25.12.06

LER OS OUTROS

"Daqui a uns anos, inclusive, o mundo estará cheio de nostálgicos da liberdade. Gente que terá saudade do tempo em que podia festejar o Natal sem ser acusada de estar a insultar os muçulmanos e os ateus; gente que podia publicar cartoons e rir dos outros - que é uma actividade meritória. Haverá nostálgicos do tempo em que podiam fumar um cigarro ou um charuto, comer costeletas de novilho com osso, andar de minissaia sem ser apedrejada, ler um livro sem levantar suspeitas - enfim, sem ser controlado de alguma maneira por Entidades Reguladoras ou por chips electrónicos que armazenam cada passo que damos, cada fronteira que atravessamos, cada doença de que nos queixámos."

Francisco José Viegas, in Jornal de Notícias, na íntegra aqui

LER OS OUTROS

"Daqui a uns anos, inclusive, o mundo estará cheio de nostálgicos da liberdade. Gente que terá saudade do tempo em que podia festejar o Natal sem ser acusada de estar a insultar os muçulmanos e os ateus; gente que podia publicar cartoons e rir dos outros - que é uma actividade meritória. Haverá nostálgicos do tempo em que podiam fumar um cigarro ou um charuto, comer costeletas de novilho com osso, andar de minissaia sem ser apedrejada, ler um livro sem levantar suspeitas - enfim, sem ser controlado de alguma maneira por Entidades Reguladoras ou por chips electrónicos que armazenam cada passo que damos, cada fronteira que atravessamos, cada doença de que nos queixámos."

Francisco José Viegas, in Jornal de Notícias, na íntegra aqui

ABRIR UM LUGAR


Perguntava o Papa, na benção Urbi et Orbi, se faz algum sentido um "salvador" neste milénio onde tudo parece ter sido já alcançado, onde toda a gente parece "realizada" e "feliz", onde o "progresso" - o tecnológico, o do "choque" do senhor engenheiro - impera. Faz. E faz na exactíssima medida em que o "progresso" infantilizou o homem e diminuiu a percepção do sentido da vida. A foto acima reproduz o que restou da noite em que Deus se fez menino para nós e para ficar entre nós. Foi tirada perto de casa, mas pode ser visto em qualquer rua, qualquer avenida, hoje desertas. Terminada a "festa", as pessoas regressam ao vazio porque nem o leitão, nem o bacalhau, nem a boneca, nem a consola, nem a televisão, nem o carrinho comandado à distância evitam o inevitável. À ilusão segue-se a desilusão depois da alegria fingida do próximo fim-de-semana. Extinto o natal enquanto pura troca comercial e pseudo-afectiva, chega a "loucura" do fim do ano. Aqui ou em países exóticos, a chegada de um novo ano, em vez de ser vista como esperança e assumida com fé, derrete-se nos copos, nas "festas", na extravagância ocasional e sem sentido. Sim, a presença do Salvador entre nós faz cada vez mais sentido. Lembra-nos como Ele nasceu, viveu e morreu na maior simplicidade e sofrimento porque, desde o primeiro instante, "não havia lugar para Ele". Enquanto não abrirmos esse lugar para Ele, em vez de abrirmos presentes, valemos tanto como os pacotes da fotografia, dejectos de uns fugazes momentos de alegria rapidamente deitados fora.

ABRIR UM LUGAR


Perguntava o Papa, na benção Urbi et Orbi, se faz algum sentido um "salvador" neste milénio onde tudo parece ter sido já alcançado, onde toda a gente parece "realizada" e "feliz", onde o "progresso" - o tecnológico, o do "choque" do senhor engenheiro - impera. Faz. E faz na exactíssima medida em que o "progresso" infantilizou o homem e diminuiu a percepção do sentido da vida. A foto acima reproduz o que restou da noite em que Deus se fez menino para nós e para ficar entre nós. Foi tirada perto de casa, mas pode ser visto em qualquer rua, qualquer avenida, hoje desertas. Terminada a "festa", as pessoas regressam ao vazio porque nem o leitão, nem o bacalhau, nem a boneca, nem a consola, nem a televisão, nem o carrinho comandado à distância evitam o inevitável. À ilusão segue-se a desilusão depois da alegria fingida do próximo fim-de-semana. Extinto o natal enquanto pura troca comercial e pseudo-afectiva, chega a "loucura" do fim do ano. Aqui ou em países exóticos, a chegada de um novo ano, em vez de ser vista como esperança e assumida com fé, derrete-se nos copos, nas "festas", na extravagância ocasional e sem sentido. Sim, a presença do Salvador entre nós faz cada vez mais sentido. Lembra-nos como Ele nasceu, viveu e morreu na maior simplicidade e sofrimento porque, desde o primeiro instante, "não havia lugar para Ele". Enquanto não abrirmos esse lugar para Ele, em vez de abrirmos presentes, valemos tanto como os pacotes da fotografia, dejectos de uns fugazes momentos de alegria rapidamente deitados fora.

