20.9.04

A LAGARTIXA

Santana Lopes. Cada vez mais nota-se uma opção governativa inicial destinada a resolver bloqueios e impasses que duravam há anos. Nessa opção, o PM escolheu o caminho mais pragmático: começar pelo mais difícil, para terminar o ano em velocidade de cruzeiro e arrancar 2005 com a viragem e a imagem que a maioria e o Governo anterior já tinham dificuldade em fazer e sustentar. Intuitivo como ninguém, Santana impôe o estilo de falar directamente aos portugueses, quando quer, evitando a redoma de vidro em que se torna a residência de S. Bento. E puxa pelos ministros, não os deixando abrandar, divagar ou "marinar". Esta prosa sabuja e surrealista pertence a Luís Delgado, recentemente promovido a "presidente da comissão executiva da Lusomundo Media" e conhecido "comentador" da SIC e do DN, de onde este naco foi retirado. Por este andar e com este estilo "Becel anti-colesterol", Delgado ainda acaba em secretário de Estado ou em ministro. Já vimos coisas piores. Mesmo que isso aconteça, é como diz o outro: "quem nasceu para lagartixa, nunca chega a jacaré".

A LAGARTIXA

Santana Lopes. Cada vez mais nota-se uma opção governativa inicial destinada a resolver bloqueios e impasses que duravam há anos. Nessa opção, o PM escolheu o caminho mais pragmático: começar pelo mais difícil, para terminar o ano em velocidade de cruzeiro e arrancar 2005 com a viragem e a imagem que a maioria e o Governo anterior já tinham dificuldade em fazer e sustentar. Intuitivo como ninguém, Santana impôe o estilo de falar directamente aos portugueses, quando quer, evitando a redoma de vidro em que se torna a residência de S. Bento. E puxa pelos ministros, não os deixando abrandar, divagar ou "marinar". Esta prosa sabuja e surrealista pertence a Luís Delgado, recentemente promovido a "presidente da comissão executiva da Lusomundo Media" e conhecido "comentador" da SIC e do DN, de onde este naco foi retirado. Por este andar e com este estilo "Becel anti-colesterol", Delgado ainda acaba em secretário de Estado ou em ministro. Já vimos coisas piores. Mesmo que isso aconteça, é como diz o outro: "quem nasceu para lagartixa, nunca chega a jacaré".

A BANDEIRA

Depois de uma manifestação contras as touradas, em Lisboa, uns zelosos agentes da PSP detiveram um miúdo de 17 anos. Aparentemente o rapaz estaria a queimar um exemplar da bandeira nacional, bem à vista dos referidos agentes. O tratamento que deve ser dado ao "estandarte" nacional não inclui a imolação pelo fogo, apesar de a dita bandeira já estar "queimada" há muito tempo. Ainda recentemente, por causa do Euro 2004, os indígenas foram incentivados a dar todos os usos possíveis à bandeira e a colocá-la nos sítios mais extravagantes que lhes ocorresse. Suspeito até que alguns patriotas mais entusiasmados tivessem usado roupa interior com as cores verde e rubra, com laivos amarelados. É junto ao que nos é mais precisoso que devemos mostrar todo o nosso amor pátrio, nem que seja na intimidade de uma cueca. Como a SIC fez questão de recordar, a primeira-dama não escapou a este frenesim. Quando a selecção nacional se julgou perto do Olimpo, a senhora apareceu nos jogos ornamentada com uma t-shirt que era uma bandeira e com uma bandeira que era uma t-shirt. Nessa altura, Jorge Sampaio ainda não tinha terminado o seu mandato político e, na qualidade de "símbolo nacional", não pareceu muito incomodado com o facto. Provavelmente o rapaz irá "responder", como se costuma dizer, por este extraordinário delito anti-patriótico. Como me considero um cidadão do mundo que, por manifesta infelicidade, acabou por nascer aqui, este "incidente" impressiona-me tanto como as bandeirinhas nas janelas, nos carros ou como peça de vestuário da D. Maria José Ritta. Não sei do que é que as "autoridades" estavam à espera depois da banalização popularucha da bandeira feita por todo o verão, em apelos sucessivos e ridículos vindos das criaturas mais improváveis. O rapazinho de 17 anos é apenas filho da consentida insanidade geral em que vivemos, divertindo-se à sua maneira. Não sejamos, pois, hipócritas.

