"Vivemos dias de esperança e de crescente confiança." E de crescente lata, pelos vistos. A menos que não saiba nada de nada da vida das pessoas "normais" e das empresas "normais". O seu precário e pequenino reino definitivamente não é deste mundo.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
4.12.13
Depois do "alemão", o fantasma
Em matéria de secretários de Estado do Governo do "novo (e milagroso) ciclo", a coisa não é famosa. Depois do "alemão-sul-coreano" Maçães (honra lhe seja feita: sempre o ouvi, vi e li a defender estas "posições" sui generis), temos o dr. Joaquim Pedro Cardoso da Costa (junior) que, depois de abrilhantar os salões de Belém, subiu a um andar da Gomes Teixeira onde permanece praticamente incógnito. Como escreve, e pergunta, Feliciano Barreiras Duarte no i, «este Secretario de Estado, em oito meses, não acertou uma decisão. E só tem uma tutela. Até agora só estudou, adiou, cancelou e mais nada. GPTIC, Lojas do Cidadão, quiosques do cidadão e tudo o resto. Anunciar a poucos dias do final do ano que já não abre a loja do Terreiro do Paço é um erro. Afinal ele faz o quê?»
E a vida continua
Procurei, procurei e não encontrei um "fundo" para o "sucesso" de ontem que consistiu na operação do ginasticado e robusto empurrão (troca, swap) de dívida pública, a vencer por perto, uns anitos mais para a frente. Por "fundo" entendo os que permitiram o "sucesso" e os termos do "sucesso". O Manuel Rodrigues só fez de locutor entusiasmado. É que se, por exemplo, entre estes se encontram a banca nacional ou a segurança social, o "sucesso" tem forçosamente outra leitura e outros efeitos. Mas pelos vistos ninguém está interessado em buscar o "fundo" às questões ditas institucionais. Basta uma palavra mágica ou um número mágico - na circunstância "sucesso" e mais de 6 mil milhões -, a complacência preguiçosa dos media (excepção feita a Constança Cunha e Sá na tvi24) e a "garantia" de que ainda há muita gente para "abater" social, moral e profissionalmente, e a vida continua.
3.12.13
Bate certo
Este Rehn - uma espécie de exterminador implacável de qualquer língua que não a sua - é o "espelho" da Comissão da nossa "honra nacional", o inefável dr. Barroso. Bem pode o senhor vice pavonear-se pelas arábias para fugir ao frio e "colar-se", na fotografia, a investimentos privados de quem já lá anda há muito tempo. O sr. Rehn, com a delicadeza nórdica que o caracteriza, vai-se encarregando de nos pastorear por comando remoto e alivia-se quase todas as semanas em cima deste lugar infecto. É natural. Segundo Paul de Grauwe, ganhámos o concurso de beleza da austeridade o que, em "rehnês", significa que os portugueses finalmente "já não vivem acima das suas possibilidades". E também significa que só podemos "viver" como vivemos (estilo Oliver Stone em Platoon: «estamos na merda mas estamos vivos») graças a almas atentas, venerandas e obrigadas como este ajudante de Barroso. A conversa doméstica das "possibilidades" foi bem apreendida lá fora. Não admira, pois, que um secretário de Estado (e dos "assuntos europeus") seja tido por "alemão". Maçães, no fundo, é uma declinação de Rehn. Mais do que representar o Governo português, "representa" esta vigorosa semântica política que vem de fora para dentro, com a persistência de uma mosca varejeira, e que nos recorda a todo o instante a periferia que somos e da qual Macães foge como o diabo da cruz. Bate certo.
Discrição, dizem eles
O Tribunal Constitucional pediu discrição ao Governo. Mas o Governo lá arranjou uma maneira de pegar no assunto de cernelha e recorreu aos préstimos da hagiógrafa governamental mais qualificada para o efeito. O Pedro Lomba, ou o prof. Maduro, ainda têm de tombar muita panela até aspirarem chegar às unhas dos pés da eficaz Ângela e às gargantas de muita gente com quem se cruzam nos corredores.
