6.10.04

O CADAVEROSO REINO DA ESTUPIDEZ

"Por direito divino e por humano / Creio que deve ser restituída / À grande Estupidez a dignidade / Que nesta Academia gozou sempre./ (...) Ponhamos como dantes estas coisas / Em seu antigo ser; como bons filhos / Recebamos a nossa Protetora / O que foi sempre seu, em paz governe". Este poema de Francisco de Melo Franco, do século XVIII, ilustra bem o presente estado de "sul-americanização" dos nossos "costumes" políticos. O inevitável declínio deste "regime", cada vez mais próximo de um "cadaveroso reino da estupidez" (Ribeiro Sanches), tem lugar, como sempre teve, às mãos dos seus mais insignificantes epígonos e com o beneplácito de uma habitual mão cheia de idiotas úteis. O silêncio voluntário ou involuntário de Marcelo vai soar bem mais alto do que toda a berraria junta da oposição. Convém, pois, não esquecer este 6 de Outubro e lembrar as palavras de um fidalgo português, D. Luís da Cunha, em 1735: "o procedimento da Inquisição, em lugar de extirpar o Judaísmo, o multiplica. E Fr. Domingos de Santo Tomás, deputado do Santo Ofício, costumava dizer que assim como na Calcetaria havia uma casa onde se fazia moeda, no Rossio havia outra em que se faziam Judeus".

O CADAVEROSO REINO DA ESTUPIDEZ

"Por direito divino e por humano / Creio que deve ser restituída / À grande Estupidez a dignidade / Que nesta Academia gozou sempre./ (...) Ponhamos como dantes estas coisas / Em seu antigo ser; como bons filhos / Recebamos a nossa Protetora / O que foi sempre seu, em paz governe". Este poema de Francisco de Melo Franco, do século XVIII, ilustra bem o presente estado de "sul-americanização" dos nossos "costumes" políticos. O inevitável declínio deste "regime", cada vez mais próximo de um "cadaveroso reino da estupidez" (Ribeiro Sanches), tem lugar, como sempre teve, às mãos dos seus mais insignificantes epígonos e com o beneplácito de uma habitual mão cheia de idiotas úteis. O silêncio voluntário ou involuntário de Marcelo vai soar bem mais alto do que toda a berraria junta da oposição. Convém, pois, não esquecer este 6 de Outubro e lembrar as palavras de um fidalgo português, D. Luís da Cunha, em 1735: "o procedimento da Inquisição, em lugar de extirpar o Judaísmo, o multiplica. E Fr. Domingos de Santo Tomás, deputado do Santo Ofício, costumava dizer que assim como na Calcetaria havia uma casa onde se fazia moeda, no Rossio havia outra em que se faziam Judeus".

POLÍTICA DE EMPREGO

Segundo o Jornal de Negócios, já foram nomeadas pelo governo de Santana Lopes "1.034 pessoas, 946 das quais só para os gabinetes", o que perfaz " uma média de 13 nomeações por dia desde que tomou posse, a 17 de Julho, até 4 de Outubro". Para tranquilidade do Dr. Sampaio, o governo, afinal, não toma só "medidas avulsas". Também tem uma metódica política de emprego.

POLÍTICA DE EMPREGO

Segundo o Jornal de Negócios, já foram nomeadas pelo governo de Santana Lopes "1.034 pessoas, 946 das quais só para os gabinetes", o que perfaz " uma média de 13 nomeações por dia desde que tomou posse, a 17 de Julho, até 4 de Outubro". Para tranquilidade do Dr. Sampaio, o governo, afinal, não toma só "medidas avulsas". Também tem uma metódica política de emprego.

LER OS OUTROS

Pelo que leio no Crítico, o Teatro Nacional de São Carlos não tem emenda. Afinal, quantas pessoas é que são necessárias para a "coordenação" dos corpos artísticos, uma coisa que não passa de realidade virtual? A Orquestra Sinfónica Portuguesa precisa de um autêntico friso de maestros, com diferentes designações, para tocar bem? Qual é, no meio de tanta gente e de tanto disparate, o papel do "director artístico"? As Dras. Bustorff e Caeiro, juntamente com o Dr. Bagão, bem fariam em tentar perceber esta mirabolante e dispendiosa engrenagem, onde a principal preocupação da saison é montar... uma cafetaria.

