31.7.08

OUTRA COISA - 2

A forma como os papagaios do costume reagiram nas televisões à mensagem de Cavaco Silva - os "escritores" Rodrigues dos Santos e Sousa Tavares, os jornalistas Magno e Resendes, este por sinal açoriano, e o prolixo Delgado, a man for all seasons - só serviu para demonstrar ao PR que a "mensagem" devia ter sido outra. Rodrigues dos Santos, novo mestre da propaganda e exímio prosador erótico moderno, foi ao ponto de perguntar ao Magno (um imitador barato e provinciano de Marcelo) se a "montanha não teria parido um rato". Eles todos é que precisavam de ir para outra coisa qualquer que os parisse. Bem feito para Cavaco. Pode ser que um dia perceba com quem anda metido. E que, daqui para diante, à medida que isto se afunda num pântano "moderno", é inevitável "meter-se" mais.

Adenda: A comunicação de Cavaco teve pelo menos o mérito de recordar a mediocridade geral que vigora no parlamento da República. O "estatuto" do Sr. César possuía oito inconstitucionalidades e mais dois ou três disparates pseudo-autonómicos. Deixaram-nas ficar para ver se passavam. Foi aprovado por unanimidade. Não se esqueçam. Unanimidade. Se fosse o "estatuto" do Jardim, o que é que estas falsas virgens comentadeiras não diriam.

Adenda 2: Duas pessoas que estimo, o Pedro Correia e o Tomás Vasques - sobretudo este último que pertence à maison socialista - estariam à espera que o PR fosse fazer a triste figura de comentador-mor do "estado a que isto chegou", que abrisse hoje um blogue ou que fosse o "convidado surpresa" da trupe da "Quadratura do Círculo"? Não estou por dentro da cabeça de Cavaco mas deu-me ideia que ele quis dizer que está atento aos detalhes. Isto é particularmente importante quando somos governados, a todos os níveis, por "generalistas" abstractos e por prosélitos pomposos e vazios.

Adenda 3: Comentários idiotas contra o PR não passam na "censura". Já deviam saber que eu não sou adepto "desta" democracia. E gosto do Sarkozy. Do regime dele.

OUTRA COISA - 2

A forma como os papagaios do costume reagiram nas televisões à mensagem de Cavaco Silva - os "escritores" Rodrigues dos Santos e Sousa Tavares, os jornalistas Magno e Resendes, este por sinal açoriano, e o prolixo Delgado, a man for all seasons - só serviu para demonstrar ao PR que a "mensagem" devia ter sido outra. Rodrigues dos Santos, novo mestre da propaganda e exímio prosador erótico moderno, foi ao ponto de perguntar ao Magno (um imitador barato e provinciano de Marcelo) se a "montanha não teria parido um rato". Eles todos é que precisavam de ir para outra coisa qualquer que os parisse. Bem feito para Cavaco. Pode ser que um dia perceba com quem anda metido. E que, daqui para diante, à medida que isto se afunda num pântano "moderno", é inevitável "meter-se" mais.

Adenda: A comunicação de Cavaco teve pelo menos o mérito de recordar a mediocridade geral que vigora no parlamento da República. O "estatuto" do Sr. César possuía oito inconstitucionalidades e mais dois ou três disparates pseudo-autonómicos. Deixaram-nas ficar para ver se passavam. Foi aprovado por unanimidade. Não se esqueçam. Unanimidade. Se fosse o "estatuto" do Jardim, o que é que estas falsas virgens comentadeiras não diriam.

Adenda 2: Duas pessoas que estimo, o Pedro Correia e o Tomás Vasques - sobretudo este último que pertence à maison socialista - estariam à espera que o PR fosse fazer a triste figura de comentador-mor do "estado a que isto chegou", que abrisse hoje um blogue ou que fosse o "convidado surpresa" da trupe da "Quadratura do Círculo"? Não estou por dentro da cabeça de Cavaco mas deu-me ideia que ele quis dizer que está atento aos detalhes. Isto é particularmente importante quando somos governados, a todos os níveis, por "generalistas" abstractos e por prosélitos pomposos e vazios.

Adenda 3: Comentários idiotas contra o PR não passam na "censura". Já deviam saber que eu não sou adepto "desta" democracia. E gosto do Sarkozy. Do regime dele.

FINALMENTE...

Um governo.

FINALMENTE...

Um governo.

OUTRA COISA


A anunciada intervenção do Chefe de Estado só teria interesse se se destinasse a "dissolver" o regime, sujeitando-o a referendo, e a anunciar uma "nova república" presidencialista. Tudo o mais representa "dar vento" aos pequenos césares da pastagem.

OUTRA COISA


A anunciada intervenção do Chefe de Estado só teria interesse se se destinasse a "dissolver" o regime, sujeitando-o a referendo, e a anunciar uma "nova república" presidencialista. Tudo o mais representa "dar vento" aos pequenos césares da pastagem.

RUÍDO

O mais recente candidato a salvador da nação, o dr. Passos Coelho, pretende "construir ideias" no PSD. Para o efeito, vão aparecer umas "plataformas estratégicas" onde as referidas ideias serão "construídas" e "criadas". O dr. Coelho foi dirigente da JSD anos a fio. Foi vice-presidente do partido. Depois hibernou para a vida académcia e profissional - da qual nunca devia ter saído - e vem agora brindar o partido e o país com as suas "plataformas". Isto quer dizer que, enquanto desempenhou aqueles cargos, o fez a título ornamental já que era aí que tinha todas as possibilidades de "desenvolver" as "ideias" que agora quer "construir". Reunir um bando de idiotas "especializados" que o país normalmente ignora, é no que costuma dar este propósito. Para "plataformas" e "construção de ideias" já estamos servidos com o primeiro-ministro, o dr. Pinho, o dr. Zorrinho e a "esquerda moderna", em geral. Para quê, pois, novos e inúteis profetas apenas destinados ao ruído?

RUÍDO

O mais recente candidato a salvador da nação, o dr. Passos Coelho, pretende "construir ideias" no PSD. Para o efeito, vão aparecer umas "plataformas estratégicas" onde as referidas ideias serão "construídas" e "criadas". O dr. Coelho foi dirigente da JSD anos a fio. Foi vice-presidente do partido. Depois hibernou para a vida académcia e profissional - da qual nunca devia ter saído - e vem agora brindar o partido e o país com as suas "plataformas". Isto quer dizer que, enquanto desempenhou aqueles cargos, o fez a título ornamental já que era aí que tinha todas as possibilidades de "desenvolver" as "ideias" que agora quer "construir". Reunir um bando de idiotas "especializados" que o país normalmente ignora, é no que costuma dar este propósito. Para "plataformas" e "construção de ideias" já estamos servidos com o primeiro-ministro, o dr. Pinho, o dr. Zorrinho e a "esquerda moderna", em geral. Para quê, pois, novos e inúteis profetas apenas destinados ao ruído?

30.7.08

O GÉNERO DAS QUESTÕES DE GÉNERO


Uma juíza de Felgueiras, numa sentença, escreveu que os ciganos, de que os réus naquele processo eram exemplares, são em geral »pessoas mal vistas socialmente, marginais, traiçoeiras, integralmente subsídio-dependentes de um Estado a quem pagam desobedecendo e atentando contra a integridade física e moral dos seus agentes.» A dra. Ana Gabriela Freitas vai mais longe e qualifica «as condições habitacionais» da ciganagem como «fracas, não por força do espaço físico em si, mas pelo estilo de vida da sua etnia (pouca higiene).» Vai daí a juíza não encontra «a menor razão para acolher a rábula da perseguição e vitimização dos ciganos, coitadinhos!.» Contra estas evidências - extensíveis a brancos, pretos, amarelos ou de outra "etnia" qualquer: um malandro é sempre um malandro quer se lave ou não - levantou-se a voz da sra. comissária para a imigração que foi imediatamente fazer a tradicional queixinha ao conselho superior da magistratura em nome da correcção política. No fundo, no fundo, quem é que não concorda com a dra. Freitas? É muito bonito ser "correcto" dentro de um condomínio fechado, rodeado das derradeiras produções da sociologia mundial e de duas ou três Vanity Fair. Experimentem a rua de vez em quando e depois logo vêem a quem é que se vão queixar.

O GÉNERO DAS QUESTÕES DE GÉNERO


Uma juíza de Felgueiras, numa sentença, escreveu que os ciganos, de que os réus naquele processo eram exemplares, são em geral »pessoas mal vistas socialmente, marginais, traiçoeiras, integralmente subsídio-dependentes de um Estado a quem pagam desobedecendo e atentando contra a integridade física e moral dos seus agentes.» A dra. Ana Gabriela Freitas vai mais longe e qualifica «as condições habitacionais» da ciganagem como «fracas, não por força do espaço físico em si, mas pelo estilo de vida da sua etnia (pouca higiene).» Vai daí a juíza não encontra «a menor razão para acolher a rábula da perseguição e vitimização dos ciganos, coitadinhos!.» Contra estas evidências - extensíveis a brancos, pretos, amarelos ou de outra "etnia" qualquer: um malandro é sempre um malandro quer se lave ou não - levantou-se a voz da sra. comissária para a imigração que foi imediatamente fazer a tradicional queixinha ao conselho superior da magistratura em nome da correcção política. No fundo, no fundo, quem é que não concorda com a dra. Freitas? É muito bonito ser "correcto" dentro de um condomínio fechado, rodeado das derradeiras produções da sociologia mundial e de duas ou três Vanity Fair. Experimentem a rua de vez em quando e depois logo vêem a quem é que se vão queixar.

