ATÉ QUANDO?
Como não tenho paciência para acompanhar as repetições enfadonhas do discurso de ontem do Dr. Portas, nas televisões, acabei por não "apanhar" a essência da bravata. Nem tão pouco a tenho para ler as reportagens nos jornais. Basta-me, no entanto, o que leio no cidadão livre, em quem confio. Ditas umas banalidades sobre "competitividade" - a maioria dos nossos políticos acha que vive no norte da Europa -, o "braço direito" largou umas vulgaridades parvas e inquietantes sobre a imigração, que caem sempre bem no doméstico ouvido pequeno-burguês, normalmente bronco. Emprego, é para portugueses, e fronteiras, é para ir fechando suavemente. Podia recomendar Kant ou Jacques Derrida a Portas. Podia lembrar-lhe o civismo clarividente da malograda Anne Lindh. Podia lembrar-lhe que fazemos parte da União Europeia. Etc. Etc. Infelizmente só me ocorre que Portas é membro do meu Governo, em 2003. Até quando?
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
14.9.03
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ATÉ QUANDO?
Como não tenho paciência para acompanhar as repetições enfadonhas do discurso de ontem do Dr. Portas, nas televisões, acabei por não "apanhar" a essência da bravata. Nem tão pouco a tenho para ler as reportagens nos jornais. Basta-me, no entanto, o que leio no cidadão livre, em quem confio. Ditas umas banalidades sobre "competitividade" - a maioria dos nossos políticos acha que vive no norte da Europa -, o "braço direito" largou umas vulgaridades parvas e inquietantes sobre a imigração, que caem sempre bem no doméstico ouvido pequeno-burguês, normalmente bronco. Emprego, é para portugueses, e fronteiras, é para ir fechando suavemente. Podia recomendar Kant ou Jacques Derrida a Portas. Podia lembrar-lhe o civismo clarividente da malograda Anne Lindh. Podia lembrar-lhe que fazemos parte da União Europeia. Etc. Etc. Infelizmente só me ocorre que Portas é membro do meu Governo, em 2003. Até quando?
Como não tenho paciência para acompanhar as repetições enfadonhas do discurso de ontem do Dr. Portas, nas televisões, acabei por não "apanhar" a essência da bravata. Nem tão pouco a tenho para ler as reportagens nos jornais. Basta-me, no entanto, o que leio no cidadão livre, em quem confio. Ditas umas banalidades sobre "competitividade" - a maioria dos nossos políticos acha que vive no norte da Europa -, o "braço direito" largou umas vulgaridades parvas e inquietantes sobre a imigração, que caem sempre bem no doméstico ouvido pequeno-burguês, normalmente bronco. Emprego, é para portugueses, e fronteiras, é para ir fechando suavemente. Podia recomendar Kant ou Jacques Derrida a Portas. Podia lembrar-lhe o civismo clarividente da malograda Anne Lindh. Podia lembrar-lhe que fazemos parte da União Europeia. Etc. Etc. Infelizmente só me ocorre que Portas é membro do meu Governo, em 2003. Até quando?
COMENTADORES
Depois de escrito o post anterior, encontro, no blogue do Nelson de Matos, uma boa notícia "literária" para Novembro (mais Philip Roth- The Human Stain- em português, sempre na D.Quixote, que já nos tinha dado a Pastoral Americana, O Teatro de Sabbath e Casei com um Comunista) e um oportuno post, que reproduzo, sobre a anunciada época Outono/Inverno de comentadores nas tv's:
Cá estamos na rentrée. Os políticos no activo e com altas responsabilidades partidárias, vão regressar às televisões disfarçados de simples comentadores. Mesmo aqueles que, antes, deploravam esta promiscuidade. Nisto estou com o Miguel Sousa Tavares, há que fazer opções, não é sério, não é leal com os telespectadores. A não ser que exijam que o seu nome passe em baixo, sempre, acompanhado da indicação do partido que representam. Porque não me venham dizer que estão lá apenas a título pessoal, a desonestidade ainda seria maior. Até nos debates sobre futebol a gente sabe quem representam aqueles “individuais”.
