28.2.11

O GÉNIO PORTUGUÊS


A "Europa" deste homem, a que "cometeu erros de mais", será a mesma dos rodriguinhos do tratado de Lisboa e do porreiro, pá? E ele, não cometeu nenhum?

O GÉNIO PORTUGUÊS


A "Europa" deste homem, a que "cometeu erros de mais", será a mesma dos rodriguinhos do tratado de Lisboa e do porreiro, pá? E ele, não cometeu nenhum?

A VANTAGEM DE GRITAR MAIS


«Como se explica, então, o sucesso da música dos Deolinda? Não tenho uma teoria definitiva, mas eu apontaria para o facto de a subida uniforme do desemprego produzir mais desempregados não licenciados e mais desempregados com licenciatura. Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais. Este efeito será provavelmente exacerbado pelo facto o crescimento do desemprego se ter feito sentir sobretudo em áreas do saber com acesso privilegiado aos media: cinema, artes, letras, comunicação social, alguma educação, eventualmente Direito. Os engenheiros em boa situação profissional estão caladinhos nos seus gabinetes. Os jornalistas desempregados estão a endrominar a cabeça dos colegas que conseguiram emprego


A VANTAGEM DE GRITAR MAIS


«Como se explica, então, o sucesso da música dos Deolinda? Não tenho uma teoria definitiva, mas eu apontaria para o facto de a subida uniforme do desemprego produzir mais desempregados não licenciados e mais desempregados com licenciatura. Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais. Este efeito será provavelmente exacerbado pelo facto o crescimento do desemprego se ter feito sentir sobretudo em áreas do saber com acesso privilegiado aos media: cinema, artes, letras, comunicação social, alguma educação, eventualmente Direito. Os engenheiros em boa situação profissional estão caladinhos nos seus gabinetes. Os jornalistas desempregados estão a endrominar a cabeça dos colegas que conseguiram emprego


OS PASSOS EM VOLTA


Segundo o Público, o governo inventou até agora cerca de 70 grupos de trabalho, comissões, observatórios, grupos consultivos, uma coordenação nacional e "estruturas de missão" (gosto particularmente do "som" destas últimas) que envolvem à volta de seiscentas pessoas, umas funcionárias públicas e outras não. Guterres foi o campeão destas inutilidades que apenas servem para os respectivos membros ornamentarem o currículo e, em alguns casos, comporem a mensalidade. Na maior parte dos casos, senão em todos, o Estado tem organismos para fazer o que esta bonzaria eminentemente "reflexiva" faz ou deixa de fazer. Até existe um grupo de trabalho para a "promoção da bicicleta", uma comissão para "promover uma adequada conexão entre a justica e o desporto", outra para "reflectir" (sic) sobre a certificação florestal"ou para "definir claramente o conceito de voto em mobilidade". Ridículo? Aparentemente, sim. Mas, entre nós, nada obedece forçosamente à lógica, ao rigor ou ao bom senso. E, depois, diz-se que a Europa é que deve dar "os passos certos" sob pena de nos afundarmos apesar da bondade patriótica do governo (o "esforço") e das suas "medidas". Como se nós não andássemos há anos a fazer mais nada a não ser "passos em volta", com a devida vénia a Herberto Helder.

OS PASSOS EM VOLTA


Segundo o Público, o governo inventou até agora cerca de 70 grupos de trabalho, comissões, observatórios, grupos consultivos, uma coordenação nacional e "estruturas de missão" (gosto particularmente do "som" destas últimas) que envolvem à volta de seiscentas pessoas, umas funcionárias públicas e outras não. Guterres foi o campeão destas inutilidades que apenas servem para os respectivos membros ornamentarem o currículo e, em alguns casos, comporem a mensalidade. Na maior parte dos casos, senão em todos, o Estado tem organismos para fazer o que esta bonzaria eminentemente "reflexiva" faz ou deixa de fazer. Até existe um grupo de trabalho para a "promoção da bicicleta", uma comissão para "promover uma adequada conexão entre a justica e o desporto", outra para "reflectir" (sic) sobre a certificação florestal"ou para "definir claramente o conceito de voto em mobilidade". Ridículo? Aparentemente, sim. Mas, entre nós, nada obedece forçosamente à lógica, ao rigor ou ao bom senso. E, depois, diz-se que a Europa é que deve dar "os passos certos" sob pena de nos afundarmos apesar da bondade patriótica do governo (o "esforço") e das suas "medidas". Como se nós não andássemos há anos a fazer mais nada a não ser "passos em volta", com a devida vénia a Herberto Helder.

27.2.11

BORGES


I

The useless dawn finds me in a deserted street-
corner; I have outlived the night.
Nights are proud waves; darkblue topheavy waves
laden with all the hues of deep spoil, laden with
things unlikely and desirable.
Nights have a habit of mysterious gifts and refusals,
of things half given away, half withheld,
of joys with a dark hemisphere. Nights act
that way, I tell you.
The surge, that night, left me the customary shreds
and odd ends: some hated friends to chat
with, music for dreams, and the smoking of
bitter ashes. The things my hungry heart
has no use for.
The big wave brought you.
Words, any words, your laughter; and you so lazily
and incessantly beautiful. We talked and you
have forgotten the words.
The shattering dawn finds me in a deserted street
of my city.
Your profile turned away, the sounds that go to
make your name, the lilt of your laughter:
these are the illustrious toys you have left me.
I turn them over in the dawn, I lose them, I find
them; I tell them to the few stray dogs and
to the few stray stars of the dawn.
Your dark rich life ...
I must get at you, somehow; I put away those
illustrious toys you have left me, I want your
hidden look, your real smile -- that lonely,
mocking smile your cool mirror knows.

II

What can I hold you with?
I offer you lean streets, desperate sunsets, the
moon of the jagged suburbs.
I offer you the bitterness of a man who has looked
long and long at the lonely moon.
I offer you my ancestors, my dead men, the ghosts
that living men have honoured in bronze:
my father's father killed in the frontier of
Buenos Aires, two bullets through his lungs,
bearded and dead, wrapped by his soldiers in
the hide of a cow; my mother's grandfather
--just twentyfour-- heading a charge of
three hundred men in Peru, now ghosts on
vanished horses.
I offer you whatever insight my books may hold,
whatever manliness or humour my life.
I offer you the loyalty of a man who has never
been loyal.
I offer you that kernel of myself that I have saved,
somehow --the central heart that deals not
in words, traffics not with dreams, and is
untouched by time, by joy, by adversities.
I offer you t
he memory of a yellow rose seen at
sunset, years before you were born.
I offer you explanations of yourself, theories about
yourself, authentic and surprising news of
yourself.
I can give you my loneliness, my darkness, the
hunger of my heart; I am trying to bribe you
with uncertainty, with danger, with defeat.


Jorge Luis Borges (Two English Poems)


BORGES


I

The useless dawn finds me in a deserted street-
corner; I have outlived the night.
Nights are proud waves; darkblue topheavy waves
laden with all the hues of deep spoil, laden with
things unlikely and desirable.
Nights have a habit of mysterious gifts and refusals,
of things half given away, half withheld,
of joys with a dark hemisphere. Nights act
that way, I tell you.
The surge, that night, left me the customary shreds
and odd ends: some hated friends to chat
with, music for dreams, and the smoking of
bitter ashes. The things my hungry heart
has no use for.
The big wave brought you.
Words, any words, your laughter; and you so lazily
and incessantly beautiful. We talked and you
have forgotten the words.
The shattering dawn finds me in a deserted street
of my city.
Your profile turned away, the sounds that go to
make your name, the lilt of your laughter:
these are the illustrious toys you have left me.
I turn them over in the dawn, I lose them, I find
them; I tell them to the few stray dogs and
to the few stray stars of the dawn.
Your dark rich life ...
I must get at you, somehow; I put away those
illustrious toys you have left me, I want your
hidden look, your real smile -- that lonely,
mocking smile your cool mirror knows.

