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30.1.15

Do pior do Crato


 


«Dezenas de analfabetos que gostam de se dar ares fizeram um escândalo com o aparente excesso de erros de ortografia, pontuação e sintaxe dos 2490 professores que se apresentaram à “Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades” (PACC). Deus lhes dê juízo. Para começar, não há em Portugal uma ortografia estabelecida pelo uso ou pela autoridade. Antes do acordo com o Brasil – um inqualificável gesto de servilismo e de ganância –, já era tudo uma confusão. Hoje, mesmo nos jornais, muita gente se sente obrigada a declarar que espécie de ortografia escolheu. Pior ainda, as regras de pontuação e de sintaxe variam de tal maneira que se tornaram largamente arbitrárias. Já para não falar na redundância e na impropriedade da língua pública que por aí se usa, nas legendas da televisão, que transformaram o português numa caricatura de si próprio; ou na importação sistemática de anglicismos, derivados do “baixo” inglês da economia e de Bruxelas. De qualquer maneira, a pergunta da PACC em que os professores mais falharam acabou por ser a seguinte: “O seleccionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol (para que seria?). Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes. Supondo que o seleccionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes (é inferior, superior ou igual) ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos.” Excepto se a palavra “grupo” designar um conceito matemático universalmente conhecido, a pergunta não faz sentido. Grupos de quê? De jogadores de ataque, de médios, de defesas? Grupos dos que jogam no estrangeiro e dos que, por acaso, jogam aqui? Não se sabe e não existe maneira de descobrir ou de responder. O dr. Crato perdeu a cabeça. Na terceira pergunta em que os professores mais falharam, o dr. Crato agarrou nas considerações tristemente acéfalas de um cavalheiro americano sobre “impressão e fabrico” de livros. Esse cavalheiro pensa que há “livros em que a beleza é um desiderato” (ou seja, a beleza do objecto) e outros “em que o encanto não é factor de importância material” (em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga). E o homenzinho acrescenta pressurosamente: “Quando tentamos uma classificação, a distinção parece assentar entre uma obra útil e uma obra de arte literária”. A obra de arte pede beleza ao tipógrafo (ao tipógrafo?), a obra útil só pede “legibilidade e comodidade de consulta”. Perante este extraordinário cretinismo, a PACC exige que os professores digam se o “excerto” “ilustra” os dois termos de uma comparação, o primeiro, o segundo ou nenhum deles. Uma pessoa pasma como indivíduos com tão pouca educação e tão pouca inteligência se atrevem a “avaliar” alguém.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

6.10.14

Perguntas


 


Como é que o inqualificável Crato se mantém em funçóes? O dr. Passos vê, ouve e lê com mediana clareza? O dr. Portas, sempre tão "fatigado" em relação a certas coisas e tagarela face a outras, não usa da palavra? O Doutor Cavaco não aconselha o dr. Passos a frequentar de vez em quando a realidade ou, em alternativa, não lhe explica, às quintas-feiras, como é que ela funciona ou não?

18.9.14

Escola à deriva


 


