2.9.03

ESPERA III

Era com estar só. Mas
estar só e feliz.
A varanda envidraçada,
o cheiro do café, um ramo,
chamado pelo sono.
Sombras de sol batiam
no chão de madeira velha.
Restos de água da noite
brilhavam nos vidros
os primeiros insectos.
A maresia das aves costeiras
lanceoladas de luz.
Os olhos pousavam à espera
de te voltar a ter.


Joaquim Manuel Magalhães, Uma luz com um toldo vermelho

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ESPERA III

Era com estar só. Mas
estar só e feliz.
A varanda envidraçada,
o cheiro do café, um ramo,
chamado pelo sono.
Sombras de sol batiam
no chão de madeira velha.
Restos de água da noite
brilhavam nos vidros
os primeiros insectos.
A maresia das aves costeiras
lanceoladas de luz.
Os olhos pousavam à espera
de te voltar a ter.


Joaquim Manuel Magalhães, Uma luz com um toldo vermelho
GUTERRES

Passando há pouco por um quiosque, reparei num título de um jornal. Dizia qualquer coisa como isto: o rendimento mínimo nacional, em 2002, retirou cerca de 13000 almas da miséria. No fim de semana, noutro jornal, o Sr. Sócrates jurava que o Eng.º Guterres era um bom candidato a Bélem. O Prof. Marcelo já o põe a disputar a coisa, ou com Cavaco, ou com Lopes. Lula da Silva, via ONU, vai contar com os ensinamentos de Guterres na área das reformas "sociais". Estes três ou quatro sinais demonstram que o homem, não só já saiu do pântano onde voluntariamente se tinha atolado, como já começou a passar-se por água para retirar as sujidades que possam ter ficado coladas ao corpo. Pelo sim, pelo não, é bom que esteja "limpo" para as eventualidades de 2006. O País de Guterres, entre 1996 e 2001, ou pelo menos até 1999, era um país satisfeito consigo mesmo, repleto de eventos light, despreocupado e com dinheiro para gastar. Até 2006, se a contabilidade da penúria não arrepiar caminho e se a economia não começar rapidamente a sorrir, muito boa gente pode vir a ter saudades daquele País e do seu rosto mais emblemático. Em política, como no amor, uma mão lava a outra, e está a andar.

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GUTERRES

Passando há pouco por um quiosque, reparei num título de um jornal. Dizia qualquer coisa como isto: o rendimento mínimo nacional, em 2002, retirou cerca de 13000 almas da miséria. No fim de semana, noutro jornal, o Sr. Sócrates jurava que o Eng.º Guterres era um bom candidato a Bélem. O Prof. Marcelo já o põe a disputar a coisa, ou com Cavaco, ou com Lopes. Lula da Silva, via ONU, vai contar com os ensinamentos de Guterres na área das reformas "sociais". Estes três ou quatro sinais demonstram que o homem, não só já saiu do pântano onde voluntariamente se tinha atolado, como já começou a passar-se por água para retirar as sujidades que possam ter ficado coladas ao corpo. Pelo sim, pelo não, é bom que esteja "limpo" para as eventualidades de 2006. O País de Guterres, entre 1996 e 2001, ou pelo menos até 1999, era um país satisfeito consigo mesmo, repleto de eventos light, despreocupado e com dinheiro para gastar. Até 2006, se a contabilidade da penúria não arrepiar caminho e se a economia não começar rapidamente a sorrir, muito boa gente pode vir a ter saudades daquele País e do seu rosto mais emblemático. Em política, como no amor, uma mão lava a outra, e está a andar.

1.9.03

A VER NAVIOS

Ainda a loucura do Euro 2004 está longe de estar pronta, e ainda mais longe está de estar paga, e já se anda a pensar em nova odisseia. Aproveitando a visita a Portugal do Presidente da Confederação Helvética, o Dr. Sampaio e o Dr. Barroso uniram as suas vozes no sentido de tentar trazer para cá uma tal American Cup, uma coisa que tem a ver com vela, que decorrerá em 2007, putativamente no idílico cenário marítimo que vai de Lisboa a Cascais. Como quem decide o local do evento é a Suiça, as operações de charme já começaram, para ver se se retira a organização a outros países também candidatos. O Dr. Barroso prometeu investimento público para a coisa e Jorge Sampaio acha magnífico o estuário do Tejo. O património deteriora-se, os museus não têm dinheiro para abrir, as bibliotecas morrem lentamente, os teatros nacionais são como túmulos, etc, etc. Mas, na verdade, o que é isso comparado com umas quantas velas desfraldadas ao sol de Lisboa para estrangeiro ver? É por estas e por outras do género que vamos andar sempre "a ver navios".