A BANDEIRA

Depois de uma manifestação contras as touradas, em Lisboa, uns zelosos agentes da PSP detiveram um miúdo de 17 anos. Aparentemente o rapaz estaria a queimar um exemplar da bandeira nacional, bem à vista dos referidos agentes. O tratamento que deve ser dado ao "estandarte" nacional não inclui a imolação pelo fogo, apesar de a dita bandeira já estar "queimada" há muito tempo. Ainda recentemente, por causa do Euro 2004, os indígenas foram incentivados a dar todos os usos possíveis à bandeira e a colocá-la nos sítios mais extravagantes que lhes ocorresse. Suspeito até que alguns patriotas mais entusiasmados tivessem usado roupa interior com as cores verde e rubra, com laivos amarelados. É junto ao que nos é mais precisoso que devemos mostrar todo o nosso amor pátrio, nem que seja na intimidade de uma cueca. Como a SIC fez questão de recordar, a primeira-dama não escapou a este frenesim. Quando a selecção nacional se julgou perto do Olimpo, a senhora apareceu nos jogos ornamentada com uma t-shirt que era uma bandeira e com uma bandeira que era uma t-shirt. Nessa altura, Jorge Sampaio ainda não tinha terminado o seu mandato político e, na qualidade de "símbolo nacional", não pareceu muito incomodado com o facto. Provavelmente o rapaz irá "responder", como se costuma dizer, por este extraordinário delito anti-patriótico. Como me considero um cidadão do mundo que, por manifesta infelicidade, acabou por nascer aqui, este "incidente" impressiona-me tanto como as bandeirinhas nas janelas, nos carros ou como peça de vestuário da D. Maria José Ritta. Não sei do que é que as "autoridades" estavam à espera depois da banalização popularucha da bandeira feita por todo o verão, em apelos sucessivos e ridículos vindos das criaturas mais improváveis. O rapazinho de 17 anos é apenas filho da consentida insanidade geral em que vivemos, divertindo-se à sua maneira. Não sejamos, pois, hipócritas.

19.9.04

PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE

"Pois é. É tão fácil levá-los. No Abrupto. Ou mais uma prova do "bom funcionamento" da "central".

PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE

"Pois é. É tão fácil levá-los. No Abrupto. Ou mais uma prova do "bom funcionamento" da "central".

DE QUE É QUE ELES FALAM?

Esta semana a "central" funcionou em pleno. Começou com Bagão Félix, em dose dupla e familiar, passou pela menos feliz Carmo Seabra - muito "desfocada"- e acabou com o próprio Santana Lopes que se despediu dos telespectadores com um comovente "até para a semana, se Deus quiser". Guedes e Barreto? Uma dupla para a vida, assevera. "Educação" ? Onde a ministra diz branco, Lopes vê preto. Deve ser do "tempo novo". Quanto a Bagão, pode ser que sim, mas também pode ser que não. Está escrito nas contas, como no passado estava escrito nas estrelas. Lopes jura a pés juntos que é tudo "combinado com ele", que ele está a "par" de tudo e que este governo tem, finalmente, "uma maneira diferente" de ver as coisas. De que é que eles falam?

DE QUE É QUE ELES FALAM?

Esta semana a "central" funcionou em pleno. Começou com Bagão Félix, em dose dupla e familiar, passou pela menos feliz Carmo Seabra - muito "desfocada"- e acabou com o próprio Santana Lopes que se despediu dos telespectadores com um comovente "até para a semana, se Deus quiser". Guedes e Barreto? Uma dupla para a vida, assevera. "Educação" ? Onde a ministra diz branco, Lopes vê preto. Deve ser do "tempo novo". Quanto a Bagão, pode ser que sim, mas também pode ser que não. Está escrito nas contas, como no passado estava escrito nas estrelas. Lopes jura a pés juntos que é tudo "combinado com ele", que ele está a "par" de tudo e que este governo tem, finalmente, "uma maneira diferente" de ver as coisas. De que é que eles falam?

STEFAN ZWEIG NUMA OUTRA EUROPA



Com a vénia devida ao El País e ao DNA, segue-se o artigo de Agosto de Mario Vargas Llosa. Fala-nos do escritor austríaco Stefan Zweig, de Salzburgo e de tempos sombrios. Ainda hoje nos questionamos - George Steiner, aliás, não faz outra coisa em toda a sua obra - como é que, numa civilização tão "elevada" e luminosa, as mais tenebrosas trevas floresceram. De alguma forma elas sempre lá estiveram e, eventualmente, permanecem como que na tranquilidade perversa de um limbo.

