1. Ligo o telemóvel em Lisboa e a primeira mensagem escrita de um grande amigo enche-me de vontade de continuar "perdido na tradução". Diz ele: "Então, ao encontro dos nossos piolhosos, como dizia o incompreendido D. Carlos, quando as razões de Estado o obrigavam a trocar as putas de Paris por esta choldra ingovernável ? Olhe, tenha paciência...Bem vindo a casa!"
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<strong>LOST IN TRANSLATION</strong><br /><br /><strong>1.</strong> Ligo o telemóvel em Lisboa e a primeira mensagem escrita de um grande amigo enche-me de vontade de continuar "perdido na tradução". Diz ele: "Então, ao encontro dos nossos piolhosos, como dizia o incompreendido D. Carlos, quando as razões de Estado o obrigavam a trocar as putas de Paris por esta choldra ingovernável ? Olhe, tenha paciência...Bem vindo a casa!"<br /><br /><br /><img src="http://www.amrep.org/images/headshots/bloom.jpg" border="0"<br /><br /><br /><strong>2. </strong>Vim a ler as polémicas memórias da actriz Claire Bloom, <em>Leaving a Doll's House</em>. Quem olha para ela, para aquela serena beleza, não a leva presa, como se costuma dizer. Em 1996, por aí, a senhora decidiu verter as suas intimidades para o papel. Casamentos, <em>affairs</em>, coisas de "one night stand" (parece que "ficou" pelo Anthony Quinn), e, sobretudo, Philip Roth. Aliás, foi por causa dele que comprei o livro. Gore Vidal, amigo de Claire, disse que uma das virtudes destas "memórias" era justamente a de tornar Philip Roth interessante, uma maliciosa injustiça. Para quem gosta de Roth, esta "versão" do homem, dada pela sua companheira, primeiro, e esposa, depois, bem como as vicissitudes de uma ligação entre o maldito e o sublime, que terminou com um divórcio violentissimo, é de ler. Pelo meio aparecem nomes conhecidos do cinema e do teatro do século que acabou de passar, sempre em trânsito entre a velha Europa e o Novo Mundo. Bloom fala naturalmente de uma época e de uma gente perfeitamente mortas e enterradas. É sempre bom o convívio com defuntos luminosos. Prefiro-os aos actuais e prematuros cadáveres ambulantes. Roth, felizmente, está ainda bem vivo, pairando sobre Nova Iorque e sobre as nossas estantes, <em>malgré</em> Claire.<br /><br /><strong>3. </strong>Um avião proporcionou-me o filme de Sofia Coppola, <em>Lost in Translation</em>. Não me lembro do título dado aqui. Passa-se em Tóquio e, não se passando aparentemente nada de substancial, acaba por passar por ali muita coisa. Toda a improbabilidade que se descobre quando se deambula sem destino por uma cidade, é contada nos encontros reais e irreais do filme. A "kindness of strangers" que nos agarra, solitários, a essas cidades, é a mais-valia que se retira de avenidas e multidões anónimas. Descobrir que os "estranhos" são, de repente, os mais próximos, e andar pela rua assobiando um afecto inesperado que não precisa sequer de tradução. <em>Everyone wants to be found</em>.<br /><br /><br /><img src="http://etext.library.adelaide.edu.au/aut/pix/hjames.jpg" border="0"<br /><br /><br /><strong>4. </strong> Andei a vasculhar alguma literatura jamesiana. O mais curioso foi encontrado nas cartas que, depois dos sessenta, Henry James endereçou a "jovens talentos" masculinos. Também me lembrei dele, uma das prosas mais extraordinárias da literatura norte-americana e mundial, por causa de <em>The Europeans</em> que, a despropósito, liguei à circunstância de a Europa ter mais dez membros desde o dia 1. No espaço e no tempo de uma curta viagem aos EUA, o meu cosmopolitismo satisfez-se com este "alargamento". Para os interesses domésticos, no entanto, este avanço da Europa para o seu centro e para leste, é ameaçadora. Ainda bem que é. Mesmo antes de "cá" estarem, já alguns desses países apresentavam números de nos fazer corar de vergonha. Que importa! Trôpegos e pândegos continuamos, e em breve agarrados à bola, eternamente leves na nossa irresponsabilidade sem tradução possível em nenhuma língua.<br />
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