II

What can I hold you with?
I offer you lean streets, desperate sunsets, the
moon of the jagged suburbs.
I offer you the bitterness of a man who has looked
long and long at the lonely moon.
I offer you my ancestors, my dead men, the ghosts
that living men have honoured in bronze:
my father's father killed in the frontier of
Buenos Aires, two bullets through his lungs,
bearded and dead, wrapped by his soldiers in
the hide of a cow; my mother's grandfather
--just twentyfour-- heading a charge of
three hundred men in Peru, now ghosts on
vanished horses.
I offer you whatever insight my books may hold,
whatever manliness or humour my life.
I offer you the loyalty of a man who has never
been loyal.
I offer you that kernel of myself that I have saved,
somehow --the central heart that deals not
in words, traffics not with dreams, and is
untouched by time, by joy, by adversities.
I offer you t
he memory of a yellow rose seen at
sunset, years before you were born.
I offer you explanations of yourself, theories about
yourself, authentic and surprising news of
yourself.
I can give you my loneliness, my darkness, the
hunger of my heart; I am trying to bribe you
with uncertainty, with danger, with defeat.


Jorge Luis Borges (Two English Poems)


O CHARCO DA "ESTABILIDADE"

Finalmente Passos falou claro ao mencionar que não há pachorra para a "chantagem da estabilidade", o único "programa" de Sócrates para o PS e para o país. Sobretudo quando este "viver habitualmente" - furtado ao Doutor Salazar pela nomenclatura autista e totalitária que domina o partido do governo - já não resolve problema algum.

O CHARCO DA "ESTABILIDADE"

Finalmente Passos falou claro ao mencionar que não há pachorra para a "chantagem da estabilidade", o único "programa" de Sócrates para o PS e para o país. Sobretudo quando este "viver habitualmente" - furtado ao Doutor Salazar pela nomenclatura autista e totalitária que domina o partido do governo - já não resolve problema algum.

UM HOMEM SEM QUALIDADES

Luís Amado portou-se bem na administração interna, enquanto ajudante nos idos de Guterres. Na Defesa, como presentemente qualquer ministro da Defesa, não contou. Finalmente, como MNE, é esta desgraça sem fio condutor o que, afinal, instaura um "princípio". Mau, mas um "princípio". E ainda há por aí embotados estilo Alfredo Barroso (que passa a vida a bater no peito a jurar que é social-democrata diante do sempre extraordinário Mário Crespo) que "encostam" Amado a uma putativa ala "direita" do PS. Ou seja, atribuindo-lhe um pensamento. Que trolhice.

UM HOMEM SEM QUALIDADES

Luís Amado portou-se bem na administração interna, enquanto ajudante nos idos de Guterres. Na Defesa, como presentemente qualquer ministro da Defesa, não contou. Finalmente, como MNE, é esta desgraça sem fio condutor o que, afinal, instaura um "princípio". Mau, mas um "princípio". E ainda há por aí embotados estilo Alfredo Barroso (que passa a vida a bater no peito a jurar que é social-democrata diante do sempre extraordinário Mário Crespo) que "encostam" Amado a uma putativa ala "direita" do PS. Ou seja, atribuindo-lhe um pensamento. Que trolhice.

A DIFERENÇA


Depois de ler o artigo de V. Pulido Valente que transcrevi abaixo - acerca da futilidade calculista e timorata que domina a vida pública nacional - e depois de escutar o Angelus do Papa, só me posso congratular por, na qualidade de católico, não dever a menor obediência "terrena" (e, muito menos, a quem quer que seja no "dominante Portugalório" o que não quer dizer que não considere quatro ou cinco pessoas) a ninguém. «Chi crede in Dio, Padre pieno d’amore per i suoi figli, mette al primo posto la ricerca del suo Regno, della sua volontà. E ciò è proprio il contrario del fatalismo o di un ingenuo irenismo. La fede nella Provvidenza, infatti, non dispensa dalla faticosa lotta per una vita dignitosa, ma libera dall’affanno per le cose e dalla paura del domani. Il cristiano si distingue per l’assoluta fiducia nel Padre celeste, come è stato per Gesù. E’ proprio la relazione con Dio Padre che dà senso a tutta la vita di Cristo, alle sue parole, ai suoi gesti di salvezza, fino alla sua passione, morte e risurrezione.»

A DIFERENÇA


Depois de ler o artigo de V. Pulido Valente que transcrevi abaixo - acerca da futilidade calculista e timorata que domina a vida pública nacional - e depois de escutar o Angelus do Papa, só me posso congratular por, na qualidade de católico, não dever a menor obediência "terrena" (e, muito menos, a quem quer que seja no "dominante Portugalório" o que não quer dizer que não considere quatro ou cinco pessoas) a ninguém. «Chi crede in Dio, Padre pieno d’amore per i suoi figli, mette al primo posto la ricerca del suo Regno, della sua volontà. E ciò è proprio il contrario del fatalismo o di un ingenuo irenismo. La fede nella Provvidenza, infatti, non dispensa dalla faticosa lotta per una vita dignitosa, ma libera dall’affanno per le cose e dalla paura del domani. Il cristiano si distingue per l’assoluta fiducia nel Padre celeste, come è stato per Gesù. E’ proprio la relazione con Dio Padre che dà senso a tutta la vita di Cristo, alle sue parole, ai suoi gesti di salvezza, fino alla sua passione, morte e risurrezione.»

O ESTADO DA ARTE


«As conversas no Parlamento entre os chefes de partido são de uma absoluta futilidade. As declarações da gente que nos governa não convencem ninguém. Os jornais acabaram por se tornar num repositório de faits-divers. Nos noticiários da televisão não há notícias. Parece que Portugal se tornou uma província particularmente tranquila, que a Europa esqueceu. Mas todos nós sabemos que não é assim. Porquê, então, esta paz podre? Por uma razão muito simples: porque, do Presidente da República ao último militante, o país político anda cheio de medo - medo de ser, por erro ou por acaso, o responsável final pela crise e de atrair sobre si a ira dormente dos portugueses. Remédio para isto? Não abrir a boca sob pretexto algum ou só a abrir para não dizer rigorosamente nada. O dr. Cavaco, que não gosta e despreza Sócrates, gostava de o ver a ele e ao PS pelas costas. Mas tem medo que uma eleição, como explicou sábado no Expresso o dr. Ricardo Salgado, torne as coisas piores (como sucedeu, por exemplo, na Irlanda). E tem medo que o PSD ou o PSD e o CDS não ganhem a maioria absoluta e que a esquerda (incluindo Sócrates) fique ainda em posição de bloquear o presuntivo primeiro-ministro (Pedro Passos Coelho?). E o Presidente também tem medo da velha loucura do PSD, com que não se entende (mesmo desprestigiado e nulo, Pedro Santana Lopes já sugeriu ontem que se trocasse Passos Coelho por Rui Rio). E não tem menos medo que uma desilusão eleitoral se vire contra ele, se ele a convocar sem uma desculpa inatacável e protegido por um eleitorado unânime. Mas se o Presidente está à beira de um ataque de nervos, Sócrates não está melhor. Ele não ignora que uma grande derrota (de resto, mais do que provável) liquidaria o PS por uma geração e que, ele, pessoalmente, deixaria de existir. Não admira que tenha medo de Cavaco, que tenha medo de eleições, que tenha medo de um imbróglio qualquer, dentro ou fora do PS, que o faça tropeçar. Uma soma de medos que se resumem a um: sair daquela cadeira, onde ele duvida que se volte a sentar. E Pedro Passos Coelho? Tem medo que o julguem apressado e medo que o julguem indiferente. Tem medo de avançar e tem medo de continuar parado, deitando pelos povos pérolas de sabedoria. Tem medo do CDS e tem medo de precisar do CDS. E tem principalmente medo que os génios que arranjou não cheguem para endireitar Portugal. O medo vai de ponta a ponta, de Cavaco ao PSD. O medo paralisa. E o medo mete medo.»

