2.3.16

Aníbal Cavaco Silva - 1


 


A semana e meia de deixar o Palácio de Belém, e numa altura em que "parece bem" ignorá-lo ou diminui-lo, entendo que devo a mim mesmo umas palavras sobre Aníbal Cavaco Silva. Quando foi ministro das Finanças e do Plano de Sá Carneiro, as suas funções não me entusiasmavam especialmente. Aos 20 anos interessava-me a política pura e dura e a ruptura democrática introduzida pela AD de 1979 que os Reformadores, onde eu estava, apoiaram. Cavaco só entrou na minha paisagem quando tomou conta do PSD na Primavera de 1985. Não ignorava as suas desconfianças públicas e partidárias relativamente a Balsemão que, naquele ano, se sublimaram sobretudo através da "corrente" lisboeta Nova Esperança (de Marcelo, S. Lopes, D. Barroso, J. M. Júdice e, imagine-se, Helena Roseta) que desaguou no célebre congresso da Figueira da Foz. O PSD dessa altura seguia Mário Soares no Bloco Central e Cavaco vinha para desfazer esse "consenso" mole e impor uma agenda própria nas presidenciais. Ganhou a primeira parte e perdeu a segunda, o que, paradoxalmente, ajudou a criar o lastro para a sua primeira maioria absoluta. Depois da Figueira, Cavaco emergiu com uma autoridade indisputável sobre o partido. E o poder democrático foi determinante para afirmar por dez anos a sua autoridade no país a que sempre se dirigiu sem intermediários e em nome, cito-o, de uma "imagem de competência, rigor e determinação". Cavaco passou a definir os "consensos": não eram os "consensos" que o definiam. As "elites" dividiram-se sempre entre as que fingiam tolerá-lo e as que lhe devotavam uma espécie de temor reverencial. A "burguesia" democrática, educada no republicanismo torpe da 1.ª República e no "antifascismo" de salão ou de rua, nunca o suportou. Aos "próximos" nunca permitiu uma proximidade que ultrapassasse a sua estrita necessidade deles. Aliás, quando, em Janeiro de 1995, quebrou um famoso "tabu" estava farto deles. Cavaco aprendera a ser um dirigente político capaz que transformara a timidez natural em força e intimidação. Em suma, mandava e o país apreciava que ele mandasse. Até nas presidenciais em que Sampaio ficou presidente, Cavaco obteve um resultado que, fosse outra a eleição, lhe garantiria uma terceira maioria absoluta. Esperou então dez anos, paciente e metodicamente, pela próxima. Qual foi o "segredo"? Parafraseando V. Pulido Valente, Cavaco sempre soube o que quis enquanto os seus inimigos e adversários apenas sabiam que não queriam Cavaco. Nunca chegou.


 


Jornal de Notícias, 29.2.2016

23.2.16

Ao lado de Carrilho

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Tenho evitado escrever sobre coisas que não me dizem respeito. Ou melhor, sobre coisas que não me dizem respeito mas que envolvem uma pessoa que respeito. Enquanto Manuel Maria Carrilho desempenhou funções governamentais, entre 1995 e 2000, acompanhei de longe a sua actividade. Nessa altura ainda era do PSD e desagradava-me profundamente a forma altiva como o ministro, em intervenções públicas, criticava o então presidente do partido, Marcelo Rebelo de Sousa. Todavia percebi que a "aliança" subtil entre dois homens cultos e perspicazes (Carrilho e Sousa Franco nas finanças) estava a mudar a relação da cultura "institucionalizada", através de um ministério e dos seus equipamentos, com a sociedade e vice-versa. Carrilho sabia mais dos orçamentos desses equipamentos e da sua gestão do que a maior parte dos seus directores-gerais. Dei bem por isso quando, menos de dois anos após a sua demissão, fui para a direcção do São Carlos. Passei, pois, a ler Carrilho retrospectivamente e a escutá-lo com outra atenção. Apoiei-o na malograda candidatura à Câmara de Lisboa de 2005. Depois disso, já Carrilho era vice-presidente da bancada do PS no parlamento, ficámos amigos. Não é no entanto por essa circunstância, a da amizade, mas apesar dela que o acompanho nestas suas considerações. Manuel Maria Carrilho é um homem frontal, claro, bem preparado, defensor do interesse público, conhecedor, pela sua formação, das implicações sociais, culturais e mediáticas do Direito, sem tribos nem donos. Ora isso num país em que a deliquescência, o lambe-botismo, a moleza, o comadrio cúmplice e a estupidez "por simpatia" forjam as regras de jogo, torna-o insuportável para os "costumes" e respectivos beatos e beatas. Carrilho foi sempre um dos alvos preferidos dessa má-fé em parte por ser como é. Sou brutal com os meus amigos, sobretudo os mais íntimos, o que me tem valido uma larga debandada de interlocutores que só apreciam festas, favores e pancadinhas nas costas. Nessa brutalidade incluo o cuidado em não os deixar cair quando acredito firmemente neles. O meu lado é, como deve ser, ao lado de Carrilho.