«A sociedade em que vivemos encontra-se em acelerado processo de fragmentação, ela perdeu qualquer ideia clara e global de si própria, pelo que tem, naturalmente, a maior dificuldade em definir objectivos para a educação. Dito de outro modo, a crise da escola decorre de fenómenos civilizacionais que a ultrapassam, nomeadamente da destradicionalização e da desinstitucionalização das sociedades contemporâneas, que minam o estatuto não só dos saberes mas também dos professores. Fenómenos que desorientam a escola, cada vez mais transformada numa instituição à qual se pedem soluções para tudo, sem se lhe darem meios para nada. Esta mudança acabou contudo por adoptar novas finalidades, em que a aquisição de conteúdos formadores se subalterniza face a um suposto desenvolvimento mais multifacetado do aluno, que deve simplesmente tornar-se capaz de ir aprendendo... a aprender. Se no ensino tradicional e hierárquico a transmissão de conhecimentos era central, o ensino individualista e democrático aposta numa aprendizagem que se confunde com o desabrochar de uma misteriosa espontaneidade criativa. O que, note-se, faz do professor refém de um paralisante paradoxo, que é o de todos reclamarem mais educação, sem que quase ninguém aceite, na realidade, ser educado. As novas tecnologias foram a cereja em cima do bolo deste processo cheio de equívocos, criando uma miragem de facilitismos em que não caíram nem Bill Gates nem Steve Jobs, que, como há dias Nick Bilton contava no The New York Times, nunca dispensaram sólidas bases convencionais para os seus filhos, certos de que é a partir delas que as novas tecnologias revelam o seu extraordinário potencial. Mas a mutação tecnológica não é a única, nem a principal responsável, pela desorientação em que vive a escola. Como já tenho referido, há mais mutações decisivas a ter em conta: a que ocorreu nas relações entre a família e a escola, a que alterou o estatuto dos saberes e a que decorreu da sua democratização. A cumplicidade entre a família e a escola era um elo tradicional que se volatilizou nas últimas décadas, com a primeira a descartar para a segunda as suas obrigações educativas. E, com esta transformação, aumentou também a erosão das funções mais óbvias da escola, sempre em nome dos valores afectivos de uma infância e de uma adolescência altamente idealizadas, que ignoram tanto a escassez da sua experiência como o empobrecimento do seu actual ambiente simbólico. Por outro lado, a mutação do estatuto dos saberes e do conhecimento foi de cento e oitenta graus. A escola tradicional assentava no reconhecimento do valor intrínseco dos saberes que a escola transmitia e na indiscutível necessidade de os adquirir. Ora, este reconhecimento tornou-se nos nossos dias bem problemático, na medida em que a cultura perdeu o estatuto escolar que tinha, e que colocava a curiosidade e o desejo de saber no cerne de todas as concepções da educação. Agora vivemos numa sociedade que, ao mesmo tempo que pretende assumir-se como uma sociedade do conhecimento, se revela como aquela em que o desejo de saber quase desapareceu. Por fim, a mutação democrática conduziu a que qualquer tipo de autoridade seja quase sempre assimilado a um intolerável autoritarismo, como se a autoridade se tivesse tornado incompatível com a democracia. E, com esta erosão da autoridade, a escola ficou cativa de todos os caprichos dos alunos e de todas as contingências governativas. E é nisto que estamos: numa escola à deriva.»


 


M. M. Carrilho, DN


 


Adenda: Entretanto o prof. Crato, uma das maiores fatalidades ambulantes do actual governo, anunciou uma "investigação" ao processo de colocação de professores pelo qual lançou um tosco "perdoa-me". Também se soube que consentiu milhões em ajustes directos. Por que é que não começa, afinal, por se "investigar" extraordinariamente a si mesmo?

25.7.14

«Um velho erro»




 


