Leio no Portugal Diário que o Eng. º Carmona Rodrigues pretende ver alargados os "poderes" da EMEL para além da área que fiscaliza. A PSP de Lisboa, ainda segundo aquele jornal digital, bem como os sindicatos da polícia, questionam esta "interferência" nos seus poderes de "autoridade". Lembro que a EMEL é uma empresa municipal cujo propósito principal é chatear os automobilistas de Lisboa. A sua face mais visível consiste em umas criaturas vestidas de branco e de verde, com um chapéu verde e uma máquina emissora de talões, que andam por toda a Lisboa a farejar viaturas "mal estacionadas" ou desprovidas de um papelinho que legitime o seu estacionamento num dos mais recônditos "parques" inventados pelo Dr. João Soares. Estas tenebrosas criaturas rivalizam com a polícia e com os "arrumadores" mal encarados na sublime tarefa de manter os automóveis quietinhos e em lugares "adequados". Para a completa perfeição do exercício, foram inventados uns objectos amarelos que se colocam nos automóveis "infractores", paralisando-os, até que cheguem as "autoridades" para os "desbloquear" e receber a conveniente multinha. Os EMEL's cumprem o sempre útil papel de "bufos" de serviço, levando os agentes delicadamente até ao delinquente condutor. Não me apetece perder tempo a estudar o que quer que seja que eventualmente legitime estes poderes discricionários e fascistas que a EMEL exerce sobre o parque automóvel que circula em Lisboa. Como sou terrivelmente urbano e entendo a utilização da viatura como algo instrumental que é suposto facilitar-me a vida sem prejudicar ninguém, incomoda-me saber que o presidente da Câmara gostaria que os seus pequenos tiranos alargassem substantivamente a sua pidesca tarefa ao ponto de rivalizarem com a "autoridade" verdadeiramente policial. Há dias o meu carro, estacionado por instantes numa obscura rua de Lisboa, foi "visitado" por uma tal "Cátia" da EMEL que lhe deixou um amável talão no valor de 150 euros no pára-brisas. Como a dita rua só tem praticamente armazéns e vários lugares disponíveis, suponho que deve ter sido algum "cidadão consciente" da zona quem terá chamado a atenção da diligente "Cátia" para a presença de um intruso nas imediações. É evidente que o intruso, selvagem e perigoso, deu de imediato o merecido destino ao talão da "Cátia". Se porventura eu tivesse tido a sorte de estacionar numa rua de "arrumadores" ou -e há por aí tantas e nos locais mais evidentes- onde as caixas dos talões horários estão convenientemente avariadas, não acontecia nada e a aventura custava-me um euro. Recuso-me por isso a contribuir para a engorda de uma empresa parapolicial como a EMEL, que ataca cobardemente pela calada do dia, sem dar a cara.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
4.10.04
O TALÃO
Leio no Portugal Diário que o Eng. º Carmona Rodrigues pretende ver alargados os "poderes" da EMEL para além da área que fiscaliza. A PSP de Lisboa, ainda segundo aquele jornal digital, bem como os sindicatos da polícia, questionam esta "interferência" nos seus poderes de "autoridade". Lembro que a EMEL é uma empresa municipal cujo propósito principal é chatear os automobilistas de Lisboa. A sua face mais visível consiste em umas criaturas vestidas de branco e de verde, com um chapéu verde e uma máquina emissora de talões, que andam por toda a Lisboa a farejar viaturas "mal estacionadas" ou desprovidas de um papelinho que legitime o seu estacionamento num dos mais recônditos "parques" inventados pelo Dr. João Soares. Estas tenebrosas criaturas rivalizam com a polícia e com os "arrumadores" mal encarados na sublime tarefa de manter os automóveis quietinhos e em lugares "adequados". Para a completa perfeição do exercício, foram inventados uns objectos amarelos que se colocam nos automóveis "infractores", paralisando-os, até que cheguem as "autoridades" para os "desbloquear" e receber a conveniente multinha. Os EMEL's cumprem o sempre útil papel de "bufos" de serviço, levando os agentes delicadamente até ao delinquente condutor. Não me apetece perder tempo a estudar o que quer que seja que eventualmente legitime estes poderes discricionários e fascistas que a EMEL exerce sobre o parque automóvel que circula em Lisboa. Como sou terrivelmente urbano e entendo a utilização da viatura como algo instrumental que é suposto facilitar-me a vida sem prejudicar ninguém, incomoda-me saber que o presidente da Câmara gostaria que os seus pequenos tiranos alargassem substantivamente a sua pidesca tarefa ao ponto de rivalizarem com a "autoridade" verdadeiramente policial. Há dias o meu carro, estacionado por instantes numa obscura rua de Lisboa, foi "visitado" por uma tal "Cátia" da EMEL que lhe deixou um amável talão no valor de 150 euros no pára-brisas. Como a dita rua só tem praticamente armazéns e vários lugares disponíveis, suponho que deve ter sido algum "cidadão consciente" da zona quem terá chamado a atenção da diligente "Cátia" para a presença de um intruso nas imediações. É evidente que o intruso, selvagem e perigoso, deu de imediato o merecido destino ao talão da "Cátia". Se porventura eu tivesse tido a sorte de estacionar numa rua de "arrumadores" ou -e há por aí tantas e nos locais mais evidentes- onde as caixas dos talões horários estão convenientemente avariadas, não acontecia nada e a aventura custava-me um euro. Recuso-me por isso a contribuir para a engorda de uma empresa parapolicial como a EMEL, que ataca cobardemente pela calada do dia, sem dar a cara.