Vasco Pulido Valente, Público

O ESTADO DA ARTE


«As conversas no Parlamento entre os chefes de partido são de uma absoluta futilidade. As declarações da gente que nos governa não convencem ninguém. Os jornais acabaram por se tornar num repositório de faits-divers. Nos noticiários da televisão não há notícias. Parece que Portugal se tornou uma província particularmente tranquila, que a Europa esqueceu. Mas todos nós sabemos que não é assim. Porquê, então, esta paz podre? Por uma razão muito simples: porque, do Presidente da República ao último militante, o país político anda cheio de medo - medo de ser, por erro ou por acaso, o responsável final pela crise e de atrair sobre si a ira dormente dos portugueses. Remédio para isto? Não abrir a boca sob pretexto algum ou só a abrir para não dizer rigorosamente nada. O dr. Cavaco, que não gosta e despreza Sócrates, gostava de o ver a ele e ao PS pelas costas. Mas tem medo que uma eleição, como explicou sábado no Expresso o dr. Ricardo Salgado, torne as coisas piores (como sucedeu, por exemplo, na Irlanda). E tem medo que o PSD ou o PSD e o CDS não ganhem a maioria absoluta e que a esquerda (incluindo Sócrates) fique ainda em posição de bloquear o presuntivo primeiro-ministro (Pedro Passos Coelho?). E o Presidente também tem medo da velha loucura do PSD, com que não se entende (mesmo desprestigiado e nulo, Pedro Santana Lopes já sugeriu ontem que se trocasse Passos Coelho por Rui Rio). E não tem menos medo que uma desilusão eleitoral se vire contra ele, se ele a convocar sem uma desculpa inatacável e protegido por um eleitorado unânime. Mas se o Presidente está à beira de um ataque de nervos, Sócrates não está melhor. Ele não ignora que uma grande derrota (de resto, mais do que provável) liquidaria o PS por uma geração e que, ele, pessoalmente, deixaria de existir. Não admira que tenha medo de Cavaco, que tenha medo de eleições, que tenha medo de um imbróglio qualquer, dentro ou fora do PS, que o faça tropeçar. Uma soma de medos que se resumem a um: sair daquela cadeira, onde ele duvida que se volte a sentar. E Pedro Passos Coelho? Tem medo que o julguem apressado e medo que o julguem indiferente. Tem medo de avançar e tem medo de continuar parado, deitando pelos povos pérolas de sabedoria. Tem medo do CDS e tem medo de precisar do CDS. E tem principalmente medo que os génios que arranjou não cheguem para endireitar Portugal. O medo vai de ponta a ponta, de Cavaco ao PSD. O medo paralisa. E o medo mete medo.»

Vasco Pulido Valente, Público

26.2.11

UMA TRAGÉDIA


Passos Coelho escolheu falar duma maciça "adesão eleitoral" e do "futuro" com uma mão cheia de "passado" atrás dele. Como se isso não bastasse, inventaram-lhe um slogan digno de um spa ou de um clube fitness - "genepsd". A estrela convidada foi o "escritor" político oracular Marques Mendes. A plateia, fora uma cara ou outra, representava, de facto, o "gene" da coisa. Ex-ministros gestores, gestores ex-ministros "bloco-centralistas" e putativos candidatos a ambas as categorias ornamentaram o exercício. Do outro lado lado, Sócrates. Depois do "Sócrates 2009, tão infelizmente fresco, o "Sócrates 2011" para consumo do partido. O "gene" deste é o "deixa arder que o meu pai é bombeiro", com uns quantos militantes a bater palminhas e a D. Edite Estrela. Uma tragédia.

UMA TRAGÉDIA


Passos Coelho escolheu falar duma maciça "adesão eleitoral" e do "futuro" com uma mão cheia de "passado" atrás dele. Como se isso não bastasse, inventaram-lhe um slogan digno de um spa ou de um clube fitness - "genepsd". A estrela convidada foi o "escritor" político oracular Marques Mendes. A plateia, fora uma cara ou outra, representava, de facto, o "gene" da coisa. Ex-ministros gestores, gestores ex-ministros "bloco-centralistas" e putativos candidatos a ambas as categorias ornamentaram o exercício. Do outro lado lado, Sócrates. Depois do "Sócrates 2009, tão infelizmente fresco, o "Sócrates 2011" para consumo do partido. O "gene" deste é o "deixa arder que o meu pai é bombeiro", com uns quantos militantes a bater palminhas e a D. Edite Estrela. Uma tragédia.

COISAS CIVILIZADAS


No Grande Auditório da Gulbenkian, directamente do Met de Nova Iorque, Ifigénia na Táurida, de Gluck. Às 18h. Susan Graham, Plácido Domingo.

COISAS CIVILIZADAS


No Grande Auditório da Gulbenkian, directamente do Met de Nova Iorque, Ifigénia na Táurida, de Gluck. Às 18h. Susan Graham, Plácido Domingo.

UM ESPELHO




O "Expresso 2000 exemplares" (parabéns à prima) divulga, via Mr. Assange, o que um diplomata norte-americano transmitiu ao seu governo sobre a Defesa Nacional, as Forças Armadas e a FLAD portuguesas. Quem serviu nas fileiras - com ou já sem Ultramar mas antes da destruição metódica das FAP's pelos partidos deste regime, todos, sem excepção - não pode deixar de se sentir envergonhado com o "retrato". E escusam de vir com discursatas patrioteiras (e vindas, então, de quem nunca disparou um tiro ou vestiu uma farda, dá vontade de rir) e politicamente correctas (Passos Coelho já caiu na armadilha ao falar em "leviandade") contra a coisa porque conseguem ser ainda mais ridículos do que saem do "retrato". Todavia, um país (e uns chefes militares) que entrega a Defesa Nacional a um sociólogo ex-MES (como, dantes, a um bondoso académico ou a um eterno chefe de partido de fatos às riscas) merece todos os vexames públicos. Já que nós não somos capazes de nos vermos ao espelho, haja então quem nos empreste um.

UM ESPELHO




O "Expresso 2000 exemplares" (parabéns à prima) divulga, via Mr. Assange, o que um diplomata norte-americano transmitiu ao seu governo sobre a Defesa Nacional, as Forças Armadas e a FLAD portuguesas. Quem serviu nas fileiras - com ou já sem Ultramar mas antes da destruição metódica das FAP's pelos partidos deste regime, todos, sem excepção - não pode deixar de se sentir envergonhado com o "retrato". E escusam de vir com discursatas patrioteiras (e vindas, então, de quem nunca disparou um tiro ou vestiu uma farda, dá vontade de rir) e politicamente correctas (Passos Coelho já caiu na armadilha ao falar em "leviandade") contra a coisa porque conseguem ser ainda mais ridículos do que saem do "retrato". Todavia, um país (e uns chefes militares) que entrega a Defesa Nacional a um sociólogo ex-MES (como, dantes, a um bondoso académico ou a um eterno chefe de partido de fatos às riscas) merece todos os vexames públicos. Já que nós não somos capazes de nos vermos ao espelho, haja então quem nos empreste um.