«Desde quase há dois séculos que vários Governos decretaram a educação gratuita e universal e, às vezes mesmo, também obrigatória. Este preceito piedoso nunca se chegou a cumprir. Por uma razão muito simples: saber ler, escrever e contar não ajudava a população rural; e a escola diminuía ou anulava o valor económico dos filhos, que sempre serviam para guardar o gado ou malhar o trigo. De resto, como é notório, na Europa nenhum país se esforçou por alfabetizar os seus súbditos (tirando a França, só existiam monarquias), pensando no que hoje se chama “crescimento”. Os protestantes queriam que as criancinhas conhecessem a Bíblia; os jacobinos queriam combater a “superstição” católica; e todos queriam reforçar a unidade da nação e o nacionalismo, no clima de conflito em que se vivia. Por aqui, as coisas foram bem diferentes. Uma parte, embora pequena, da “inteligência” e do Estado, que o iluminismo e, a seguir, o liberalismo influenciou, achava que a educação iria salvar Portugal de um “atraso” insuportável e ridículo. Além disso, a escola e os professores não custavam caro e, gastando dinheiro em tanta obra inútil ou nociva, os Governos, por uma questão de prestígio, não se importavam de fazer aqui o que se fazia lá fora. Não admira que no fim do século XIX o positivismo (na versão corrigida de Littré) se tornasse a ideologia preferida do “progressismo” dinástico e, depois, da República: bastava, segundo essa receita, que os portugueses passassem da fase “metafísica” para a fase “positiva”, para que chovessem sobre eles prosperidades sem número, para espanto e reverência do mundo inteiro. Ainda anteontem, na televisão, o professor Marçal Grilo, antigo ministro, mostrou como o erro pode perdurar, com a frescura de uma ideia nova. Marçal Grilo, como de resto o esclarecido António Costa, veio pela enésima vez comunicar aos papalvos que o maior recurso de Portugal são as pessoas. Evidentemente com a condição de que o Estado as “forme” ou “eduque”. Esta escola de pensamento não conseguiu até agora perceber (e nunca perceberá) que as dezenas de milhares de emigrantes “qualificados” de hoje são o equivalente aos meninos de 1870, que os pais sensatamente guardavam em casa. Uma espécie de beato como Marçal Grilo não se rala com certeza com o capital, a justiça, a fiscalidade e a reorganização do Estado de que a educação precisa para ser de alguma utilidade aos portugueses. Mas que António Costa partilhe com amor esse velho erro não o recomenda a ninguém


 


 


Vasco Pulido Valente, Público

22.7.14

Perigo público

Estas "provas" são humilhantes até para um analfabeto funcional, quanto mais para pessoas que completaram, pelo menos, licenciaturas. Crato transformou-se inexplicavelmente num desastre político-científico sem precedentes. Não contente com isto, apareceu em directo num ensebado auto-elogio que o deveria envergonhar (e ao governo). É um perigo público.

5.7.14

Embustes

Talvez (ainda) "inspirado" pelos "ensinamentos" de Pol Pot, o conhecido "visionário" cambojano, o prof. Crato decidiu transformar a educação, ou aspectos formais e administrativos dela, num prato de lentilhas. "Reduz-me os professores e dou-te mais uns dinheirinhos", sugere o ministério às câmaras que, em matéria de mercearia, estão em geral dispostas a tudo para mostrar "obra". O prof. Crato revelou-se, para além doutras questões, um dos maiores embustes do actual executivo e um "hospedeiro" do eterno dr. Nogueira que lhe deve chamar um figo. À qualificação Crato preferiu a língua de pau, e a prática, do "financês" e uma "política" errática quando não puramente estúpida. O dr. Passos acha, e bem, que o Estado deve ser "parcimonioso". Todavia, a "parcimónia" pouco passou de uma acrimónia não menos estúpida contra os seus trabalhadores. Tudo o mais, como as "cratices", vem daí sem que se aviste qualquer "reforma" digna desse nome. Ora um Estado depauperado em recursos materiais e humanos pode qualificar o que quer que seja? Ou haverá quem pense - e o uso do verbo "pensar", aqui, é deliberadamente esdrúxulo - que são as empresas, abstractamente consideradas, e os empresários que, fora da usura e do que lhes interessa, vão "apostar" na qualificação? Dizimar o "público" só porque é "público, revela uma total ignorância do país que se governa. Com todos os seus defeitos (dele, país), merecia outra sorte e outro desígnio.

25.6.14

Bate certo

A qualificação das pessoas e, por tabela, do território começa nos bancos da antiga escola primária. Crato vai fechar 311 escolas do chamado 1º ciclo. Os mais prejudicados por isto são os que estão mais afastados do litoral. O país cada vez mais se parece com um barco tombado. A "divisão" há muito que não passa pela diferença entre o norte e o sul. Sai-se de Lisboa, sobe-se ou desce-se um pouco e, depois, segue-se o deserto ou o "interior" como é conhecido nas estatísticas e na vulgata política. A boçalidade economicista não quer saber disto para nada. Metem-se as crianças num autocarro, andam de um lado para o outro, e a coisa fica "resolvida" mesmo que as excursões roubem tempo e disponibilidade para aprender. O resto está resolvido por natureza: pela natureza da chamada "evolução natural" e do "progresso". Onde não existe ninguém, ou tende a não existir, não é preciso qualificar. E é de pequenino que se começa a perceber a merda de país em que se nasceu. Bate certo como a matemática medíocre de Crato.