LA MONTÃNA DE LOS CAPUCHINOS

por Mario Vargas Llosa

Más todavía que desde la elevada fortaleza de Hohensalzburg, símbolo y asiento del poder de los Príncipes-arzobispos que durante siglos gobernaron Salzburgo, la armonía y la belleza de la ciudad barroca donde nació Mozart se aprecia mejor desde las laderas de la Kapuzinerberg, una elevación boscosa coronada por un convento de capuchinos construido en el siglo XVI que domina toda la ciudad antigua y las graciosas vueltas y revueltas del Salzach, el río que la atraviesa. La única vivienda que hay en ese bosque es un hermoso pabellón de caza, erigido por un arzobispo en el siglo XVII, que el escritor Stefan Zweig (1881-1942) compró en 1918 y donde vivió hasta febrero de 1934, los años más fecundos y exitosos de su vida literaria. No queda rastro de él en esa casa, salvo acaso el frondoso y aromado jardín, al que el verano ha llenado de flores y de avispas rumorosas. Sus actuales propietarios, dos hermanos, uno empresario y el otro pintor, no parecen saber gran cosa del ilustre hombre de letras al que en aquellos dieciséis años que pasó aquí venían a visitar grandes artistas e intelectuales de toda Europa. Aquella Salzburgo a la que vino a instalarse Stefan Zweig al terminar la primera guerra mundial era pequeñita y miserable –Austria quedó mutilada y arruinada en la contienda- y esta casa estaba llena de goteras, paredes sin pintar y cañerías agujereadas. Para resistir el frío, aquél escribía las biografías, los ensayos históricos y los relatos que devoraban los lectores de medio mundo, sepultado en su cama y con guantes de lana y un gorro de dormir embutido hasta las orejas. Desde la ciudad hasta aquí era preciso subir una escalera de cien peldaños que la nieve, en el invierno, convertía en un tobogán.Pero la belleza y la tranquilidad del lugar justificaban cualquier engorro y, además, atraían a las musas, porque los libros de Zweig de aquellos años –Amok, Carta de una desconocida, los dedicados a Hölderlin, Kleist y Nietzsche y Momentos estelares de la humanidad, entre otros- fueron tan re-editados y traducidos que hicieron de su autor un hombre muy próspero. Zweig aprovechó para invertir esos ingresos en su pasión de coleccionista y el antiguo pabellón de caza se llenó de manuscritos literarios, de partituras, de incunables y ediciones príncipe.En 1920, el director teatral Max Reinhardt y el poeta y dramaturgo Hugo von Hofmannsthal organizaron, en la plaza de la Catedral de Salzburgo, unas representaciones teatrales al aire libre que desde el primer momento tuvieron una gran acogida. Así nació el festival que, en pocos años, convertiría, según Zweig, a Salzburgo “en la capital artística no sólo de Europa, sino del mundo” a la que en el verano acudían “reyes y príncipes, millonarios americanos y estrellas de cine, amantes de la música, escritores y esnobs, a aplaudir aquellos extraordinarios espectáculos”. Ochenta y cuatro años más tarde, el Festival de Salzburgo, dedicado a Mozart, sigue siendo uno de los más prestigiosos y convierte, desde mediados de julio hasta el último día de agosto, a esta ciudad en un enclave civilizado donde la buena música, el buen teatro, excelentes exposiciones, las inquietudes culturales y la alegría parecen ocupar toda la vida. El festival tenía fama de conservador y de envarado en materias artísticas cuando lo dirigía Herbert von Karajan, pero su sucesor, Gérard Mortier, le inyectó un formidable aliento renovador y moderno que, en la actualidad, incluso los que fueron los más ruidosos críticos de su gestión, recuerdan con nostalgia. No ha bajado de categoría con la partida del director belga, pero sí ha perdido el aire juvenil y polémico que Mortier supo insuflarle sin por ello romper con su vocación clásica.El autor ausente...Salvo por un sendero extraviado entre pinares, que lleva su nombre, nada recuerda en Salzburgo a Stefan Sweig. En las guías no se lo menciona, o, apenas, a la carrera y de puntillas, y no hay placa alguna en la casa que habitó, como si la ciudad se sintiera incómoda con el recuerdo de aquel ilustre vecino que, entre 1918 y 1934, fue una de las mayores celebridades que Salzburgo exhibía a los ojos del mundo. ¿Por qué? Porque el autor de El mundo de ayer está íntimamente ligado a un pasado del que esta hermosa ciudad, del que este bellísimo país que es Austria, cuya prosperidad y civilizados modos de vida dejan envidiosos y admirados a los forasteros, se las ha arreglado para olvidar, abolir y reemplazar, como esos emperadores incas que subían al poder con una corte de historiadores cuya función era reconstruir la historia de manera que ésta alcanzara siempre su apogeo con el inca reinante.Desde la montaña de los capuchinos, además del río y la ciudad barroca de las cincuenta iglesias, se divisa una empalizada de piedra que hiende las nubes y cuyo nombre suena como un escalofrío: Berchtesgaden. En su remota cumbre está la casa que Martin Bormann le regaló a Hitler al cumplir éste medio siglo de vida y donde el Fuhrer acostumbraba pasar sus vacaciones. Desde las ventanas de su dormitorio, Stefan Zweig podía divisar aquel