Depois de escrito o post anterior, encontro, no blogue do Nelson de Matos, uma boa notícia "literária" para Novembro (mais Philip Roth- The Human Stain- em português, sempre na D.Quixote, que já nos tinha dado a Pastoral Americana, O Teatro de Sabbath e Casei com um Comunista) e um oportuno post, que reproduzo, sobre a anunciada época Outono/Inverno de comentadores nas tv's:
Cá estamos na rentrée. Os políticos no activo e com altas responsabilidades partidárias, vão regressar às televisões disfarçados de simples comentadores. Mesmo aqueles que, antes, deploravam esta promiscuidade. Nisto estou com o Miguel Sousa Tavares, há que fazer opções, não é sério, não é leal com os telespectadores. A não ser que exijam que o seu nome passe em baixo, sempre, acompanhado da indicação do partido que representam. Porque não me venham dizer que estão lá apenas a título pessoal, a desonestidade ainda seria maior. Até nos debates sobre futebol a gente sabe quem representam aqueles “individuais”.
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COMENTADORES
Depois de escrito o post anterior, encontro, no blogue do Nelson de Matos, uma boa notícia "literária" para Novembro (mais Philip Roth- The Human Stain- em português, sempre na D.Quixote, que já nos tinha dado a Pastoral Americana, O Teatro de Sabbath e Casei com um Comunista) e um oportuno post, que reproduzo, sobre a anunciada época Outono/Inverno de comentadores nas tv's:
Cá estamos na rentrée. Os políticos no activo e com altas responsabilidades partidárias, vão regressar às televisões disfarçados de simples comentadores. Mesmo aqueles que, antes, deploravam esta promiscuidade. Nisto estou com o Miguel Sousa Tavares, há que fazer opções, não é sério, não é leal com os telespectadores. A não ser que exijam que o seu nome passe em baixo, sempre, acompanhado da indicação do partido que representam. Porque não me venham dizer que estão lá apenas a título pessoal, a desonestidade ainda seria maior. Até nos debates sobre futebol a gente sabe quem representam aqueles “individuais”.
Depois de escrito o post anterior, encontro, no blogue do Nelson de Matos, uma boa notícia "literária" para Novembro (mais Philip Roth- The Human Stain- em português, sempre na D.Quixote, que já nos tinha dado a Pastoral Americana, O Teatro de Sabbath e Casei com um Comunista) e um oportuno post, que reproduzo, sobre a anunciada época Outono/Inverno de comentadores nas tv's:
Cá estamos na rentrée. Os políticos no activo e com altas responsabilidades partidárias, vão regressar às televisões disfarçados de simples comentadores. Mesmo aqueles que, antes, deploravam esta promiscuidade. Nisto estou com o Miguel Sousa Tavares, há que fazer opções, não é sério, não é leal com os telespectadores. A não ser que exijam que o seu nome passe em baixo, sempre, acompanhado da indicação do partido que representam. Porque não me venham dizer que estão lá apenas a título pessoal, a desonestidade ainda seria maior. Até nos debates sobre futebol a gente sabe quem representam aqueles “individuais”.
CONCORRÊNCIA
Constato que estas certezas começam a ser alcançadas por estas dúvidas, em matéria de "vistas", segundo os respectivos contadores. Proponham- se, pois, as dúvidas para comentador num canal de televisão. Era, de facto, mais um, só que eventualmente diferente. É que para o peditório dos "outros", já estamos um bocadinho saturados de dar.
Constato que estas certezas começam a ser alcançadas por estas dúvidas, em matéria de "vistas", segundo os respectivos contadores. Proponham- se, pois, as dúvidas para comentador num canal de televisão. Era, de facto, mais um, só que eventualmente diferente. É que para o peditório dos "outros", já estamos um bocadinho saturados de dar.
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CONCORRÊNCIA
Constato que estas certezas começam a ser alcançadas por estas dúvidas, em matéria de "vistas", segundo os respectivos contadores. Proponham- se, pois, as dúvidas para comentador num canal de televisão. Era, de facto, mais um, só que eventualmente diferente. É que para o peditório dos "outros", já estamos um bocadinho saturados de dar.
