2.6.06

DIAS DE CÃO


O PSD quer instituir o "dia do cão". Não é manifestamente uma prioridade nacional que deva ocupar a oposição. Antes Timor, a bola e o sr. Monteiro de Barros, por exemplo. Todavia, se há dias para tudo, por que é que não há-de haver um dia para o fiel amigo? Podem crer que prefiro o meu cão a muitos animais de quatro patas e "inteligentes" que conheço. E não percebo tanto incómodo num país em que não há dia nenhum que não seja de cão.

DIAS DE CÃO


O PSD quer instituir o "dia do cão". Não é manifestamente uma prioridade nacional que deva ocupar a oposição. Antes Timor, a bola e o sr. Monteiro de Barros, por exemplo. Todavia, se há dias para tudo, por que é que não há-de haver um dia para o fiel amigo? Podem crer que prefiro o meu cão a muitos animais de quatro patas e "inteligentes" que conheço. E não percebo tanto incómodo num país em que não há dia nenhum que não seja de cão.

LER OS OUTROS

LER OS OUTROS

REGRESSOS


Regressei, pela terceira vez, até ao "exército de trevas" do nibelungo Alberich, genialmente interpretado por Johann Werner Prein. É sobre ele que incide a encenação de Graham Vick a que fiz referência mais atrás. O São Carlos conseguiu, com esta produção, recuperar a tradição da tragédia clássica - pela disposição da sala - e envolver verdadeiramente o público no espectáculo. Apesar do tom satírico da versão construída por Vick - que é bem cantada por todos os intérpretes com a provável excepção de Wotan/Stefan Ignat e competentemente dirigida por Emilio Pomàrico-, a "mensagem" do Ouro do Reno é tremenda quando enunciada pelas vozes de Alberich e de Erda, a futura "mãe" das valquírias da "primeira jornada" de O Anel do Nibelungo. Não é, pois, vulgar assistir a tamanha adesão da "nossa" audiência a esta obra de Richard Wagner que, toda somada, representa mais de vinte e quatro horas de música. Até Maria Cavaco Silva - cidadã que deixei de ver em São Carlos desde que o marido abandonou S. Bento, em 1995 - estava extasiada com a sessão. De facto, o poder é afrodisíaco, como se deduz do texto de Wagner. Maria Cavaco Silva, esposa do PR, é a prova viva de que, afinal, nem tudo o que existe tem um fim. Welcome back.

REGRESSOS


Regressei, pela terceira vez, até ao "exército de trevas" do nibelungo Alberich, genialmente interpretado por Johann Werner Prein. É sobre ele que incide a encenação de Graham Vick a que fiz referência mais atrás. O São Carlos conseguiu, com esta produção, recuperar a tradição da tragédia clássica - pela disposição da sala - e envolver verdadeiramente o público no espectáculo. Apesar do tom satírico da versão construída por Vick - que é bem cantada por todos os intérpretes com a provável excepção de Wotan/Stefan Ignat e competentemente dirigida por Emilio Pomàrico-, a "mensagem" do Ouro do Reno é tremenda quando enunciada pelas vozes de Alberich e de Erda, a futura "mãe" das valquírias da "primeira jornada" de O Anel do Nibelungo. Não é, pois, vulgar assistir a tamanha adesão da "nossa" audiência a esta obra de Richard Wagner que, toda somada, representa mais de vinte e quatro horas de música. Até Maria Cavaco Silva - cidadã que deixei de ver em São Carlos desde que o marido abandonou S. Bento, em 1995 - estava extasiada com a sessão. De facto, o poder é afrodisíaco, como se deduz do texto de Wagner. Maria Cavaco Silva, esposa do PR, é a prova viva de que, afinal, nem tudo o que existe tem um fim. Welcome back.

1.6.06

LER OS OUTROS


"O coro das virgens", de Eduardo Pitta. E no "Porque", do André Moura e Cunha, vários posts sobre Paul Auster, o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras de 2006.

LER OS OUTROS


"O coro das virgens", de Eduardo Pitta. E no "Porque", do André Moura e Cunha, vários posts sobre Paul Auster, o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras de 2006.