27.3.14

A morte do desejo de saber


«A escola tradicional assentava no reconhecimento, por um lado, do valor intrínseco dos saberes que a escola transmitia e, por outro lado, da óbvia necessidade de os adquirir. Ora, este reconhecimento tornou-se nos nossos dias verdadeiramente problemático, porque a cultura perdeu o estatuto escolar e social que tinha e que colocava a curiosidade, o desejo de saber e a sede de conhecimento no cerne de todas as concepções da educação. Estamos talvez mesmo a entrar numa sociedade cujo paradoxo maior é o de pretender assumir-se como uma sociedade do conhecimento ao mesmo tempo que, nela, o desejo de saber quase desapareceu.»


 


M. M. Carrilho, DN


 


 


Adenda:«Por parte dos alunos, logo surgiram dúvidas [em relação aos exames]:'O que quer dizer "menciona" e "O que são personalidades" (...) Detecto uma aluna que, ao nomear as colónias portuguesas em África , escreve esta pérola: Santo Mé e Príncipe! E, num teste do segundo período, houve um aluno que definiu o fim da pena de morte como 'o fim de ter pena de quem morre'!»

5.2.14

O tigre de papel

No dia em que o Presidente da República afirmou que a aposta na qualificação e na educação das pessoas deve continuar, independentemente dos "paradigmas", o velho maoísta Nuno Crato "recordou" velhos combates através de velhas expressões que, por acaso, se lhe aplicam como uma luva. Não passa de um tigre de papel.

17.1.14

"Quando o disparate ferve"


 


O dr. Lima, à Horta Seca, não quer bolsas para investigação "fora da vida real". O que será a "vida real" para esta pobre criatura? Será um mundo sem pessoas ou com elas descerebradas? Um mundo cibernético e marialva onde os descerebrados da "vida real" intervalam uns minutos para beber umas bejecas no "mercado"? Um mundo sem estética, sem livros (que horror), sem curiosidade cultural e científica, isto é, sem "humanidades" ou património, e apenas com "plataformas tecnológicas" onde se possa fazer cocó reciclável para exibir em feiras de "empreendedorismo e inovação" juntamente com pernil de porco? O próprio dr. Lima não estaria disposto a abdicar de si mesmo para dar lugar a uma máquina que viva no "conforto" da única "vida real" que conhece, a das "empresas", como se a sua actividade sináptica fosse meramente facultativa? Nada que espante já. Como escreve Vasco Pulido Valente no Público, «o dr. Nuno Crato apareceu numa conferência de imprensa conjunta com o dr. Pires de Lima. Nessa conferência os dois resolveram falar sobre “empreendedorismo e inovação”. Tanto um como o outro falaram com entusiasmo da colaboração entre a ciência e a economia: prometeram 50 milhões de euros, uma série de programas de utilidade duvidosa e um esforço para mandar infinitos doutorados para empresas de grande futuro. Mas, como bons burocratas que são, e nunca deixarão de ser, anunciaram também a sua coroa de glória: a criação de uma “agência interministerial” para se ocupar do assunto; o que significa evidentemente mais funcionários, mais conselheiros, mais secretárias, mais despesa e por aí fora.    Claro que, se o “presidente” ou “director” desta original loucura tiver um resto de juízo, manda ao sr. Pires de Lima e ao sr. Crato uma cartinha, aconselhando este excelentíssimo par a devolver as bolsas a quem as tirou e pedindo respeitosamente a sua demissão. Mas, como uma criatura destas não é fácil de encontrar em Portugal, só nos resta, para nos divertir, fazer listas comentadas das contradições destes cavalheiros e de Passos Coelho e Portas, que os deveriam vigiar. Verdade que o tempo não está para risotas, sobretudo num caso destes. De qualquer maneira talvez não deixasse de confortar os portugueses compreender a inteligência e a subtileza de quem os pastoreia. Quando o disparate ferve, convém estar preparado para qualquer emergência.»

