8.2.15

Fazer de conta


 


À semelhança de Franco e Salazar, Costa e o seu homólogo espanhol encontraram-se em Badajoz. E Costa, tal qual Seguro, vai ao rendez-vous socialista paralelo ao Conselho Europeu da próxima semana onde não abundam primeiros-ministros socialistas. Tudo isto faz parte de uma "estratégia" conhecida no mundo profano por "fazer de conta". Desde que ganhou o PS, Costa anda a fazer de conta que tem uma "alternativa" e que, além disso, é a "alternativa" e que tem "ideias" evidentemente melhores, claras e distintas, das da coligação governamental.  Este cartesianismo partidário é quase tão recomendável como o do seu pai filosófico: pouco. Costa não é uma alternativa ao "arco da governação", nem sozinho nem acompanhado. É uma peça da mobília como outra qualquer, com os mesmos defeitos e virtudes, apenas disponível para esperar praticamente sentado que o poder - mesmo o relativo e bem longe das megalomanias de Maio de 2014 - lhe caia em cima da mesa. Tem sido essa, aliás, a "ambição" de todos os que o antecederam no referido "arco" desde pelo menos este milénio. O que, mais tarde ou mais cedo, os acaba por revelar.

Manuel de Lucena


 


Morreu ontem Manuel de Lucena. Os mais "novos" provavelmente não o conhecem porque, apesar de ele ter sido até ao fim de "andar por aí" de sacola ao ombro e genuinamente informal, escrevia agora menos nos media. Mas escreveu muito e bem. "Cruzei-me" cedo com ele por causa do livro da foto e por causa dos "Reformadores", em 1979, que ele apoiou no âmbito da AD de então (o "então" é esdrúxulo porque não houve mais nenhuma). Em Genebra, no exílio, juntamente com o Medeiros Ferreira, António Barreto, Eurico de Figueiredo e outros fundou a revista Polémica. Por cá passou pelo Semanário e pela Tarde, por exemplo, com o Vítor Cunha Rego. Era fundamentalmente um académico sem pretensões, livre e discreto, daqueles que tentam perceber e que nos ajudam a tentar perceber. Um tipo, nas suas palavras, que pensava "umas coisas que não eram mal pensadas".

7.2.15

Somos o mundo, somos as crianças


 


Se não tivesse visto, na televisão, não acreditava nesta palhaçada (vale a pena ver o clip). O texto do jornal, aliás, resume-a perfeitamente. «Batem com as mãos nas pernas, no peito, agitam os braços, fazem a onda, gingam as ancas e gritam “Aicep go go go”, às ordens de três figuras no palco. Os 300 jovens do programa de estágios Inov Contacto completam assim – com uma equipa motivacional - o segundo dia de formação antes de partirem para um estágio no estrangeiro. A imagem é desconcertante: Não parece, mas pouco passa das nove da manhã e espera-se pelo vice-primeiro-ministro num circunspecto auditório da faculdade de Economia da Universidade Nova. Paulo Portas viria a dar uma espécie de aula de economia, também ela motivacional, mas já com a sala em silêncio. Os mais de 40 minutos de sessão motivacional, com muita linguagem corporal, acabaram com uma selfie improvável (tirada do palco para o auditório e uma moldura kitch de luzes verdes e vermelhas intermitentes) tirada pela equipa de animação contratada, ao som de All You Need Is Love e muitas palmas da plateia. Minutos de descontração que fazem arrancar o segundo dia de formação destes jovens – a média de idades é de 25 anos – que só ao final desta sexta-feira vão saber qual o seu país de destino do estágio proporcionado pelo programa apoiado pelo Aicep (Agência de Investimento e Comércio Externo de Portugal). Pode ser Estados Unidos, Brasil ou Moçambique. Mas levam algumas lições de Paulo Portas que conseguiu calar o ânimo da sala, depois de entrar ao som de um êxito de Anselmo Ralph: ‘Agora não me tocas…’.» A propósito deste misto de carnaval propagandístico com gravitas de opereta, lembrei-me de Heidegger, num pequeno livrinho, "Serenidade" ("Gelassenheit"): «a ausência de pensamentos é um hóspede sinistro que, no mundo actual, entra e sai em toda a parte». E também de Alain Finkielkraut, em "A derrota do pensamento", reflectindo sobre a emergência dos mega concertos rock e citando Paul Yonnet, "L' esthétique rock": «Face ao resto do mundo, o povo jovem não defendia apenas gostos e valores especí­ficos. Mobilizava igualmente, diz-nos o seu grande turiferário "outras zonas cerebrais para além das da expressão linguística. Conflito de gerações, mas também conflito de hemisférios diferenciados do cérebro (o reconhecimento não verbal contra a verbalização), hemisférios durante muito tempo cegos, neste caso um para o outro". A batalha foi dura, mas o que chamamos hoje comunicação, atesta-o: o hemisfério não verbal acabou por vencê-la, o clip triunfou sobre a conversa, a sociedade "tornou-se por fim adolescente", encontrou o seu hino internacional: we are the world, we are the children. Somos o mundo, somos as crianças.»