A VARINHA MÁGICA


Este post do Jorge Ferreira leva-me a repetir duas ideias. Uma de Manuel Maria Carrilho e a outra de Maria Filomena Mónica. Escreve o primeiro - sobre a "vaga número um" da "banda larga" pela mão de Guterres (Sócrates já lá estava) - que «o slogan do «acesso de todos à Net» pretende, no seu fervor militante, passar a ideia de uma nova igualdade, agora ao alcance do teclado, como se entre o analfabeto e o investigador, o rural e o urbano, o europeu cosmopolita e o habitante de África, as diferenças desaparecessem quando se «surfa» na Net» já que, «pelo contrário, é justamente aí que as diferenças mais se evidenciam, se nada as tiver atenuado, ou anulado, antes.» E a segunda - num reparo que assenta perfeitamente ao "plano tecnológico" permanentemente apresentado como o novo "passe de magia" para o "progresso" da pátria - alerta para o facto de, «num país de analfabetos, o computador [se ter transformado] numa varinha mágica capaz de transformar um bronco num génio.» Não transformou. Nem nunca transforma. O problema é que, como lembra o Jorge Ferreira, «José Sócrates, quando não sabe o que fazer ou o que dizer anuncia banda larga, internet e computadores», na realidade «um número tão gasto como as corridinhas no estrangeiro antes das cimeiras.»

A VARINHA MÁGICA


Este post do Jorge Ferreira leva-me a repetir duas ideias. Uma de Manuel Maria Carrilho e a outra de Maria Filomena Mónica. Escreve o primeiro - sobre a "vaga número um" da "banda larga" pela mão de Guterres (Sócrates já lá estava) - que «o slogan do «acesso de todos à Net» pretende, no seu fervor militante, passar a ideia de uma nova igualdade, agora ao alcance do teclado, como se entre o analfabeto e o investigador, o rural e o urbano, o europeu cosmopolita e o habitante de África, as diferenças desaparecessem quando se «surfa» na Net» já que, «pelo contrário, é justamente aí que as diferenças mais se evidenciam, se nada as tiver atenuado, ou anulado, antes.» E a segunda - num reparo que assenta perfeitamente ao "plano tecnológico" permanentemente apresentado como o novo "passe de magia" para o "progresso" da pátria - alerta para o facto de, «num país de analfabetos, o computador [se ter transformado] numa varinha mágica capaz de transformar um bronco num génio.» Não transformou. Nem nunca transforma. O problema é que, como lembra o Jorge Ferreira, «José Sócrates, quando não sabe o que fazer ou o que dizer anuncia banda larga, internet e computadores», na realidade «um número tão gasto como as corridinhas no estrangeiro antes das cimeiras.»

A CONSCIÊNCIA TRANQUILA DA "HISTÓRIA"


«Entre Agosto de 1974 e o início de 1975 os portugueses em fuga de África mal se vêem nas páginas dos jornais. É claro que se fala deles mas com o incómodo e os rodeios de quem tem de dar uma má notícia no meio duma festa. Esta é a fase em que os fugitivos são necessariamente brancos pois assim facilmente se integram no estereótipo que deles traçam homens como Rosa Coutinho que os classifica como “elementos menos evoluídos que têm medo de perder as suas regalias” ou Vítor Crespo que os define como “pessoas racistas que não abdicam dos seus privilégios”. Os jornalistas portugueses usam então tranquilamente expressões como “brancos ressentidos”, “brancos em pânico” ou pessoas que “reivindicam um desejo de viver num mundo que já acabou” para referir a maior fuga de portugueses nos seus muitos séculos de História. Os primeiros a chegar, logo em Agosto de 1974, ainda tiveram jornalistas à espera. Mas semanas depois, quando a catástrofe se torna não só óbvia como incontornável, as notícias sobre o “regresso dos colonos” quase desaparecem e o que temos cada vez mais são longos artigos sobre a descolonização cheios de declarações de líderes ou candidatos a tal.»


A CONSCIÊNCIA TRANQUILA DA "HISTÓRIA"


«Entre Agosto de 1974 e o início de 1975 os portugueses em fuga de África mal se vêem nas páginas dos jornais. É claro que se fala deles mas com o incómodo e os rodeios de quem tem de dar uma má notícia no meio duma festa. Esta é a fase em que os fugitivos são necessariamente brancos pois assim facilmente se integram no estereótipo que deles traçam homens como Rosa Coutinho que os classifica como “elementos menos evoluídos que têm medo de perder as suas regalias” ou Vítor Crespo que os define como “pessoas racistas que não abdicam dos seus privilégios”. Os jornalistas portugueses usam então tranquilamente expressões como “brancos ressentidos”, “brancos em pânico” ou pessoas que “reivindicam um desejo de viver num mundo que já acabou” para referir a maior fuga de portugueses nos seus muitos séculos de História. Os primeiros a chegar, logo em Agosto de 1974, ainda tiveram jornalistas à espera. Mas semanas depois, quando a catástrofe se torna não só óbvia como incontornável, as notícias sobre o “regresso dos colonos” quase desaparecem e o que temos cada vez mais são longos artigos sobre a descolonização cheios de declarações de líderes ou candidatos a tal.»


A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR


O Tribunal Constitucional deu razão a Cavaco em oito das treze "dúvidas" levantadas sobre a revisão do "estatuto" dos Açores que agora volta para trás para ser "emendado". Pouca gente deu por isso - o tradicional contingente de virtuosos sempre atentos aos "excessos" de Alberto João Jardim tende a esquecer-se do Sr. César - mas o PS regional não poupou o presidente da República por causa da devolução do "estatuto", enchendo os jornais regionais de comunicados estilo finis patriae e com o próprio César absoluto a dar entrevistas tremendistas e ameaçadoras à RTP Açores que não mereceram um pio dos moralistas anti-Madeira. Percebe-se a histeria do Sr. César. Tem eleições à porta - que, aliás, ganhará tranquilamente - e pretende aparecer como o novo herói da autonomia açoriana hipoteticamente "ameaçada" pela vigilância constitucional. Satisfeito com os dinheiros da República que o beneficiam em relação à Madeira, César usa a retórica política para mostrar músculo e "diferença" usando como pretexto o "estatuto". O poder de César e do PS nos Açores é tão "total" como o de Alberto João e do PSD na Madeira. É só dar uma voltinha pelas ilhas. A diferença é que ninguém fala de César por cá. O outro é um "palhaço", um "fascista", um "chantagista", um isto e aquilo. César não é nada quando, tipicamente, é um puro representante do regime. É, pois, tempo de reparar em César. A César o que é de César.

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR


O Tribunal Constitucional deu razão a Cavaco em oito das treze "dúvidas" levantadas sobre a revisão do "estatuto" dos Açores que agora volta para trás para ser "emendado". Pouca gente deu por isso - o tradicional contingente de virtuosos sempre atentos aos "excessos" de Alberto João Jardim tende a esquecer-se do Sr. César - mas o PS regional não poupou o presidente da República por causa da devolução do "estatuto", enchendo os jornais regionais de comunicados estilo finis patriae e com o próprio César absoluto a dar entrevistas tremendistas e ameaçadoras à RTP Açores que não mereceram um pio dos moralistas anti-Madeira. Percebe-se a histeria do Sr. César. Tem eleições à porta - que, aliás, ganhará tranquilamente - e pretende aparecer como o novo herói da autonomia açoriana hipoteticamente "ameaçada" pela vigilância constitucional. Satisfeito com os dinheiros da República que o beneficiam em relação à Madeira, César usa a retórica política para mostrar músculo e "diferença" usando como pretexto o "estatuto". O poder de César e do PS nos Açores é tão "total" como o de Alberto João e do PSD na Madeira. É só dar uma voltinha pelas ilhas. A diferença é que ninguém fala de César por cá. O outro é um "palhaço", um "fascista", um "chantagista", um isto e aquilo. César não é nada quando, tipicamente, é um puro representante do regime. É, pois, tempo de reparar em César. A César o que é de César.

29.7.08

ENCARAR A COISA FILOSOFICAMENTE

«A estupidez não é o meu forte», escreve Paul Valéry em Monsieur Teste. É verdade. Vejo alguma da blogosfera (dos jornais já nem vale a pena falar) que prezo tão presa pela propaganda em vigor como convencida de que isto é para levar a sério. E não me refiro apenas nem especialmente à política. Um regime medíocre vive forçosamente da propaganda. Da estúpida e da inteligente. Da própria e da produzida por prosélitos e filisteus das mais diversas origens e com os mais diversificados "interesses". Por isto tudo, e talvez por ser um verão manifestamente do meu descontentamento, tenho saudades da prosa do João Pedro George (e dele), agora "emigrado" em Espanha e já presumivelmente pai ou quase. Uma das graças que o João Pedro possui é ser alheio à paróquia e à "norma" o que, num país de invejosos e de compulsivos analfabetos, maça. Estou cada vez mais como ele a propósito do que quer que seja. Procuro «encarar a coisa filosoficamente: "foda-se".»