Acabou a festa


 


Passados quase três meses sobre a entrada em funções do "Governo de iniciativa do PS" ou, na versão épica do PC, "patriótico e de esquerda", o Parlamento começa finalmente a discutir o orçamento para o ano em curso. As papeletas que vão ser apreciadas já não são as originais. Depois de Bruxelas, do Conselho Económico e Social, da Unidade Técnica de Apoio Orçamental, apareceu uma "errata" substantiva (e não apenas com vírgulas e pontos finais) que as mudou. Mesmo o "binómio papeletas-errata" conhecerá modificações até ao derradeiro instante. Um orçamento é uma previsão financeira e económica que, por natureza, é sobretudo um documento político. Se uma maioria "estável e coerente" tem sempre dificuldades em fazer entrar em vigor no dia 1 de Janeiro uma previsão "estabilizada" (os orçamentos estão inapelavelmente "desactualizados" quando entram em vigor), como é que uma maioria "instável e incoerente" pode dar sossego aos seus concidadãos, e aos vigilantes externos, com as "exigências" ideológicas do PC e da extrema-esquerda? Mesmo assim, vai ser este desconchavo parlamentar a aprovar este orçamento "rectificado antes de o ser". Até agora, tinha sido mais ou menos um festim nu com muitas palmas e comoções palermas. Derrubar Passos, ignorar o maior grupo de deputados, aprovar legislação "correctíssima", humilhar Cavaco, mostrar em suma a "força" do segundo governo deste primeiro-ministro e que é liderado no hemiciclo de São Bento pelas mocinhas do Bloco. Daqui para diante, a conversa será outra. A "novidade" é, por um lado, o compromisso do PC e da extrema-esquerda com um austeritarismo corrigido e, nalguns aspectos mais subtis, aumentado. E, por outro, o do PS com declarados adversários da "moderação" que, de uma forma geral, junta socialistas e sociais-democratas europeus aos seus congéneres das direitas, governativas ou não. A questão fundamental não é a opção política do PS pelas suas esquerdas com a bênção, entre outros, de algum bispado ortodoxo de outras bandas como o soturno dr. Pacheco Pereira. O problema é que esta opção não passou pelo crivo eleitoral como, por exemplo, Tsipras passou duas vezes com um referendo pelo meio. Costa entrou pela secretaria e tem de tratar de tudo na secretaria com os seus parceiros, antes de aparecer com "soluções" diante do povo ou em Bruxelas. Todavia, há que respeitar esta brilhante opção e tirar dela todas as consequências políticas. A primeira das quais, quanto ao PSD e ao CDS, é votar contra o orçamento.


 


Jornal de Notícias, 22.2.2016

2.2.16

O negociador


 


Até aqui não se pode afirmar que Costa não tivesse tido sucesso nas negociações internas. Apesar da soberba peralvilha das raparigas do Bloco e  do compromisso "patriótico e de esquerda" do PC, a verdade é que o governo em funções é aquele que Costa quis, as pessoas que ele quis e os lugares dependentes do governo para as pessoas que o PS quer. Nem mais nem menos. Para recorrer a linguagem da história diplomática, Costa garantiu a sua soberania na ordem interna. Falta-lhe agora demonstrar que também a assegura na ordem externa sem beliscar a que decorre dos papéis assinados à sua esquerda. O embate das propostas orçamentais com Bruxelas serve parta testar as capacidades negociadoras, ou seja, políticas de Costa com os donos do Tratado Orçamental. Não creio que seja útil para o país - independentemente de se criticar o exercício e, mesmo, de o rejeitar na altura adequada no parlamento - aplaudir de fora para dentro, ou de dentro para fora, a "Europa" contra o governo. Uma coisa é deixar Costa e os seus aliados, como aliás ele reclamou, sozinhos defenderem a sua dama. Outra bem diferente é dizer mal da dama diante de terceiros. O palco é todo do negociador.

