O filme The Brave One, de Neil Jordan, com Jodie Foster, cujo título em português é de uma imbecilidade atroz, é seguramente uma das boas surpresas deste ano. Foster/Erica tem um programa de rádio sobre os sons de Nova Iorque. E tem um namorado com quem está prestas a casar e, uma noite, vai passear o cão com ele a, presumo, Central Park, algures num recanto mais obscuro do parque. São atacados por aquela violência gratuita e assassina que até já ocorre aqui, no Camões, ao Chiado. Ela fica em coma e ele morre. Erica quer comprar uma arma, sem saber como disparar um tiro, mas a burocracia e os regulamentos levam-na a uma transacção mais rápida. A "9 mm" está pronta a vingar a catequese global do "não há rapazes maus". Foster, ao mesmo tempo que grava os murmúrios da "cidade que nunca dorme", castiga de morte matada os anónimos que lhe tiraram para sempre o sono. O detective que investiga as vítimas da vítima "chega lá" mas permite a impunidade da "vingadora" no momento em que elimina a canalha que matou o namorado. Erica começa por não perceber que está a mudar, em mudança - é isso que a puta da vida nos faz - e por fim aceita a "outra" que nunca deixou de ser a mesma. Se fosse comigo, preferia usar um silenciador porque a morte, mesmo a tiro, deve ser silenciosa. Pamuk /Erika/Foster, sobre Istanbul (ou sobre Nova Iorque ou Lisboa): "like the city, I belong to the living dead, I am a corps that still breathes, a wretch condemned to walk streets and pavements that can only remind me of my filth and my defeat". Genial.