ENCARAR A COISA FILOSOFICAMENTE

«A estupidez não é o meu forte», escreve Paul Valéry em Monsieur Teste. É verdade. Vejo alguma da blogosfera (dos jornais já nem vale a pena falar) que prezo tão presa pela propaganda em vigor como convencida de que isto é para levar a sério. E não me refiro apenas nem especialmente à política. Um regime medíocre vive forçosamente da propaganda. Da estúpida e da inteligente. Da própria e da produzida por prosélitos e filisteus das mais diversas origens e com os mais diversificados "interesses". Por isto tudo, e talvez por ser um verão manifestamente do meu descontentamento, tenho saudades da prosa do João Pedro George (e dele), agora "emigrado" em Espanha e já presumivelmente pai ou quase. Uma das graças que o João Pedro possui é ser alheio à paróquia e à "norma" o que, num país de invejosos e de compulsivos analfabetos, maça. Estou cada vez mais como ele a propósito do que quer que seja. Procuro «encarar a coisa filosoficamente: "foda-se".»

UM PARTIDO NUMA GALÁXIA DISTANTE


O regresso de Paulo Portas à liderança do PP, sem luto nem tréguas ao seu sucessor, não parece ter acrescentado nada. Fora o desempenho parlamentar que tem sido bom, ninguém dá praticamente por isso porque a "associação" a Portas dá ar de ser fatal. O CDS/PP aparentemente não "progride", não é escutado e, pelos vistos, implode mansamente sem que o país se comova com o facto. A presença de Ferreira Leite no partido imediatamente ao lado também não ajuda. Como "direita" pura e dura, o rosto da líder do PSD, apesar das pias intenções "social-democratas", convence mais do que o do ex-ministro do fato às riscas e da gravitas ensaiada. A lenta caminhada do CDS/PP para a irrelevância não consola. É que, nessas alturas, costuma emergir o pior que se abriga nas melhores das intenções. E, nessa matéria, o CDS possui um "passado" incómodo. Em 77/78, quando "deu a mão" ao segundo governo de Soares. E em 91, quando Freitas se proclamou tão "ao centro" que tanto se lhe dava voltar a "dar a mão" ao PS como ao PSD. Nesse instante, o CDS começou a lenta agonia "transformista" que, do partido "do táxi", conduziu ao PP de Monteiro e Portas e, finalmente, de Portas só e ao seu poder efémero. O descalabro da direita de 2004/2005 não poupou Portas e Portas, com despropósito e inoportunidade, regressou antes de tempo e de tudo, não poupando o partido à sua extraordinária pessoa. Está, pois, na hora de o PP começar a rever o dr. Portas antes que o país projecte definitivamente o CDS/PP para outra galáxia.

UM PARTIDO NUMA GALÁXIA DISTANTE


O regresso de Paulo Portas à liderança do PP, sem luto nem tréguas ao seu sucessor, não parece ter acrescentado nada. Fora o desempenho parlamentar que tem sido bom, ninguém dá praticamente por isso porque a "associação" a Portas dá ar de ser fatal. O CDS/PP aparentemente não "progride", não é escutado e, pelos vistos, implode mansamente sem que o país se comova com o facto. A presença de Ferreira Leite no partido imediatamente ao lado também não ajuda. Como "direita" pura e dura, o rosto da líder do PSD, apesar das pias intenções "social-democratas", convence mais do que o do ex-ministro do fato às riscas e da gravitas ensaiada. A lenta caminhada do CDS/PP para a irrelevância não consola. É que, nessas alturas, costuma emergir o pior que se abriga nas melhores das intenções. E, nessa matéria, o CDS possui um "passado" incómodo. Em 77/78, quando "deu a mão" ao segundo governo de Soares. E em 91, quando Freitas se proclamou tão "ao centro" que tanto se lhe dava voltar a "dar a mão" ao PS como ao PSD. Nesse instante, o CDS começou a lenta agonia "transformista" que, do partido "do táxi", conduziu ao PP de Monteiro e Portas e, finalmente, de Portas só e ao seu poder efémero. O descalabro da direita de 2004/2005 não poupou Portas e Portas, com despropósito e inoportunidade, regressou antes de tempo e de tudo, não poupando o partido à sua extraordinária pessoa. Está, pois, na hora de o PP começar a rever o dr. Portas antes que o país projecte definitivamente o CDS/PP para outra galáxia.

O EMBUSTE - 3 (actualizado)


Augusto M. Seabra avalia a "temporada Moreira-Dammann" do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC). Aqui , aqui e aqui. Chama-lhe, delicadamente, "o disparate anunciado". «O panorama aproxima-se de um desastre generalizado e da maior incúria. Sobre esta próxima temporada paira claramente a sombra do ex-secretário de Estado Mário Vieira de Carvalho, que de resto, em vários textos no “Público” e uma resposta ao actual ministro no “Expresso”, tem dados mostras suficientes de que não se dá por vencido, antes que continua a ser o ideólogo.» Desde sempre fui mais radical. O TNSC tem problemas estruturais por resolver desde que se tornou num "produto" de variadíssimas "experiências" de gestão. A "solução" seguinte limitou-se invariavelmente a juntar a sua própria ineficácia às que herdou. Empresa pública, fundação, instituto, "EPE", OPART ou outra coisa qualquer acumularam erros e vícios, vícios e erros. Em coerência, sempre defendi que, à semelhança do que aconteceu com outros teatros líricos, o TNSC devia encerrar para mudar de "registo". A opção, porém, tem sido a de empurrar as questões de funcionamento com a barriga ou com a marreca- ora Falstaff, ora Rigoletto - ou em varrê-las para debaixo do tapete como num momento cómico de Rossini. O ridículo foi atingido quando um dia o Teatro fechou como "EP" e abriu praticamente no dia seguinte como "fundação" para, dizia-se, celebrar o respectivo "bicentenário". E quando teve uma "direcção artística" a "trabalhar" no Teatro (Ribeiro da Fonte) e outra, a futura, a "preparar" ao mesmo tempo, na Ajuda, uma nova "temporada" (Ferreira de Castro). Estas trapalhadas custaram ao erário público milhares de contos em indemnizações e equivalentes sem que o Teatro tivesse ganho o que quer que fosse com tanta "mudança". Os problemas de que falo, com origem tanto nas "mudanças" como nas "permanências", precedem toda e qualquer temporada e a OPART já devia ter dado por isso e tirado daí consequências. Ou, em alternativa, o ministro tirá-las. Enfim, e como escreve o Augusto, «é mesmo inaceitável esta transformação do São Carlos em teatro alemão de segunda ou terceira ordem (ainda por cima, com os cantores a menos), o que de resto é um quadro restritivo de perspectivas e cosmopolitimo, e antes um outro modo provinciano, no caso “deslocalizado”.» Mais. «Tudo isto demonstra, além de graves incúrias, desde logo do director Christoph Dammann, esta espécie de “domínios privados” em que transformaram as instituições culturais: são as opções de Mário Vieira de Carvalho ou os “contributos” de Fragateiro e Mega Ferreira. E é um disparate anunciado, e o plano inclinado do vazio de perspectivas no São Carlos.»

Adenda: Uma infeliz "herança" do consulado Pires de Lima/Vieira de Carvalho na cultura, Carlos Fragateiro, o director do D. Maria, foi hoje removido por Pinto Ribeiro. Agora é preciso que Pinto Ribeiro "medite" sobre a OPART. Não necessariamente para o mesmo efeito, mas por forma a produzir um efeito.

O EMBUSTE - 3 (actualizado)


Augusto M. Seabra avalia a "temporada Moreira-Dammann" do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC). Aqui , aqui e aqui. Chama-lhe, delicadamente, "o disparate anunciado". «O panorama aproxima-se de um desastre generalizado e da maior incúria. Sobre esta próxima temporada paira claramente a sombra do ex-secretário de Estado Mário Vieira de Carvalho, que de resto, em vários textos no “Público” e uma resposta ao actual ministro no “Expresso”, tem dados mostras suficientes de que não se dá por vencido, antes que continua a ser o ideólogo.» Desde sempre fui mais radical. O TNSC tem problemas estruturais por resolver desde que se tornou num "produto" de variadíssimas "experiências" de gestão. A "solução" seguinte limitou-se invariavelmente a juntar a sua própria ineficácia às que herdou. Empresa pública, fundação, instituto, "EPE", OPART ou outra coisa qualquer acumularam erros e vícios, vícios e erros. Em coerência, sempre defendi que, à semelhança do que aconteceu com outros teatros líricos, o TNSC devia encerrar para mudar de "registo". A opção, porém, tem sido a de empurrar as questões de funcionamento com a barriga ou com a marreca- ora Falstaff, ora Rigoletto - ou em varrê-las para debaixo do tapete como num momento cómico de Rossini. O ridículo foi atingido quando um dia o Teatro fechou como "EP" e abriu praticamente no dia seguinte como "fundação" para, dizia-se, celebrar o respectivo "bicentenário". E quando teve uma "direcção artística" a "trabalhar" no Teatro (Ribeiro da Fonte) e outra, a futura, a "preparar" ao mesmo tempo, na Ajuda, uma nova "temporada" (Ferreira de Castro). Estas trapalhadas custaram ao erário público milhares de contos em indemnizações e equivalentes sem que o Teatro tivesse ganho o que quer que fosse com tanta "mudança". Os problemas de que falo, com origem tanto nas "mudanças" como nas "permanências", precedem toda e qualquer temporada e a OPART já devia ter dado por isso e tirado daí consequências. Ou, em alternativa, o ministro tirá-las. Enfim, e como escreve o Augusto, «é mesmo inaceitável esta transformação do São Carlos em teatro alemão de segunda ou terceira ordem (ainda por cima, com os cantores a menos), o que de resto é um quadro restritivo de perspectivas e cosmopolitimo, e antes um outro modo provinciano, no caso “deslocalizado”.» Mais. «Tudo isto demonstra, além de graves incúrias, desde logo do director Christoph Dammann, esta espécie de “domínios privados” em que transformaram as instituições culturais: são as opções de Mário Vieira de Carvalho ou os “contributos” de Fragateiro e Mega Ferreira. E é um disparate anunciado, e o plano inclinado do vazio de perspectivas no São Carlos.»

