
«Em Contingência, Ironia e Solidariedade, Rorty (...) prefere a diversidade wittgensteiniana, a sucessão contingente de teorias, vocabulários, sociedades, formas de vida, prefere a leitura genealógica do devir, de Nietzsche, às tentativas de ver essa sucessão como processo de aproximação relativamente a uma verdade ou a uma finalidade (ou, na mesma perspectiva, como alienação relativamente a essa verdade ou finalidade). Assim, quando Rorty defende o ideal liberal de sociedade (na acepção que Rorty colhe de Judith Shklar, a saber que "os liberais são as pessoas que pensam que a crueldade é a pior coisa que podemos fazer"), não o legitima através de qualquer necessidade intrínseca (no que se demarca, por exemplo, de Habermas); defende-o porque entende tratar-se do modelo que, até à data, oferece mais possibilidades de liberdade com menos sofrimento geral (no que se opõe a Foucault) e que, de resto, permite a existência de intelectuais "ironistas".»
Nuno Fonseca, tradutor de um dos meus livros preferidos