5.2.15

Custe o que custar


 


Como costuma escrever o Rui Ramos a propósito de todos aqueles que não seguem as "boas práticas" políticas defendidas pelo Observador, os "oligarcas" não eleitos da "Europa estilo Draghi" - infelizmente com a complacência servil de periféricos eleitos - decidiram antecipar-se à boa-fé negocial do governo grego e despromoveram-lhe a dívida. Algumas alimárias domésticas aplaudiram o exercício porque "nós não somos a Grécia" e porque, no fundo, sofremos de uma mesquinhez pequeno-burguesa congénita. O "tratado orçamental" a que apreciam assoar-se, e eventualmente limpar outras partes do corpo, é aparentemente inamovível: as pessoas, as economias e as soberanias nacionais que se adaptem, mortas ou vivas, ao "tratado". Como se viu ontem a propósito de medicamentos, o dr. Passos comunga fervorosamente desta "tese" do "custe o que custar". Sucede que nós só nos livramos, para já, das NEP's do sr. Dragui porque há uma - uma e apenas uma - agência de notação canadiana que acha que a nossa dívida não é lixo e que serve para investimento. Senão estaríamos a negociar, como adultos e como a Grécia, com estes nossos tristes parceiros inconfiáveis e hipócritas. Assim continuamos sob o espectro da leveza, a pagar mais juros do que os gregos e com uma dívida directa do Estado que, no final do ano, ascendia a cerca 218 mil milhões de euros. Coragem, portugueses. Havemos de a pagar. Custe o que custar.

4.2.15

Menos números


 


Paulo Macedo juntou-se ao silencioso cortejo de governantes em agonia política. Bastou uma simples quanto terrível frase ("não me deixe morrer") para que isso acontecesse. Isto depois de um mandato bem gerido  - interna e mediaticamente - até ao momento em que deixou de poder antecipar as consequências de alguns actos técnicos, financeiros e administrativos que, pela natureza deles, porventura lhe escaparam. Todavia, politicamente está ao leme desses mistérios insondáveis da burocracia. E a burocracia não pode ser nunca um fim - e, em certos casos dramáticos, "o" fim - mas, antes, um meio ao serviço de qualquer coisa concreta e, sobretudo, das pessoas. "Quem salva uma vida salva o mundo inteiro", lê-se no Talmud. No tempo político que lhe resta à frente do ministério da saúde, sugiro-lhe delicadamente que reflicta mais nisto do que nos números.

A responsabilidade de falar


 