15.1.14

Um coveiro na academia

Crato constará do rodapé da "história" deste governo sobretudo como alguém que ajudou a derrubar um colega seu à conta de um "relatório" do qual nunca mais se ouviu falar. De resto, como ministro da educação e ciência é um logro e um figurante que aprecia arrastar-se atrás dos que vão à frente dele: o primeiro-ministro, por natureza, e um ou outro ministro por irrelevância (ainda hoje ornamentou uma mesinha ao lado do "empreendedor" dr. Lima). E, como professor universitário, presumo que não mereça a menor consideração da "comunidade académica", da que existe ou da por vir. Com ele, aliás, corre o sério risco de não vir de todo.

5.12.13

Um explicador para Crato


 


David Justino foi ministro da educação. Presentemente aconselha o Presidente da República. É professor. Tem bom senso. Não é suspeito. Nesta entrevista, sem o citar, acabou por dar uma "lição" ao incumbente da 5 de Outubro. O caos e a insegurança que Nuno Crato lançou abrupta e estupidamente no mundo da educação e do ensino superior, acabou por frustrar as expectativas que acompanharam a sua escolha. Curiosamente não vemos o primeiro-ministro muito preocupado com os danos que as trapalhadas do ilustre professor provocam num sector, o da qualificação, do qual depende também o famoso "futuro" que nunca sai do discurso único do "financês" que adoptou. Como se a educação, a cultura, a investigação e a formação superior fossem filhas de um deus menor que não cabem nas simplificações do "ajustamento". Mas não são, de facto. Crato anda à solta. E não lhe ocorre que já está a mais há demasiado tempo. Haja alguém que faça o favor de lhe explicar.

19.11.13

Já chumbou

O Governo, por causa do prof. Crato, uma catedrática nulidade política, passou pelo vexame de as universidades "cortarem" relações com ele. Mais do que as restrições orçamentais, os reitores queixaram-se da forma - a ausência de sentido institucional da criatura - como a tutela, desde pelo menos Agosto, tem tratado o ensino superior público. Aparentemente a qualificação não consta do livro vermelho-liberal do ministro que, após este medíocre exercício governativo, devia pensar duas vezes antes de regressar ao espaço universitário público. Já chumbou.

9.11.13

Uma educação medíocre


 


Os jornais divulgam este sábado os rankings das escolas secundárias e as médias dos exames nacionais no secundário. As escolas públicas não saem particularmente beneficiadas do exercício. E os distritos do país, todos juntos, registam uma média geral negativa naqueles exames. Isto traduz o que já se sabia: ao défice de que se alimenta a língua de pau vigente junta-se outro, mais profundo e mais sério, que respeita à qualificação da pátria. Os "cheques" e os premiozinhos de circunstância não conseguem colmatar esta questão mais vasta da qualificação nacional que ultrapassa a contingência do voluntarismo mais ou menos politicamente néscio deste ou daquela cujo lastro encontra no irrelevante prof. Crato a sua estátua do comendador. É um mal nacional que esteve sempre presente nas legiões de "intelectuais" que "pensaram" no assunto desde, para não irmos mais longe, Verney. Resta-nos melancolicamente reler o que essa gente foi debitando e esquecer a léria das "gerações mais bem qualificadas" do que outras. Há um "nervo" que não muda. Estes resultados limitam-se a revelar mais uma vez a facilidade com que esse "nerveo" se "infecta". Não saímos disto.