NÃO VALE A PENA


Lembram-se da velha treta da "reforma das mentalidades", tão justamente perseguida pela "nata" da nossa intelectualidade e por alguns políticos mais afoitos? António Sérgio, preocupado com a "educação" do seu povo, recorria amiúde à expressão para demonstrar que, sem a dita "reforma", não íamos a lado nenhum. De caminho, batia como podia no dr. Salazar que era manifestamente o obstáculo maior à tal "reforma". Depois do 25 de Abril praticamente toda a gente recorreu ao tema em escritos, comícios, varandas e no parlamento. O General Eanes, então, raramente se privava de acenar com a "reforma", numa fase em que ainda não tinha substituído Sérgio por Unamuno e Ortega y Gasset. Com a passagem do tempo, foi-se tornando evidente que o "povo" não pretendia ver a sua mentalidade "reformada", bem pelo contrário. Os portugueses nunca foram, aliás, conhecidos pela sua subtileza nem pela sua sofisticação. A democracia limitou-se a agravar a coisa já que, por natureza, é o regime benigno da vulgaridade. Agora o governo inventou um "plano nacional de leitura" para "o desenvolvimento de competências nos domínios da leitura e da escrita" e para combater os "preocupantes níveis de iliteracia" da pátria. Como não podia deixar de ser, o "plano" tem uma "comissão de honra", sob o alto patrocínio do Senhor Presidente da República, onde o regime está todo representado, desde Figo - um reputado amante da leitura - até ao Nobel propriamente dito, o sr. Saramago. Banqueiros, sociólogos, "escritores", luminárias das nossas universidades, políticos no activo ou inactivos, enfim, tudo o que a democracia foi parindo ao longo destes trinta e tal anos, lá consta. Têm o "plano" e , presume-se, a dita "comissão de honra", dez anos para dar a volta à questão. É claro que nada se irá passar. Não é preciso ser medianamente esclarecido - e a "comissão de honra" é, decerto, superiormente esclarecida - para saber que jamais se "reforma" alguém ou se induzem hábitos de leitura contra a vontade do próprio. Não me parece que seja crime - e aí concordo com o sr. Saramago - não ler. Eu também não gosto de futebol. A "qualificação" não se mete dentro da cabeça das pessoas à força e, muito menos, convocando as pseudo-elites nacionais para o fazer. Ninguém lhes liga nenhuma e, quando muito, as criaturas a "reformar" poderão limitar-se a pedir um autógrafo ao Figo. Os analfabetos simples e os funcionais não deixarão de o ser por causa desta parada inerme de "estrelas". Daqui a dez anos, outros estarão no lugar dos actuais ministros e dos bonzos da "comissão", também a clamar pela "reforma das mentalidades". Juro, não vale a pena.

Nota: Este post podia ter sido escrito para o Independente. Digo "podia" porque a Inês Serra Lopes remodelou o jornal a semana passada e, pelos vistos, decidiu "remodelar-me" a mim também, sem aviso prévio. Todavia fico-lhe grato pelos meses em que permitiu, nas "Independências" agora desaparecidas, que eu ali escrevesse. Foi, em todos os sentidos do termo, uma experiência graciosa.

NÃO VALE A PENA


Lembram-se da velha treta da "reforma das mentalidades", tão justamente perseguida pela "nata" da nossa intelectualidade e por alguns políticos mais afoitos? António Sérgio, preocupado com a "educação" do seu povo, recorria amiúde à expressão para demonstrar que, sem a dita "reforma", não íamos a lado nenhum. De caminho, batia como podia no dr. Salazar que era manifestamente o obstáculo maior à tal "reforma". Depois do 25 de Abril praticamente toda a gente recorreu ao tema em escritos, comícios, varandas e no parlamento. O General Eanes, então, raramente se privava de acenar com a "reforma", numa fase em que ainda não tinha substituído Sérgio por Unamuno e Ortega y Gasset. Com a passagem do tempo, foi-se tornando evidente que o "povo" não pretendia ver a sua mentalidade "reformada", bem pelo contrário. Os portugueses nunca foram, aliás, conhecidos pela sua subtileza nem pela sua sofisticação. A democracia limitou-se a agravar a coisa já que, por natureza, é o regime benigno da vulgaridade. Agora o governo inventou um "plano nacional de leitura" para "o desenvolvimento de competências nos domínios da leitura e da escrita" e para combater os "preocupantes níveis de iliteracia" da pátria. Como não podia deixar de ser, o "plano" tem uma "comissão de honra", sob o alto patrocínio do Senhor Presidente da República, onde o regime está todo representado, desde Figo - um reputado amante da leitura - até ao Nobel propriamente dito, o sr. Saramago. Banqueiros, sociólogos, "escritores", luminárias das nossas universidades, políticos no activo ou inactivos, enfim, tudo o que a democracia foi parindo ao longo destes trinta e tal anos, lá consta. Têm o "plano" e , presume-se, a dita "comissão de honra", dez anos para dar a volta à questão. É claro que nada se irá passar. Não é preciso ser medianamente esclarecido - e a "comissão de honra" é, decerto, superiormente esclarecida - para saber que jamais se "reforma" alguém ou se induzem hábitos de leitura contra a vontade do próprio. Não me parece que seja crime - e aí concordo com o sr. Saramago - não ler. Eu também não gosto de futebol. A "qualificação" não se mete dentro da cabeça das pessoas à força e, muito menos, convocando as pseudo-elites nacionais para o fazer. Ninguém lhes liga nenhuma e, quando muito, as criaturas a "reformar" poderão limitar-se a pedir um autógrafo ao Figo. Os analfabetos simples e os funcionais não deixarão de o ser por causa desta parada inerme de "estrelas". Daqui a dez anos, outros estarão no lugar dos actuais ministros e dos bonzos da "comissão", também a clamar pela "reforma das mentalidades". Juro, não vale a pena.

Nota: Este post podia ter sido escrito para o Independente. Digo "podia" porque a Inês Serra Lopes remodelou o jornal a semana passada e, pelos vistos, decidiu "remodelar-me" a mim também, sem aviso prévio. Todavia fico-lhe grato pelos meses em que permitiu, nas "Independências" agora desaparecidas, que eu ali escrevesse. Foi, em todos os sentidos do termo, uma experiência graciosa.