Como o Augusto M. Seabra não tem link nem blogue, e com a devida vénia e amizade, furto-lhe um pedaço do seu artigo "O golpe anunciado em São Carlos", publicado no suplemento "6ª" do Diário de Notícias. Ao almoço, por mero acaso, discuti o assunto com uma amiga que acredita que o pai natal vive na Ajuda e, pior do que isso, durante todo o ano. Mário Vieira de Carvalho tem um "pensamento" para o teatro de ópera nacional? Terá. Basta ler o que tem escrito desde a célebre tese de doutoramento preparada na falecida RDA - justamente sobre o São Carlos - até coisas mais recentes, para perceber o que lhe vai na alma. Paolo Pinamonti está claramente fora desse "pensamento" e dessa "estratégia" como, num "momento Manuel Pinho", o "compositeur portugais" Emmanuel Nunes eloquentemente enunciou numa entrevista. Enquanto Carvalho por enquanto se cala, o génio Nunes encarregou-se de, por ele, "pôr a boca no trombone". O "nacionalismo", em matéria operática, costuma dar asneira. É que, ao contrário (para não ir mais longe) dos nossos vizinhos espanhóis, por cá só existe um (1) teatro de ópera. Julgo que dispensa o experimentalismo tardio do prof. Carvalho.
"A "fragatada" no Dona Maria foi apenas o começo da concentração programática e programada dos organismos artísticos no comissário geral Vieira de Carvalho. Na linguagem tecnocrática vigente, o Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE), deu-lhe outro instrumento. Subscrevo os objectivos deste governo, de esforço da contenção orçamental e de racionalização da administração pública. mas perante cegueiras como a da nova orgânica do Ministério da Cultura, o PS só pode dizer uma coisa: "Volta Manuela Ferreira Leite, estás perdoada". Entre extinções e fusões, agora muito mais drásticas, criam-se organismos monstruosos e inoperacionais. Como foi patente na entrevista de Vieira de Carvalho ao DN, a criação da Oparte, reunindo o São Carlos e a CNB, é mais outro passo para o que ele pormenoriza: o poder directamente em São Carlos. Desde apontar comparações com a Ópera de Paris, como se esta não tivesse dois teatros, e sobretudo como se ignorasse que um problema estrutural do São Carlos é a falta de sala de ensaios, até dizer que a Tetralogia em curso deverá ir ao Porto ao Coliseu (e por acaso já perguntou ao encenador se concorda, ou acha que Graham Vick é um serviçal?), que lá por ser uma zona de influência do favorito Jorge Vaz de Carvalho, não deixa de ser privado e fora das competências do ministério, nada falta para o golpe estar final: afastar um director artístico como Paolo Pinamonti para que o São Carlos seja finalmente conforme ao comissário geral, Mário Vieira de Carvalho"