LER OS OUTROS

Pelo que leio no Crítico, o Teatro Nacional de São Carlos não tem emenda. Afinal, quantas pessoas é que são necessárias para a "coordenação" dos corpos artísticos, uma coisa que não passa de realidade virtual? A Orquestra Sinfónica Portuguesa precisa de um autêntico friso de maestros, com diferentes designações, para tocar bem? Qual é, no meio de tanta gente e de tanto disparate, o papel do "director artístico"? As Dras. Bustorff e Caeiro, juntamente com o Dr. Bagão, bem fariam em tentar perceber esta mirabolante e dispendiosa engrenagem, onde a principal preocupação da saison é montar... uma cafetaria.

5.10.04

A REPÚBLICA




Comemora-se hoje a "implantação da República". Como de costume, as venerandas figuras do Estado posaram para a posteridade à varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, onde, ritualmente, foi hasteada a bandeira e entoado o hino. Mais logo Sampaio distribui mais umas veneras por umas quantas criaturas e profere umas "breves palavras". Suspeito que já sobra ao regime pouca gente para condecorar. A banalização destas distinções não suscita a mínima atenção nem impôe qualquer respeito particular. Para já, Sampaio aproveitou a manhã para enviar "recados" ao governo. Talvez por má consciência ou excessiva puerilidade, Sampaio deu agora em passar das pancadinhas nas costas à maioria, para a retórica da "exigência". Pena é que não se tivesse lembrado de ser exigente quando abriu o caminho à actual "situação" e que esteja a dar argumentos a Santana Lopes para ele vir fazer o que mais gosta, de "vítima". Simultaneamente é inaugurado o Museu da Presidência, uma meritória iniciativa do assessor cultural de Belém, o praticamente eterno José Manuel dos Santos. À excepção de Mário Soares, que mantém quase tudo no "quentinho" da sua Fundação, todos os outros, os mortos e os vivos, cederam espólio para o Museu. Vale a pena comemorar a República? Não vale. Contrariamente ao que a doutrina oficial propala, o que se sucedeu ao 5 de Outubro de 1910 foi a história de uma tirania "popular", centrada e liderada pelo velho Partido Republicano Português que, em pouco tempo, conseguiu a proeza de "virar" o "país profundo" e algumas das suas hostes "moderadas" contra si. Pomposos e medíocres, arrivistas e oportunistas, melancólicos e dramáticos furiosos, as notabilidades do PRP e, depois, do Partido Democrático, arrasaram às suas próprias mãos a tão prometida República e o "povo" que ela majestaticamente iria servir. É claro que a idiotia "monárquica" também não se recomendava, nem se recomenda a ninguém. Contudo, este folclore melodrámático que cessou às mãos da tropa, em 1926, não se deve confundir com o respeito pelos princípios republicanos no exercício das funções públicas. A probidade, a isenção e o alheamento dos "interesses" continuam a ser os pilares do verdadeiro poder político democrático. É isso que nós temos, a quase um século do 5 de Outubro? Não creio. Jorge Sampaio e Santana Lopes constituem, em 2004, a "imagem" da República. Sinceramente, vale a pena comemorá-los?

