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23.2.16

Ao lado de Carrilho

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Tenho evitado escrever sobre coisas que não me dizem respeito. Ou melhor, sobre coisas que não me dizem respeito mas que envolvem uma pessoa que respeito. Enquanto Manuel Maria Carrilho desempenhou funções governamentais, entre 1995 e 2000, acompanhei de longe a sua actividade. Nessa altura ainda era do PSD e desagradava-me profundamente a forma altiva como o ministro, em intervenções públicas, criticava o então presidente do partido, Marcelo Rebelo de Sousa. Todavia percebi que a "aliança" subtil entre dois homens cultos e perspicazes (Carrilho e Sousa Franco nas finanças) estava a mudar a relação da cultura "institucionalizada", através de um ministério e dos seus equipamentos, com a sociedade e vice-versa. Carrilho sabia mais dos orçamentos desses equipamentos e da sua gestão do que a maior parte dos seus directores-gerais. Dei bem por isso quando, menos de dois anos após a sua demissão, fui para a direcção do São Carlos. Passei, pois, a ler Carrilho retrospectivamente e a escutá-lo com outra atenção. Apoiei-o na malograda candidatura à Câmara de Lisboa de 2005. Depois disso, já Carrilho era vice-presidente da bancada do PS no parlamento, ficámos amigos. Não é no entanto por essa circunstância, a da amizade, mas apesar dela que o acompanho nestas suas considerações. Manuel Maria Carrilho é um homem frontal, claro, bem preparado, defensor do interesse público, conhecedor, pela sua formação, das implicações sociais, culturais e mediáticas do Direito, sem tribos nem donos. Ora isso num país em que a deliquescência, o lambe-botismo, a moleza, o comadrio cúmplice e a estupidez "por simpatia" forjam as regras de jogo, torna-o insuportável para os "costumes" e respectivos beatos e beatas. Carrilho foi sempre um dos alvos preferidos dessa má-fé em parte por ser como é. Sou brutal com os meus amigos, sobretudo os mais íntimos, o que me tem valido uma larga debandada de interlocutores que só apreciam festas, favores e pancadinhas nas costas. Nessa brutalidade incluo o cuidado em não os deixar cair quando acredito firmemente neles. O meu lado é, como deve ser, ao lado de Carrilho.

19.12.15

E os nomeados são


 


Quando entrou em funções o governo de Passos Coelho alguém achou por bem, em nome da "transparência", colocar no portal do Executivo as nomeações para os respectivos gabinetes. Entre o Verão de 2011 e até há umas escassas semanas assim foi em nome desse ditoso escrúpulo. O que valeu, desde respeitáveis órgãos de comunicação social até às chamadas redes sociais, uma atenção permanente às pessoas em causa. Sobretudo valeu a alguns dos nomeados uma exposição inusitada na qual toda a gente parecia "mais igual" do que o comum dos cidadãos. Estava tudo: nome, idade, cargo no gabinete e vencimento bruto. Como não se podia andar a explicitar caso a caso, houve "casos" em que os ditos eram sovados volta não volta. Eu próprio, dias depois de ter ido para a Gomes Teixeira, andei na capa de um jornal, em blogues e nas redes profusamente "apontado" por causa de uma imagem com uma alforreca. E por ter escrito "horrores" a propósito do homem com que fui trabalhar. Em ambos os casos só serviu para reforçar a confiança mútua e lealdades políticas, e até pessoais, indisputáveis. Fosse porque "ganhavam" muito, fosse porque eram muito novos ou não sabiam nada a não ser na "escola" do partido, os membros dos gabinetes dos governos da coligação estiveram sempre sob a mira dos patrulheiros. Raramente houve o cuidado de separar o trigo do joio, ou seja, quem já tinha uma carreira (na administração pública ou no sector privado) de quem, por assim dizer, era "profissional de gabinete" sem nunca ter feito nada de substantivo na vida. Sabiamente o PS acabou, para já, com isso. Ignoramos, até aparecer no Diário da República, quem é quem nos gabinetes ministeriais. Todavia nota-se uma preocupação "escrupulosa" com a comunicação naquela muito batida adaptação democrática do "em política o que parece é", uma coisa em que actual "primeiro" é especialista. Algo, pelo contrário, que não se sente nos "meios" que tanto apreciavam policiar os dois governos anteriores mais em ardente e alucinada coscuvilhice do que por dever estritamente deontológico. Agora não interessa?