24.9.13

Revisão da matéria

Num notável exercício de auto-crítica e de retratação que se aprende lendo o Grande Timoneiro e a sua "história", o prof. Crato, em menos de uma semana, "decidiu" que, afinal, o inglês devia ser obrigatório desde o primeiro ciclo de escolaridade. A coisa foi revelada ontem, numa reunião do "conselho nacional de educação" que é presidido pelo prof. David Justino, "por acaso" assessor do Presidente da República e ex-ministro da pasta. Justino "bebeu" noutra cartilha esquerdista que, pelos vistos, o providenciou com uma maior densidade política do que a do prof. Crato. E Crato solicitou ao "conselho" que o "aconselhasse" no sentido indicado. Ou seja, o ministro foi obrigado pelas evidências - estas incluíram algum PSD - e pelo bom senso, ao nível do primeiro ciclo, a rever a matéria. Antes que a matéria o reveja.

16.9.13

Um plano inclinado






O meu "par" dos Portistas de Bancada relata um episódio "edificante" que envolve a língua portuguesa. Tanto mais interessante, o episódio, quando o prof. Crato anda para aí num interminável road show de aberturas e mais aberturas do ano lectivo, de "acordos" com terceiros para exames de inglês e de conversas surdas sobre colocações, etc., etc, o que revela, como se fosse preciso, a importância que a Escola devia ter no futuro de tudo e não tem. Esta "história" evidencia um presente em que "tudo desliza e se apaga numa indiferença descontraída", para usar um termo de Lipovetsky que amanhã está em Lisboa. Em suma, um plano inclinado.

7.6.13

Uma questão de adultos

A anunciada greve dos professores a exames e a avaliações representa o regresso da instabilidade às escolas. Depois de nos últimos anos se ter privilegiado os "direitos" de toda a gente envolvida - alunos (que batem nos professores) , pais dos alunos (que entravam nas escolas para igualmente bater nos professores), professores, sindicatos - e desprezado a disciplina, o pilar do funcionamento de uma escola, com a consequente desautorização da figura, igualmente essencial, do professor, parecia que as coisas tinham atingido alguma moderação e algum equilíbrio. O poder político que precedeu o actual começou bem e acabou pessimamente nesta matéria. Confundiu uma classe inteira com uma nomenclatura sindical profissionalizada. Contribuiu para lesar a preeminência e a autoridade do professor na aula. Até o computador o precedia e, se fosse preciso, o anulava. Por consequência não aprecio o argumentário das "coitadinhas das criancinhas que não podem fazer exames". Não é por aí. Os professores (e os alunos) fazem parte de uma realidade mais complexa que tem a ver com a qualificação geral do país. Não pode ser resumida a uma questão de mercearia com cada um dos lados a usar o lápis que traz na orelha. Na tropa aprendia-se que há deveres e direitos e que aqueles precedem estes. Na escola também é preciso começar por aí em vez de se instaurar um novo "eduquês-financês" politiqueiro pejado de "professores coitadinhos" e de "alunos coitadinhos". É tempo de tratar isto como adultos.