3.10.04
PEQUENA CRÓNICA VENEZIANA
Há "políticos" que não perdem a noção indecifrável da beleza de certos mundos. Os Scritti Veneti que José Pacheco Pereira tem deixado cair no seu blogue, são um belo exemplo de como as palavras se podem deixar estimular, neste caso pelo permanente e luminoso crepúsculo que é Veneza. Também François Mitterrand, que escrevia maravilhosamente, tem uma pequena crónica veneziana no seu La Paile et le grain, um livro onde reuniu os trechos que publicou, até 1974, no órgão oficial do PS francês, L' Unité. Fica um excerto.
Venise se meurt. Dira-t-on bientôt que Venise est morte? Des splendeurs de Byzance reste la trace des cheveux et les vents du désert gouvernent Babylone. Porquoi plaindre Venise? On meurt aprés tout d'être né. Mais je ressens cette agonie comme un échec fondamental. Rien ne me trouble plus que la beauté. De quelles correspondances est-elle le signe? Quel monde revéle-t-elle où l'âme aurait accés? Que l'on puisse trembler de bonheur devant un nombre d'or, ligne d'un toit, cintre d'un arc, exacte mesure d'une colonne, que la couleur d'un mur auprés d'un autre mur, fatigue des ocres, brûlure des pourpres, blues délavés, vous force à rester là, vidè de pesanteur, que toute maison soit palais et tout palais navire, que toute pierre soit orgueil, toute église ornement, toute île Bucentaur, que la ville soit réminiscence, théâtre où l'acteur est songe, idée de Dieu, fête baroque, la beauté de Venise prouve d'abord que l'homme existe.
PEQUENA CRÓNICA VENEZIANA
Há "políticos" que não perdem a noção indecifrável da beleza de certos mundos. Os Scritti Veneti que José Pacheco Pereira tem deixado cair no seu blogue, são um belo exemplo de como as palavras se podem deixar estimular, neste caso pelo permanente e luminoso crepúsculo que é Veneza. Também François Mitterrand, que escrevia maravilhosamente, tem uma pequena crónica veneziana no seu La Paile et le grain, um livro onde reuniu os trechos que publicou, até 1974, no órgão oficial do PS francês, L' Unité. Fica um excerto.
Venise se meurt. Dira-t-on bientôt que Venise est morte? Des splendeurs de Byzance reste la trace des cheveux et les vents du désert gouvernent Babylone. Porquoi plaindre Venise? On meurt aprés tout d'être né. Mais je ressens cette agonie comme un échec fondamental. Rien ne me trouble plus que la beauté. De quelles correspondances est-elle le signe? Quel monde revéle-t-elle où l'âme aurait accés? Que l'on puisse trembler de bonheur devant un nombre d'or, ligne d'un toit, cintre d'un arc, exacte mesure d'une colonne, que la couleur d'un mur auprés d'un autre mur, fatigue des ocres, brûlure des pourpres, blues délavés, vous force à rester là, vidè de pesanteur, que toute maison soit palais et tout palais navire, que toute pierre soit orgueil, toute église ornement, toute île Bucentaur, que la ville soit réminiscence, théâtre où l'acteur est songe, idée de Dieu, fête baroque, la beauté de Venise prouve d'abord que l'homme existe.