27.1.16

Centenário de Vergílio Ferreira


 


 


Na próxima quinta-feira, dia 28, completam-se cem anos sobre o nascimento de Vergílio Ferreira. Não sou dado a comemorações literárias, ou outras, mas no panorama frouxo da chamada literatura portuguesa contemporânea não é possível ignorar a altura do autor de "Manhã submersa". Vergílio Ferreira desceu de Melo, em Gouveia, para a cidade e, contrariamente ao venerado Torga, tornou-se num dos escritores mais cosmopolitas do século passado. Passou rapidamente pelo neo-realismo - "Vagão J", por exemplo - do qual se separou com a firmeza e a substância intelectuais que o caracterizavam. Polemizou - uma coisa de que a literatice descendente e superficial abdicou até por confundir isso com mais ou menos colunas analfabetas e amiguistas nos jornais - contra o domínio cultural "neo-realeiro" nos anos de chumbo das oposições e da "situação" salazarista. Polemizou a seguir com a "modernidade" modista sem nunca perder o pé no tempo até porque tinha uma formação filosófica iconoclasta, muito superior a muitos de papel passado como "ensaístas" e "filósofos". A sua obra é variada e não julgo que se possa afirmar que, nele, o "romance" seja superior ao ensaio ou ao diarismo e vice-versa. À semelhança de Jorge de Sena, é porventura dos mais completos e complexos intelectuais portugueses. Ninguém, com dois dedos de testa, pode ficar indiferente a uma página de Vergílio Ferreira independentemente do modo escolhido por ele para a escrever. Pelo contrário, é indiferente ler qualquer página de muita produção dita literária actual por ser tão mediocremente indistinta. Aliás, ele costumava dizer que não era tão dado a enredos quanto ao "ambiente" que poderia entrever-se da forma "romance" ou outra. O que se percebe lendo "Aparição", "Nítido nulo", "Para sempre", "Carta ao futuro" (onde se encontra a mais forte redescrição literária da cidade de Évora), as apresentações de Malraux, Sartre e Foucault e os primeiros três ou quatro volumes da "Conta-corrente", a melhor súmula ironista da "obra completa". Como dizia a mulher Regina, tinha uma deliciosa língua de prata que lhe fazia correr o risco de morrer envenenado se a mordesse. Não foi assim. Morreu a escrever e persiste autor maior de uma língua não deturpada pelo criminoso "acordês" de 1990. "Que mais há na tua vida que o teu canto, a angústia do teu grito contra os céus desabitados?".


 


Jornal de Notícias, 25.1.2016

25.1.16

Presidente Marcelo


 


Já devem ter sido escritas e proferidas todas as palavras acerca do desfecho do acto eleitoral do dia de ontem. As que faltam - mesmo as que não faltam mas cujos produtores precisam ler-se e ouvir-se a si próprios - hão-de aparecer. Não concordo, por exemplo, com o breve escrito de Vasco Pulido Valente no Público salvo quanto à Esquerda e à Direita: a primeira saiu desfeita e a segunda está paralisada. De resto, não creio que o Presidente-eleito seja neutro. É livre e independente mas não será neutro. Todos foram mais ou menos livres e independentes (Cavaco acabou por ser o mais tolhido) mas nenhum foi neutro. Marcelo é especialmente livre e independente porque é mesmo assim. Dito isto, o "balanço" de dia 24 é simples. A frase é de VPV a propósito de um outro Presidente em que coincidimos no apoio. Queríamos os dois a mesma coisa: ele queria ganhar e eu queria que ele ganhasse. Ponto final, parágrafo.


 


Foto: Mário Cruz/EPA/JN


 

21.1.16

Marcelo presidente


 