UM PRINCÍPIO PORTUGUÊS


«Não há liberdade, há de quando em quando liberdades. E, para que haja liberdades, são precisas instituições, que, garantindo a segurança, as promovam e defendam. Ora o que havia em França em 1789-1794 era uma total ausência de instituições capazes de promover e defender as liberdades. Como em 1917 no Império Czarista e em 1991 na URSS. Ou como no Portugal de 1974. E como hoje na África do Norte. O Egipto tem um exército forte e com alguma tradição política. A Tunísia tem um exército fraco e uma tradição de neutralidade. A religião muçulmana, que não está submetida a uma hierarquia como a católica, tem várias tendências, que se disputam, uma disciplina interna fraca e, em geral, uma lei irreconciliável com a democracia. Não me parece que com estes ingredientes se consiga pôr em pé a sombra de uma ordem democrática e secular.» Isto é de Vasco Pulido Valente, no Público, em "resposta" a Pedro Lomba. Mas o que me interessa é o príncipio do excerto. Se o deslocarmos do contexto para o nosso, actual, os sinais devolvem-nos um país pouco mais "evoluído" em matéria de liberdades do que aqueles cuja história VPV conta. Um presidente do STJ empenhado em perseguir todo o mundo e o outro por causa dos seus "poderes", um punhado de partidos, à esquerda e à direita, "albanizados" e asnáticos, uma sociedade dita civil que oscila entre a passiva ajoelhada perante ao Estado e a parvoíce de matilha da "geração facebook" que "ameaça" com a rua, um jornalismo falho de audácia (vá lá, Fernando Madrinha no Expresso ousou denunciar a "correcção" no episódio da prisão de Paços de Ferreira), as recentes "golpadas" no sufrágio universal, etc., etc., dão cor a uma miséria institucional e instintual que não pode manifestamente dar lições a ninguém. «Não há liberdade, há de quando em quando liberdades.» Um princípio português.

UM PRINCÍPIO PORTUGUÊS


«Não há liberdade, há de quando em quando liberdades. E, para que haja liberdades, são precisas instituições, que, garantindo a segurança, as promovam e defendam. Ora o que havia em França em 1789-1794 era uma total ausência de instituições capazes de promover e defender as liberdades. Como em 1917 no Império Czarista e em 1991 na URSS. Ou como no Portugal de 1974. E como hoje na África do Norte. O Egipto tem um exército forte e com alguma tradição política. A Tunísia tem um exército fraco e uma tradição de neutralidade. A religião muçulmana, que não está submetida a uma hierarquia como a católica, tem várias tendências, que se disputam, uma disciplina interna fraca e, em geral, uma lei irreconciliável com a democracia. Não me parece que com estes ingredientes se consiga pôr em pé a sombra de uma ordem democrática e secular.» Isto é de Vasco Pulido Valente, no Público, em "resposta" a Pedro Lomba. Mas o que me interessa é o príncipio do excerto. Se o deslocarmos do contexto para o nosso, actual, os sinais devolvem-nos um país pouco mais "evoluído" em matéria de liberdades do que aqueles cuja história VPV conta. Um presidente do STJ empenhado em perseguir todo o mundo e o outro por causa dos seus "poderes", um punhado de partidos, à esquerda e à direita, "albanizados" e asnáticos, uma sociedade dita civil que oscila entre a passiva ajoelhada perante ao Estado e a parvoíce de matilha da "geração facebook" que "ameaça" com a rua, um jornalismo falho de audácia (vá lá, Fernando Madrinha no Expresso ousou denunciar a "correcção" no episódio da prisão de Paços de Ferreira), as recentes "golpadas" no sufrágio universal, etc., etc., dão cor a uma miséria institucional e instintual que não pode manifestamente dar lições a ninguém. «Não há liberdade, há de quando em quando liberdades.» Um princípio português.

ELIOT


Nos canais noticiosos do Portugalório tagarelavam sem som. Pouco passa da meia-noite e Eliot "lê-me" o seu poema. Não é preciso mais nada.

ELIOT


Nos canais noticiosos do Portugalório tagarelavam sem som. Pouco passa da meia-noite e Eliot "lê-me" o seu poema. Não é preciso mais nada.

25.2.11

BORDA FORA

Tipicamente, os serventuários de Kadhafi, lá e no exterior, só agora deram pela natureza do homem e do regime. As ratazanas são iguais em todo o lado.

BORDA FORA

Tipicamente, os serventuários de Kadhafi, lá e no exterior, só agora deram pela natureza do homem e do regime. As ratazanas são iguais em todo o lado.

PREMONITÓRIO


PREMONITÓRIO


DA PERIFERIA AO CENTRO


Chego a casa e vejo Manuel Maria Carrilho, na tvi, a dizer que Sócrates vai "implorar" à Chanceler Merkel que, finalmente, nos ajude a que nos ajudem. As coisas são o que são.

DA PERIFERIA AO CENTRO


Chego a casa e vejo Manuel Maria Carrilho, na tvi, a dizer que Sócrates vai "implorar" à Chanceler Merkel que, finalmente, nos ajude a que nos ajudem. As coisas são o que são.

CHACUN À SON GOÛT


Um leitor, anónimo, perguntou se "andavam a apertar comigo ou quê" porque, alegadamente, "agora os posts é tudo convidados". Não. Apenas registo a loquacidade polémica dos autores desses textos relativamente ao tema que escolheram, umas vezes concordando com eles, outras não. E também porque não me apetece dizer nada. Já agora fica o link para outro post que nos transmite - segundo o seu autor, Tomás Vasques - "duas boas notícias". Isto é mesmo assim, chacun à son goût. Enquanto Céline estava exilado na Dinamarca por "delito de opinião" (uma vez que tinha sido condenado a um ano de prisão em França por "colaboracionismo"), o "progressista" Sartre (esse mesmo) peticionou entretanto para que ele fosse condenado à morte. A "resposta" de Céline está no livro da foto, À l' agité du bocal, ainda hoje tão actual e bem escrito. Ambos tinham nome. E que nomes.

Adenda: A propos de nomes e de anonimato, este post de Stanley Fish, professor e crítico literário norte-americano.

CHACUN À SON GOÛT


Um leitor, anónimo, perguntou se "andavam a apertar comigo ou quê" porque, alegadamente, "agora os posts é tudo convidados". Não. Apenas registo a loquacidade polémica dos autores desses textos relativamente ao tema que escolheram, umas vezes concordando com eles, outras não. E também porque não me apetece dizer nada. Já agora fica o link para outro post que nos transmite - segundo o seu autor, Tomás Vasques - "duas boas notícias". Isto é mesmo assim, chacun à son goût. Enquanto Céline estava exilado na Dinamarca por "delito de opinião" (uma vez que tinha sido condenado a um ano de prisão em França por "colaboracionismo"), o "progressista" Sartre (esse mesmo) peticionou entretanto para que ele fosse condenado à morte. A "resposta" de Céline está no livro da foto, À l' agité du bocal, ainda hoje tão actual e bem escrito. Ambos tinham nome. E que nomes.

Adenda: A propos de nomes e de anonimato, este post de Stanley Fish, professor e crítico literário norte-americano.