nido de águilas donde, en aquellos años, sin que el diligente polígrafo lo sospechara, el caudillo nazi estaba sentando las bases de la tragedia que acabaría con su obra, con su vida y con la de por lo menos veinte millones de europeos.Según confesión propia, los primeros años del nazismo, pese a haber transcurrido a las puertas mismas de Salzburgo, en la vecina Múnich, fueron para él nada más que unas mataperradas de palurdos iletrados que cruzaban la frontera alemana y organizaban marchas y mítines de cuatro gatos donde cantaban canciones patrióticas y vociferaban insultos antisemitas que los vecinos austriacos observaban desde lejos, como payasadas sin importancia. Zweig detestaba la política y, como no se metía con ella, tenía la ingenuidad de creer que ella tampoco se metería nunca con él. De pronto, descubrió que era judío. Lo descubrió en los ojos de su mejor amigo, un intelectual destacado, con el que conversaba, discutía, intercambiaba libros e ideas, y pasaba horas en las tabernas bebiendo sendos porrones de cerveza. El judaísmo debía ser algo muy vago y lejano para este austriaco laico, para este intelectual totalmente integrado a la cultura occidental, para este europeo al que la religión sólo interesaba como objeto de estudio o fuente de placeres estéticos. Y, sin embargo, un buen día, aquel amigo dejó de saludarlo en la calle y, peor todavía, le hizo saber que sólo podían continuar su amistad de manera clandestina, porque para un ario como él se había vuelto demasiado riesgoso frecuentar a un judío.La maldición de su vidaEl estupor de Stefan Zweig fue el mismo que, en esa ciudad prodigiosamente culta y creativa que era en aquellos años Viena, debió de sobrecoger a Karl Popper, a Sigmund Freud, a decenas de músicos, filósofos, economistas, artistas, escritores, arquitectos austriacos, integrados desde hacía generaciones al que creían su país, su sociedad, su cultura, que de la noche a la mañana dejaban de ser lo que eran y pasaban a ser parias, apestados, acosados, perseguidos. Es decir, judíos. Cuando cuatro policías austriacos se presentaron a la casa de la montaña de los capuchinos, en febrero de 1934, con una orden de registro porque se suponía que el propietario escondía armas para una conspiración subversiva, Stefan Zweig comprendió que había llegado la hora de partir. Empaquetó lo que pudo y, sin hacer saber a nadie que huía, escapó a Inglaterra, de donde luego seguiría huyendo, esta vez allende los mares, a Petrópolis, en Brasil, donde en 1942, luego de una tranquila velada en la que jugaron una partida de ajedrez, él y su joven esposa Lotte se suicidaron tomándose una fuerte dosis de Veronal.¿Lamentó en esos años del destierro, mientras veía derrumbarse a su alrededor toda aquella civilización europea refinada y tolerante, a la que había dedicado tantas alabanzas en las figuras que, según él, mejor la encarnaban, un Erasmo, un Montaigne, un Balzac, haber escrito el libreto para la ópera La mujer silenciosa, del proyecto Richard Strauss, niño mimado de los nazis, que se estrenó en Dresden bajo el Tercer Reich? Probablemente, no. Hasta el final, y pese a las atrocidades que vio a su alrededor y padeció en carne propia, Stefan Zweig creyó que cultura y política eran esferas independientes que no debían mezclarse, y que un escritor y un artista, para alcanzar la excelencia estética, debían mantenerse rigurosamente alejados de esa cosa mediocre, vulgar y sucia que es el quehacer político. El colaboró con el eximio compositor de Der Rosenkavalier que se dejó halagar y utilizar por los nazis, no porque compartiera sus criminales prejuicios y fanatismos, sino porque pensaba que era la única manera de preservar pequeños islotes de civilización y cultura en medio de la barbarie política reinante. El país que lo desconoció y expulsó ha hecho de esta ingenua convicción una exitosa filosofía. Cuando se piensa en el nazismo se piensa en Alemania, no en Austria, donde hubo tantos partidarios de Hitler como entre los propios alemanes. Sin embargo, jugando hábilmente la carta del neutralismo, y echando un velo de amnesia y silencio sobre ese pasado comprometedor, Austria ha prosperado, se ha democratizado, y aparece en la historia contemporánea como una de las víctimas más sufridas, y de ninguna manera una cómplice, de las hordas pardas. ¿Es sano o enfermizo pensar en estas cosas cuando se está en Salzburgo gozando de este hermoso día soleado y con una entrada en el bolsillo para oír esta noche en la Grosses Festspielhaus a la Filarmónica de Berlín, con sir Simon Rattle, interpretando las Variaciones de Schönberg y la Novena de Beethoven? Mejor aspirar la fragancia del aire purísimo, distraerse con la geometría de las abejas que evolucionan entre las flores y decirse, embelesado con el espectáculo del río, las torres, los campanarios, los palacios, los conventos, que esto es la felicidad y que aquí encontró inspiración un famoso polígrafo, que Salzburgo se merece a Mozart y Mozart a Salzburgo, y que Berchtesgaden no es más que un alpino pico a cuyos pies está el lago König, donde van a besarse todos los enamorados.