Constato que estas certezas começam a ser alcançadas por estas dúvidas, em matéria de "vistas", segundo os respectivos contadores. Proponham- se, pois, as dúvidas para comentador num canal de televisão. Era, de facto, mais um, só que eventualmente diferente. É que para o peditório dos "outros", já estamos um bocadinho saturados de dar.
ISTO
Estive a pôr parte da leitura de jornais em dia. Ao longe, chegava-me o vozeirão épico do nosso estimado Dr. Portas, em directo, em comício de "reentrada". Estranho desígnio este, o dele, que nunca chegou verdadeiramente a sair... Estava muito contente com a subida a secretária de Estado de uma sua amiga e ex-secretária dele no Caldas. Pediu palmas para a Dra. Celeste e disse mais umas coisas que me escaparam por inteiro. Nestas mini-férias, estive a ler o primeiro volume da biografia de Mitterrand, por Jean Lacouture. Termina em Maio de 1981, com a chegada do dito ao Eliseu, à terceira tentativa e com 65 anos. Pela história de Mitterrand passam grandes nomes da história política e cultural francesa do século XX, uns seus amigos, outros notórios adversários. Mesmo os mais aparentemente insignificantes, eram bons, muito bons. Tudo aquilo "mexia" e tinha densidade, pensamento, ideal, combate. Quando ouço o Dr. Portas, quando leio os jornais, quando vejo os comentários por sobre o já demasiada e irrelevantemente dito e escrito, e apesar de não ser aquela a "minha " história, doi-me - é uma pena cosmopolita e nada provinciana - sermos isto.
Estive a pôr parte da leitura de jornais em dia. Ao longe, chegava-me o vozeirão épico do nosso estimado Dr. Portas, em directo, em comício de "reentrada". Estranho desígnio este, o dele, que nunca chegou verdadeiramente a sair... Estava muito contente com a subida a secretária de Estado de uma sua amiga e ex-secretária dele no Caldas. Pediu palmas para a Dra. Celeste e disse mais umas coisas que me escaparam por inteiro. Nestas mini-férias, estive a ler o primeiro volume da biografia de Mitterrand, por Jean Lacouture. Termina em Maio de 1981, com a chegada do dito ao Eliseu, à terceira tentativa e com 65 anos. Pela história de Mitterrand passam grandes nomes da história política e cultural francesa do século XX, uns seus amigos, outros notórios adversários. Mesmo os mais aparentemente insignificantes, eram bons, muito bons. Tudo aquilo "mexia" e tinha densidade, pensamento, ideal, combate. Quando ouço o Dr. Portas, quando leio os jornais, quando vejo os comentários por sobre o já demasiada e irrelevantemente dito e escrito, e apesar de não ser aquela a "minha " história, doi-me - é uma pena cosmopolita e nada provinciana - sermos isto.
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ISTO
Estive a pôr parte da leitura de jornais em dia. Ao longe, chegava-me o vozeirão épico do nosso estimado Dr. Portas, em directo, em comício de "reentrada". Estranho desígnio este, o dele, que nunca chegou verdadeiramente a sair... Estava muito contente com a subida a secretária de Estado de uma sua amiga e ex-secretária dele no Caldas. Pediu palmas para a Dra. Celeste e disse mais umas coisas que me escaparam por inteiro. Nestas mini-férias, estive a ler o primeiro volume da biografia de Mitterrand, por Jean Lacouture. Termina em Maio de 1981, com a chegada do dito ao Eliseu, à terceira tentativa e com 65 anos. Pela história de Mitterrand passam grandes nomes da história política e cultural francesa do século XX, uns seus amigos, outros notórios adversários. Mesmo os mais aparentemente insignificantes, eram bons, muito bons. Tudo aquilo "mexia" e tinha densidade, pensamento, ideal, combate. Quando ouço o Dr. Portas, quando leio os jornais, quando vejo os comentários por sobre o já demasiada e irrelevantemente dito e escrito, e apesar de não ser aquela a "minha " história, doi-me - é uma pena cosmopolita e nada provinciana - sermos isto.