Este artigo é descaradamente uma dupla declaração de interesses. Desde logo um apelo vigoroso ao voto no próximo domingo. A eleição do presidente da República por sufrágio universal, directo e secreto, pertence ao código genético desta democracia. O equilíbrio de poderes que a Constituição prevê não dispensa essa escolha apesar da circunstancial predominância parlamentarista e governamental. É, aliás, o único voto dirigido a uma só pessoa a qual, por isso, responde directamente perante o país sem intermediários. Mesmo que seja oriundo de partido, o presidente uma vez eleito tem de deixar o partido à porta. E os partidos, em geral, lá onde os eleitores os puseram e pela ordem que os puseram: na Assembleia da República e, indirectamente, no Governo. A indecisão, a abstenção ou a indiferença são sempre fretes prestados ao que não se quer. Não vale a pena, por omissão, desprestigiar ainda mais uma campanha que não esteve à altura do património político evidenciado pela escolha livre do presidente desde 1976. Votar, pois, e num candidato em concreto: Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo é inseparável da nossa paisagem democrática. Nos jornais, ainda antes do 25 de Abril no "Expresso", onde estava também encarregado de fintar a censura. Depois fundando, enquanto administrador, o "Semanário" dirigido por Vítor Cunha Rego. Na rádio e nas televisões, onde todos tivemos pelo menos uma ocasião furiosa de discordar fortemente dele. No Parlamento, onde foi deputado constituinte. No Governo, com a tutela dos assuntos parlamentares, onde pôde praticar o que aprendera na análise política e no comprometimento partidário intenso dos primeiros anos do regime. Na oposição, como o presidente do PSD que sucedeu a dez anos de "cavaquismo" e que soube calibrar perfeitamente os deveres de Estado com o combate aos piores delírios "guterristas". Nas autarquias, onde foi vereador e presidente de assembleia municipal. Na universidade, onde ensinou fornadas e fornadas de futuros juristas, a maior parte dos quais anda por aí a pastorear a pátria em todos os partidos. Marcelo, até por causa desta biografia ou apesar dela, não vai para Belém em modo de facção. É genuinamente independente como todos os solitários calorosos o são. Basta-lhe ajudar governos e oposições a não levarem isto levianamente para o fundo. E basta-lhe ser igual a si próprio. O mesmo Marcelo que conheci no Guincho e a quem dei, um dia, boleia dali até Cascais. O do sol e vida. Da alegria.


 


Jornal de Notícias, 18.1. 2016

13.1.16

A culpa é dele?


 


No início da campanha oficial para a eleição de 24 de Janeiro, fomos surpreendidos pela retirada, por excesso e não por defeito, do PS dessa campanha. Pela primeira vez na história do partido, o secretário-geral do segundo maior partido nacional recomendou aos seus militantes e simpatizantes que apoiassem dois candidatos num sufrágio em que, tipicamente, se escolhe uma única pessoa. Aliás, fora o Bloco, o PC, o MRPP, o Livre (ainda há?) e a reformada Gama da Apre - que foi mais longe e sugeriu pau no jornalista Rodrigues dos Santos por não se ter curvado respeitosamente diante do candidato que ela apoia -, os principais partidos apenas "recomendam" o voto nesta eleição. Mas no caso do PS, mesmo com uma antiga presidente do partido no terreno, António Costa preferiu chamar ao acto as "primárias da Esquerda", como se as legislativas (e a questão governativa) ainda não estivessem encerradas. Ou como se houvesse um átomo de comparação com eleições em que os protagonistas das esquerdas, a democrática e as outras, eram respectivamente Soares, Zenha e Pintasilgo. Mesmo assim, o PS enquanto tal esteve sempre com um dos seus nas eleições presidenciais: quatro vezes com Soares, duas com Sampaio, uma com Alegre e, no processo de transição e de consolidação do regime democrático, com Eanes. Nunca esteve com dois, muito menos com o artificialismo de A. Nóvoa, que emergiu na política nacional pela mão de meia dúzia de "elites", há menos de meia dúzia de anos, e do actual PR, que lhe ofereceu palco retórico num 10 de Junho. Esse candidato, aliás, apresenta-se como o campeão das "causas", com mandatários ridiculamente a brotar por detrás de quarenta sombras, tantas quantas as "causas" que abraça, e de um evangélico "tempo novo" sem a menor substância. Quer estar, como disse no debate com a socialista M. de Belém, em "todos os espaços", o que significa que não compreende a função presidencial, que toma pela gerência de uma imensa colectividade de cultura e recreio. Duvido que, na sua pusilanimidade calculada, o secretário-geral do PS tenha contribuído para atalhar a abstenção, numa disputa débil em que nove pessoas pretextam agitadamente contra uma: Marcelo. Por sinal, a única que recentrou a eleição de 24 de Janeiro nos termos constitucionais, e politicamente adequados, ao sublinhar o papel do próximo chefe de Estado na recuperação plena do modelo semipresidencial tão desbotado pelas últimas práticas. A culpa é dele?


