que mundo é que você vive? Só falta dizer que o 11/9 foi causado pelo Afeganistão e pelo Iraque...
«E tentar perceber [...] o que é que aconteceu, sem demagogias melodramáticas e inúteis»
Bem prega Frei Tomás...
Grande regresso! Abraço.
RECORDEM-SE DAS VÍTIMAS
WTC
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Não há pior cego do aquele que não quer ver. Os americanos cometem erros, não são infalíveis, reagem tarde de mais... sim, tudo isso será porventura verdade! Mas, nas horas amargas, quando a Europa se aflige, logo se lembra do seu eterno aliado americano. É assim, a vida dos visionários "intelectuais" europeus. Os americanos erram na acção, procurando eliminar ou minorar as ameaças terroristas. Os europeus (à excepção da Grã-Bretanha) "não erram", porque se limitam, passivamente, a criticar. É tão fácil criticar sem dar o corpo ao manifesto! Os atentados acontecem na Europa e a culpa é dos americanos. Os atentados acontecem na Indonésia, no Egipto,… , e a culpa não é dos terroristas, é dos americanos. Cretinos, esses americanos, que não têm uma estratégia eficaz para defender o mundo e, em especial, para defender a Europa. Este é o nosso discurso até que uma bomba nos caia em cima da tola. E, mesmo assim, o discurso europeu não há-de mudar, pelo simples facto de que, nessa altura, já não haverá lugar a discursos mas a acções. Espero que não seja tarde de mais, nessa altura…
Para o "negacionistas" obcessivos lerem e chorarem por mais...
12 Setembro, 2006
||| Prós.
Se acham que foram os americanos a mandar os aviões contra o WTC, eu acho bem. É preciso que assentemos numa verdade. Se acham que cada um de nós tem culpa dos crimes do fundamentalismo e anda a humilhar o Oriente e o Magrebe, transformemos isso numa verdade inquestionável (basta ouvir os noticiários). Paguemos a Kadhafi, como ele exige, para evitar que a emigração do outro lado do Mediterrâneo chegue às praias de Espanha e de Itália (chantagem por chantagem, o melhor é pagar ao chantagista directamente em vez de votarmos depois de fazerem explodir Atocha). Consideremos que o uso da burka e a excisão feminina são apenas questões de natureza cultural e que, no fundo, são reacções contra a arrogância ocidental e as pernas de Mary Quant, essa vaca imoral. Claro que estamos de acordo em que o Ocidente tem falta de Deus e que Maomé tem lições a dar-nos, ele e os outros profetas de vária procedência; o criacionismo integrista está aí para nos salvar. Vigiemos os caricaturistas, vigiemo-los bem. Claro que andamos a irritar o mundo das mesquitas fundamentalistas; aceitemos, portanto, a bondade de nova fatwa contra Rushdie e, mesmo agora, contra Mahfouz. Eles têm razão quando escrevem, nos cartazes, «Freedom Go to Hell» ou «I love Al Qaeda»; temos de ser compreensivos. Aliás, ainda não está provado que a Al Qaeda exista. Bin Laden não é apenas uma invenção americana: é um Zorro libertador das massas, um produto de Hollywood; o verdadeiro Bin Laden é um canadiano da Guarda Montada que se limita a pedir a proibição dos Simpsons, o resto é invenção. Claro que o fundamentalismo muçulmano é compreensível (está longe). Os israelitas são ensinados nas escolas a matarem crianças árabes, como toda a gente sabe, basta ler os Protocolos dos Sábios de Sião, que é (ao contrário do que diz a propaganda sionista) um documento histórico; por isso é que eles precisam da sua dose diária de sangue; aliás, muitos deles não vieram do centro da Europa e daquelas terras do Drácula? Qual é o mal de o pessoal de Finsbury Park pregar contra a democracia inglesa e pedir bombas no metro de Londres? Nós não pregamos contra as tiranias do Médio Oriente? A ideia de que o Califado deve ser restabelecido, para cá do Guadalquivir, até ao Mondego e à Faculdade de Economia de Coimbra, não está senão justificada pela história. O Ocidente, como aliás diz Ratzinger, está minado pela falta de Deus e pela presença do Satã laico e racionalista; por isso, é necessário sermos compreensíveis para com os sentimentos religiosos que autorizam o apedrejamento de apóstatas, a lapidação de mulheres, adúlteros e homossexuais ou a mutilação de infiéis; é o regresso da religião. Mesmo que o Irão, o Hamas e o Hezbollah, mais a Irmandade Muçulmana afirmem que um dos seus objectivos é a eliminação do estado de Israel, quem somos nós para defender o desarmamento do Hezbollah? Os americanos são bo
Se eu fosse iraquiano:
queria uma parede,um muro com os nomes das vítimas da invasão pelos americanos.
Da 2ª guerra USA/Iraque.
Independentemente de, neste Blogue já ter "lido" MAGNÍFICOS Posts, este, de facto, não deixa de não ser BRILHANTE e EXCELENTE
«Oxalá» assim continue ...
Excelente post! Meus parabéns.
Toda esta celebração macabra, concertada e insistente do 11 de Setembro tem, obviamente, um objectivo. Não acontece por acaso...
Já agora: outra das consequências da desastrosa política do Bush é o preço que TODOS NÓS estamos a pagar pela gasolina...
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