Adenda: Uma infeliz "herança" do consulado Pires de Lima/Vieira de Carvalho na cultura, Carlos Fragateiro, o director do D. Maria, foi hoje removido por Pinto Ribeiro. Agora é preciso que Pinto Ribeiro "medite" sobre a OPART. Não necessariamente para o mesmo efeito, mas por forma a produzir um efeito.

28.7.08

ABSURDOS

Este post de Filipa Martins chama a atenção para um daqueles absurdos que tendem a passar despercebidos entre as "falas" e a demagogia dos protagonistas tradicionais. Este absurdo, como outros, prende-se com interesses. Porventura louváveis, mas interesses. O regime, de que aqui tanto se fala, também é isto. Uma mixórdia de coloração indefinida.

ABSURDOS

Este post de Filipa Martins chama a atenção para um daqueles absurdos que tendem a passar despercebidos entre as "falas" e a demagogia dos protagonistas tradicionais. Este absurdo, como outros, prende-se com interesses. Porventura louváveis, mas interesses. O regime, de que aqui tanto se fala, também é isto. Uma mixórdia de coloração indefinida.

27.7.08

O OXÍMORO SOCIALISTA

A Cravinho respondeu o inefável Alberto Martins, o louvaminheiro parlamentar do governo, alguém claramente desprovido de um módico de densidade ou de interesse políticos e que está acostumado a debitar o que o mandam debitar. Lançou um oxímoro em forma de "farpa" ao seu camarada quando lhe atirou com o «quem faz deste combate uma bandeira, não o deixa a meio.» Na sua intrínseca paloncice, Martins, sem querer, deu a entender duas coisas. Primeira: Cravinho podia ter escolhido entre prosseguir o "combate" entre os seus, "fingindo" que erguia a "bandeira", e o BERD. Segunda: Cravinho e os seus "acordaram" que era melhor para ambos a sua remoção enquanto os seus prosseguiam o "combate" com a "bandeira" adequada às circunstâncias. Têm todos medo de quê?

O OXÍMORO SOCIALISTA

A Cravinho respondeu o inefável Alberto Martins, o louvaminheiro parlamentar do governo, alguém claramente desprovido de um módico de densidade ou de interesse políticos e que está acostumado a debitar o que o mandam debitar. Lançou um oxímoro em forma de "farpa" ao seu camarada quando lhe atirou com o «quem faz deste combate uma bandeira, não o deixa a meio.» Na sua intrínseca paloncice, Martins, sem querer, deu a entender duas coisas. Primeira: Cravinho podia ter escolhido entre prosseguir o "combate" entre os seus, "fingindo" que erguia a "bandeira", e o BERD. Segunda: Cravinho e os seus "acordaram" que era melhor para ambos a sua remoção enquanto os seus prosseguiam o "combate" com a "bandeira" adequada às circunstâncias. Têm todos medo de quê?

CRAVINHO TAXISTA?


Cravinho, antigo ministro das "scut" e do betão estradal, deu por si, em dada altura, preocupado com a corrupção. A sua bancada maioritária desconfiou dos excessos do deputado e Sócrates delicadamente mandou-o para Londres. De vez em quando Cravinho vem aí para falar do leite derramado. Segundo ele, o "pacote anti-corrupção" que o PS aprovou é insuficiente e contém "factos anómalos". Mais. Cravinho considera-se "derrotado", nesta matéria, pelo seu próprio grupo parlamentar e não duvida que «na grande corrupção de Estado, toda a gente tem a sensação que estamos numa situação muito complicada e em crescendo (...) porque a grande corrupção considera-se impune e age em conformidade e atinge áreas de funcionamento do Estado, que afectam a ética pública.» É um ex-dirigente do PS e um seu antigo ministro do "equipamento"que diz isto. Não é um taxista qualquer. Por que é será que ninguém lhe liga?

CRAVINHO TAXISTA?


Cravinho, antigo ministro das "scut" e do betão estradal, deu por si, em dada altura, preocupado com a corrupção. A sua bancada maioritária desconfiou dos excessos do deputado e Sócrates delicadamente mandou-o para Londres. De vez em quando Cravinho vem aí para falar do leite derramado. Segundo ele, o "pacote anti-corrupção" que o PS aprovou é insuficiente e contém "factos anómalos". Mais. Cravinho considera-se "derrotado", nesta matéria, pelo seu próprio grupo parlamentar e não duvida que «na grande corrupção de Estado, toda a gente tem a sensação que estamos numa situação muito complicada e em crescendo (...) porque a grande corrupção considera-se impune e age em conformidade e atinge áreas de funcionamento do Estado, que afectam a ética pública.» É um ex-dirigente do PS e um seu antigo ministro do "equipamento"que diz isto. Não é um taxista qualquer. Por que é será que ninguém lhe liga?

NOVAS ERAS


Por cada novo "investimento" que promete ou celebra, Sócrates fala numa "nova era". Teoricamente, ele e o imaginativo Manuel Pinho andam, há quase quatro anos, a inaugurar "novas eras" dia sim, dia não. Pinho, o proto-ministro da cultura, até fala em "direcção comercial de luxo" para se referir ao governo e à sua extraordinária "vocação negocial" com gente tão improvável quanto imprevisível. Em breve, no ano que se segue, haverá ocasião para avaliar as "novas eras", em tese abertas por Sócrates e pelos seus ajudantes "de luxo". Numa delas, lembram-se decerto, garantia-se cento e cinquenta mil novos empregos numa legislatura. O camarada de Sócrates que preside à Câmara de Évora estava muito contente porque a "nova era" que abriram ontem por perto representará mais não sei quantos postos de trabalho e menos desertificação alentejana. A ver vamos. Era bom que os nossos jornalistas, sempre tão atentos, venerandos e obrigados ao poder socialista, começassem a preparar dossiês, preferencialmente isentos, sobre o que deram as "novas eras" sugeridas por Sócrates em quatro anos. Onde estão, o estado em que encontram e os benefícios que trouxeram. Nicolau Santos, por exemplo, podia "coordenar" esse trabalho já que é tão levianamente impressionável por "anúncios". Aguarda-se o balanço.

NOVAS ERAS


Por cada novo "investimento" que promete ou celebra, Sócrates fala numa "nova era". Teoricamente, ele e o imaginativo Manuel Pinho andam, há quase quatro anos, a inaugurar "novas eras" dia sim, dia não. Pinho, o proto-ministro da cultura, até fala em "direcção comercial de luxo" para se referir ao governo e à sua extraordinária "vocação negocial" com gente tão improvável quanto imprevisível. Em breve, no ano que se segue, haverá ocasião para avaliar as "novas eras", em tese abertas por Sócrates e pelos seus ajudantes "de luxo". Numa delas, lembram-se decerto, garantia-se cento e cinquenta mil novos empregos numa legislatura. O camarada de Sócrates que preside à Câmara de Évora estava muito contente porque a "nova era" que abriram ontem por perto representará mais não sei quantos postos de trabalho e menos desertificação alentejana. A ver vamos. Era bom que os nossos jornalistas, sempre tão atentos, venerandos e obrigados ao poder socialista, começassem a preparar dossiês, preferencialmente isentos, sobre o que deram as "novas eras" sugeridas por Sócrates em quatro anos. Onde estão, o estado em que encontram e os benefícios que trouxeram. Nicolau Santos, por exemplo, podia "coordenar" esse trabalho já que é tão levianamente impressionável por "anúncios". Aguarda-se o balanço.