Numa outra ocasião escrevi que Sócrates, ao "falar", acaba por prestar um serviço ao universo daqueles que não pensam que o "dever ser" do direito processual penal se destina, a final, a produzir uma sociedade "moralmente" pura onde só haja lugar para os "honestos" definidos a partir do "apuramento" desse importante ramo do direito das liberdades. Mais. Talvez Sócrates, o antigo agente político, tenha mesmo um "dever de falar", a responsabilidade de falar. Foi legislador e executante de legislação ao contrário dos restantes cidadãos que, neste momento, estão também sujeitos a medidas de coacção. Nesta parte não comete, até porque ele inexiste, qualquer delito de opinião. Permite, aliás, que se debata o "estado da arte" do procedimento processsual penal em Portugal quando o falacioso "segredo de justiça" anda todos os dias, e em letra de forma, pelos becos da amargura. Começo a pensar que o melhor é acabar, de jure e de facto, com ele.  E acompanho João Lisboeta Araújo: «Aquilo de que me queixo não é das notícias. É do facto de serem tendenciosas e mal informadas. Normalmente com desprezo pela verdade, porque não são factuais, são opinativas. O caso justifica ser amplamente divulgado, o problema é que as notícias visam a destruição, a degradação de uma pessoa e isso aborrece-me. Muito do que foi dito é crime mas eu agora não tenho tempo de me ocupar disso. A seu tempo... Talvez seja pela minha idade, mas fui educado por um outro código, que já não vigora. Que código? O de que não se bate numa pessoa que está caída, não se goza com um preso, não se brinca com um doente, não se ri de um soldado coxo na formatura. Foi o que aprendi. Mas o que assisto é a um bacanal contra uma pessoa que está presa e não se pode defender. Está sujeito a toda a maledicência, à fantasia, a falsidades e algumas coisas verdadeiras, mas não tem possibilidade de se defender. Acha que na hierarquia do Departamento Central de Investigação e Acção Penal tem havido conivência com a violação do segredo de justiça? A violação do segredo de Justiça é um crime. Como é ao Ministério Público que compete perseguir os criminosos e eu não tenho visto grande sucesso nisso, não digo que haja um conivência, mas há, pelo menos, uma tolerância evidente. Esses factos são criminosos…»

3.2.15

Retrato de um misericordioso que ri


 


O jornal i entrevistou o senhor presidente da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos. Ficámos a saber, como se isso interessasse para a prova de Deus, que a criatura ocupa o cargo «depois da junção de uma série de factores: estava divorciado e, por isso, com mais disponibilidade, os filhos tinham o percurso encaminhado e reunia experiência na área social, acrescendo ao facto de ser católico». Um bonzinho, portanto, por natureza votado a obras de misericórdia - casar-se, divorciar-se e "encaminhar" os filhos. Só na avaliação da pobreza é que se desvanecem as bem-aventuranças. De acordo com Lemos, a pobreza "é uma questão de auto-estima, acima de tudo" que também chegou àquela aquela "casta" - criada pela novilíngua política - dos que "vivem acima das suas possibilidades: «estamos a falar da classe média que comprou casa e carro, fazia férias no estrangeiro e, de repente, se viu sem nada disso. Isso entra num plano íntimo das pessoas que se manifesta numa agressividade latente, no ar triste do dia-a-dia, nos insultos ao governo e, agora, até à oposição.» Pelo contrário, Lemos fez o que pôde: «quanto à natalidade, devíamos ter 2,1 filhos [o que será 0,1 filho?] para garantir a renovação das gerações e eu, como tenho dois filhos, já dei a minha contribuição (risos).» Revela-se um homem para qualquer estação: «Face às pessoas, este governo foi uma desilusão, tendo em conta que lhes cortou reformas, subsídios, etc. Em relação às instituições, este governo foi exemplar, porque se sentou a conversar connosco. O governo percebeu que, sem nós, tínhamos tido uma situação muito pior. Quando se diz que somos a almofada social, nós somos a almofada, o travesseiro, o edredão, o colchão com penas. É um apoiante deste governo? É comum dizerem isso, mas eu não apoio o governo, apoio as Misericórdias. Se o governo quer conversar comigo sobre isso, claro que me interessa, mas se o governo me vem dizer o que fazer, já não me interessa. Eu sei que é fácil bater em Passos Coelho, mas atendeu-me sempre que eu precisei. Não é muito cool dizer isto, mas é verdade (...) O PS tem uma tradição fantástica e única de ligação ao sector social que o PSD e o CDS estão a recuperar.» E fominha, em geral? Responde o misericordioso-mor: «Em algumas zonas urbanas e bairros sociais é um problema, sim. Mas também digo que, em Portugal, só passa fome quem quer. Há quem passe fome por desconhecimento da presença das cantinas sociais e temos também os casos de pobreza envergonhada que preferem não pedir ajuda. Mas não é por falta de resposta. » Também não lhe falta a resposta quanto ao seu próprio futuro. «O seu nome é apontado como o mais certo para substituir Silva Peneda no Conselho Económico e Social. Como tem sido abordado o tema? Não me tenho preocupado nada com isso. Fiquei muito surpreendido, mas não entra na minha equação. Não pensa aceitar o cargo? Esse cargo é de exclusividade. Não seria compatível com a presidência da União das Misericórdias. Entre os dois cargos, qual escolheria? A União das Misericórdias. Uma coisa é fazer uma substituição pontual de um presidente e ficar lá uns meses. Para ajudar, estou sempre disponível, mas para ficar em permanência não. Quem acha que seria a pessoa ideal? (risos) Pergunte ao dr. Passos Coelho ou ao dr. António Costa.» É caso, porém, para perguntar a ele: ri de quê?