OS DONOS, SEGUNDA PARTE


1. «O mandato do actual Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) termina por este dias. É provavelmente a mais feliz das notícias para os media portugueses nos últimos tempos. Saber que Azeredo Lopes, Estrela Serrano e Elísio Oliveira deixam a ERC é uma boa notícia para todos os jornalistas de Portugal dignos desse nome. »

2. «Ainda não está na administração e Paes do Amaral já tem uma contratação que desejava para a Direcção de Informação da TVI. Nos anos em que lá passou, sempre mostrava incómodo com a independência, a acutilância e a irreverência da informação da TVI, três qualidades que foram quarta-feira defendidas como características a manter num comunicado do Conselho de Redacção do canal. Não só Amaral manifestou o seu desagrado com o que se tornou a ideia feita acerca do “estilo da TVI”, como agiu contra ele, por exemplo afastando Marcelo Rebelo de Sousa quando ele desagradou ao poder político. Ao contrário de Belmiro de Azevedo e de Pinto Balsemão, o ex e futuro chefe da TVI não aprecia uma forte independência informativa, assemelhando-se nisso aos próceres governamentais que passam pelas administrações da RTP. Não admira que desejasse José Alberto Carvalho, cujo mandato nas duas últimas direcções da RTP coincidiu, na minha opinião, com a mais acentuada governamentalização da informação desde há décadas. Um dos objectivos é, pois, o de conseguir com Carvalho apagar os traços de independência, acutilância e irreverência que a redacção da TVI aprecia. A TVI poderá ter incorrido num erro de gestão e de avaliação das necessidades internas. Revela desconhecimento do que tem sido nos últimos anos o torpor da Direcção de Informação da RTP e o seu relacionamento com a sua administração, representante da tutela governamental. Carvalho revelou uma enorme incapacidade para tomar decisões e a uma atitude para com o poder político governamental que, na minha opinião, promete o pior quanto à independência, acutilância e irreverência. Infelizmente, é comum administrações de grupos privados desprezarem a independência editorial e preferirem um conúbio malsão com o poder do momento. Ao contrário da ideia feita, a informação da TVI é hoje interessante e competente, e amiúde menos sensacionalista do que as da RTP ou SIC. Se por vezes é a última a chegar a eventos inesperados tal deve-se mais a falta de meios disponibilizados pela Administração do que a erros jornalísticos de avaliação. A TVI preferiu agora gastar em estrelas milionárias a investir na redacção. A transferência de Judite Sousa, que poderá motivar-se por melhores condições contratuais, representa a aquisição de uma jornalista experiente, nomeadamente nas entrevistas. Sousa conseguiu sempre o milagre de estar em direcções politicamente suspeitas sem que esse opróbio lhe caísse em cima. Não é nada com ela. Eis uma qualidade que continuará a ser-lhe útil na TVI. Quanto à RTP, fica desfalcada a menos de um ano de mudança de administração e, quem sabe, de governo. Não perde nada com a saída de um director asténico como Carvalho, mas saem também pessoas experientes de cargos directivos. Receio que não será desta que a RTP aproveita para uma mudança profunda que favoreça o serviço público, a informação livre e o nosso dinheiro que lá é enterrado, cerca de um milhão de euros por dia. »


OS DONOS, SEGUNDA PARTE


1. «O mandato do actual Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) termina por este dias. É provavelmente a mais feliz das notícias para os media portugueses nos últimos tempos. Saber que Azeredo Lopes, Estrela Serrano e Elísio Oliveira deixam a ERC é uma boa notícia para todos os jornalistas de Portugal dignos desse nome. »

2. «Ainda não está na administração e Paes do Amaral já tem uma contratação que desejava para a Direcção de Informação da TVI. Nos anos em que lá passou, sempre mostrava incómodo com a independência, a acutilância e a irreverência da informação da TVI, três qualidades que foram quarta-feira defendidas como características a manter num comunicado do Conselho de Redacção do canal. Não só Amaral manifestou o seu desagrado com o que se tornou a ideia feita acerca do “estilo da TVI”, como agiu contra ele, por exemplo afastando Marcelo Rebelo de Sousa quando ele desagradou ao poder político. Ao contrário de Belmiro de Azevedo e de Pinto Balsemão, o ex e futuro chefe da TVI não aprecia uma forte independência informativa, assemelhando-se nisso aos próceres governamentais que passam pelas administrações da RTP. Não admira que desejasse José Alberto Carvalho, cujo mandato nas duas últimas direcções da RTP coincidiu, na minha opinião, com a mais acentuada governamentalização da informação desde há décadas. Um dos objectivos é, pois, o de conseguir com Carvalho apagar os traços de independência, acutilância e irreverência que a redacção da TVI aprecia. A TVI poderá ter incorrido num erro de gestão e de avaliação das necessidades internas. Revela desconhecimento do que tem sido nos últimos anos o torpor da Direcção de Informação da RTP e o seu relacionamento com a sua administração, representante da tutela governamental. Carvalho revelou uma enorme incapacidade para tomar decisões e a uma atitude para com o poder político governamental que, na minha opinião, promete o pior quanto à independência, acutilância e irreverência. Infelizmente, é comum administrações de grupos privados desprezarem a independência editorial e preferirem um conúbio malsão com o poder do momento. Ao contrário da ideia feita, a informação da TVI é hoje interessante e competente, e amiúde menos sensacionalista do que as da RTP ou SIC. Se por vezes é a última a chegar a eventos inesperados tal deve-se mais a falta de meios disponibilizados pela Administração do que a erros jornalísticos de avaliação. A TVI preferiu agora gastar em estrelas milionárias a investir na redacção. A transferência de Judite Sousa, que poderá motivar-se por melhores condições contratuais, representa a aquisição de uma jornalista experiente, nomeadamente nas entrevistas. Sousa conseguiu sempre o milagre de estar em direcções politicamente suspeitas sem que esse opróbio lhe caísse em cima. Não é nada com ela. Eis uma qualidade que continuará a ser-lhe útil na TVI. Quanto à RTP, fica desfalcada a menos de um ano de mudança de administração e, quem sabe, de governo. Não perde nada com a saída de um director asténico como Carvalho, mas saem também pessoas experientes de cargos directivos. Receio que não será desta que a RTP aproveita para uma mudança profunda que favoreça o serviço público, a informação livre e o nosso dinheiro que lá é enterrado, cerca de um milhão de euros por dia. »


TENTAR PERCEBER


«Ao contrário dos meus críticos, a mim me interessa profundamente o que virá a seguir à insurreição quase geral do Norte de África e a eles lhes basta contemplar a inegável beleza (moral) da revolta. Jean Daniel, um jornalista que foi durante meio século o mentor da esquerda francesa, escreveu: “O importante no Egipto e na Tunísia é que tenha acontecido, não o seu futuro”. E um comentador português, falando salvo o erro da Líbia, palavra menos palavra, repetiu Daniel: mesmo que tudo acabe numa república islâmica (ou seja, num Estado teocrático), decretou ele, valeu a pena! O meu “catastrofismo”, o meu pessimismo, a minha malevolência, estão num único ponto. Insisti, como insisti em 1991, depois do colapso da URSS, que o levantamento popular não levaria com certeza à democracia, como hoje a entendemos no Ocidente. E não fiz mal em insistir porque, desde Obama ao jornalismo de ocasião, toda a gente esperava, ou até garantia, que de Trípoli à Praça Tahrir iam sair, resplandecentes, novas democracias. Gostava de prevenir, para pôr ponto final no caso, que prever um acontecimento ou uma situação não significa (excepto para mentes excepcionalmente estreitas) que se deseje esse acontecimento ou essa situação. Não significa mais do tentar compreender o que se passa e de não criar falsas expectativas. Desde a Antiguidade que existiram tiranias e, fatalmente, uma luta constante contra elas. Mas regimes democráticos não existiram antes do século XVIII (existiu, de resto, um único: o americano). A resistência à opressão não produz necessariamente a liberdade. É isto muito difícil de perceber?»