26.7.08

JOÃO UBALDO RIBEIRO


Deram-lhe o Prémio Camões deste ano. Pertence ao pequeno grupo dos que gosto. Vale meia dúzia de Lobo Antunes que recebeu o do ano passado. Eis um pouco dele, em A casa dos budas ditosos. «Explicar que sou um grande homem e não digo que sou uma grande mulher pela mesma razão por que não existe onço, só onça, nem foco, só foca, tudo isso é um bobajol de quem não tem o que fazer ou fica preso a idiossincrasias da língua, como aquelas cretinas feministas americanas que queriam mudar history para herstory, como se o his do começo da palavra fosse a mesma coisa que um pronome possessivo do gênero masculino, a imbecilidade humana não tem limites. Sou um grande homem fêmea, da mesma forma que os grandes homens machos são grandes homens machos, fica-se catando picuinha porque o nome da espécie é por acaso masculino e não neutro, como é possível que seja em alguma outra língua, como se a gramática resolvesse alguma coisa nesse caso. Explicar isso, não existem grandes homens e grandes mulheres, existem grandes homens machos e grandes homens fêmeas. Não há nada mais ridículo do que galeria de grandes mulheres isso e aquilo, fico morta de vergonha. A espécie é humana, como Panthera uncius, Panthera leo, um onça, no feminino por acaso, outro leão, no masculino por acaso, questão de língua, exclusivamente. Explicar isso como quem explica a um marciano. A um terráqueo. Escuta aqui, terráqueo, deixa de ser débil mental. Bem, ambições inúteis, vamos ao trabalho.»

JOÃO UBALDO RIBEIRO


Deram-lhe o Prémio Camões deste ano. Pertence ao pequeno grupo dos que gosto. Vale meia dúzia de Lobo Antunes que recebeu o do ano passado. Eis um pouco dele, em A casa dos budas ditosos. «Explicar que sou um grande homem e não digo que sou uma grande mulher pela mesma razão por que não existe onço, só onça, nem foco, só foca, tudo isso é um bobajol de quem não tem o que fazer ou fica preso a idiossincrasias da língua, como aquelas cretinas feministas americanas que queriam mudar history para herstory, como se o his do começo da palavra fosse a mesma coisa que um pronome possessivo do gênero masculino, a imbecilidade humana não tem limites. Sou um grande homem fêmea, da mesma forma que os grandes homens machos são grandes homens machos, fica-se catando picuinha porque o nome da espécie é por acaso masculino e não neutro, como é possível que seja em alguma outra língua, como se a gramática resolvesse alguma coisa nesse caso. Explicar isso, não existem grandes homens e grandes mulheres, existem grandes homens machos e grandes homens fêmeas. Não há nada mais ridículo do que galeria de grandes mulheres isso e aquilo, fico morta de vergonha. A espécie é humana, como Panthera uncius, Panthera leo, um onça, no feminino por acaso, outro leão, no masculino por acaso, questão de língua, exclusivamente. Explicar isso como quem explica a um marciano. A um terráqueo. Escuta aqui, terráqueo, deixa de ser débil mental. Bem, ambições inúteis, vamos ao trabalho.»

A ANTI-POLÍTICA


Manuela Ferreira Leite não é uma "doutrinadora", como Salazar, nem uma "carreirista" como a maior parte dos dirigentes partidários. A sua "pose" consiste em não ter pose nenhuma. Adverte os jornalistas do Expresso que a entrevistam que escusam de esperar por fotografias dela a rir, de pernas cruzadas, num gesto parecido e forçado como o de Maria de Lurdes Rodrigues umas semanas atrás. Seca, explica que não é, para já, ela quem deve "dar explicações". Ela é quem as pede ao governo que considera "esgotado". A seu tempo, antes das eleições para as quais não pede maioria absoluta, revelará o seu "programa". Pelo andar da carruagem, Ferreira Leite poderá vir a ser a derradeira líder do PSD tal como o conhecemos. Como escreve VPV no Público, «em 2009, o PSD corre o perigo óbvio de uma cisão definitiva. Se Sócrates chegar a maioria absoluta, fica provada a impotência intrínseca do partido: do populismo, do "liberalismo" e, principalmente, da social-democracia, que Ferreira Leite à sua maneira representa. Se Sócrates não passar da maioria relativa, e apesar de enfáticos protestos de virtude, a perspectiva (ou a ideia) do "Bloco Central" vai dividir o PSD de cima a baixo. Para evitar o pior, Ferreira Leite precisa de transmitir uma convicção que se não sente (nada que se aproxime, por exemplo, do fervor de Cavaco por si próprio) e precisa de injectar um novo espírito no velho eleitorado do PSD, já que a unidade interna é hoje pura fantasia. Mas não se inspiram três milhões de pessoas com silêncio e uma aula ou outra de finanças públicas.»

A ANTI-POLÍTICA


Manuela Ferreira Leite não é uma "doutrinadora", como Salazar, nem uma "carreirista" como a maior parte dos dirigentes partidários. A sua "pose" consiste em não ter pose nenhuma. Adverte os jornalistas do Expresso que a entrevistam que escusam de esperar por fotografias dela a rir, de pernas cruzadas, num gesto parecido e forçado como o de Maria de Lurdes Rodrigues umas semanas atrás. Seca, explica que não é, para já, ela quem deve "dar explicações". Ela é quem as pede ao governo que considera "esgotado". A seu tempo, antes das eleições para as quais não pede maioria absoluta, revelará o seu "programa". Pelo andar da carruagem, Ferreira Leite poderá vir a ser a derradeira líder do PSD tal como o conhecemos. Como escreve VPV no Público, «em 2009, o PSD corre o perigo óbvio de uma cisão definitiva. Se Sócrates chegar a maioria absoluta, fica provada a impotência intrínseca do partido: do populismo, do "liberalismo" e, principalmente, da social-democracia, que Ferreira Leite à sua maneira representa. Se Sócrates não passar da maioria relativa, e apesar de enfáticos protestos de virtude, a perspectiva (ou a ideia) do "Bloco Central" vai dividir o PSD de cima a baixo. Para evitar o pior, Ferreira Leite precisa de transmitir uma convicção que se não sente (nada que se aproxime, por exemplo, do fervor de Cavaco por si próprio) e precisa de injectar um novo espírito no velho eleitorado do PSD, já que a unidade interna é hoje pura fantasia. Mas não se inspiram três milhões de pessoas com silêncio e uma aula ou outra de finanças públicas.»

A NOITE DO MUNDO


A RTP1 passa à noite o filme de Robert Benton, A culpa humana, baseado no livro A Mancha Humana (The Human Stain) de Philip Roth (tradução na Dom Quixote). O filme é perfeitamente esquecível, apesar das interpretações de Anthony Hopkins e Nicole Kidman. Roth, no essencial, conta a história de alguém que foi expulso da sua vida. Coleman Silk é um homem perseguido pela cor oculta no seu "rosto branco como a neve" na América racista e "profunda" dos anos 40, 50 e 60, agora pelos vistos em acelerado processo de "compensação" através da "obamomania". É uma palavra ("spook") proferida numa aula por Coleman, já no fim dos anos Clinton - referida a dois estudantes que ele ignorava serem negros - que leva à saída forçada da universidade da qual fora reitor, em nome do "correcto". Com a morte súbita da mulher, Coleman descobre Faunia, a mulher da limpeza da universidade, mais nova, sozinha depois de um marido errado e do desaparecimento dos filhos pequenos. Faunia nunca quer acordar ao lado de Coleman e diz-lhe a toda a hora que ali não há lugar para o "amor". Só no último dia das suas vidas aceita a ideia de "partilhar" o afecto de Coleman. A história é contada pelo vizinho de Coleman, o escritor Zuckerman, um dos alter ego de Philip Roth. A escrita de Roth, adaptada aos diálogos do filme, fala de vergonha - de uma imensa e escondida vergonha "identitária"-, da rejeição, da perda e da solidão final. Como na famosa frase de Hegel, «há uma noite que se descobre quando olhamos um homem nos olhos - mergulha-se então o olhar numa noite que se torna terrível: a noite do mundo que avança ao encontro de cada um de nós.»

A NOITE DO MUNDO


A RTP1 passa à noite o filme de Robert Benton, A culpa humana, baseado no livro A Mancha Humana (The Human Stain) de Philip Roth (tradução na Dom Quixote). O filme é perfeitamente esquecível, apesar das interpretações de Anthony Hopkins e Nicole Kidman. Roth, no essencial, conta a história de alguém que foi expulso da sua vida. Coleman Silk é um homem perseguido pela cor oculta no seu "rosto branco como a neve" na América racista e "profunda" dos anos 40, 50 e 60, agora pelos vistos em acelerado processo de "compensação" através da "obamomania". É uma palavra ("spook") proferida numa aula por Coleman, já no fim dos anos Clinton - referida a dois estudantes que ele ignorava serem negros - que leva à saída forçada da universidade da qual fora reitor, em nome do "correcto". Com a morte súbita da mulher, Coleman descobre Faunia, a mulher da limpeza da universidade, mais nova, sozinha depois de um marido errado e do desaparecimento dos filhos pequenos. Faunia nunca quer acordar ao lado de Coleman e diz-lhe a toda a hora que ali não há lugar para o "amor". Só no último dia das suas vidas aceita a ideia de "partilhar" o afecto de Coleman. A história é contada pelo vizinho de Coleman, o escritor Zuckerman, um dos alter ego de Philip Roth. A escrita de Roth, adaptada aos diálogos do filme, fala de vergonha - de uma imensa e escondida vergonha "identitária"-, da rejeição, da perda e da solidão final. Como na famosa frase de Hegel, «há uma noite que se descobre quando olhamos um homem nos olhos - mergulha-se então o olhar numa noite que se torna terrível: a noite do mundo que avança ao encontro de cada um de nós.»