STEFAN ZWEIG NUMA OUTRA EUROPA



Com a vénia devida ao El País e ao DNA, segue-se o artigo de Agosto de Mario Vargas Llosa. Fala-nos do escritor austríaco Stefan Zweig, de Salzburgo e de tempos sombrios. Ainda hoje nos questionamos - George Steiner, aliás, não faz outra coisa em toda a sua obra - como é que, numa civilização tão "elevada" e luminosa, as mais tenebrosas trevas floresceram. De alguma forma elas sempre lá estiveram e, eventualmente, permanecem como que na tranquilidade perversa de um limbo.

LA MONTÃNA DE LOS CAPUCHINOS

por Mario Vargas Llosa

Más todavía que desde la elevada fortaleza de Hohensalzburg, símbolo y asiento del poder de los Príncipes-arzobispos que durante siglos gobernaron Salzburgo, la armonía y la belleza de la ciudad barroca donde nació Mozart se aprecia mejor desde las laderas de la Kapuzinerberg, una elevación boscosa coronada por un convento de capuchinos construido en el siglo XVI que domina toda la ciudad antigua y las graciosas vueltas y revueltas del Salzach, el río que la atraviesa. La única vivienda que hay en ese bosque es un hermoso pabellón de caza, erigido por un arzobispo en el siglo XVII, que el escritor Stefan Zweig (1881-1942) compró en 1918 y donde vivió hasta febrero de 1934, los años más fecundos y exitosos de su vida literaria. No queda rastro de él en esa casa, salvo acaso el frondoso y aromado jardín, al que el verano ha llenado de flores y de avispas rumorosas. Sus actuales propietarios, dos hermanos, uno empresario y el otro pintor, no parecen saber gran cosa del ilustre hombre de letras al que en aquellos dieciséis años que pasó aquí venían a visitar grandes artistas e intelectuales de toda Europa. Aquella Salzburgo a la que vino a instalarse Stefan Zweig al terminar la primera guerra mundial era pequeñita y miserable –Austria quedó mutilada y arruinada en la contienda- y esta casa estaba llena de goteras, paredes sin pintar y cañerías agujereadas. Para resistir el frío, aquél escribía las biografías, los ensayos históricos y los relatos que devoraban los lectores de medio mundo, sepultado en su cama y con guantes de lana y un gorro de dormir embutido hasta las orejas. Desde la ciudad hasta aquí era preciso subir una escalera de cien peldaños que la nieve, en el invierno, convertía en un tobogán.Pero la belleza y la tranquilidad del lugar justificaban cualquier engorro y, además, atraían a las musas, porque los libros de Zweig de aquellos años –Amok, Carta de una desconocida, los dedicados a Hölderlin, Kleist y Nietzsche y Momentos estelares de la humanidad, entre otros- fueron tan re-editados y traducidos que hicieron de su autor un hombre muy próspero. Zweig aprovechó para invertir esos ingresos en su pasión de coleccionista y el antiguo pabellón de caza se llenó de manuscritos literarios, de partituras, de incunables y ediciones príncipe.En 1920, el director teatral Max Reinhardt y el poeta y dramaturgo Hugo von Hofmannsthal organizaron, en la plaza de la Catedral de Salzburgo, unas representaciones teatrales al aire libre que desde el primer momento tuvieron una gran acogida. Así nació el festival que, en pocos años, convertiría, según Zweig, a Salzburgo “en la capital artística no sólo de Europa, sino del mundo” a la que en el verano acudían “reyes y príncipes, millonarios americanos y estrellas de cine, amantes de la música, escritores y esnobs, a aplaudir aquellos extraordinarios espectáculos”. Ochenta y cuatro años más tarde, el Festival de Salzburgo, dedicado a Mozart, sigue siendo uno de los más prestigiosos y convierte, desde mediados de julio hasta