 


Jornal de Notícias de 11.1.2016

5.1.16

Os Dutras contra Marcelo


 


A toleima mais recente inventada contra Marcelo é que ele andaria a fazer de morto. Mas antes desta havia a que estava demasiado vivo: os jornais e as televisões só lhe propiciavam atenção para descaso das restantes notabilidades candidatas. Mesmo esta, a do excessivamente vivo, ainda não arrefeceu. Também usam uma carta, editada pelo malogrado Freire Antunes em livro, que escreveu ao então presidente do conselho, M. Caetano, onde "comenta" o congressso oposicionista de Aveiro à luz da dicotomia PC-restante oposição dita democrática, concluindo Marcelo pela prevalência do primeiro no evento e a fatal secundarização do "soarismo". Talvez haja alguém com suficiente imaginação para farejar "fascismo" no selo da carta ou "servilismo" nos cumprimentos endereçados a quem o remetente conhecia de bébé. Aliás, é sabido que o "marcelismo" tratou lindamente os primeiros números do Expresso onde Marcelo era director-adjunto. Se ele fosse da "situação", passar-lhe-ia pela cabeça fundar um jornal adepto de uma democracia liberal num regime em que o Pai era ministro? Com os seus dotes certamente teria procurado o dr. Dutra Faria ou o Diário da Manhã, e decerto não lhe faltariam recomendações. Estes epígonos de Saramago do DN ou, mesmo, do dr. Dutra devidamente reciclado para os devidos efeitos, andam sempre de tesoura alçada. Mas Marcelo não tem culpa destas eleições serem um deserto apesar de tanto "causalista" que por elas anda. Ora se não fosse ele, e por ele, a abstenção seria bem pior. Porque os outros só têm uma "causa" que resume as 40 de Nóvoa, as 27 de Belém, as 149 "previsões" do previdente da República Neto, os 37 panfletos da Marisa e as 50 "teses" do padre Edgar: Marcelo. Ele, calorosamente, agradece.


Foto: Miguel Manso

4.1.16

Um espectáculo sórdido


Acompanho atentamente as eleições presidenciais desde as primeiras livres em 1976. Não votei, era menor, mas já votei em 1980. E não só votei como fiz activamente parte da Comissão Nacional para a Recandidatura do Presidente Eanes", a CNARPE. O mesmo aconteceria em 1985-1986 com o Movimento de Apoio Soares à Presidência", o MASP, integrando uma obscura "comissão de juventude" onde conheci, entre outros, Seguro e Costa, e onde quem vinha da "Direita" era especialmente "acarinhado". Aliás, esta terá sido porventura a última grande campanha política para a eleição do presidente da República. A disputa de 1996 entre Sampaio e Cavaco, ganha pelo primeiro, já não teve metade da graça porque não havia mais ninguém. Jerónimo saiu de cena para Sampaio brilhar e o guterrismo, em princípio de carreira auspiciosa, fez o resto. Dez anos depois, Cavaco era o derradeiro candidato "natural". Estive com ele na derrota e na vitória, embora mais em letra de forma do que de outra maneira. Agora subscrevi a candidatura de Marcelo e, durante algumas breves semanas na primavera passada, tentei ajudar Henrique Neto "por uma Nova República" mas não deu. Com isto tudo quero significar estarmos perante as eleições presidenciais mais desinteressantes e politicamente medíocres de que tenho memória. Como se esta infelicidade não fosse suficiente, as televisões e as candidaturas combinaram uns debates improváveis, feitos a correr entre todos, enquanto a campanha não começa oficialmente. O que dará, em apenas quatro dias do novo ano e até ao final do dia de hoje, 14 (catorze) debates: duetos, tercetos, quartetos falhados e um na rádio com os dez magníficos. Ainda faltam vinte e tal e um final, em plena campanha e com todos, em canal aberto nas três generalistas. Salvo o devido respeito, é um mau serviço prestado à dignidade do cargo que esta gente (a maior parte ignora o que é que está a fazer nos boletins de voto num lamentável sinal do estado a que tudo chegou) se propõe exercer e uma ajuda à abstenção que nenhum candidato parece interessado em combater. Evitar as campanhas "tradicionais", que tiveram o seu tempo adequado e imprescindível, não implica este torpe exercício desincentivador de qualquer "esclarecimento" ou virtude cívica. O presidente eleito a 24 de Janeiro vai ter muito que se espremer para recompor as coisas. Desde logo para se recompor deste espectáculo sórdido.


Jornal de Notícias, 4.1.2016


Foto: Marcos Borga