Vasco Pulido Valente, Público

TENTAR PERCEBER


«Ao contrário dos meus críticos, a mim me interessa profundamente o que virá a seguir à insurreição quase geral do Norte de África e a eles lhes basta contemplar a inegável beleza (moral) da revolta. Jean Daniel, um jornalista que foi durante meio século o mentor da esquerda francesa, escreveu: “O importante no Egipto e na Tunísia é que tenha acontecido, não o seu futuro”. E um comentador português, falando salvo o erro da Líbia, palavra menos palavra, repetiu Daniel: mesmo que tudo acabe numa república islâmica (ou seja, num Estado teocrático), decretou ele, valeu a pena! O meu “catastrofismo”, o meu pessimismo, a minha malevolência, estão num único ponto. Insisti, como insisti em 1991, depois do colapso da URSS, que o levantamento popular não levaria com certeza à democracia, como hoje a entendemos no Ocidente. E não fiz mal em insistir porque, desde Obama ao jornalismo de ocasião, toda a gente esperava, ou até garantia, que de Trípoli à Praça Tahrir iam sair, resplandecentes, novas democracias. Gostava de prevenir, para pôr ponto final no caso, que prever um acontecimento ou uma situação não significa (excepto para mentes excepcionalmente estreitas) que se deseje esse acontecimento ou essa situação. Não significa mais do tentar compreender o que se passa e de não criar falsas expectativas. Desde a Antiguidade que existiram tiranias e, fatalmente, uma luta constante contra elas. Mas regimes democráticos não existiram antes do século XVIII (existiu, de resto, um único: o americano). A resistência à opressão não produz necessariamente a liberdade. É isto muito difícil de perceber?»


Vasco Pulido Valente, Público

24.2.11

POUND



Diz (o seu) «Hugh Selwyn Mauberley». Sabe bem esta voz no meio do deserto tagarela em que vegetamos.

POUND



Diz (o seu) «Hugh Selwyn Mauberley». Sabe bem esta voz no meio do deserto tagarela em que vegetamos.

DO CRESCIMENTO

Os juros, a gasolina, o gasóleo, a propaganda do governo e o dr. Marques Mendes, o mais recente "escritor" político português, são as únicas "realidades" que crescem em Portugal. Razão, pois, ao desdentado Mao. A situação é excelente.

DO CRESCIMENTO

Os juros, a gasolina, o gasóleo, a propaganda do governo e o dr. Marques Mendes, o mais recente "escritor" político português, são as únicas "realidades" que crescem em Portugal. Razão, pois, ao desdentado Mao. A situação é excelente.

OS DONOS


A tvi faz 18 anos. Para "comemorar", escolheu José Alberto Carvalho e Judite de Sousa para a direcção de informação. Se repararem, as criaturas jornalistas que as televisões exibem já "rodaram" praticamente todas pelas três generalistas. Saem de uma, entram noutra, tornam a sair para uma terceira e, por vezes, regressam à base. Quando falo em jornalistas, refiro os sobas da televisão. Não os mais jovens candidatos a jornalistas, os tarefeiros ou outras espécies menos dignas. Não. A televisão portuguesa tem donos e esses donos (na informação) são invariavelmente os mesmos há muitos anos. O regime altera-se (alterna-se) e eles alteram-se com o regime, seguindo-o, seja lá ele qual for. Boa sorte.

Adenda: E por falar em regime...

OS DONOS


A tvi faz 18 anos. Para "comemorar", escolheu José Alberto Carvalho e Judite de Sousa para a direcção de informação. Se repararem, as criaturas jornalistas que as televisões exibem já "rodaram" praticamente todas pelas três generalistas. Saem de uma, entram noutra, tornam a sair para uma terceira e, por vezes, regressam à base. Quando falo em jornalistas, refiro os sobas da televisão. Não os mais jovens candidatos a jornalistas, os tarefeiros ou outras espécies menos dignas. Não. A televisão portuguesa tem donos e esses donos (na informação) são invariavelmente os mesmos há muitos anos. O regime altera-se (alterna-se) e eles alteram-se com o regime, seguindo-o, seja lá ele qual for. Boa sorte.

Adenda: E por falar em regime...

UMA SOLUÇÃO


A Itália, pela Ilha de Lampedusa enquanto porta, está a ser "invadida" por tunisinos em fuga das "amplas liberdades" conseguidas na rua. Prevê-se que milhares de líbios façam o mesmo. Ou seja, a Europa envelhecida e indemne vai aparentemente receber hordas de gente mais jovem que facilmente se adapta a qualquer coisa, sem melancolias ou frivolidades do género "eu quero o meu Estado social, o meu canudo, a minha esplanada e o meu Ipod". Os referidos nativos árabes, uma vez "libertados" nas suas pátrias, pretendem evidentemente "libertar-se" delas (só os jornalistas portugueses estilo Moura do Público, sempre "avançados", é que imaginam que eles querem lá ficar) e viver no mundo que a net, as televisões e o facebook lhes apresentaram. Obama, um amador, fala nas responsabilidades da comunidade internacional em relação à Líbia como se os EUA alguma vez permitissem as "invasões" que a Europa dos "direitos humanos" e da demagogia "correcta" alegremente consente. Razão tinha Kavafis, o poeta da velha Alexandria. Os bárbaros, afinal, sempre eram uma solução.

Adenda: "Ninguém escreve ao coronel".

UMA SOLUÇÃO


A Itália, pela Ilha de Lampedusa enquanto porta, está a ser "invadida" por tunisinos em fuga das "amplas liberdades" conseguidas na rua. Prevê-se que milhares de líbios façam o mesmo. Ou seja, a Europa envelhecida e indemne vai aparentemente receber hordas de gente mais jovem que facilmente se adapta a qualquer coisa, sem melancolias ou frivolidades do género "eu quero o meu Estado social, o meu canudo, a minha esplanada e o meu Ipod". Os referidos nativos árabes, uma vez "libertados" nas suas pátrias, pretendem evidentemente "libertar-se" delas (só os jornalistas portugueses estilo Moura do Público, sempre "avançados", é que imaginam que eles querem lá ficar) e viver no mundo que a net, as televisões e o facebook lhes apresentaram. Obama, um amador, fala nas responsabilidades da comunidade internacional em relação à Líbia como se os EUA alguma vez permitissem as "invasões" que a Europa dos "direitos humanos" e da demagogia "correcta" alegremente consente. Razão tinha Kavafis, o poeta da velha Alexandria. Os bárbaros, afinal, sempre eram uma solução.

Adenda: "Ninguém escreve ao coronel".

WHISHFUL THINKING


«Os partidos, todos eles, tornaram-se organizações fechadas, pouco orientadas pelo interesse nacional e muito viradas para a perpetuação dos seus interesses. A sociedade civil e as diversas elites têm-se, em geral, demitido das suas responsabilidades (com excepções, é preciso dizê-lo, nomeadamente de algumas elites religiosas), emergindo apenas quando se aproximam eleições, e também elas mais à procura de lugares, e sobretudo de influência, do que do exercício de qualquer missão desinteressada. O momento actual, que sem ser eleitoral já o é, é bem ilustrativo do que digo. O PS ressuscita instrumentalmente as suas desacreditadas "Novas Fronteiras", que nunca produziram uma ideia que fosse sobre o que quer que seja. O PSD parece que gosta do modelo e avança com um "Mais Sociedade, Portugal faz-se consigo" que - o nome diz tudo, não é? - não passa de um expediente para ir branqueando a evidente impreparação que tem revelado para, se chegar ao poder, enfrentar a crise e dar a volta à situação. É que, quando isto é a sério - como acontece na Alemanha, em França ou em Inglaterra -, é nos próprios partidos, no seu interior, que se investe em abertura e qualificação, e esse investimento faz-se de um modo contínuo, estruturado e orgânico. Porque aí a convicção nuclear é que é na diversidade das ideias, na sua competência e audácia, que estão as chaves de que se precisa para lidar com o mundo de hoje, e para se preparar o futuro. Ao arrepio de tudo isto, os regulamentos do PS para o próximo congresso estabelecem a inqualificável proibição de apresentação de moções globais, aos militantes que não sejam candidatos a secretário-geral! A fórmula deste pluralismo estropiado define-se na seguinte fórmula: "Tens ideias? Então candidata-te! Ah, não te candidatas? Então cala-te!" Ao criar-se, num gesto de indiscutível inspiração totalitária, um regime de liberdade condicional para os militantes "que tenham ideias", está-se a alimentar a teia do pior conformismo, cujas funestas consequências são bem conhecidas - e não se farão esperar! E logo agora, que o país tanto precisava de abertura e de ousadia para enfrentar o seu tão problemático futuro.»