15.12.15

O lugar do morto


 


António Costa "fundou" um novo PS. Não se sabe quanto tempo durará mas, para já, é o que há. Ao fazê-lo, e pela forma como o fez, indirectamente acabou com quaisquer vestígios de supremacias alheias sobre a sua pessoa. A brutalidade que aplicou a Seguro serviu-lhe, de caminho, para "dessocratizar" o partido. Integrou como seus os que achou que devia integrar e afastou tentações mitómanas. Por consequência, ele que nunca falou em ter "perdido as eleições" certamente não deve ter apreciado ouvir de outro notório que as perdeu. Mais. Ou que havia uma relação causa-efeito entre esse outro e a dita derrota como alegadamente "pretendia" uma instituição judiciária. Para uns propósitos a instituição judiciária vencera (a derrota do PS), para outros perdera ("o triunfo da vontade" do visado). Este oxímoro desenlaça-se com a acusação a um PS "frouxo" e timorato em solidariedade como se os partidos fossem obras de misericórdia jurídico-política. Mal ou bem Costa é hoje primeiro-ministro. Representa uma instância nacional e não apenas partidária. Não só não deve estar interessado em desenterrar o passado como lhe colocou uma pesada laje em cima. Não se trata do "se queres viver faz-te de morto" mas, antes, "se queres viver ignora o morto". E Costa não é homem para ceder o lugar, mesmo o do morto, a ninguém.

9.5.15

A razão de Paulo Dentinho*


«Os comentadores que são ao mesmo tempo políticos no “activo” ou esperam voltar à política “activa” dentro de pouco tempo estão hoje em larga maioria na televisão e na imprensa. Já lamentei aqui essa promiscuidade. Mas não deixa de ser bom lembrar alguns factos. Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Santos Silva, Manuela Ferreira Leite, António Lobo Xavier, Jorge Coelho, Francisco Louçã e Francisco de Assis pontificam semanalmente na SIC e na TVI. Nos jornais, tirando o Expresso e o Sol, escrevem Mário Soares, Marques Mendes, Luís Amado e meia dúzia mais. Isto para não falar de entrevistas (que não se pagam) ou debates (que também não se pagam), mas que permitem a certas cabeças da “classe dirigente” uma exposição contínua ao público eleitor. O problema que isto levanta é compreensível: por que valor tomar os comentadores que se comentam a si próprios, comentam os seus presuntivos sócios no partido e têm um interesse pessoal na generalidade das questões que discutem? Não há maneira de julgar o peso e a consequência do que eles dizem e menos do que eles, sem dizer, insinuam. Só que, para lá disso, a presença dos políticos no jornalismo cria uma familiaridade e uma cumplicidade que prejudicam, quando não falsificam, a verdadeira opinião. Quem trabalha no mesmo sítio ou na mesma empresa, se encontra regularmente nos corredores, fala do que se vai passando no país, conta casos da sua vida privada ou partilha o último boato, acaba, pouco a pouco, por revelar o que não deve ou quando não deve. O SMS de António Costa a um jornalista do Expresso mostra muito bem a enorme trapalhada em que se caiu. O jornalista escreveu sobre Costa uma coisa qualquer de que Costa não gostou. Fim de história? Não. Em vez de ficar calado (o secretário-geral do PS não “responde” a jornais), Costa resolveu mandar um SMS ao jornalista em que o tratava mal e o jornalista mandou um SMS “atencioso” a Costa e publicou imediatamente toda esta pouco saborosa troca de mimos. Grande escândalo. Mas ninguém perguntou a evidência: como tinha Costa o número do jornalista? Conhecia o homem de algum lado? Por que razão aquela crítica irritou especialmente o nosso putativo salvador? No submundo em que os dois circulam, existe com certeza uma explicação para o caso. Para nós, não.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


*director de informação da RTP que acabou com o "comentário político por político" no canal público generalista, uma medida que devia estender-se aos de "informação" ou  "notícias" que mais parecem jogos amigáveis ou prolongamentos dos pseudo debates da Assembleia da República

6.5.15

António Costa e os índios do Paraguai


 


(...) O que se passou é um mero reflexo do que tem dado a crescente promiscuidade entre a acção política e a acção comunicacional. O "namoro" corre razoavelmente até ao momento em que o jornalista não diz, ou não diz bem, aquilo que o político estava habituado a ler e a ouvir ou, no limite, aquilo que queria ler e ouvir. E aí o político tende a reagir com um excesso "que pouco tem a ver com o que aconteceu mas com a forma como vem relatado" (socorro-me de José Pacheco Pereira em "O nome e a coisa", de 1997). Para não irmos mais longe, basta recordar os barulhos entre a Casa Civil do actual presidente da República e Mário Crespo, entre uma mão cheia de jornalistas e Sócrates, entre o "Público" e Relvas ou entre António Costa, na vertente presidente de Câmara, com o mesmo "Público". Costa, porém, não é um cidadão comum quando lê um jornal, escuta a rádio, vê televisão ou navega nas "redes sociais". Por isso as suas reacções no campo das liberdades públicas, onde se inclui a de expressão e a de informar, interessam-me enquanto eventual chefe futuro de um governo democrático. Ou, como perguntava António José Saraiva, "acaso estamos destinados a ser eternamente meninos, como os índios do Paraguai, sabiamente tutelados pelos virtuosos padres jesuítas nas aldeias comunitárias do século XVII"? Talvez Costa ache que sim. E que, numa má declinação da Mertreuil de Laclos, é a sua própria obra.