25.7.08

ACOCORADOS - 2

«Não sou uma especialista em Angola. Não tenho histórias em primeira mão para contar nem relatórios de organizações internacionais para estrear. Mas não preciso. Basta-me saber que não há eleições no país desde 1992 para não gostar do Governo nem do presidente. E para tal tanto me faz que fale português ou outra língua qualquer. Tanto me faz que "nós" - sendo nós essa entidade chamada "os portugueses" - tenhamos "lá andado" 500 anos como não. Não aceito culpas históricas nem acusações de complexos colonialistas quando se trata de olhar para um país independente há 33 anos e constatar que está muito longe de ser uma democracia e por esse motivo muito longe de ser admirável ou "a todos os títulos notável". Percebo, claro, que uma coisa são os meus sentimentos enquanto pessoa, por acaso portuguesa, e outra muito diferente os interesses do meu país - sejam eles económicos, estratégicos, linguísticos, o que for. Percebo que as relações entre países não são relações pessoais e que se fazem muitas coisas em nome da chamada real politik que eu agradeço ao destino nunca ter estado em posição de ter de fazer. Mas creio que há coisas escusadas. E creio, sobretudo, ser tempo de percebermos, todos, portugueses e angolanos, que chega de facturas. Chega de confusões. Portugal colonizou e descolonizou, Angola é dos angolanos. Nenhuma razão para tantos paninhos quentes, nenhum motivo para tanto eufemismo, para tanto elogio rasgado. Façam-se negócios, certo. Apertem-se mãos, assinem-se acordos. Defenda-se isso a que se chama "o interesse português". Mas, por favor, não exagerem.»

Fernanda Câncio, in Diário de Notícias

ACOCORADOS - 2

«Não sou uma especialista em Angola. Não tenho histórias em primeira mão para contar nem relatórios de organizações internacionais para estrear. Mas não preciso. Basta-me saber que não há eleições no país desde 1992 para não gostar do Governo nem do presidente. E para tal tanto me faz que fale português ou outra língua qualquer. Tanto me faz que "nós" - sendo nós essa entidade chamada "os portugueses" - tenhamos "lá andado" 500 anos como não. Não aceito culpas históricas nem acusações de complexos colonialistas quando se trata de olhar para um país independente há 33 anos e constatar que está muito longe de ser uma democracia e por esse motivo muito longe de ser admirável ou "a todos os títulos notável". Percebo, claro, que uma coisa são os meus sentimentos enquanto pessoa, por acaso portuguesa, e outra muito diferente os interesses do meu país - sejam eles económicos, estratégicos, linguísticos, o que for. Percebo que as relações entre países não são relações pessoais e que se fazem muitas coisas em nome da chamada real politik que eu agradeço ao destino nunca ter estado em posição de ter de fazer. Mas creio que há coisas escusadas. E creio, sobretudo, ser tempo de percebermos, todos, portugueses e angolanos, que chega de facturas. Chega de confusões. Portugal colonizou e descolonizou, Angola é dos angolanos. Nenhuma razão para tantos paninhos quentes, nenhum motivo para tanto eufemismo, para tanto elogio rasgado. Façam-se negócios, certo. Apertem-se mãos, assinem-se acordos. Defenda-se isso a que se chama "o interesse português". Mas, por favor, não exagerem.»

Fernanda Câncio, in Diário de Notícias

24.7.08

ACOCORADOS


Patéticas e esclarecedoras foram as imagens do "dia Chávez" em Lisboa que passaram nas televisões. Gorilas venezuelanos a dar ordens à PSP, aos jornalistas e a garantir a "segurança" das escadas da Fundação Mário Soares onde o anfitrião fez de porteiro obrigado a esperar - melancólico e sentado à porta, mais com ar de frequentador assíduo de um centro de emprego do que de ex-chefe de Estado - pelo ilustre convidado. Não há mal nenhum em o país andar de cócoras. Mas parece-me desnecessário mostrar tão ostensivamente o rabo.

ACOCORADOS


Patéticas e esclarecedoras foram as imagens do "dia Chávez" em Lisboa que passaram nas televisões. Gorilas venezuelanos a dar ordens à PSP, aos jornalistas e a garantir a "segurança" das escadas da Fundação Mário Soares onde o anfitrião fez de porteiro obrigado a esperar - melancólico e sentado à porta, mais com ar de frequentador assíduo de um centro de emprego do que de ex-chefe de Estado - pelo ilustre convidado. Não há mal nenhum em o país andar de cócoras. Mas parece-me desnecessário mostrar tão ostensivamente o rabo.

A GASOLINEIRA DAS NECESSIDADES


Passados uns anos sobre a criação da CPLP, descobriu-se finalmente a sua utilidade. Enquanto Angola e Moçambique a ignoram olimpicamente, nós aproveitámos para impingir o "acordo ortográfico" brasileiro aos restantes tansinhos menos relevantes e chamar à colação a Guiné Equatorial - que deve ter imenso interesse em "observar" a CPLP - porque tem, simplesmente, petróleo. Sócrates já nem se dá ao trabalho de disfarçar. As Necessidades portuguesas são, afinal, uma enorme gasolineira.

A GASOLINEIRA DAS NECESSIDADES


Passados uns anos sobre a criação da CPLP, descobriu-se finalmente a sua utilidade. Enquanto Angola e Moçambique a ignoram olimpicamente, nós aproveitámos para impingir o "acordo ortográfico" brasileiro aos restantes tansinhos menos relevantes e chamar à colação a Guiné Equatorial - que deve ter imenso interesse em "observar" a CPLP - porque tem, simplesmente, petróleo. Sócrates já nem se dá ao trabalho de disfarçar. As Necessidades portuguesas são, afinal, uma enorme gasolineira.

ALEGRIAS

Sobre o "bem" do TGV e das novas estradas , as pirâmides do governo, para o "progresso" e a prosperidade da pátria, talvez valha a pena ler hoje o Jornal de Negócios onde se demonstra que «a Alta Velocidade não é sequer operacionalmente rentável» e que, apesar dos «ganhos na redução de CO2 e de acidentes de viação», «nas estradas, umas são viáveis, a maioria não» e «são os impostos que se espera cobrar a mais que pagam a factura.» Só alegrias.

ALEGRIAS

Sobre o "bem" do TGV e das novas estradas , as pirâmides do governo, para o "progresso" e a prosperidade da pátria, talvez valha a pena ler hoje o Jornal de Negócios onde se demonstra que «a Alta Velocidade não é sequer operacionalmente rentável» e que, apesar dos «ganhos na redução de CO2 e de acidentes de viação», «nas estradas, umas são viáveis, a maioria não» e «são os impostos que se espera cobrar a mais que pagam a factura.» Só alegrias.

23.7.08

LER OUTROS


3. Rui Ramos, a melhor análise sobre a "câncização" do problema da pobreza acantonada em bairros "multiculturais" correctos (Público, sem link): «Eis a tragédia da pobreza: em troca do alívio público das suas carências, milhares de famílias tornaram-se carne para os canhões burocráticos e intelectuais do Estado Social.»

LER OUTROS


3. Rui Ramos, a melhor análise sobre a "câncização" do problema da pobreza acantonada em bairros "multiculturais" correctos (Público, sem link): «Eis a tragédia da pobreza: em troca do alívio público das suas carências, milhares de famílias tornaram-se carne para os canhões burocráticos e intelectuais do Estado Social.»

O EMBUSTE - 2


A OPART "atacou" de novo. Desta vez para "apresentar" a temporada de ópera. Apanhei o resumo da coisa por uma jornalista da Antena 1, no carro. "Muito economês e pouca música", disse ela. O presidente da OPART falou em números - de espectadores, de récitas, de concertos, de outros espectáculos -, da crónica falta de dinheiro e da sua aparente habilidade para "contornar" os "recursos" a menos. Na reportagem ouviu-se o director artístico, o alemão Dammann, a murmurar umas vacuidades e o dito presidente a "justificar" o fracasso de Das Märchen, de Emmanuel Nunes. Retive a continuação da tetralogia de Wagner, iniciada por Pinamonti, e uma coisa qualquer encenada por Maria Emília Correia. Também retive que não esteve presente ninguém do ministério de Pinto Ribeiro, designadamente a sua secretária de Estado que, por acaso, foi da direcção do Teatro noutra encarnação. Uma vez que o presidente aprecia - e só lhe fica bem - falar tanto em números, convinha que esclarecesse, por exemplo, os valores reservados para o funcionamento do São Carlos (sobretudo despesas com pessoal e outros "quadros") por comparação com os afectos à produção artística, aquilo que verdadeiramente justifica o único equipamento cultural destinado especificamente ao teatro lírico. Os contribuintes, pode ter a certeza, ficar-lhe-iam tão gratos como surpreendidos.