19.12.12

Homens com qualidades






«A necessidade de se partir de uma concepção moderna e arejada daquilo que se entende por Humanidades, a crise que tem levado ao apagamento das disciplinas correspondentes no ensino secundário e no universitário, o papel que elas podem ter na cidadania activa e na preservação dos valores identitários, a evolução histórica do conceito que lhes corresponde, mais outros temas afins, como os do cânone literário, do ensino da literatura e da presença dos grandes autores na escola, ou o das políticas da língua, são objecto dos ensaios contidos neste livro [As Humanidades, os Estudos Culturais, o Ensino da Literatura e a Política da Língua Portuguesa, Almedina, 2010*], testemunhando de uma coerência de décadas no pensamento e no magistério do autor [Vítor Aguiar e Silva]. Propondo uma reflexão amplamente documentada e aberta à problemática contemporânea, Aguiar e Silva mostra como o pós-modernismo, na lógica cultural do capitalismo tardio, vem determinando uma empresarialização da universidade e levando ao abandono progressivo de valores e saberes que decorrem das Humanidades, dos "studia humanitatis e litterae humaniores, de uso plurissecular, designando nomeadamente os seguintes campos disciplinares: línguas e literaturas clássicas; línguas e literaturas modernas; filologia; linguística; retórica; poética, história e crítica literárias e literatura comparada; filosofia, desde a filosofia moral à filosofia política, e história, em especial a história da arte, a história das ideias e a história da cultura" (doc. cit.). Este riquíssimo núcleo de áreas disciplinares relaciona-se com o objecto de outras designações (ciências humanas, ciências do espírito, ciências sociais), mas o conceito de Humanidades tem, como Aguiar e Silva também escreve, "uma densidade memorial e histórica que é uma herança irrenunciável". A reabilitação e revalorização das Humanidades não deveriam levar a nostalgias passadistas em confronto com as transformações da sociedade, mas a persuadir todos os interessados de que, sem elas e sem a sua capacidade de integrar equilibradamente herança cultural e a modernidade, o nosso conhecimento do mundo fica irremediavelmente desumanizado e prejudicado. E nós também. Combater a crise hoje em dia implica ter tudo isto presente e pô-lo em prática sem demora.»


 


Vasco Graça Moura, DN


 


* anterior à praga acordográfica que assolou a Almedina

14.7.12

A história de um fracasso

A coisa começou com Veiga Simão ou, mesmo antes, talvez com Hermano Saraiva. No PREC, os militares chegaram a ministros da educação com o interlúdio Vitorino Magalhães Godinho que, muito sensatamente, quis fechar as escolas para pensar o que fazer com elas. Saiu, evidentemente, e o festim continuou: até Vasco Gonçalves acumulou a pasta interinamente. Com Soares veio Cardia, um modelo de coragem inteligente em tempos ainda quase revolucionários. Entre Cardia e Roberto Carneiro é praticamente tudo esquecível e irrelevante, com a excepção do "barthesiano" José Augusto Seabra. Depois de Carneiro é sensivelmente a mesma coisa. Até Manuela Ferreira Leite aceitou fazer um favor improvável ao amigo primeiro-ministro. Guterres trazia na bagagem a promessa da qualificação e aquele jargão colorido de as pessoas não serem negócios. Deslumbrado com os poderes da internet, Guterres (os ministros da educação dele não relevam, salvo Marçal Grilo) "era" o ministro da educação e só não foi da cultura porque Manuel Maria Carrilho é uma personalidade política pouco afoita ao pensamento débil. O interregno da "direita", com Barroso e Lopes, não pesa nesta história apesar da seriedade simpática de David Justino. Sócrates foi um caso mais sério. Maria de Lurdes Rodrigues começou bem mas as necessidades da propaganda do chefe - com as"oportunidades", os "magalhães" e o ódio cego aos professores, confundidos com os sovietes da "fenprof", como se a educação se fizesse por obra e graça dos meninos e dos paizinhos deles - deram cabo dela. Isabel Alçada não conta. Pelo lado do "superior", Mariano Gago - que tinha sido um relativamente prestigiado ministro da ciência e do dito com Guterres - entrou quase mudo e saiu calado, com as universidades exauridas e a investigação depauperada. Mas era na educação que estava. Acabo de ler que cerca de dois mil e quinhentos alunos que perpetraram exames nacionais de filosofia não passaram dos cinco (5) valores e que a "média nacional" na disciplina foi de 7,9. Isto quer dizer que os alunos não só mal sabem escrever como não sabem pensar, e nem sequer são "treinados" para o efeito. Isto sobretudo quer dizer, ao olhar para o "historial" que descrevi desde a década de 70 do século passado até aos nossos dias, que perdemos a batalha da qualificação. Na filosofia, como na vida, é mais importante perguntar que responder. Toda a sua história, aliás, não é muito mais que isso: colocar problemas. Os resultados dos exames nacionais revelam um problema de outra natureza, porventura oposta ao que absorve a filosofia. E igualmente sem resposta mas pelas piores razões. Um fracasso.

