«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
25.4.09
UM 25 À DIREITA E À BOA ESQUERDA
Os melhores discursos do "25 de Abril" oficial, no Parlamento, pertenceram a duas pessoas que, na data que hoje se comemora, eram pequeninos: a Teresa Caeiro, do CDS, e o Paulo Rangel, do PSD. O resto foi regime e língua de pau. Ou, mesmo, o fim de qualquer coisa como escreve Medeiros Ferreira. "Do que menos se precisa agora é de um povo alienado pela ficção." Nem mais.
UM 25 À DIREITA E À BOA ESQUERDA
Os melhores discursos do "25 de Abril" oficial, no Parlamento, pertenceram a duas pessoas que, na data que hoje se comemora, eram pequeninos: a Teresa Caeiro, do CDS, e o Paulo Rangel, do PSD. O resto foi regime e língua de pau. Ou, mesmo, o fim de qualquer coisa como escreve Medeiros Ferreira. "Do que menos se precisa agora é de um povo alienado pela ficção." Nem mais.
PEQUENO EXERCÍCIO DE SEMIÓTICA

A "manchete" do Expresso revela três coisas elementares. Desde logo, que os principais nomes chamados à colação no "caso Freeport" possuem uma relação demasiado tensa com a verdade. Depois, que a não ser assim - como o bizarro Smith afirmou num vídeo apócrifo a propósito de outra pessoa - revelam-se algo estúpidos. Finalmente, alguém quer fazer-nos passar a todos por parvos.
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we are the world we are the children
PEQUENO EXERCÍCIO DE SEMIÓTICA

A "manchete" do Expresso revela três coisas elementares. Desde logo, que os principais nomes chamados à colação no "caso Freeport" possuem uma relação demasiado tensa com a verdade. Depois, que a não ser assim - como o bizarro Smith afirmou num vídeo apócrifo a propósito de outra pessoa - revelam-se algo estúpidos. Finalmente, alguém quer fazer-nos passar a todos por parvos.
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UM "CLOSE-UP" ANUNCIADO
«Durante este seu primeiro e último mandato, o primeiro-ministro Sócrates deu quatro entrevistas à SIC e três à RTP. Escolheu a SIC em períodos em que se sentia à vontade e a RTP ao sentir-se ameaçado, pelo menos duas vezes (casos licenciatura e Freeport). Esta opção, bem como a rejeição da TVI, que primeiro era para ele território desconhecido e depois se tornou território "inimigo", justifica-se pelo medo e mesmo aversão de Sócrates à pergunta e ao jornalismo livre. O desprezo que transpareceu no seu olhar, no seu tom e mesmo nas palavras perante algumas perguntas de Judite de Sousa revelam essa atitude. Uma personagem que se construiu sobre a propaganda e a demagogia, sobre palcos montados para ele pelo país fora, com câmaras à frente e sem responder aos jornalistas, sabe que não resiste ao escrutínio de perguntas. A irrealidade do mundo virtual que Sócrates e a central de propaganda de Luís Paixão Martins construíram esboroa-se como um castelo de areia perante a mera existência de perguntas sobre o mundo real. Na entrevista, Sócrates fez lembrar a Norma Desmond crepuscular de Sunset Boulevard (1950): "All right, Mr. De Mille, I'm ready for my close-up". Os três temas da entrevista já eram conhecidos antes: o diferendo com Cavaco Silva, o Freeport e a crise. Quanto a esta, as respostas mostraram um primeiro-ministro sem estratégia: apenas medidas tácticas para cada dia que passa, do tipo "o que é que eu hei-de dizer hoje?" em função da agenda mediática; ontem a estafada "esperança" para a Quimonda, hoje uns apoios para 15 mil desempregados, amanhã outro qualquer radioso "futuro". Sócrates mostrou em definitivo não ser primeiro-ministro para tempos de crise, não ter estatura de estadista. Quanto ao potencial conflito com o Presidente da República, revelou insolência: pela primeira vez em democracia, um chefe de Governo falou em nome do chefe de Estado, como se este dependesse dele. Não recordo tal desplante político por parte de um primeiro-ministro, ainda por cima autodesmentindo-se e desautorizando o seu fiel número dois, António Vitorino. Quanto ao caso Freeport, nada de novo excepto o especificado ataque ao Jornal Nacional de 6.