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30.4.13

Snobe e amigo


 


A Lourdes Féria recorda Richard Rorty. «Só agora me apeteceu ler "Trotsky and the Wild Orchids", um breve ensaio transbordante de inteligência e humor de Richard Rorty (1931-2007) que buscava um caminho para ser um intelectual snobe e um amigo da humanidade. "...If there is anything to the idea that the best intellectual position is one which is attacked with equal vigour from the political right and the political left, then I am in good shape...."» É isso, Lourdes.

7.8.09

«TENTAR ENCARAR A COISA FILOSOFICAMENTE»


«Anda para aí um gajo, pá, que virou-se para outro e disse assim: pá, bora discutir a obra toda do Rorty? E um gajo aqui pensa: hã? Ao menos, podia ser a do Coleridge, do Kleist, do Strindberg, pronto, pá, ou uns excertos do Eça, do Carducci, do Sterne, vá. Se o gajo mesmo assim fizesse birra, pronto, a gente dava Ockham ao menino, um niquinho de Bergson, que a obra toda dava-me muito trabalho agora ir ler (que raio de língua é esta?).(?) Melhor: dizia-se assim, doutor - só me dá vontade de rir -, vomite aí o Hegel ou a theory of comunicative action (em inglês, a língua de Platão, Malebranche e Schiller), ou lá o que era aquilo, do Habermas, para a gente rir mais um bocadinho e adormecer. Isto era tudo muito giro, não fosse o gajo dizer: a malta não é imbecil. Lá agora. Ocorreu-me que esta nabiça mandou a boca da virtude àquele balofo de barbas, o Aristóteles explica e não sei quê; ora, que eu saiba, e sabe Deus que eu nunca li nadinha do Aristóteles, a gente para dizer uma coisa destas tem de ler o Homero todo, e, já que estão todos se cagando para o Teógnis e para o Píndaro, o Platão todo. Porque, como qualquer leitura desatenta da Ética ao Nico, da Política, dos Analíticos Posteriores e das coisas que o Platão escreveu demonstra, o pensamento destas duas alminhas assenta na ética aristocrática da Grécia arcaica e a palavra certa não é "virtude", mas "arete". E, para isso, ignorante dum cabrão, não é preciso ir ler o Aristóteles; basta olhar para Aquiles.»

«TENTAR ENCARAR A COISA FILOSOFICAMENTE»


«Anda para aí um gajo, pá, que virou-se para outro e disse assim: pá, bora discutir a obra toda do Rorty? E um gajo aqui pensa: hã? Ao menos, podia ser a do Coleridge, do Kleist, do Strindberg, pronto, pá, ou uns excertos do Eça, do Carducci, do Sterne, vá. Se o gajo mesmo assim fizesse birra, pronto, a gente dava Ockham ao menino, um niquinho de Bergson, que a obra toda dava-me muito trabalho agora ir ler (que raio de língua é esta?).(?) Melhor: dizia-se assim, doutor - só me dá vontade de rir -, vomite aí o Hegel ou a theory of comunicative action (em inglês, a língua de Platão, Malebranche e Schiller), ou lá o que era aquilo, do Habermas, para a gente rir mais um bocadinho e adormecer. Isto era tudo muito giro, não fosse o gajo dizer: a malta não é imbecil. Lá agora. Ocorreu-me que esta nabiça mandou a boca da virtude àquele balofo de barbas, o Aristóteles explica e não sei quê; ora, que eu saiba, e sabe Deus que eu nunca li nadinha do Aristóteles, a gente para dizer uma coisa destas tem de ler o Homero todo, e, já que estão todos se cagando para o Teógnis e para o Píndaro, o Platão todo. Porque, como qualquer leitura desatenta da Ética ao Nico, da Política, dos Analíticos Posteriores e das coisas que o Platão escreveu demonstra, o pensamento destas duas alminhas assenta na ética aristocrática da Grécia arcaica e a palavra certa não é "virtude", mas "arete". E, para isso, ignorante dum cabrão, não é preciso ir ler o Aristóteles; basta olhar para Aquiles.»