WHISHFUL THINKING


«Os partidos, todos eles, tornaram-se organizações fechadas, pouco orientadas pelo interesse nacional e muito viradas para a perpetuação dos seus interesses. A sociedade civil e as diversas elites têm-se, em geral, demitido das suas responsabilidades (com excepções, é preciso dizê-lo, nomeadamente de algumas elites religiosas), emergindo apenas quando se aproximam eleições, e também elas mais à procura de lugares, e sobretudo de influência, do que do exercício de qualquer missão desinteressada. O momento actual, que sem ser eleitoral já o é, é bem ilustrativo do que digo. O PS ressuscita instrumentalmente as suas desacreditadas "Novas Fronteiras", que nunca produziram uma ideia que fosse sobre o que quer que seja. O PSD parece que gosta do modelo e avança com um "Mais Sociedade, Portugal faz-se consigo" que - o nome diz tudo, não é? - não passa de um expediente para ir branqueando a evidente impreparação que tem revelado para, se chegar ao poder, enfrentar a crise e dar a volta à situação. É que, quando isto é a sério - como acontece na Alemanha, em França ou em Inglaterra -, é nos próprios partidos, no seu interior, que se investe em abertura e qualificação, e esse investimento faz-se de um modo contínuo, estruturado e orgânico. Porque aí a convicção nuclear é que é na diversidade das ideias, na sua competência e audácia, que estão as chaves de que se precisa para lidar com o mundo de hoje, e para se preparar o futuro. Ao arrepio de tudo isto, os regulamentos do PS para o próximo congresso estabelecem a inqualificável proibição de apresentação de moções globais, aos militantes que não sejam candidatos a secretário-geral! A fórmula deste pluralismo estropiado define-se na seguinte fórmula: "Tens ideias? Então candidata-te! Ah, não te candidatas? Então cala-te!" Ao criar-se, num gesto de indiscutível inspiração totalitária, um regime de liberdade condicional para os militantes "que tenham ideias", está-se a alimentar a teia do pior conformismo, cujas funestas consequências são bem conhecidas - e não se farão esperar! E logo agora, que o país tanto precisava de abertura e de ousadia para enfrentar o seu tão problemático futuro.»


23.2.11

UM PENSAMENTO PROFUNDO

«Um regime anacrónico, muito específico nas suas dimensões internas», eis como Luís Amado, MNE português, vê o regime do beduíno líbio de cabelinho pintado agora pelas ruas da amargura. Por que é não transmitiu este pensamento tão profundo ao próprio quando foi recebido na tenda?

UM PENSAMENTO PROFUNDO

«Um regime anacrónico, muito específico nas suas dimensões internas», eis como Luís Amado, MNE português, vê o regime do beduíno líbio de cabelinho pintado agora pelas ruas da amargura. Por que é não transmitiu este pensamento tão profundo ao próprio quando foi recebido na tenda?

O MUNDO DE RICARDO COSTA


O Expresso anuncia novos cronistas. Podem dividir-se em três grupos. Os que sabem escrever, os que não sabem escrever e os engraçadinhos porque não há media que se preze que não cultive o engraçadismo. Saem, assim de repente, dois. Não se perdeu nada.

O MUNDO DE RICARDO COSTA


O Expresso anuncia novos cronistas. Podem dividir-se em três grupos. Os que sabem escrever, os que não sabem escrever e os engraçadinhos porque não há media que se preze que não cultive o engraçadismo. Saem, assim de repente, dois. Não se perdeu nada.

A "VÍTIMA"

Meio país - talvez mesmo três quartos dele e uns quantos "bentinhos" de serviço - comoveu-se com a "agressão" perpetrada por guardas prisionais a uma "vítima" detida em Paços de Ferreira. A "vítima" é um preso (se está preso é porque um juiz o mandou cumprir uma pena) que, para além de preso, não prima pela higiene. A coisa foi filmada pelos serviços prisionais o que significa que ninguém pretendeu esconder nada. Os responsáveis políticos coraram e quase regressaram ao famoso "esta não é a minha polícia". Houve quem recordasse Guantanamo sem se rir. Anunciaram-se processos para sossegar designadamente o Bloco, a reboque do qual se arrastaram esquerdas e direitas. Por que é que os partidos não experimentam organizar umas "jornadas parlamentares" numa prisão portuguesa a começar, preferencialmente, dentro da cela onde a "vítima" foi "agredida"?

A "VÍTIMA"

Meio país - talvez mesmo três quartos dele e uns quantos "bentinhos" de serviço - comoveu-se com a "agressão" perpetrada por guardas prisionais a uma "vítima" detida em Paços de Ferreira. A "vítima" é um preso (se está preso é porque um juiz o mandou cumprir uma pena) que, para além de preso, não prima pela higiene. A coisa foi filmada pelos serviços prisionais o que significa que ninguém pretendeu esconder nada. Os responsáveis políticos coraram e quase regressaram ao famoso "esta não é a minha polícia". Houve quem recordasse Guantanamo sem se rir. Anunciaram-se processos para sossegar designadamente o Bloco, a reboque do qual se arrastaram esquerdas e direitas. Por que é que os partidos não experimentam organizar umas "jornadas parlamentares" numa prisão portuguesa a começar, preferencialmente, dentro da cela onde a "vítima" foi "agredida"?

«ERA UM REDONDO VOCÁBULO/UMA SOMA AGRESTE»


Faz hoje anos que morreu José Afonso. Convinha revê-lo para não se confundir alguns gemedores profissionais que alcançam muito sucesso junto do público - enquanto "cantores" e "fadistas" popularuchos ou "nobres" - com a simplicidade aristocrática daquele homem discreto e bom que foi José Afonso, um grande patriota e um grande músico.

«ERA UM REDONDO VOCÁBULO/UMA SOMA AGRESTE»


Faz hoje anos que morreu José Afonso. Convinha revê-lo para não se confundir alguns gemedores profissionais que alcançam muito sucesso junto do público - enquanto "cantores" e "fadistas" popularuchos ou "nobres" - com a simplicidade aristocrática daquele homem discreto e bom que foi José Afonso, um grande patriota e um grande músico.

IRONISMO POLÍTICO REFORMADOR

Ouve-se agora muito António Barreto tal como em Un Ballo in Maschera se ouve Ulrika. Mas, ao escutar Medeiros Ferreira (em boa hora "recuperado" na tvi24 por Constança Cunha e Sá), percebe-se quem era (é) o verdadeiro reformador.

IRONISMO POLÍTICO REFORMADOR

Ouve-se agora muito António Barreto tal como em Un Ballo in Maschera se ouve Ulrika. Mas, ao escutar Medeiros Ferreira (em boa hora "recuperado" na tvi24 por Constança Cunha e Sá), percebe-se quem era (é) o verdadeiro reformador.

