
"João Paulo II tem tido a coragem de dizer que não há "direito à felicidade", sendo esta a consequência dos nossos comportamentos e não a consequência dos nossos "desejos" e inclinações", escreveu Vitor Cunha Rego em Os Dias de Amanhã. E continuava. "João Paulo II continua a pregar no meio do barulho ensurdecedor do materialismo de tantos chefes de Estado e de Governos e que procuram dar-nos deste mundo a imagem do sucesso e da Disneylândia. João Paulo II é para os leigos e laicos, uma personagem histórica discutível. Mas ninguém ousará negar que traz no rosto as marcas da luta pelas suas ideias de salvação do mundo. O Papa defende, em muitos casos, valores absolutos e dogmas. O tempo dirá se seria essa a sua obrigação". Conhecemos a devoção que Wotjila dedicava a Fátima e ao culto mariano. Os livros da Aura Miguel explicam-no perfeitamente. E lembramo-nos das suas três visitas a Portugal, nesta ocasião, como "peregrino entre peregrinos". Daquela terrível fragilidade humana dos últimos anos sobrou indiscutivelmente uma força interior que perdura e a que os milhares de peregrinos de Fátima continuam a dar um sentido inexplicável. Se substituir o nome de João Paulo II pelo de Bento XVI, as palavras de Cunha Rego permanecem ferozmente válidas. A reflexão de Ratzinger acerca de Fátima significa que, no meio das "multidões de solitários mergulhados num barulho apregoado de progresso", persiste uma ténue luz que brilha. "Desse lugar foi lançado um sinal severo, que investe contra a falta de reflexão reinante, um apelo à seriedade da vida e da história, uma recordação dos perigos que pairam sobre a humanidade. É o que o próprio Jesus lembra muitíssimas vezes, não temendo dizer: "Se não vos converterdes, perecereis todos" (Lc 13,3). A conversão - e Fátima recorda-o plenamente - é uma exigência perene da vida cristã." A presença de uma multidão em Fátima - este ano associada à passagem do 90º aniversário das aparições - indistinta na sua composição social, política ou cultural, corresponde a uma atracção sem nome. Ela confere, no entanto, um sentido permanente às primeiras palavras do pontificado de João Paulo II: "não tenhais medo, abri o vosso coração a Cristo". E a Sua Mãe, Maria, Nossa Senhora de Fátima.