ª na TVI. É também a primeira vez em décadas de democracia que sucede um ataque dum primeiro-ministro a um órgão de informação e sem desmentir uma única das suas notícias. Sócrates parece achar que responde politicamente às notícias e comentários sobre o caso lançando uma bateria de processos nos tribunais a cronistas e jornalistas, também sem paralelo na democracia portuguesa. Apenas confirma aversão à liberdade de informação e de expressão, característica política que tenho atribuído aqui a este poder desde 2005. Hoje está à vista de todos. Exemplifica-o a injustificada violência assumida na entrevista contra Judite de Sousa. Desta vez, ela fez diversas perguntas importantes (José Alberto Carvalho, o sempre-em-pé, limitou-se a seguir o rumo das perguntas da sua número dois na Direcção de Informação). Sócrates quase chegou a extremos de linguagem contra a jornalista. A expressão facial de Sousa revelou a tensão e o insólito de ter pela frente um primeiro-ministro agressivo como nunca se tinha visto desde o 25 de Abril. Ao incrível ataque de Sócrates, a TVI respondeu com uma declaração do seu director-geral, José Eduardo Moniz, defendendo a liberdade de expressão e opinião e afastando as pressões. A TVI e também Manuela Moura Guedes anunciaram processos judiciais contra Sócrates, o que é também inusitado em democracia. À primeira vista, parece a resposta adequada, mas seria preferível que deixassem Sócrates a falar sozinho nesta matéria. Sócrates será julgado em breve - pelos eleitores. A maioria absoluta já lhe fugiu há muito, falta saber se o PS ainda consegue chegar aos 30%. A entrevista mostrou aos portugueses Sócrates no ponto de não-retorno. Para mim a questão hoje é esta: quando começará o PS a movimentar-se em surdina para a escolha de um novo secretário-geral - antes ou depois das eleições para o Parlamento Europeu? Ou já terá começado? Quando Norma Desmond, no seu mundo irreal, proclama "Eu sou grande, os filmes é que se tornaram pequenos", faz-se silêncio na sala. E ninguém questiona a grande líder do ecrã quando ela desce a escadaria.»
Eduardo Cintra Torres, Público
Eduardo Cintra Torres, Público
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UM "CLOSE-UP" ANUNCIADO
«Durante este seu primeiro e último mandato, o primeiro-ministro Sócrates deu quatro entrevistas à SIC e três à RTP. Escolheu a SIC em períodos em que se sentia à vontade e a RTP ao sentir-se ameaçado, pelo menos duas vezes (casos licenciatura e Freeport). Esta opção, bem como a rejeição da TVI, que primeiro era para ele território desconhecido e depois se tornou território "inimigo", justifica-se pelo medo e mesmo aversão de Sócrates à pergunta e ao jornalismo livre. O desprezo que transpareceu no seu olhar, no seu tom e mesmo nas palavras perante algumas perguntas de Judite de Sousa revelam essa atitude. Uma personagem que se construiu sobre a propaganda e a demagogia, sobre palcos montados para ele pelo país fora, com câmaras à frente e sem responder aos jornalistas, sabe que não resiste ao escrutínio de perguntas. A irrealidade do mundo virtual que Sócrates e a central de propaganda de Luís Paixão Martins construíram esboroa-se como um castelo de areia perante a mera existência de perguntas sobre o mundo real. Na entrevista, Sócrates fez lembrar a Norma Desmond crepuscular de Sunset Boulevard (1950): "All right, Mr. De Mille, I'm ready for my close-up". Os três temas da entrevista já eram conhecidos antes: o diferendo com Cavaco Silva, o Freeport e a crise. Quanto a esta, as respostas mostraram um primeiro-ministro sem estratégia: apenas medidas tácticas para cada dia que passa, do tipo "o que é que eu hei-de dizer hoje?" em função da agenda mediática; ontem a estafada "esperança" para a Quimonda, hoje uns apoios para 15 mil desempregados, amanhã outro qualquer radioso "futuro". Sócrates mostrou em definitivo não ser primeiro-ministro para tempos de crise, não ter estatura de estadista. Quanto ao potencial conflito com o Presidente da República, revelou insolência: pela primeira vez em democracia, um chefe de Governo falou em nome do chefe de Estado, como se este dependesse dele. Não recordo tal desplante político por parte de um primeiro-ministro, ainda por cima autodesmentindo-se e desautorizando o seu fiel número dois, António Vitorino. Quanto ao caso Freeport, nada de novo excepto o especificado ataque ao Jornal Nacional de 6.ª na TVI. É também a primeira vez em décadas de democracia que sucede um ataque dum primeiro-ministro a um órgão de informação e sem desmentir uma única das suas notícias. Sócrates parece achar que responde politicamente às notícias e comentários sobre o caso lançando uma bateria de processos nos tribunais a cronistas e jornalistas, também sem paralelo na democracia portuguesa. Apenas confirma aversão à liberdade de informação e de expressão, característica política que tenho atribuído aqui a este poder desde 2005. Hoje está à vista de todos. Exemplifica-o a injustificada violência assumida na entrevista contra Judite de Sousa. Desta vez, ela fez diversas perguntas importantes (José Alberto Carvalho, o sempre-em-pé, limitou-se a seguir o rumo das perguntas da sua