BOM VENTO E BOM CASAMENTO
O presidente do governo espanhol, José Luis Zapatero, deu na passada sexta-feira uma interessante entrevista ao jornal Público. Quando a li, fiquei com a sensação de que, apesar da proximidade geográfica, continuamos bovinamente a milhas dos nossos vizinhos, como aliás sempre estivemos, mesmo com Franco. Não obstante os sorrisinhos e as amabilidades que fazem as "cimeiras ibéricas", desde Gonzalez a Zapatero, a verdade é que nós jamais conseguimos acompanhar o estonteante "ritmo" espanhol. Nem na alegria nos podemos equiparar, muito menos nas prioridades ou na qualidade de vida. Zapatero explicou que cerca de um quarto do orçamento de Estado é destinado à ciência. Para mudarmos o modelo de crescimento temos de ter mais laboratórios, mais títulos académicos e menos tijolos, disse ele. Lopes terá percebido? E não o preocupa ficar na história como um "grande líder político". Prefere antes ser conhecido como "um grande democrata". De facto, e no momento em que decorria a primeira "cimeira" com Santana, o país de Zapatero introduzia uma modificação legislativa impensável há uns anos na catolicíssima terra do macho taurino, aparentemente com ampla caução da actual sociedade espanhola. Eu subscrevo a ideia de que nem o código civil nem qualquer igreja têm o direito de interferir na minha concepção de família. Não são quatro ou cinco artigos espúrios da lei ou um sermão que devem determinar com quem é que cada um pode viver, dormir ou ser simplesmente feliz. De Espanha, finalmente, sopra bom vento e vem bom casamento.
BOM VENTO E BOM CASAMENTO
O presidente do governo espanhol, José Luis Zapatero, deu na passada sexta-feira uma interessante entrevista ao jornal Público. Quando a li, fiquei com a sensação de que, apesar da proximidade geográfica, continuamos bovinamente a milhas dos nossos vizinhos, como aliás sempre estivemos, mesmo com Franco. Não obstante os sorrisinhos e as amabilidades que fazem as "cimeiras ibéricas", desde Gonzalez a Zapatero, a verdade é que nós jamais conseguimos acompanhar o estonteante "ritmo" espanhol. Nem na alegria nos podemos equiparar, muito menos nas prioridades ou na qualidade de vida. Zapatero explicou que cerca de um quarto do orçamento de Estado é destinado à ciência. Para mudarmos o modelo de crescimento temos de ter mais laboratórios, mais títulos académicos e menos tijolos, disse ele. Lopes terá percebido? E não o preocupa ficar na história como um "grande líder político". Prefere antes ser conhecido como "um grande democrata". De facto, e no momento em que decorria a primeira "cimeira" com Santana, o país de Zapatero introduzia uma modificação legislativa impensável há uns anos na catolicíssima terra do macho taurino, aparentemente com ampla caução da actual sociedade espanhola. Eu subscrevo a ideia de que nem o código civil nem qualquer igreja têm o direito de interferir na minha concepção de família. Não são quatro ou cinco artigos espúrios da lei ou um sermão que devem determinar com quem é que cada um pode viver, dormir ou ser simplesmente feliz. De Espanha, finalmente, sopra bom vento e vem bom casamento.
2.10.04
OUTRA COISA
Enquanto decorre o congresso de Sócrates, alguém "soprou" ao "Expresso" que o PSD vai concorrer sozinho às eleições de 2006 e só depois, magnânimo, voltará a acoplar o braço direito do Dr. Portas no governo. Esta "notícia" é compreensível. Com Sócrates, o PS "social-democratiza-se" e o PSD "neoliberaliza-se". Com o eleitorado moderado e a classe média agastados com o desempenho da maioria liderada pelo "novo" PPD e com a perspectiva realística de os ver fugir de novo para o PS, era necessário dar um "sinal" de independência e de "integridade" políticas, recentrando o partido. Acontece que a simbiose com os "populares" já foi longe demais e Paulo Portas, quando se sentir ameaçado, encarregar-se-á delicadamente de a lembrar. Mesmo as últimas demonstrações de "autonomia" do PP- Guedes, a Madeira ou o Sr. Pires de Lima, o "presidido"- só acrescentam alguma coisa à realidade virtual. Nada mais. Ontem, à entrada para o congresso do PS, viu-se bem quem são os melhores aliados desta realidade. Com o seu paternalismo insuportável, Manuel Alegre fez o favor de aceitar a liderança de Sócrates, resmungando dois ou três lugares-comuns retóricos. Eu peço imensa desculpa, mas lá onde Pacheco Pereira viu outro dia "espessura", eu não consigo enxergar mais do que um palavroso deserto. À realidade virtual dos Drs. Santana e Portas convém indelevelmente este tipo de anulação política sumária. Ao país convém naturalmente outra coisa.