Estive a pôr parte da leitura de jornais em dia. Ao longe, chegava-me o vozeirão épico do nosso estimado Dr. Portas, em directo, em comício de "reentrada". Estranho desígnio este, o dele, que nunca chegou verdadeiramente a sair... Estava muito contente com a subida a secretária de Estado de uma sua amiga e ex-secretária dele no Caldas. Pediu palmas para a Dra. Celeste e disse mais umas coisas que me escaparam por inteiro. Nestas mini-férias, estive a ler o primeiro volume da biografia de Mitterrand, por Jean Lacouture. Termina em Maio de 1981, com a chegada do dito ao Eliseu, à terceira tentativa e com 65 anos. Pela história de Mitterrand passam grandes nomes da história política e cultural francesa do século XX, uns seus amigos, outros notórios adversários. Mesmo os mais aparentemente insignificantes, eram bons, muito bons. Tudo aquilo "mexia" e tinha densidade, pensamento, ideal, combate. Quando ouço o Dr. Portas, quando leio os jornais, quando vejo os comentários por sobre o já demasiada e irrelevantemente dito e escrito, e apesar de não ser aquela a "minha " história, doi-me - é uma pena cosmopolita e nada provinciana - sermos isto.
13.9.03
RETRATO DO TURISTA ENQUANTO CÃO
Estive uns dias dias de férias num país dito do terceiro mundo. Juro que não fui "para fora cá dentro"! O que maça nestas deslocações é a vaga sensação de não se ter saído verdadeiramente disto. Via televisão-cabo, de aqui só me chegaram imagens sobre a pedofilia e a RTP, e dos regressados fogos. Entretanto pairam uma névoa e um cheiro a queimado no ar que incomodam, em Lisboa. Eu costumo viajar sozinho. Das poucas vezes em que me ocorreu a sublime ideia de ir acompanhado, percebi que estava, dessas vezes, completamente só, apesar da presença de uma criatura conhecida por perto. Nessas alturas, descobrimos que, afinal, a criatura nunca foi assim tão conhecida. Só que já é tarde... Assim, viajo eu, levando na bagagem os meus pesadelos e os meus fantasmas. É uma ilusão pensar que estes ficaram em casa, de férias. Lá surgem a meio de um dia, ou numa insónia inesperada, disfarçada com uma leitura noite adentro. Por isso, consumo daqueles "pacotes" que me obrigam a partilhar viagens com famílias, casais, amigos e amigas que, sem se conhecerem de lado nenhum, passada uma hora, julga-se que andaram todos na escola uns com os outros. Movem-se nos aviões, de conversata parva em conversata parva, numa obscena intimidade de uma semana feita. Trazem autênticos carregamentos de inutilidades e de futilidades. Normalmente não perceberam nada, nem procuraram perceber nada da vida do "outro" que visitaram. Movem-se como tribo autista, sem abdicaram da língua pátria, quase sempre mal falada e sem abdicarem uns dos outros. É o Portugal dos Pequeninos "on the road"...
Estive uns dias dias de férias num país dito do terceiro mundo. Juro que não fui "para fora cá dentro"! O que maça nestas deslocações é a vaga sensação de não se ter saído verdadeiramente disto. Via televisão-cabo, de aqui só me chegaram imagens sobre a pedofilia e a RTP, e dos regressados fogos. Entretanto pairam uma névoa e um cheiro a queimado no ar que incomodam, em Lisboa. Eu costumo viajar sozinho. Das poucas vezes em que me ocorreu a sublime ideia de ir acompanhado, percebi que estava, dessas vezes, completamente só, apesar da presença de uma criatura conhecida por perto. Nessas alturas, descobrimos que, afinal, a criatura nunca foi assim tão conhecida. Só que já é tarde... Assim, viajo eu, levando na bagagem os meus pesadelos e os meus fantasmas. É uma ilusão pensar que estes ficaram em casa, de férias. Lá surgem a meio de um dia, ou numa insónia inesperada, disfarçada com uma leitura noite adentro. Por isso, consumo daqueles "pacotes" que me obrigam a partilhar viagens com famílias, casais, amigos e amigas que, sem se conhecerem de lado nenhum, passada uma hora, julga-se que andaram todos na escola uns com os outros. Movem-se nos aviões, de conversata parva em conversata parva, numa obscena intimidade de uma semana feita. Trazem autênticos carregamentos de inutilidades e de futilidades. Normalmente não perceberam nada, nem procuraram perceber nada da vida do "outro" que visitaram. Movem-se como tribo autista, sem abdicaram da língua pátria, quase sempre mal falada e sem abdicarem uns dos outros. É o Portugal dos Pequeninos "on the road"...