el último día de agosto, a esta ciudad en un enclave civilizado donde la buena música, el buen teatro, excelentes exposiciones, las inquietudes culturales y la alegría parecen ocupar toda la vida. El festival tenía fama de conservador y de envarado en materias artísticas cuando lo dirigía Herbert von Karajan, pero su sucesor, Gérard Mortier, le inyectó un formidable aliento renovador y moderno que, en la actualidad, incluso los que fueron los más ruidosos críticos de su gestión, recuerdan con nostalgia. No ha bajado de categoría con la partida del director belga, pero sí ha perdido el aire juvenil y polémico que Mortier supo insuflarle sin por ello romper con su vocación clásica.El autor ausente...Salvo por un sendero extraviado entre pinares, que lleva su nombre, nada recuerda en Salzburgo a Stefan Sweig. En las guías no se lo menciona, o, apenas, a la carrera y de puntillas, y no hay placa alguna en la casa que habitó, como si la ciudad se sintiera incómoda con el recuerdo de aquel ilustre vecino que, entre 1918 y 1934, fue una de las mayores celebridades que Salzburgo exhibía a los ojos del mundo. ¿Por qué? Porque el autor de El mundo de ayer está íntimamente ligado a un pasado del que esta hermosa ciudad, del que este bellísimo país que es Austria, cuya prosperidad y civilizados modos de vida dejan envidiosos y admirados a los forasteros, se las ha arreglado para olvidar, abolir y reemplazar, como esos emperadores incas que subían al poder con una corte de historiadores cuya función era reconstruir la historia de manera que ésta alcanzara siempre su apogeo con el inca reinante.Desde la montaña de los capuchinos, además del río y la ciudad barroca de las cincuenta iglesias, se divisa una empalizada de piedra que hiende las nubes y cuyo nombre suena como un escalofrío: Berchtesgaden. En su remota cumbre está la casa que Martin Bormann le regaló a Hitler al cumplir éste medio siglo de vida y donde el Fuhrer acostumbraba pasar sus vacaciones. Desde las ventanas de su dormitorio, Stefan Zweig podía divisar aquel nido de águilas donde, en aquellos años, sin que el diligente polígrafo lo sospechara, el caudillo nazi estaba sentando las bases de la tragedia que acabaría con su obra, con su vida y con la de por lo menos veinte millones de europeos.Según confesión propia, los primeros años del nazismo, pese a haber transcurrido a las puertas mismas de Salzburgo, en la vecina Múnich, fueron para él nada más que unas mataperradas de palurdos iletrados que cruzaban la frontera alemana y organizaban marchas y mítines de cuatro gatos donde cantaban canciones patrióticas y vociferaban insultos antisemitas que los vecinos austriacos observaban desde lejos, como payasadas sin importancia. Zweig detestaba la política y, como no se metía con ella, tenía la ingenuidad de creer que ella tampoco se metería nunca con él. De pronto, descubrió que era judío. Lo descubrió en los ojos de su mejor amigo, un intelectual destacado, con el que conversaba, discutía, intercambiaba libros e ideas, y pasaba horas en las tabernas bebiendo sendos porrones de cerveza. El judaísmo debía ser algo muy vago y lejano para este austriaco laico, para este intelectual totalmente integrado a la cultura occidental, para este europeo al que la religión sólo interesaba como objeto de estudio o fuente de placeres estéticos. Y, sin embargo, un buen día, aquel amigo dejó de saludarlo en la calle y, peor todavía, le hizo saber que sólo podían continuar su amistad de manera clandestina, porque para un ario como él se había vuelto demasiado riesgoso frecuentar a un