2.2.15

Entre o anjo e o monstro


 


Strauss-Kahn vai ser julgado por supostamente ter cometido um crime de proxenetismo. As prosas que correm nos jornais sobre o homem recomendam-se em geral menos do que ele. O antigo ministro e director-geral do FMI era, sem margem para grandes dúvidas, das poucas figuras políticas verosímeis e estruturadas da França e da Europa. Deixa qualquer seu camarada socialista a milhas de distância. Sarkozy, ao pé dele, parece uma barata tonta e talvez, embora muito distintos, só Alain Juppé esteja presentemente a um nível semelhante de prestígio e de densidade políticas. Strauss-Kahn gosta de sexo e de mulheres o que não tem de ser exactamente a mesma coisa. Os tempos "fracturantes" em que mergulhámos permitiram que a privacidade fosse invadida pelo legislador anónimo que estabeleceu, a régua e esquadro, como, onde e em que circunstâncias os adultos podem fornicar. O que fez com que o sexo emergisse ainda mais como uma poderosa arma político-moralista da "modernidade". Não é por acaso que os crimes directamente associados ao sexo são os mais "mediáticos" sobretudo quando envolvem, ou deixam de envolver, agentes políticos. Strauss-Kahn regressa agora a um Golgotá que conhece perfeitamente e para o qual, deve dizer-se, pôs-se a jeito. Ou foi posto se acreditarmos em "teorias da conspiração" ou em coincidências. Longe vão, pois, os idos dos Césares contados por Suetónio e comentados por Gore Vidal. Esse Suetónio que, «ao apontar um espelho a esses prolixos e lendários Césares, reflecte-os não apenas a eles mas também a nós: criaturas divididas cuja maior obrigação moral é manter o equilíbrio entre o anjo e o monstro que carregamos connosco dado sermos ambos. Ignorar esta dualidade conduz inevitavelmente ao desastre.»

1.2.15

O "sistema"


 


É pouco provável que o autor deste blogue, depois de ter divulgado a respectiva identidade, prossiga. Todavia o mais "interessante" do que escreve não será sobre outras pessoas mas sobre si próprio. Porque remete para algumas das condições em que decorre a aplicação de medidas de coacção em Portugal. Na semana passada ficámos a saber, por exemplo, que o ex-director do SEF, em prisão domiciliária, vive uma espécie de não-situação jurídico-financeira na sua relação laboral que o jargão burocrático traduz por em "faltas injustificadas". Não está de férias, não está doente, não está de licença sem vencimento, em suma, não está ao abrigo de qualquer regime de faltas porque aparentemente a lei (a nova "lei geral condensada", tipo colcha de bilros, do trabalho em funções públicas) não contempla a possibilidade de o trabalhador estar ausente do seu posto de trabalho em consequência de um processo-crime que se encontra em fase de investigação. Se o arguido for a única fonte de rendimento, seja apenas para si, seja para a família, o procedimento penal, de alguma maneira, já lhe está a aplicar uma valente "pena" antes de uma condenação efectiva ou de um arquivamento. Este inspector da PJ detido preventivamente em Évora queixa-se do mesmo: «apesar de terem retirado na totalidade o meu ordenado, sem ter sido condenado em processo disciplinar na P.J. ou ter sido condenado no âmbito do processo pelo qual me encontro preso preventivamente (sem ordenado desde Junho de 2014) conquanto a minha mulher não ter sido ainda colocada – ela é Educadora de Infância – encontrando-se desempregada, ainda que o camarada de reclusão, Eng. José Sócrates, apresente uma providência cautelar por causa de umas botas, e tem-nas agora calçadas porque daqui o estou a ver a passear no pátio, e eu que apresentei providência cautelar relativamente ao meu ordenado, ainda não obtive resposta (continuando sem ordenado desde Junho de 2014).» O "sistema" está a precisar urgentemente de ler mais Foucault e menos "direito".