22.2.11

PREPARAÇÕES E EXPERIÊNCIAS


Vejo Pedro Santana Lopes muito preocupado com a falta de experiência e a "impreparação" de Passos Coelho. Em apenas alguns dias, sugeriu por duas vezes que Rui Rio, graças ao seu já longo desempenho autárquico, sempre seria, a título exemplificativo, "diferente". Sou insuspeito em relação a Passos (é o que há) mas parece-me que, salvo numa ou outra infelicidade de formulação, tem sido sensato. Não tem pressa o que quer dizer que talvez, e para variar dos derradeiros anos, esteja mesmo interessado em "preparar-se". Rio perdeu a sua oportunidade quando desistiu para Ferreira Leite depois de ter dito "sim" (para além disso não é certo que consiga "crescer" do Porto para o país). E Ferreira Leite passou como passou o próprio Lopes, tendo servido de pouca coisa a "experiência" de ambos na hora da verdade. Mal vai entretanto um partido que não consegue libertar-se da "síndrome trituradora interna" face a um opositor tenaz como Sócrates. E que persiste, pela voz "autorizada" de ilustres militantes, nos tirinhos de feira destinados ao pé.

PREPARAÇÕES E EXPERIÊNCIAS


Vejo Pedro Santana Lopes muito preocupado com a falta de experiência e a "impreparação" de Passos Coelho. Em apenas alguns dias, sugeriu por duas vezes que Rui Rio, graças ao seu já longo desempenho autárquico, sempre seria, a título exemplificativo, "diferente". Sou insuspeito em relação a Passos (é o que há) mas parece-me que, salvo numa ou outra infelicidade de formulação, tem sido sensato. Não tem pressa o que quer dizer que talvez, e para variar dos derradeiros anos, esteja mesmo interessado em "preparar-se". Rio perdeu a sua oportunidade quando desistiu para Ferreira Leite depois de ter dito "sim" (para além disso não é certo que consiga "crescer" do Porto para o país). E Ferreira Leite passou como passou o próprio Lopes, tendo servido de pouca coisa a "experiência" de ambos na hora da verdade. Mal vai entretanto um partido que não consegue libertar-se da "síndrome trituradora interna" face a um opositor tenaz como Sócrates. E que persiste, pela voz "autorizada" de ilustres militantes, nos tirinhos de feira destinados ao pé.

A "MASSA" E A ORDEM


Pedro Lomba, no Público, "responde" a Vasco Pulido Valente. Escreve o Pedro: «Podemos estar a assistir à fragmentação do mundo árabe e ao começo de uma guerra civil prolongada. Mas também pode ser que estas comunidades agora em colapso encontrem um tipo de ordem e convivência que não seja a mais admirável para a fé democrática mas que seja isso mesmo: um princípio de ordem e estabilização.» Com a devida vénia, "ordem e estabilização" é o que aquelas comunidades mais têm tido nas últimas décadas. Seja sob a forma de repúblicas autoritárias militaristas, seja através de monarquias plutocráticas, seja mediante "revoluções" contínuas como a de Kadhafi. Até agora ninguém percebeu que tipo de "convívio" pretende a rua, tão comovidamente aplaudida pelo "ocidente" da internet e dos lcd's. Decerto nunca a chamada conversa democrática que se aprende nos livros e que, umas vezes melhor outras pior, sustenta a sociedade em que vivemos. Sigo, nestas matérias, o pragmatismo filosófico norte-americano. Alguém imagina aquelas "comunidades", uma vez presumivelmente "libertas", metidas numa outra narrativa "ordeira e estabilizada", mais ou menos parecida com a nossa, valendo a nossa o que vale? Tenho dúvidas mas isso faz parte da minha costela pragmatista, sempre disposta a que apareçam hipóteses melhores do que as minhas. Até lá, de facto, persisto pessimista e bem menos "socially hopeful" do que um pragmatista "forte" e social-democrata.

A "MASSA" E A ORDEM


Pedro Lomba, no Público, "responde" a Vasco Pulido Valente. Escreve o Pedro: «Podemos estar a assistir à fragmentação do mundo árabe e ao começo de uma guerra civil prolongada. Mas também pode ser que estas comunidades agora em colapso encontrem um tipo de ordem e convivência que não seja a mais admirável para a fé democrática mas que seja isso mesmo: um princípio de ordem e estabilização.» Com a devida vénia, "ordem e estabilização" é o que aquelas comunidades mais têm tido nas últimas décadas. Seja sob a forma de repúblicas autoritárias militaristas, seja através de monarquias plutocráticas, seja mediante "revoluções" contínuas como a de Kadhafi. Até agora ninguém percebeu que tipo de "convívio" pretende a rua, tão comovidamente aplaudida pelo "ocidente" da internet e dos lcd's. Decerto nunca a chamada conversa democrática que se aprende nos livros e que, umas vezes melhor outras pior, sustenta a sociedade em que vivemos. Sigo, nestas matérias, o pragmatismo filosófico norte-americano. Alguém imagina aquelas "comunidades", uma vez presumivelmente "libertas", metidas numa outra narrativa "ordeira e estabilizada", mais ou menos parecida com a nossa, valendo a nossa o que vale? Tenho dúvidas mas isso faz parte da minha costela pragmatista, sempre disposta a que apareçam hipóteses melhores do que as minhas. Até lá, de facto, persisto pessimista e bem menos "socially hopeful" do que um pragmatista "forte" e social-democrata.

O BEDUÍNO SEDENTÁRIO


Afinal o beduíno aprendeu alguma coisa com os seus amigos da periferia europeia. Também é do género "fico" e "não viro a cara" - um verdadeiro "guia", em suma. Devem-lhe ter traduzido o Filipe Nunes Vicente.

O BEDUÍNO SEDENTÁRIO


Afinal o beduíno aprendeu alguma coisa com os seus amigos da periferia europeia. Também é do género "fico" e "não viro a cara" - um verdadeiro "guia", em suma. Devem-lhe ter traduzido o Filipe Nunes Vicente.

MAIS PARVOS

Aqui.

MAIS PARVOS

Aqui.

O MITO DA RUA


Prepara-se para 12 de Março uma "manifestação" - aliás, duas em uma - com "pólos" em muitas cidades do país, continente e ilhas. A "ideia" partiu do facebook (podia lá ser de outro lado) e pretende juntar os indignados da "geração parva" com os permanentemente parvos indignados que imaginam poder juntar um milhão de criaturas "contra a classe política". Ver demasiada televisão dá nisto. Não juntarão, com alguma sorte, mais de cem pessoas. Em Portugal, há muito que as manifestações se assemelham a corsos carnavalescos sem o menor efeito prático. Houve a Alameda em 1975 mas isso tinha um propósito político devidamente orientado em torno de uma figura partidária que, a partir daí, emergiu como nacional: Mário Soares. E tinha, de Soares para a direita, praticamente toda a gente. A do primeiro 1º de Maio foi, por assim dizer, a única expontânea e eminentemente jubilatória. Por aqui vigora o princípio da maioria silenciosa. É ela que, no quentinho das urnas, dita os destinos da pastorícia. Vera Lagoa desfilou vezes sem conta, na Avenida da Liberdade, contra Eanes e os militares do Conselho da Revolução. Mas foi o quentinho parlamentar de 1982/83 que acabou com o segundo e retirou poderes ao primeiro. Não foi a rua. O mesmo se diga acerca das "conquistas de Abril" (nacionalizações et al) ou da abertura de sectores nunca dantes navegados à "iniciativa" dita privada. E por aí fora. O fenómeno do Entroncamento em curso no Médio-Oriente não é transponível para Portugal. Nem as "massas" lusas experimentaram alguma vez a penúria e o lamber literal do pó da vida dessas populações, nem tão pouco a nossa "cultura" tipicamente pequeno burguesa é arregimentável para derrubar o que quer que seja. Aqui o que se pretende sempre é não perder. Até num local tão improvável como a Arrentela. Lá berra-se para ganhar qualquer coisa nem que seja a morte, algo perfeitamente estranho a parvos e a candidatos a parvos domésticos. Tenham, pois, juízo.