O EMBUSTE - 2


A OPART "atacou" de novo. Desta vez para "apresentar" a temporada de ópera. Apanhei o resumo da coisa por uma jornalista da Antena 1, no carro. "Muito economês e pouca música", disse ela. O presidente da OPART falou em números - de espectadores, de récitas, de concertos, de outros espectáculos -, da crónica falta de dinheiro e da sua aparente habilidade para "contornar" os "recursos" a menos. Na reportagem ouviu-se o director artístico, o alemão Dammann, a murmurar umas vacuidades e o dito presidente a "justificar" o fracasso de Das Märchen, de Emmanuel Nunes. Retive a continuação da tetralogia de Wagner, iniciada por Pinamonti, e uma coisa qualquer encenada por Maria Emília Correia. Também retive que não esteve presente ninguém do ministério de Pinto Ribeiro, designadamente a sua secretária de Estado que, por acaso, foi da direcção do Teatro noutra encarnação. Uma vez que o presidente aprecia - e só lhe fica bem - falar tanto em números, convinha que esclarecesse, por exemplo, os valores reservados para o funcionamento do São Carlos (sobretudo despesas com pessoal e outros "quadros") por comparação com os afectos à produção artística, aquilo que verdadeiramente justifica o único equipamento cultural destinado especificamente ao teatro lírico. Os contribuintes, pode ter a certeza, ficar-lhe-iam tão gratos como surpreendidos.

EM BOAS MÃOS


Em apenas oito meses, é a terceira vez que Sócrates e o sargentão venezuelano se encontram para tratar de "negócios". Angola é, por sua vez, o maior accionista do BCP e outro "amor de estimação" da diplomacia nacional. Aprendi na história diplomática do prof. Borges de Macedo que a nossa independência era mantida através de um permanente equilíbrio entre a fronteira marítima e a fronteira terrestre. No dia em que os mesmos tomaram conta de ambas, perdemos a independência na ordem externa. A fronteira terrestre é hoje, através da Espanha, a UE, um conceito geoestratégico indefinido que, em tese, pode terminar na Rússia. A marítima vai do Brasil ao norte de África, passando, com dedicação servil, pelas ex-colónias, especialmente Angola. É, como já o disse, uma diplomacia de tesos num mundo sem independências bem recortadas. O "ocidente" está cada vez mais prisioneiro destas "novas fronteiras". Veja-se o trajecto de Chávez nesta sua descida ao velho mundo. Portugal, a pobre periferia de tudo, tem de fazer de "maria-vai-com-as-outras" a reboque do "ocidente" vergado a estas maravilhosas "novas emergências". Estamos em boas mãos.

EM BOAS MÃOS


Em apenas oito meses, é a terceira vez que Sócrates e o sargentão venezuelano se encontram para tratar de "negócios". Angola é, por sua vez, o maior accionista do BCP e outro "amor de estimação" da diplomacia nacional. Aprendi na história diplomática do prof. Borges de Macedo que a nossa independência era mantida através de um permanente equilíbrio entre a fronteira marítima e a fronteira terrestre. No dia em que os mesmos tomaram conta de ambas, perdemos a independência na ordem externa. A fronteira terrestre é hoje, através da Espanha, a UE, um conceito geoestratégico indefinido que, em tese, pode terminar na Rússia. A marítima vai do Brasil ao norte de África, passando, com dedicação servil, pelas ex-colónias, especialmente Angola. É, como já o disse, uma diplomacia de tesos num mundo sem independências bem recortadas. O "ocidente" está cada vez mais prisioneiro destas "novas fronteiras". Veja-se o trajecto de Chávez nesta sua descida ao velho mundo. Portugal, a pobre periferia de tudo, tem de fazer de "maria-vai-com-as-outras" a reboque do "ocidente" vergado a estas maravilhosas "novas emergências". Estamos em boas mãos.

O EMBUSTE


Estamos em Julho. Em qualquer país "médio" da Europa, as temporadas de ópera já estão, de há muito, anunciadas. Por cá, o melhor que a OPART - que gere em conjunto a Companhia Nacional de Bailado e o nosso único teatro de ópera, o São Carlos - consegue anunciar é um eterno "Quebra-Nozes", dançado no palco do S. Carlos, lá para Novembro e Dezembro. De ópera, nem um pio. O dr. Pinto Ribeiro, numa das suas raras intervenções como ministro da cultura, não se mostrou agradado com a OPART, um embuste que serviu apenas para remover Paolo Pinamonti da direcção do Teatro. Está mais do que na hora de tirar daí as devidas ilações.

O EMBUSTE


Estamos em Julho. Em qualquer país "médio" da Europa, as temporadas de ópera já estão, de há muito, anunciadas. Por cá, o melhor que a OPART - que gere em conjunto a Companhia Nacional de Bailado e o nosso único teatro de ópera, o São Carlos - consegue anunciar é um eterno "Quebra-Nozes", dançado no palco do S. Carlos, lá para Novembro e Dezembro. De ópera, nem um pio. O dr. Pinto Ribeiro, numa das suas raras intervenções como ministro da cultura, não se mostrou agradado com a OPART, um embuste que serviu apenas para remover Paolo Pinamonti da direcção do Teatro. Está mais do que na hora de tirar daí as devidas ilações.

22.7.08

O INTELECTUAL NO SEU LABIRINTO


À excepção do PC que, suponho, mantém um "organismo" específico interno de "enquadramento" dos "intelectuais" - como tem para quase tudo -, os restantes "grandes" partidos tratam particularmente mal os seus "intelectuais". É evidente que o PC "enquadra" porque o "centralismo democrático" pressupõe tudo muito arrumadinho, nas gavetas adequadas, e sem veleidades "individualistas". O PC "cedeu" o sr. Saramago ao país e o sr. Saramago aceitou a "cedência" porque foi adoptado pelo nosso provincianismo paroquial. Bajular o sr. Saramago é o sonho de qualquer dirigente partidário fora do PC. Ora isso, por definição, agrada a Saramago mas não agrada ao PC. Vem isto a propósito do lançamento do livro* do José Pacheco Pereira (na foto à direita). Do PSD , "actual" ou menos "actual", estava o dr. Arnaut e a editora, Zita Seabra, evidentemente na condição de editora. Seria de elementar cortesia, para dizer o menos, que alguns membros da "família laranja" celebrassem a saída de um livro de um "dos seus" marcando presença. O ano passado, quando Zita Seabra lançou o seu "Foi Assim", não faltou ninguém da "nomenclatura" e Marques Mendes, o líder do momento, esteve lá. O "projecto" de JPP - "seguir" o trajecto da extrema-esquerda, "ideológica" e partidária, desde os anos 60 em diante, com o indispensável "quadro" internacional em que a doméstica se moveu - merece atenção até porque se trata de um trabalho pioneiro. Muitas das nossas "elites" actuais vieram dali. O PSD, que já teve à sua frente um ilustre maoísta, possui um negativo lastro "anti-intelectual". É o resultado, em parte, da própria história do partido, forjada num "registo" mais pragmático do que ideológico e de uma presença assídua no poder. No poder, por natureza, pensa-se pouco e tende-se a desprezar quem pensa. Veja-se, no caso do PS, o que aconteceu a Manuel Maria Carrilho. JPP é atípico da condição "militante", dentro ou fora do poder. Todavia, são militantes como JPP no PSD, Carrilho no PS ou como foi Lucas Pires no CDS que demonstram a subsistência, dentro dos partidos, de formas de vida inteligente apesar do cartão partilhado com outras formas de vida inqualificável.

*"O um dividiu-se em dois" - origens e enquadramento internacional dos movimentos pró-chineses e albaneses nos países ocidentais e em Portugal (1960-1965), Alêtheia Editores, 2008

O INTELECTUAL NO SEU LABIRINTO


À excepção do PC que, suponho, mantém um "organismo" específico interno de "enquadramento" dos "intelectuais" - como tem para quase tudo -, os restantes "grandes" partidos tratam particularmente mal os seus "intelectuais". É evidente que o PC "enquadra" porque o "centralismo democrático" pressupõe tudo muito arrumadinho, nas gavetas adequadas, e sem veleidades "individualistas". O PC "cedeu" o sr. Saramago ao país e o sr. Saramago aceitou a "cedência" porque foi adoptado pelo nosso provincianismo paroquial. Bajular o sr. Saramago é o sonho de qualquer dirigente partidário fora do PC. Ora isso, por definição, agrada a Saramago mas não agrada ao PC. Vem isto a propósito do lançamento do livro* do José Pacheco Pereira (na foto à direita). Do PSD , "actual" ou menos "actual", estava o dr. Arnaut e a editora, Zita Seabra, evidentemente na condição de editora. Seria de elementar cortesia, para dizer o menos, que alguns membros da "família laranja" celebrassem a saída de um livro de um "dos seus" marcando presença. O ano passado, quando Zita Seabra lançou o seu "Foi Assim", não faltou ninguém da "nomenclatura" e Marques Mendes, o líder do momento, esteve lá. O "projecto" de JPP - "seguir" o trajecto da extrema-esquerda, "ideológica" e partidária, desde os anos 60 em diante, com o indispensável "quadro" internacional em que a doméstica se moveu - merece atenção até porque se trata de um trabalho pioneiro. Muitas das nossas "elites" actuais vieram dali. O PSD, que já teve à sua frente um ilustre maoísta, possui um negativo lastro "anti-intelectual". É o resultado, em parte, da própria história do partido, forjada num "registo" mais pragmático do que ideológico e de uma presença assídua no poder. No poder, por natureza, pensa-se pouco e tende-se a desprezar quem pensa. Veja-se, no caso do PS, o que aconteceu a Manuel Maria Carrilho. JPP é atípico da condição "militante", dentro ou fora do poder. Todavia, são militantes como JPP no PSD, Carrilho no PS ou como foi Lucas Pires no CDS que demonstram a subsistência, dentro dos partidos, de formas de vida inteligente apesar do cartão partilhado com outras formas de vida inqualificável.