judío.La maldición de su vidaEl estupor de Stefan Zweig fue el mismo que, en esa ciudad prodigiosamente culta y creativa que era en aquellos años Viena, debió de sobrecoger a Karl Popper, a Sigmund Freud, a decenas de músicos, filósofos, economistas, artistas, escritores, arquitectos austriacos, integrados desde hacía generaciones al que creían su país, su sociedad, su cultura, que de la noche a la mañana dejaban de ser lo que eran y pasaban a ser parias, apestados, acosados, perseguidos. Es decir, judíos. Cuando cuatro policías austriacos se presentaron a la casa de la montaña de los capuchinos, en febrero de 1934, con una orden de registro porque se suponía que el propietario escondía armas para una conspiración subversiva, Stefan Zweig comprendió que había llegado la hora de partir. Empaquetó lo que pudo y, sin hacer saber a nadie que huía, escapó a Inglaterra, de donde luego seguiría huyendo, esta vez allende los mares, a Petrópolis, en Brasil, donde en 1942, luego de una tranquila velada en la que jugaron una partida de ajedrez, él y su joven esposa Lotte se suicidaron tomándose una fuerte dosis de Veronal.¿Lamentó en esos años del destierro, mientras veía derrumbarse a su alrededor toda aquella civilización europea refinada y tolerante, a la que había dedicado tantas alabanzas en las figuras que, según él, mejor la encarnaban, un Erasmo, un Montaigne, un Balzac, haber escrito el libreto para la ópera La mujer silenciosa, del proyecto Richard Strauss, niño mimado de los nazis, que se estrenó en Dresden bajo el Tercer Reich? Probablemente, no. Hasta el final, y pese a las atrocidades que vio a su alrededor y padeció en carne propia, Stefan Zweig creyó que cultura y política eran esferas independientes que no debían mezclarse, y que un escritor y un artista, para alcanzar la excelencia estética, debían mantenerse rigurosamente alejados de esa cosa mediocre, vulgar y sucia que es el quehacer político. El colaboró con el eximio compositor de Der Rosenkavalier que se dejó halagar y utilizar por los nazis, no porque compartiera sus criminales prejuicios y fanatismos, sino porque pensaba que era la única manera de preservar pequeños islotes de civilización y cultura en medio de la barbarie política reinante. El país que lo desconoció y expulsó ha hecho de esta ingenua convicción una exitosa filosofía. Cuando se piensa en el nazismo se piensa en Alemania, no en Austria, donde hubo tantos partidarios de Hitler como entre los propios alemanes. Sin embargo, jugando hábilmente la carta del neutralismo, y echando un velo de amnesia y silencio sobre ese pasado comprometedor, Austria ha prosperado, se ha democratizado, y aparece en la historia contemporánea como una de las víctimas más sufridas, y de ninguna manera una cómplice, de las hordas pardas. ¿Es sano o enfermizo pensar en estas cosas cuando se está en Salzburgo gozando de este hermoso día soleado y con una entrada en el bolsillo para oír esta noche en la Grosses Festspielhaus a la Filarmónica de Berlín, con sir Simon Rattle, interpretando las Variaciones de Schönberg y la Novena de Beethoven? Mejor aspirar la fragancia del aire purísimo, distraerse con la geometría de las abejas que evolucionan entre las flores y decirse, embelesado con el espectáculo del río, las torres, los campanarios, los palacios, los conventos, que esto es la felicidad y que aquí encontró inspiración un famoso polígrafo, que Salzburgo se merece a Mozart y Mozart a Salzburgo, y que Berchtesgaden no es más que un alpino pico a cuyos pies está el lago König, donde van a besarse todos los enamorados.