OUTRA COISA
Enquanto decorre o congresso de Sócrates, alguém "soprou" ao "Expresso" que o PSD vai concorrer sozinho às eleições de 2006 e só depois, magnânimo, voltará a acoplar o braço direito do Dr. Portas no governo. Esta "notícia" é compreensível. Com Sócrates, o PS "social-democratiza-se" e o PSD "neoliberaliza-se". Com o eleitorado moderado e a classe média agastados com o desempenho da maioria liderada pelo "novo" PPD e com a perspectiva realística de os ver fugir de novo para o PS, era necessário dar um "sinal" de independência e de "integridade" políticas, recentrando o partido. Acontece que a simbiose com os "populares" já foi longe demais e Paulo Portas, quando se sentir ameaçado, encarregar-se-á delicadamente de a lembrar. Mesmo as últimas demonstrações de "autonomia" do PP- Guedes, a Madeira ou o Sr. Pires de Lima, o "presidido"- só acrescentam alguma coisa à realidade virtual. Nada mais. Ontem, à entrada para o congresso do PS, viu-se bem quem são os melhores aliados desta realidade. Com o seu paternalismo insuportável, Manuel Alegre fez o favor de aceitar a liderança de Sócrates, resmungando dois ou três lugares-comuns retóricos. Eu peço imensa desculpa, mas lá onde Pacheco Pereira viu outro dia "espessura", eu não consigo enxergar mais do que um palavroso deserto. À realidade virtual dos Drs. Santana e Portas convém indelevelmente este tipo de anulação política sumária. Ao país convém naturalmente outra coisa.
1.10.04
O ÍMPETO DO BETÃO
O primeiro-ministro arrastou o seu governo até Coimbra. De acordo com a doutrina oficial, estas viagens visam demonstrar o apego do executivo pela "descentralização". Ninguém, porém, acredita seriamente que as parcas horas que estes turistas acidentais passam fora de Lisboa se destinam a ruminar profundas decisões para o futuro da pátria. Tudo vai antecipadamente preparado para que o cenário bucólico, arranjado algures na província, seja o bastidor dos anúncios. A míngua de ideias e de dinheiro predispôe ao recurso inevitável ao betão. Mexia, o ministro do betão, deu umas confusas explicações acerca das SCUTS. De quem paga, de quem não paga, a partir de quantos metros de auto-estrada paga ou não paga, onde é que paga e não paga, como é que paga ou não paga, se tem "via verde" ou se se acaba com a "via verde" e por aí adiante. Suspeito que os "locais", putativos "utilizadores", não perceberam nada daquilo tal como eu não percebi. Lopes guardou-se para uma inauguração de mais uns metros de estrada e para prometer mais metros de estrada. Os seus magníficos autarcas começaram imediatamente a ranger os dentes. Eles gostam do betão, mas não suportam ter de o pagar. Entretanto, um dos seus secretários de Estado "deslocalizados", Amaral Lopes, dos "bens culturais", há 3 meses que está praticamente inactivo por falta de "local" de trabalho em Évora. O máximo que conseguiu foi arrendar uma casita para si próprio. Os "bens culturais" não "vendem" tão bem como uma estrada. E Coimbra foi apenas mais um rito de passagem no acaso que é a vida deste governo já entregue, como os demais, ao ímpeto fácil do betão.
O ÍMPETO DO BETÃO
O primeiro-ministro arrastou o seu governo até Coimbra. De acordo com a doutrina oficial, estas viagens visam demonstrar o apego do executivo pela "descentralização". Ninguém, porém, acredita seriamente que as parcas horas que estes turistas acidentais passam fora de Lisboa se destinam a ruminar profundas decisões para o futuro da pátria. Tudo vai antecipadamente preparado para que o cenário bucólico, arranjado algures na província, seja o bastidor dos anúncios. A míngua de ideias e de dinheiro predispôe ao recurso inevitável ao betão. Mexia, o ministro do betão, deu umas confusas explicações acerca das SCUTS. De quem paga, de quem não paga, a partir de quantos metros de auto-estrada paga ou não paga, onde é que paga e não paga, como é que paga ou não paga, se tem "via verde" ou se se acaba com a "via verde" e por aí adiante. Suspeito que os "locais", putativos "utilizadores", não perceberam nada daquilo tal como eu não percebi. Lopes guardou-se para uma inauguração de mais uns metros de estrada e para prometer mais metros de estrada. Os seus magníficos autarcas começaram imediatamente a ranger os dentes. Eles gostam do betão, mas não suportam ter de o pagar. Entretanto, um dos seus secretários de Estado "deslocalizados", Amaral Lopes, dos "bens culturais", há 3 meses que está praticamente inactivo por falta de "local" de trabalho em Évora. O máximo que conseguiu foi arrendar uma casita para si próprio. Os "bens culturais" não "vendem" tão bem como uma estrada. E Coimbra foi apenas mais um rito de passagem no acaso que é a vida deste governo já entregue, como os demais, ao ímpeto fácil do betão.
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