número dois na Direcção de Informação). Sócrates quase chegou a extremos de linguagem contra a jornalista. A expressão facial de Sousa revelou a tensão e o insólito de ter pela frente um primeiro-ministro agressivo como nunca se tinha visto desde o 25 de Abril. Ao incrível ataque de Sócrates, a TVI respondeu com uma declaração do seu director-geral, José Eduardo Moniz, defendendo a liberdade de expressão e opinião e afastando as pressões. A TVI e também Manuela Moura Guedes anunciaram processos judiciais contra Sócrates, o que é também inusitado em democracia. À primeira vista, parece a resposta adequada, mas seria preferível que deixassem Sócrates a falar sozinho nesta matéria. Sócrates será julgado em breve - pelos eleitores. A maioria absoluta já lhe fugiu há muito, falta saber se o PS ainda consegue chegar aos 30%. A entrevista mostrou aos portugueses Sócrates no ponto de não-retorno. Para mim a questão hoje é esta: quando começará o PS a movimentar-se em surdina para a escolha de um novo secretário-geral - antes ou depois das eleições para o Parlamento Europeu? Ou já terá começado? Quando Norma Desmond, no seu mundo irreal, proclama "Eu sou grande, os filmes é que se tornaram pequenos", faz-se silêncio na sala. E ninguém questiona a grande líder do ecrã quando ela desce a escadaria.»
Eduardo Cintra Torres, Público
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"PREPARAR O ÓRGÃO, POLIR A FUNÇÃO"
«Só num país adormecido é que se acha não só natural como positivo que o primeiro-ministro substitua nas entrevistas as respostas por "mensagens" repetidas ad nauseam e claras intimidações aos jornalistas (e convenientes processos em série que podem não ser vitoriosos mas complicam e muito a vida às pessoas visadas) para não tratarem dos temas proibidos, a começar pelo Freeport. O mesmo caso Freeport que permitiu a Mário Soares fazer um apelo à censura, sem qualquer sobressalto cívico de ninguém, ou a um secretário de estado invectivar a Ordem dos Notários, por tornar público o que é público (...). E mais: se houver uma deriva totalitária ela começará por aí, pela utilização destes novos instrumentos instalados por governantes yuppies sem respeito pelas liberdades, e para quem a palavra "indivíduo" é um anátema e o estado um dogma racional. Todas as comissões reguladoras, todas as "entidades", todas as múltiplas instâncias que nos deviam "proteger" da violação dos nossos dados, defendendo a nossa privacidade, acabarão por ser controladas pelo melhor método, pela escolha das pessoas certas para os lugares certos, pela crescente aprovação de leis que as tornam ineficazes, pela redução ao quixotesco, arcaico e pouco moderno dessas preocupações antiquadas com a liberdade contra a eficácia e comodismo das novas tecnologias. Neste 25 de Abril preocupa-me estarmos a construir a perfeita sociedade totalitária em plena democracia. A preparar o órgão, a polir a função.»
José Pacheco Pereira, Público
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"PREPARAR O ÓRGÃO, POLIR A FUNÇÃO"
«Só num país adormecido é que se acha não só natural como positivo que o primeiro-ministro substitua nas entrevistas as respostas por "mensagens" repetidas ad nauseam e claras intimidações aos jornalistas (e convenientes processos em série que podem não ser vitoriosos mas complicam e muito a vida às pessoas visadas) para não tratarem dos temas proibidos, a começar pelo Freeport. O mesmo caso Freeport que permitiu a Mário Soares fazer um apelo à censura, sem qualquer sobressalto cívico de ninguém, ou a um secretário de estado invectivar a Ordem dos Notários, por tornar público o que é público (...). E mais: se houver uma deriva totalitária ela começará por aí, pela utilização destes novos instrumentos instalados por governantes yuppies sem respeito pelas liberdades, e para quem a palavra "indivíduo" é um anátema e o estado um dogma racional. Todas as comissões reguladoras, todas as "entidades", todas as múltiplas instâncias que nos deviam "proteger" da violação dos nossos dados, defendendo a nossa privacidade, acabarão por ser controladas pelo melhor método, pela escolha das pessoas certas para os lugares certos, pela crescente aprovação de leis que as tornam ineficazes, pela redução ao quixotesco, arcaico e pouco moderno dessas preocupações antiquadas com a liberdade contra a eficácia e comodismo das novas tecnologias. Neste 25 de Abril preocupa-me estarmos a construir a perfeita sociedade totalitária em plena democracia. A preparar o órgão, a polir a função.»
José Pacheco Pereira, Público
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