11.4.09

MAIS POSSIBILIDADES DE LIBERDADE COM MENOS SOFRIMENTO GERAL


«Em Contingência, Ironia e Solidariedade, Rorty (...) prefere a diversidade wittgensteiniana, a sucessão contingente de teorias, vocabulários, sociedades, formas de vida, prefere a leitura genealógica do devir, de Nietzsche, às tentativas de ver essa sucessão como processo de aproximação relativamente a uma verdade ou a uma finalidade (ou, na mesma perspectiva, como alienação relativamente a essa verdade ou finalidade). Assim, quando Rorty defende o ideal liberal de sociedade (na acepção que Rorty colhe de Judith Shklar, a saber que "os liberais são as pessoas que pensam que a crueldade é a pior coisa que podemos fazer"), não o legitima através de qualquer necessidade intrínseca (no que se demarca, por exemplo, de Habermas); defende-o porque entende tratar-se do modelo que, até à data, oferece mais possibilidades de liberdade com menos sofrimento geral (no que se opõe a Foucault) e que, de resto, permite a existência de intelectuais "ironistas".»

Nuno Fonseca, tradutor de um dos meus livros preferidos

MAIS POSSIBILIDADES DE LIBERDADE COM MENOS SOFRIMENTO GERAL


«Em Contingência, Ironia e Solidariedade, Rorty (...) prefere a diversidade wittgensteiniana, a sucessão contingente de teorias, vocabulários, sociedades, formas de vida, prefere a leitura genealógica do devir, de Nietzsche, às tentativas de ver essa sucessão como processo de aproximação relativamente a uma verdade ou a uma finalidade (ou, na mesma perspectiva, como alienação relativamente a essa verdade ou finalidade). Assim, quando Rorty defende o ideal liberal de sociedade (na acepção que Rorty colhe de Judith Shklar, a saber que "os liberais são as pessoas que pensam que a crueldade é a pior coisa que podemos fazer"), não o legitima através de qualquer necessidade intrínseca (no que se demarca, por exemplo, de Habermas); defende-o porque entende tratar-se do modelo que, até à data, oferece mais possibilidades de liberdade com menos sofrimento geral (no que se opõe a Foucault) e que, de resto, permite a existência de intelectuais "ironistas".»

Nuno Fonseca, tradutor de um dos meus livros preferidos

5.7.08

ESPERANÇA, GRATIDÃO E CARIDADE

O livro da foto, da Angelus Novus, inclui dois ensaios, um de Richard Rorty e outro de Gianni Vattimo, e um "apêndice", que contém uma "conversa" inteligente sobre, no fundo, os préstimos da religião (a católica fundamentalmente) num mundo dominado pela contingência. Vattimo é católico, um "meio crente" na sua expressão, e Rorty era alguém que considerava mais decisivos os eventos doutrinários e revolucionários dos finais do século XVIII do que propriamente a distinção entre "a.C" e "d.C". Para Vattimo, "o niilismo pós-moderno é a verdade do cristianismo", um niilismo manifestado no escândalo da Cruz e na "encarnação". Livro de diálogo - tanto quanto possa haver "diálogo" dentro da cultura em vez de meras "solidões" que por vezes se encontram para falar -, O Futuro da Religião deve ser lido juntamente com as encíclicas de Bento XVI, Deus Caritas Est e Spe Salvi, e com a "lição de Ratisbona" sobre a fé e a razão. «Mal procuramos dar-nos conta da nossa condição existencial, que nunca é genérica, metafísica, mas sempre histórica e concreta, descobrimos que não nos podemos colocar fora da tradição aberta pelo anúncio de Cristo.» Rorty diria que isto corresponde a uma "gratidão injustificável" tal como, para ele, a "social hope", a "marca" da sua obra, é uma "esperança injustificável". Esta "diferença" faz com que Rorty e Vattimo, nas palavras do primeiro, "não entrem em conflito". E que se produzam livros admiráveis como este.

