
Hoje é o dia mais longo do ano e, de acordo com os calendários - não com o calor - começa o Verão. Os meus meses mais amados são o precedente e este. Não dei praticamente por eles. Nada ajudou. O tempo, as pessoas, as circunstâncias. Eu. Há oito anos estava em Paris e observei que a luz solar entrava longamente pela noite adentro. E que andar pelas ruas sem destino estava próximo de um estado quase pueril de felicidade. Há sete, estava em El Salvador e aí o dia terminava a meio da tarde, por entre vidros fumados e paredes invioláveis com arame farpado. A zona "chique" de Salvador apenas permitia circular assim, de casa a casa, de hotel a casa, de casa a hotel ou restaurante. De então para cá, o meu nomadismo solar diminuiu. Por tabela, eu encolhi como ser humano. Encolhi e encalhei. Deixei de descolar para parte alguma. Talvez o rapazito de Havana, que me veio pedir dinheiro e que eu recusei, tivesse razão. "Tu não és mau, estás apenas amargurado", resumiu ele, numa frase, a vida inteira de um desconhecido. Fixei-me, pois, como amargo residente. Acabo o dia mais longo na Casa Fernando Pessoa e comove-me que um tipo de trinta anos como o João Pereira Coutinho, sempre tão radiante na sua brilhante melancolia, fale como ele escreve e escreva como ele fala. A Folha de São Paulo tem uma tradição autoral que faz de qualquer um dos nossos melhores jornais - não estou a ironizar - parecer papel de embrulho. Não era assim que eu imaginava o dia mais longo, porém foi aquela meia dúzia de palavras de apresentação de um livro que me recordou o melhor do Verão, o melhor de mim mesmo entretanto desaparecido. Na solidão mais prolongada do pc da qual já não se regressa de lado algum, ficam as palavras do João, na Folha, escritas um dia destes. "Montaigne sabia que só há uma coisa pior do que caminhar para o fim. É fazer de conta que ainda estamos no princípio."