24.12.06

PARA OS OUTROS...

PARA OS OUTROS...

PARA OS AMIGOS...


Diferentemente da Miss Pearls, não dou prendas. J'embrasse pas. Todavia, e olhando aos destinatários das que ela encomendou, faço minhas as suas palavras, devidamente adaptadas: "a todos os leitores, aos bloggers que passam por aqui, aos amigos que fiz, a quem está por de trás de um blog e que não conheço, a todos que deixam comentários, que muitas vezes me fazem rir, com quem aprendo, [com quem desaprendo e elimino], este blog (também) é vosso. Um Feliz Natal. Obrigada[o]."

PARA OS AMIGOS...


Diferentemente da Miss Pearls, não dou prendas. J'embrasse pas. Todavia, e olhando aos destinatários das que ela encomendou, faço minhas as suas palavras, devidamente adaptadas: "a todos os leitores, aos bloggers que passam por aqui, aos amigos que fiz, a quem está por de trás de um blog e que não conheço, a todos que deixam comentários, que muitas vezes me fazem rir, com quem aprendo, [com quem desaprendo e elimino], este blog (também) é vosso. Um Feliz Natal. Obrigada[o]."

OS DIAS DE AMANHÃ - 2

"Recusam-se a pensar. Mesmo a apenas três dias do natal, o momento em que Deus se fez homem na palha de uma gruta, a maioria das pessoas precipita-se atrás de tudo o que pensa ser diversão, entretenimento, consumo, modismo. Vão acabar exaustos, atordoados de tanta correria. É como se estourassem de inconsciência, na periferia de si próprios e de um mundo de cujo mistério nem sequer querem ouvir falar. São multidões de solitários. Fogem de qualquer luta, afrouxam-se em submissões, aceitam não ser donos deles mesmos. Nem sequer sabem que estão sós porque a solidão desliza sobre eles sem deixar vestígios como a água na pena dos cisnes. Todos nós somos convidados para entrar num castelo, diariamente, vá lá saber-se por quem. Pode o castelo estar cheio de esplendores e de multidão ruidosa que não deixará de acabar em sepulcro, mais depressa do que seria de esperar, se não desconfiarmos dessa exaltação de fraquezas e se, quando ficarmos sem fôlego, não soubermos que esse é o momento de nos reencontrarmos, reconquistando a dignidade e a personalidade. O castelo é um inferno onde cada instante é um milagre. Agarrar esses instantes, que formam o tempo, escapar da ladainha dos que mergulharam no ruído, viver como um desafio, ter a honra de não se submeter a quem não merece submissão e de depender do amor de quem merece essa dependência, é o que deveria ser - se pensássemos. Mas só quando se está cansado de nunca estar só é possível vencer a violência da solidão e pensar no que vale a pena. As coisas são o que são."

"(...) A maioria mostra-se incapaz de compreender que, não sendo o tempo a passar mas ela própria, não lhe resta alternativa: ou regressa a Cristo ou ele não será mais do que um objecto que a não pode salvar (...) Ele, se nós soubermos receber Cristo, permite escapar aos tranquilizantes que nos adormecem e aos estimulantes que nos dão corda, substitui e dá grandeza à banalidade do quotidiano, essa máquina onde tudo já foi dito e redito. Dizia Alain, tão insuspeito, que o natal não é uma noite nem um fim - é uma aurora e um começo. Mas só é assim se nos recordarmos a todo o instante que Jesus nasceu e viveu na maior pobreza material e na maior riqueza do coração."