ESPERANÇA, GRATIDÃO E CARIDADE

O livro da foto, da Angelus Novus, inclui dois ensaios, um de Richard Rorty e outro de Gianni Vattimo, e um "apêndice", que contém uma "conversa" inteligente sobre, no fundo, os préstimos da religião (a católica fundamentalmente) num mundo dominado pela contingência. Vattimo é católico, um "meio crente" na sua expressão, e Rorty era alguém que considerava mais decisivos os eventos doutrinários e revolucionários dos finais do século XVIII do que propriamente a distinção entre "a.C" e "d.C". Para Vattimo, "o niilismo pós-moderno é a verdade do cristianismo", um niilismo manifestado no escândalo da Cruz e na "encarnação". Livro de diálogo - tanto quanto possa haver "diálogo" dentro da cultura em vez de meras "solidões" que por vezes se encontram para falar -, O Futuro da Religião deve ser lido juntamente com as encíclicas de Bento XVI, Deus Caritas Est e Spe Salvi, e com a "lição de Ratisbona" sobre a fé e a razão. «Mal procuramos dar-nos conta da nossa condição existencial, que nunca é genérica, metafísica, mas sempre histórica e concreta, descobrimos que não nos podemos colocar fora da tradição aberta pelo anúncio de Cristo.» Rorty diria que isto corresponde a uma "gratidão injustificável" tal como, para ele, a "social hope", a "marca" da sua obra, é uma "esperança injustificável". Esta "diferença" faz com que Rorty e Vattimo, nas palavras do primeiro, "não entrem em conflito". E que se produzam livros admiráveis como este.

13.6.07

RICHARD RORTY (1931-2007)


Veio a Portugal pela mão de Manuel Maria Carrilho. Está traduzido na Asa (um livro colectivo sobre o pragmatismo), nas Edições Piaget (péssimas traduções), na Presença (o excelente Contingência, Ironia e Solidariedade) e na Dom Quixote (A Filosofia e o Espelho da Natureza). Richard Rorty seria o equivalente ao filósofo social-democrata "ideal", se tal categoria existisse. O seu conceito de liberalismo nada tem a ver - como o liberalismo norte-americano, em geral, aliás - com o que passa por tal no "continente" e, muito menos, com o tosco "liberalismo" doméstico que nem sequer "doutrina" possui, apesar dos muitos "liberais" de pacotilha das revistas, dos blogues, dos jornais e da "academia". "A ideia de uma componente humana central e universal chamada "razão", faculdade que seria a fonte das nossas obrigações morais, embora tenha sido muito útil na criação das sociedades democráticas modernas, é agora uma ideia que podemos dispensar. As nossas responsabilidades para com os outros constituem apenas o lado público da nossa vida, lado que se encontra em concorrência com as nossas afecções privadas e com as nossas tentativas privadas de autocriação e que não tem nenhuma prioridade automática sobre esses motivos privados." Fim de citação.

RICHARD RORTY (1931-2007)


Veio a Portugal pela mão de Manuel Maria Carrilho. Está traduzido na Asa (um livro colectivo sobre o pragmatismo), nas Edições Piaget (péssimas traduções), na Presença (o excelente Contingência, Ironia e Solidariedade) e na Dom Quixote (A Filosofia e o Espelho da Natureza). Richard Rorty seria o equivalente ao filósofo social-democrata "ideal", se tal categoria existisse. O seu conceito de liberalismo nada tem a ver - como o liberalismo norte-americano, em geral, aliás - com o que passa por tal no "continente" e, muito menos, com o tosco "liberalismo" doméstico que nem sequer "doutrina" possui, apesar dos muitos "liberais" de pacotilha das revistas, dos blogues, dos jornais e da "academia". "A ideia de uma componente humana central e universal chamada "razão", faculdade que seria a fonte das nossas obrigações morais, embora tenha sido muito útil na criação das sociedades democráticas modernas, é agora uma ideia que podemos dispensar. As nossas responsabilidades para com os outros constituem apenas o lado público da nossa vida, lado que se encontra em concorrência com as nossas afecções privadas e com as nossas tentativas privadas de autocriação e que não tem nenhuma prioridade automática sobre esses motivos privados." Fim de citação.