18.4.12

A sério


 


«O "eduquês" de serviço ao longo de décadas e de vários espaços ideológicos deu cabo da escola em Portugal. E agregaram-se-lhe a concepção da criança como bom selvagem que devia ser deixada tanto quanto possível nesse estado natural de brutidão, a impreparação de muitos professores, as teorias pedagógicas abstrusas e coladas com cuspo na cabeça de muitos outros, as catadupas de faltas ao serviço com atestado médico, as conspirações corporativas, o laxismo das famílias, a evaporação de um sentido mínimo dos valores e das responsabilidades, e tudo o mais que degenerou no presente estado de coisas. Se, em geral, o crédito bancário era fácil, o consumismo desenfreado, a permissividade total, e ninguém perdia tempo a pensar no dia seguinte, porque é que a escola havia de se comportar diferentemente e de abandonar a lei do menor esforço? O eufemismo dominante chama agora "retenções" àquilo a que antigamente se chamava "reprovações" e, na gíria escolar, dava pelo nome de "chumbos". E, o que é pior, começa a isolar-se a questão das "retenções" do contexto em que elas ocorrem e a produzir argumentos viciados e viciosos contra uma maior exigência escolar. A Portugal, diz-se, afivelando umas visagens consternadas pelos relatórios da OCDE, cabe a quarta maior percentagem de retenções nos países da organização. E talvez por isso a OCDE, num dos seus já habituais acessos de idiotia politicamente orientada, recomenda a eliminação gradual dessas perversidades, segundo o Público de 15.04.2012. Não sei se alguém ainda se lembra da visita de uma tal Déborah a Portugal, em tempos de governação socialista: não representava a OCDE, mas por cá a manipulação oficial inculcava o contrário, e então tudo ou quase tudo correspondia ao que a OCDE recomendava... Agora, das mesmas paragens cor-de-rosa sopra a brisa patética de que a introdução de exames corresponde a "uma visão pobre da educação". Não percebo porque é que algumas almas tão acerbamente críticas não ficam identicamente agoniadas por verificarem que Portugal está num dos últimos lugares na escala de qualificações sérias e eficazes, no mesmo universo considerado. Se estivesse num dos primeiros, seria realmente estranho que houvesse tantas reprovações. Encontrando-se num dos últimos, seria normal que o número de chumbos crescesse na razão inversa da percentagem das situações positivas. Vê-se a mesma gente preocupada com o custo dos chumbos no orçamento das escolas e a repercussão desse problema no orçamento do país. É certamente uma questão que merece análise e procura de soluções, mas estas não passam por se acabar com aqueles. Passam por um enquadramento mais exigente dos repetentes e pelo aumento exponencial das aprovações fundamentadas. O argumento, que parece ser o da OCDE, contra a diminuição dos chumbos a fim de se entrar numa poupança significativa é inconsequente. Para quem pensa assim, o futuro do país torna-se irrelevante. Poupar pela via da ignorância acumulada e de uma inércia favorecida pelo sistema é certamente a forma mais estúpida e mais cara de fazer economias. O problema português, e não apenas na escola em qualquer dos seus níveis de ensino, tem muito que ver com o dilema exigência ou não exigência. O Governo sustenta, e muito bem, que o exame é parte integrante da educação, permite concentrar e avaliar a aprendizagem, estabelecer metas e saber se elas são atingidas, bem como identificar as fragilidades que possam ocorrer. Na verdade, uma coisa é o custo dos chumbos no orçamento das escolas e outra o peso das aprovações e das qualificações no futuro do país. Só é aceitável que os chumbos diminuam por o aproveitamento escolar ser cada vez mais efectivo e significativo. E para se chegar a esse objectivo é imperativo que haja mais exames e que estes sejam feitos a sério.»


 


Vasco Graça Moura, DN