"(...) A fé é, antes de tudo o mais, Jesus Cristo nascido na palha de uma pobre gruta. Não pode, por isso, deixar de ser a inspiradora de um radicalismo evangélico que obriga o homem a ir ao fundo das coisas e a não se resignar perante as injustiças, por mais que a mansidão lhe tenha sido ensinada".

"(...) O Advento passou ao lado da maioria de nós, mergulhado no consumismo e no oportunismo. O Natal não passará despercebido. Passará apenas".

"(...) O Natal é o sorriso de Deus num mundo que teima em prosseguir com teofanias desnecessárias e egoísmos aterradores. Sem esse sorriso a vida seria apocalíptica. O tempo seria apenas uma espera sem sentido, a miséria seria aceitada e aceitável e a opressão tolerável e tolerada. Mas há um sorriso e há forças para lutar por um reino de homens e mulheres livres."


por VICTOR CUNHA REGO

OS DIAS DE AMANHÃ - 2

"Recusam-se a pensar. Mesmo a apenas três dias do natal, o momento em que Deus se fez homem na palha de uma gruta, a maioria das pessoas precipita-se atrás de tudo o que pensa ser diversão, entretenimento, consumo, modismo. Vão acabar exaustos, atordoados de tanta correria. É como se estourassem de inconsciência, na periferia de si próprios e de um mundo de cujo mistério nem sequer querem ouvir falar. São multidões de solitários. Fogem de qualquer luta, afrouxam-se em submissões, aceitam não ser donos deles mesmos. Nem sequer sabem que estão sós porque a solidão desliza sobre eles sem deixar vestígios como a água na pena dos cisnes. Todos nós somos convidados para entrar num castelo, diariamente, vá lá saber-se por quem. Pode o castelo estar cheio de esplendores e de multidão ruidosa que não deixará de acabar em sepulcro, mais depressa do que seria de esperar, se não desconfiarmos dessa exaltação de fraquezas e se, quando ficarmos sem fôlego, não soubermos que esse é o momento de nos reencontrarmos, reconquistando a dignidade e a personalidade. O castelo é um inferno onde cada instante é um milagre. Agarrar esses instantes, que formam o tempo, escapar da ladainha dos que mergulharam no ruído, viver como um desafio, ter a honra de não se submeter a quem não merece submissão e de depender do amor de quem merece essa dependência, é o que deveria ser - se pensássemos. Mas só quando se está cansado de nunca estar só é possível vencer a violência da solidão e pensar no que vale a pena. As coisas são o que são."

"(...) A maioria mostra-se incapaz de compreender que, não sendo o tempo a passar mas ela própria, não lhe resta alternativa: ou regressa a Cristo ou ele não será mais do que um objecto que a não pode salvar (...) Ele, se nós soubermos receber Cristo, permite escapar aos tranquilizantes que nos adormecem e aos estimulantes que nos dão corda, substitui e dá grandeza à banalidade do quotidiano, essa máquina onde tudo já foi dito e redito. Dizia Alain, tão insuspeito, que o natal não é uma noite nem um fim - é uma aurora e um começo. Mas só é assim se nos recordarmos a todo o instante que Jesus nasceu e viveu na maior pobreza material e na maior riqueza do coração."

"(...) A fé é, antes de tudo o mais, Jesus Cristo nascido na palha de uma pobre gruta. Não pode, por isso, deixar de ser a inspiradora de um radicalismo evangélico que obriga o homem a ir ao fundo das coisas e a não se resignar perante as injustiças, por mais que a mansidão lhe tenha sido ensinada".

"(...) O Advento passou ao lado da maioria de nós, mergulhado no consumismo e no oportunismo. O Natal não passará despercebido. Passará apenas".

"(...) O Natal é o sorriso de Deus num mundo que teima em prosseguir com teofanias desnecessárias e egoísmos aterradores. Sem esse sorriso a vida seria apocalíptica. O tempo seria apenas uma espera sem sentido, a miséria seria aceitada e aceitável e a opressão tolerável e tolerada. Mas há um sorriso e há forças para lutar por um reino de homens e mulheres livres."


por VICTOR CUNHA REGO