A REPÚBLICA




Comemora-se hoje a "implantação da República". Como de costume, as venerandas figuras do Estado posaram para a posteridade à varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, onde, ritualmente, foi hasteada a bandeira e entoado o hino. Mais logo Sampaio distribui mais umas veneras por umas quantas criaturas e profere umas "breves palavras". Suspeito que já sobra ao regime pouca gente para condecorar. A banalização destas distinções não suscita a mínima atenção nem impôe qualquer respeito particular. Para já, Sampaio aproveitou a manhã para enviar "recados" ao governo. Talvez por má consciência ou excessiva puerilidade, Sampaio deu agora em passar das pancadinhas nas costas à maioria, para a retórica da "exigência". Pena é que não se tivesse lembrado de ser exigente quando abriu o caminho à actual "situação" e que esteja a dar argumentos a Santana Lopes para ele vir fazer o que mais gosta, de "vítima". Simultaneamente é inaugurado o Museu da Presidência, uma meritória iniciativa do assessor cultural de Belém, o praticamente eterno José Manuel dos Santos. À excepção de Mário Soares, que mantém quase tudo no "quentinho" da sua Fundação, todos os outros, os mortos e os vivos, cederam espólio para o Museu. Vale a pena comemorar a República? Não vale. Contrariamente ao que a doutrina oficial propala, o que se sucedeu ao 5 de Outubro de 1910 foi a história de uma tirania "popular", centrada e liderada pelo velho Partido Republicano Português que, em pouco tempo, conseguiu a proeza de "virar" o "país profundo" e algumas das suas hostes "moderadas" contra si. Pomposos e medíocres, arrivistas e oportunistas, melancólicos e dramáticos furiosos, as notabilidades do PRP e, depois, do Partido Democrático, arrasaram às suas próprias mãos a tão prometida República e o "povo" que ela majestaticamente iria servir. É claro que a idiotia "monárquica" também não se recomendava, nem se recomenda a ninguém. Contudo, este folclore melodrámático que cessou às mãos da tropa, em 1926, não se deve confundir com o respeito pelos princípios republicanos no exercício das funções públicas. A probidade, a isenção e o alheamento dos "interesses" continuam a ser os pilares do verdadeiro poder político democrático. É isso que nós temos, a quase um século do 5 de Outubro? Não creio. Jorge Sampaio e Santana Lopes constituem, em 2004, a "imagem" da República. Sinceramente, vale a pena comemorá-los?

4.10.04

SEGUNDO SILVA

Rui Gomes da Silva é amigo de Santana Lopes e dos íntimos. Esta patriótica circunstância fez dele ministro dos Assuntos Parlamentares em substituição de Luís Marques Mendes, por sinal o único que levou a sério o que andava a fazer. Na dupla qualidade de membro do governo do amigo e de amigo daquele amigo, Gomes da Silva veio defender a mordaça para Marcelo Rebelo de Sousa. Incomodado com a acutilância marcelista, este valente democrata sugeriu já uma intervenção da insigne inutilidade pública que dá pelo nome de Alta Autoridade para a Comunicação Social. Segundo Silva, Marcelo destila o "comentário do ódio" e, sozinho, é pior do que toda a oposição junta. Vai daí, Silva entende que a "desfaçatez" de Marcelo deve ser sumariamente controlada quando não mesmo silenciada, a bem da Nação e deste governo de "coragem" (sic). Silva e Marcelo, embora não pareça, são do mesmo partido, o PPD/PSD. Entre eles, contudo, há uma abissal diferença. Silva comporta-se como um serventuário caciqueiro que naturalmente espera que digam do Chefe aquilo que o Chefe, ou ele, esperam ouvir. Marcelo, infinitamente mais subtil e a milhas de ser uma pura nulidade política, ainda é um homem livre. Este "evangelho segundo Silva" é uma pequena mas significativa demonstração da religião oficial destinada a ungir uma só pessoa. Depois não digam que não avisámos.

SEGUNDO SILVA

Rui Gomes da Silva é amigo de Santana Lopes e dos íntimos. Esta patriótica circunstância fez dele ministro dos Assuntos Parlamentares em substituição de Luís Marques Mendes, por sinal o único que levou a sério o que andava a fazer. Na dupla qualidade de membro do governo do amigo e de amigo daquele amigo, Gomes da Silva veio defender a mordaça para Marcelo Rebelo de Sousa. Incomodado com a acutilância marcelista, este valente democrata sugeriu já uma intervenção da insigne inutilidade pública que dá pelo nome de Alta Autoridade para a Comunicação Social. Segundo Silva, Marcelo destila o "comentário do ódio" e, sozinho, é pior do que toda a oposição junta. Vai daí, Silva entende que a "desfaçatez" de Marcelo deve ser sumariamente controlada quando não mesmo silenciada, a bem da Nação e deste governo de "coragem" (sic). Silva e Marcelo, embora não pareça, são do mesmo partido, o PPD/PSD. Entre eles, contudo, há uma abissal diferença. Silva comporta-se como um serventuário caciqueiro que naturalmente espera que digam do Chefe aquilo que o Chefe, ou ele, esperam ouvir. Marcelo, infinitamente mais subtil e a milhas de ser uma pura nulidade política, ainda é um homem livre. Este "evangelho segundo Silva" é uma pequena mas significativa demonstração da religião oficial destinada a ungir uma só pessoa. Depois não digam que não avisámos.