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A VER NAVIOS

Ainda a loucura do Euro 2004 está longe de estar pronta, e ainda mais longe está de estar paga, e já se anda a pensar em nova odisseia. Aproveitando a visita a Portugal do Presidente da Confederação Helvética, o Dr. Sampaio e o Dr. Barroso uniram as suas vozes no sentido de tentar trazer para cá uma tal American Cup, uma coisa que tem a ver com vela, que decorrerá em 2007, putativamente no idílico cenário marítimo que vai de Lisboa a Cascais. Como quem decide o local do evento é a Suiça, as operações de charme já começaram, para ver se se retira a organização a outros países também candidatos. O Dr. Barroso prometeu investimento público para a coisa e Jorge Sampaio acha magnífico o estuário do Tejo. O património deteriora-se, os museus não têm dinheiro para abrir, as bibliotecas morrem lentamente, os teatros nacionais são como túmulos, etc, etc. Mas, na verdade, o que é isso comparado com umas quantas velas desfraldadas ao sol de Lisboa para estrangeiro ver? É por estas e por outras do género que vamos andar sempre "a ver navios".
A LENTE E A ESCURIDÃO II

Este infeliz processo judicial, que dispensa apresentações, conheceu mais um episódio, confirmando o que eu tinha escrito no post anterior. A defesa, respondendo à errância decisória do Sr. Juiz de Instrução Criminal, promoveu o seu afastamento do processo, pelo que as diligências previstas e o circo anunciado, ficaram a aguardar melhores dias. Nas auscultações populares que se seguiram, nas rádios e nas tv's, a ignorância, que é sempre atrevida, lá lançou mais uns quantos dislates sobre o dinheiro dos advogados e o oculto poder dos "poderosos". Convinha talvez explicar a esta gentinha que os "poderosos" de hoje, podem ser eles mesmos amanhã. Eles querem lá saber o que é um "estado de direito".

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A LENTE E A ESCURIDÃO II

Este infeliz processo judicial, que dispensa apresentações, conheceu mais um episódio, confirmando o que eu tinha escrito no post anterior. A defesa, respondendo à errância decisória do Sr. Juiz de Instrução Criminal, promoveu o seu afastamento do processo, pelo que as diligências previstas e o circo anunciado, ficaram a aguardar melhores dias. Nas auscultações populares que se seguiram, nas rádios e nas tv's, a ignorância, que é sempre atrevida, lá lançou mais uns quantos dislates sobre o dinheiro dos advogados e o oculto poder dos "poderosos". Convinha talvez explicar a esta gentinha que os "poderosos" de hoje, podem ser eles mesmos amanhã. Eles querem lá saber o que é um "estado de direito".
A LENTE E A ESCURIDÃO

Julgo que a maior parte das pessoas ainda não se apercebeu de que, dentro de poucas horas, começa a ser "julgada" a justiça portuguesa. Da acusação, à defesa, dos magistrados aos advogados, dos arguidos às testemunhas, dos jornalistas aos polícias, dos responsáveis pelas instituições a ex-membros das mesmas, toda esta gente, consciente ou inconscientemente contribuiu para que, a propósito de um processo judicial, se instalasse um espectáculo. Como se isto não bastasse, as televisões preparam-se para o transmitir em tempo real. Aqui, porém, começa outro problema. A ausência de jornalistas nas audiências vai gerar uma complicada rede de informações e contra-informações, de meias-verdades e de meias-mentiras sobre o que realmente se está a passar, sem falar nos detalhes sórdidos a que seguramente não seremos poupados. Para quem trabalha diariamente com o direito, como promessa de realização da justiça, no sentido de inocentar os inocentes e de punir os culpados, mantendo vivo o sentido de "sociedade", este espectáculo anunciado apresenta tons demasiado escuros. Perguntava Clarice Lispector em um dos seus romances: "se eu olhar a escuridão com uma lente, não será que a amplio ainda mais"? É entre a lente e a escuridão que, por estes dias, a justiça portuguesa vai andar. A ver vamos.

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A LENTE E A ESCURIDÃO

Julgo que a maior parte das pessoas ainda não se apercebeu de que, dentro de poucas horas, começa a ser "julgada" a justiça portuguesa. Da acusação, à defesa, dos magistrados aos advogados, dos arguidos às testemunhas, dos jornalistas aos polícias, dos responsáveis pelas instituições a ex-membros das mesmas, toda esta gente, consciente ou inconscientemente contribuiu para que, a propósito de um processo judicial, se instalasse um espectáculo. Como se isto não bastasse, as televisões preparam-se para o transmitir em tempo real. Aqui, porém, começa outro problema. A ausência de jornalistas nas audiências vai gerar uma complicada rede de informações e contra-informações, de meias-verdades e de meias-mentiras sobre o que realmente se está a passar, sem falar nos detalhes sórdidos a que seguramente não seremos poupados. Para quem trabalha diariamente com o direito, como promessa de realização da justiça, no sentido de inocentar os inocentes e de punir os culpados, mantendo vivo o sentido de "sociedade", este espectáculo anunciado apresenta tons demasiado escuros. Perguntava Clarice Lispector em um dos seus romances: "se eu olhar a escuridão com uma lente, não será que a amplio ainda mais"? É entre a lente e a escuridão que, por estes dias, a justiça portuguesa vai andar. A ver vamos.