2.12.13
Dúvidas
Quando escrevi este post, fui admoestado por quem de direito. Ainda hoje, e apesar de muito perguntar, não percebi o "porquê" da coisa. Por isso congratulo-me por ver um membro da comissão política nacional do PSD em vigor com as mesmas dúvidas que eu.
Os "mais aptos"
Li no último Expresso uma peça assinada por uma das mais notáveis hagiógrafas do "tempo que faz" em São Bento, Ângela Silva, que, no essencial, "descrevia" as agruras por que o Governo alegadamente terá de passar no primeiro semestre de 2014. Pelo meio, como de costume, a jornalista cita ministros, e "fontes" não identificadas, que cita entre aspas. Um ou uma delas, às tantas, refere-se às relações entre o poder actual e as oposições (partidos, rua, sindicatos, etc.) como uma disputa em que o "mais apto" (sic) triunfará. É claro que para a "fonte" o "mais apto" é o Governo com o seu extraordinário "programa de festas" para 2014. Não é a primeira vez que do Governo brotam estas pérolas "darwinistas" que, à míngua de qualquer "coordenação" política que se veja, transmitem uma ideia simples como as cabeças que a produzem. Com a ajuda preciosa de peças "jornalísticas" similares às de Ângela como se as "vítimas" do semestre que se avizinha não fossem as pessoas, a vida das pessoas, e não esta gente chica-esperta dita "mais apta". «Isto é uma guerra. Estamos em guerra com o tudo o que mexe fora de São Bento excluindo os pavões. Quem não é por nós, é contra nós. Um povo, um Estado mínimo, uma raça mais apta.» É mais ou menos isto, uma história velha sempre prontinha a ser servida fria.
1.12.13
O regresso clandestino do escudo*
"Para evitar a repetição da I Guerra e das cenas de 1940, Mitterrand resolveu exigir o euro, que teoricamente evitaria uma nova hegemonia de Berlim. Mal preparado e mal pensado, o euro levou em pouco tempo ao resultado contrário: ao empobrecimento dos países mais fracos, da própria França ao nosso pindérico Portugal, e estabeleceu a Alemanha como a única potência económica e financeira da região – o que não deixa de a consolar e satisfazer e a conduziu a um isolamento pacato e certamente feliz, que não quer ver perturbado pelas raças inferiores do Sul e os seus sarilhos. O acordo entre os socialistas do SPD e as tropas de Merkel revela bem o estado da Alemanha em 2013. O SPD conseguiu alguns limitados gestos a benefício da populaça mais pobre. Merkel conseguiu que não se mexesse no resto, nomeadamente na política europeia: nada de dívidas soberanas, nada de défices para esconder a miséria de cada um e, principalmente, nada de eurobonds para obrigar o contribuinte alemão a pagar a irresponsabilidade e a incúria de estranhos. O contribuinte alemão usará as suas poupanças para viver bem, embora modestamente, e para se passear no Verão por climas quentes, como de resto inteiramente merece. Do que Merkel mais gosta na Alemanha são janelas bem calafetadas. Chegou agora a altura de calafetar a Alemanha. Por aqui, nem a esquerda, nem a direita falaram disso. Continuam ainda em 1988."
Vasco Pulido Valente, Público
*O título do post é impropriamente sonegado a José Medeiros Ferreira. E o post à crónica de ontem de VPV. No "nosso pindérico Portugal", como Medeiros tem alertado, já vigoram duas moedas. A generalidade dos portugueses é pago numa - os portugueses dos cortes, do assédio fiscal e da declinante classe média - e o resto, o sistema financeiro e meia dúzia de felizardos, "circula" noutra. O que a Alemanha nos augura é pois, e de novo, uma mão cheia de nada e outra de juros por interpostas entidades credoras. Não é por acaso que o tesouro alemão se recomenda vivamente a si mesmo. Depois de Junho, e contrariamente ao que a propaganda diária e infantil designadamente do senhor vice nos quer fazer crer, as coisas mudam pouco. Entre outros aspectos menores que sobretudo se prendem connosco e com quem nos pastoreia, a Alemanha não muda. E isso faz toda a diferença para o regresso clandestino do escudo e para a manutenção da fatal pinderiquice. Com ou sem 1º de Dezembro para consolo dos crédulos que apreciam bacalhau com couves portuguesinhas pelo natal.