*"O um dividiu-se em dois" - origens e enquadramento internacional dos movimentos pró-chineses e albaneses nos países ocidentais e em Portugal (1960-1965), Alêtheia Editores, 2008

CONSCIÊNCIAS TRANQUILAS - 3

O dr. Alípio Ribeiro, alguém que, primeiro, a prudência recomendaria que nunca fosse nomeado director da PJ e, em segundo lugar, que estivesse calado, escreve um artigo "de opinião" em que defende o não arquivamento do "caso Maddie". O consulado do dr. Alípio na PJ dava seguramente um conto de um desses escritores portugueses "contemporâneos". Não se esqueçam de "convidar" mais como ele para isso ou para outra coisa qualquer. Vistas bem as coisas, que diferença é que faz no "estado" a que isto chegou?

CONSCIÊNCIAS TRANQUILAS - 3

O dr. Alípio Ribeiro, alguém que, primeiro, a prudência recomendaria que nunca fosse nomeado director da PJ e, em segundo lugar, que estivesse calado, escreve um artigo "de opinião" em que defende o não arquivamento do "caso Maddie". O consulado do dr. Alípio na PJ dava seguramente um conto de um desses escritores portugueses "contemporâneos". Não se esqueçam de "convidar" mais como ele para isso ou para outra coisa qualquer. Vistas bem as coisas, que diferença é que faz no "estado" a que isto chegou?

21.7.08

CONSCIÊNCIAS TRANQUILAS - 2

O Mário Crespo, sempre tão equilibrado, decidiu debater o caso Maddie, na Sic-Notícias, a partir da "via inglesa". Isto é, começa por partir do princípio que há na PJ uns tipos que escandalizaram a exemplar disciplina britânica com almoços de duas horas e conferências de imprensa dadas num inglês abaixo de "técnico". Está coadjuvado pela língua de pau do Rogério Alves, por coincidência advogado da "Kate" e do "Jerry". O delegado da PJ também não ajuda e o dr. Pinto da Costa ainda menos. O outro nem sei quem é. Com tanto Heidegger para ler, para quê perder tempo com isto?

CONSCIÊNCIAS TRANQUILAS - 2

O Mário Crespo, sempre tão equilibrado, decidiu debater o caso Maddie, na Sic-Notícias, a partir da "via inglesa". Isto é, começa por partir do princípio que há na PJ uns tipos que escandalizaram a exemplar disciplina britânica com almoços de duas horas e conferências de imprensa dadas num inglês abaixo de "técnico". Está coadjuvado pela língua de pau do Rogério Alves, por coincidência advogado da "Kate" e do "Jerry". O delegado da PJ também não ajuda e o dr. Pinto da Costa ainda menos. O outro nem sei quem é. Com tanto Heidegger para ler, para quê perder tempo com isto?

LÍNGUA TROPICAL


O Doutor Cavaco Silva - aproveito para o classificar assim enquanto a "língua" o permite - promulgou o "acordo ortográfico" que "abrasileira" a língua portuguesa. O presidente porventura julga-se mais "moderno" pelo facto perpetrado e também deve imaginar que é bom (para ele, naturalmente) ficar associado a tamanha "gesta". Que lhe faça bom proveito porque ao português, ao meu português, não faz nenhum.

LÍNGUA TROPICAL


O Doutor Cavaco Silva - aproveito para o classificar assim enquanto a "língua" o permite - promulgou o "acordo ortográfico" que "abrasileira" a língua portuguesa. O presidente porventura julga-se mais "moderno" pelo facto perpetrado e também deve imaginar que é bom (para ele, naturalmente) ficar associado a tamanha "gesta". Que lhe faça bom proveito porque ao português, ao meu português, não faz nenhum.

ESPECTÁCULO NULO

Decorre em Loures uma "manifestação" encabeçada pelos inevitáveis padre Melícias, Maria Barroso e Helena Roseta em que os devotos da causa "multicultural" vestem de "branco". Supostamente esta palhaçada destina-se a "juntar" as "etnias" africana e cigana num mesmo e salutar convívio. A "comunidade" cigana adequadamente não compareceu. Tem mais dignidade do que esta gente regimental, sempre disposta ao espectáculo nulo.

ESPECTÁCULO NULO

Decorre em Loures uma "manifestação" encabeçada pelos inevitáveis padre Melícias, Maria Barroso e Helena Roseta em que os devotos da causa "multicultural" vestem de "branco". Supostamente esta palhaçada destina-se a "juntar" as "etnias" africana e cigana num mesmo e salutar convívio. A "comunidade" cigana adequadamente não compareceu. Tem mais dignidade do que esta gente regimental, sempre disposta ao espectáculo nulo.

CONSCIÊNCIAS TRANQUILAS

Lembram-se dos contingentes policiais mandados para o Algarve em Maio de 2007? Das missas? Das "peregrinações" familiares à improvável praia da Luz? Da "voz do povo"? Das velinhas? Dos "sites"? Do circo montado à porta da PJ de Portimão? Das televisões? Do "Jerry", da "Kate" e do ursinho que já eram quase, por assim dizer, da nossa família? Pois bem. Este espectáculo produziu o fim abrupto de uma carreira policial, o arquivamento do inquérito e a continuação da ausência inexplicável de uma criança deixada a dormir no quarto do hotel com os irmãos enquanto os pais e os amigos jantavam por perto. Ignora-se se é viva ou morta. Ainda vai dar para, certamente, extorquir uns cobres ao Estado (o sr. Murat, muito adequadamente, vai reflectir sobre a hipótese e não sei se a Kate" e o "Jerry" não pensarão nisso) e para umas quantas conferências de imprensa do melancólico casal inglês, e dos seus advogados, em busca do tempo perdido. Como diria a minha amiga Teresa Ribeiro, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.

CONSCIÊNCIAS TRANQUILAS

Lembram-se dos contingentes policiais mandados para o Algarve em Maio de 2007? Das missas? Das "peregrinações" familiares à improvável praia da Luz? Da "voz do povo"? Das velinhas? Dos "sites"? Do circo montado à porta da PJ de Portimão? Das televisões? Do "Jerry", da "Kate" e do ursinho que já eram quase, por assim dizer, da nossa família? Pois bem. Este espectáculo produziu o fim abrupto de uma carreira policial, o arquivamento do inquérito e a continuação da ausência inexplicável de uma criança deixada a dormir no quarto do hotel com os irmãos enquanto os pais e os amigos jantavam por perto. Ignora-se se é viva ou morta. Ainda vai dar para, certamente, extorquir uns cobres ao Estado (o sr. Murat, muito adequadamente, vai reflectir sobre a hipótese e não sei se a Kate" e o "Jerry" não pensarão nisso) e para umas quantas conferências de imprensa do melancólico casal inglês, e dos seus advogados, em busca do tempo perdido. Como diria a minha amiga Teresa Ribeiro, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.

A EXTREMA DO REGIME

Não sei o que é que deu ao JPP para convidar o insuportável prof. Rosas para apresentar o livro da foto sobre os "extremas" e no que, presumivelmente, deram. "Extremas" da esquerda, naturalmente, porque nessa matéria ainda estamos num "estado infantil" em que apenas o "correcto" é permitido e nos pastoreia agora em versão "esquerda moderna" ou "social-democrata". Lá estarei sem ouvir o embotado do BE.

A EXTREMA DO REGIME

Não sei o que é que deu ao JPP para convidar o insuportável prof. Rosas para apresentar o livro da foto sobre os "extremas" e no que, presumivelmente, deram. "Extremas" da esquerda, naturalmente, porque nessa matéria ainda estamos num "estado infantil" em que apenas o "correcto" é permitido e nos pastoreia agora em versão "esquerda moderna" ou "social-democrata". Lá estarei sem ouvir o embotado do BE.

A FÁBULA

Estamos a entrar- como se alguma vez tivéssemos saído - naquele período de doce e mansa hibernação que tanto convém aos poderes mais diversos. Um país de irresponsáveis pode dar-se ao luxo de "fazer férias" de tudo ou de praticamente tudo. Como num título de um capítulo de Nietzsche, o mundo verdadeiro torna-se fábula. A malta aprecia.

A FÁBULA

Estamos a entrar- como se alguma vez tivéssemos saído - naquele período de doce e mansa hibernação que tanto convém aos poderes mais diversos. Um país de irresponsáveis pode dar-se ao luxo de "fazer férias" de tudo ou de praticamente tudo. Como num título de um capítulo de Nietzsche, o mundo verdadeiro torna-se fábula. A malta aprecia.