Wagner: Die Walküre, Bayreuth 1992. Daniel Barenboim.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
O leitor Marques, uma presença assídua no eixo oparático Gulbenkian-Met, traduz com eloquência as magníficas seis horas passadas no sossego desassossegado do último Wagner, longe da doxa e da trivialidade. «Não sei se haverá este ano muito mais momentos desta qualidade e elevação na vida cultural de que dispomos por estes lados, senão simplesmente na vida de que dispomos. Kaufmann genial, restantes entre o muito bom e o excelente, encenação "moderna", mas não intrusiva, como alguns desastres que temos visto nessa área. Quanto ao Parsifal, permito-me ir buscar a tempos idos uma referência a um pequeno livro da colecção "Solfèges", sobre Mozart, de Jean- Victor Hocquard, mozartiano fanático (há fanatismos aceitáveis e compartilháveis), livrinho esse que serviu de vademecum para uma exposição e manifestações várias em comemoração do nascimento do Wolfgang que alguns colegas e este comentador organizaram na Faculdade de Letras em 1956(!). Ora nesse magnífico livrinho fala-se, das obras mozartianas, de "decantação espiritual". Se a expressão é certeira para o Quinteto com clarinete ou para o Rondó K. 511, por exemplo, tambem o é para o Parsifal, noutra perspectiva. No Mozart, são casos de absoluta transcendência musical. No Wagner, aplicá-la-ia à obra que sintetiza a sua visão da Redenção, conclusão triunfal de caminhos em que pecadores ou ignorantes se transformam em seres de abnegação (Kundry) e heróica espiritualidade (o próprio Parsifal). Essa espiritualidade, aliás de inspiração claramente cristã, é a "decantação" final do Wagner numa obra que, alem da evidente relevância musical, é uma importante síntese de valores da Civilização a que pertencemos e da qual não temos (como às vezes parece) que nos envergonhar.»
Wagner, Die Walküre: Nina Stemme, Vitalij Kowaljow, Daniel Barenboim. Teatro alla Scala, 2010.
Com o Crepúsculo dos Deuses - transmitido em directo da Ópera de Nova Iorque pela Gulbenkian a partir das 17 horas - termina a saga do Anel de Wagner na nova produção do canadiano Lepage para o Met. Wagner concebeu a tetralogia para ser apresentada de seguida. As nossas "elites" (políticas, laborais, empresariais, televisivas, jornalísticas, cuturais etc. etc.) deviam ser fechadas numa sala durante mais de vinte e seis horas e serem obrigadas a ver as quatro óperas que constituem o Anel, sem levantar o rabo da cadeira, e lendo atentamente a legendagem no caso de não entenderem o alemão. Talvez as ajudasse mais do que ler jornais, ouvir comentadores e ver telejornais.