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RETRATO DO TURISTA ENQUANTO CÃO
Estive uns dias dias de férias num país dito do terceiro mundo. Juro que não fui "para fora cá dentro"! O que maça nestas deslocações é a vaga sensação de não se ter saído verdadeiramente disto. Via televisão-cabo, de aqui só me chegaram imagens sobre a pedofilia e a RTP, e dos regressados fogos. Entretanto pairam uma névoa e um cheiro a queimado no ar que incomodam, em Lisboa. Eu costumo viajar sozinho. Das poucas vezes em que me ocorreu a sublime ideia de ir acompanhado, percebi que estava, dessas vezes, completamente só, apesar da presença de uma criatura conhecida por perto. Nessas alturas, descobrimos que, afinal, a criatura nunca foi assim tão conhecida. Só que já é tarde... Assim, viajo eu, levando na bagagem os meus pesadelos e os meus fantasmas. É uma ilusão pensar que estes ficaram em casa, de férias. Lá surgem a meio de um dia, ou numa insónia inesperada, disfarçada com uma leitura noite adentro. Por isso, consumo daqueles "pacotes" que me obrigam a partilhar viagens com famílias, casais, amigos e amigas que, sem se conhecerem de lado nenhum, passada uma hora, julga-se que andaram todos na escola uns com os outros. Movem-se nos aviões, de conversata parva em conversata parva, numa obscena intimidade de uma semana feita. Trazem autênticos carregamentos de inutilidades e de futilidades. Normalmente não perceberam nada, nem procuraram perceber nada da vida do "outro" que visitaram. Movem-se como tribo autista, sem abdicaram da língua pátria, quase sempre mal falada e sem abdicarem uns dos outros. É o Portugal dos Pequeninos "on the road"...
Estive uns dias dias de férias num país dito do terceiro mundo. Juro que não fui "para fora cá dentro"! O que maça nestas deslocações é a vaga sensação de não se ter saído verdadeiramente disto. Via televisão-cabo, de aqui só me chegaram imagens sobre a pedofilia e a RTP, e dos regressados fogos. Entretanto pairam uma névoa e um cheiro a queimado no ar que incomodam, em Lisboa. Eu costumo viajar sozinho. Das poucas vezes em que me ocorreu a sublime ideia de ir acompanhado, percebi que estava, dessas vezes, completamente só, apesar da presença de uma criatura conhecida por perto. Nessas alturas, descobrimos que, afinal, a criatura nunca foi assim tão conhecida. Só que já é tarde... Assim, viajo eu, levando na bagagem os meus pesadelos e os meus fantasmas. É uma ilusão pensar que estes ficaram em casa, de férias. Lá surgem a meio de um dia, ou numa insónia inesperada, disfarçada com uma leitura noite adentro. Por isso, consumo daqueles "pacotes" que me obrigam a partilhar viagens com famílias, casais, amigos e amigas que, sem se conhecerem de lado nenhum, passada uma hora, julga-se que andaram todos na escola uns com os outros. Movem-se nos aviões, de conversata parva em conversata parva, numa obscena intimidade de uma semana feita. Trazem autênticos carregamentos de inutilidades e de futilidades. Normalmente não perceberam nada, nem procuraram perceber nada da vida do "outro" que visitaram. Movem-se como tribo autista, sem abdicaram da língua pátria, quase sempre mal falada e sem abdicarem uns dos outros. É o Portugal dos Pequeninos "on the road"...
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