 


Jornal de Notícias


 

29.4.15

Teatro de marionetas


 


Não vale a pena increpar a figura que a generalidade dos órgãos de comunicação social fez, de cócoras, diante da apresentação da mais recente (e talvez única) marioneta política concorrente às eleições presidenciais. Até o meu cão consegue ter mais respeito por si próprio. Mas o exercício encomendado teve ao menos a virtualidade de demonstrar duas ou três coisas. Desde logo que o dito concorrente é tão "independente" como uma formiga no carreiro. Os "donos" do regime e as oligarquias que mandaram "nisto tudo" até recentemente não  faltaram, desde o jazigo de família do pior PS até "vultos" como o Coronel Lourenço ou o dr. Granadeiro. Depois é manifesto que o concorrente se imagina a concorrer à chefia do Estado não em 2016 mas em 1916. Tudo ressumou a ranço salvo na "modernidade" no uso do "acordês". Por consequência, e apesar dos esforços abjectos de comentadores e jornalistas, o concorrente é um programa a preto-e-branco a quem nem sequer faltou o palco da salazarenta FNAT. Ao que a "esquerda" chegou.

9.4.15

Todos a reboque

 



 


Numa das oitenta reflexões sobre "o que lá vem", integrada no seu livro mais recente, Manuel Maria Carrilho cita Marcel Gauchet em 2014: «tem-se a impressão de que o que hoje existe é uma direita de imbecis face a uma esquerda de idiotas.» Podemos transferir esta "impressão" para Portugal hoje: um país atordoado, desvitalizado e rebocado. A fórmula é do próprio Carrilho e uma súmula feliz da infelicidade colectiva e instintual que denota. Vejamos alguns exemplos. Uma jornalista "senior", Maria João Avillez, lembrou-se de questionar as "aspirações" das "elites"  sobre o futuro próximo da pátria. E quem foi a "elite" escolhida? Salvo um imberbe com aspirações a escritor, Avillez foi ao mundo que ela conhece praticamente desde o 25 de Abril recolher opiniões. Estão no Observador e dispensam quaisquer comentários: é a mobília do regime excluídos os que entretanto caíram, por motivos mais ou menos claros, em desgraça e os que, por limitações "ideológicas" de quem concebeu a futilidade do exercício, não cabem. E o que quer a "elite"? Tudo menos chatices, naturalmente. Falam do "futuro" como se não pertencessem à "seiva" do passivo e do passado que corre nos interstícios do comadrio nacional em todos os sectores. Rebocam e desvitalizam e andam, como sempre desvitalizaram e andaram a reboque. Outra jornalista "senior", Constança Cunha e Sá, dissertou ontem sobre o folclore presidencial em curso que ilumina perfeitamente a frase de Gauchet: uma direita de imbecis e uma esquerda de idiotas. O pormenor é que ela as alimentou "puxando", talvez como lhe competia", pelo seu colega comentadeiro Marcelo Rebelo de Sousa esquecendo-se deliberadamente (ao insistir na interrogação que representa António Nóvoa) que, na verdade (o que será a verdade para estes Pilatos comunicacionais?), o "lateral" Henrique Neto, contrariamente ao pelotão de proto-candidatos a candidatos em circulação, não precisa clonar pensamentos alheios ou surgir a correr com "ideias" e cravos na lapela. Basta lê-lo com alguma honestidade intelectual. Comentadores atordoados, desvitalizados e rebocados. Na esquerda de idiotas, para não ir mais longe, já pensei brevemente nela ontem porque conta. Não se deve perder tempo com vaidades individuais ou grupusculares anunciadas fruto, aliás, das perdições socialistas e das dissoluções esquerdistas: todos atordoados, desvitalizados e à espera que os reboquem para lugares no parlamento ou, mesmo, num governo. Finalmente a direita de imbecis que permite coisas como este vaguíssimo "instituto do território", aparentemente uma plataforma interesseira que se quer oficiosa e que "gira" em torno do amável Rogério Gomes que conheci na Católica. O qual, da derradeira vez que o vi, era tratado reverentemente por "senhor professor doutor" por um membro do governo. Aparentemente o PSD, a parte dele que "estuda" no respectivo "gabinete", é rebocado por este homem. Depois não se queixem. Todos, os comentadeiros, as esquerdas e as direitas. Como escreveu Foucault, citado igualmente por Carrilho a propósito do grotesco em política, este surge quando "a maximização dos efeitos de poder acontece a partir da desqualificação de quem os produz". Mesmo, ou sobretudo, atordoados, desvitalizados e a reboque.

7.3.15

Espaços de manobra


 O primeiro caderno do Expresso é quase sempre "instrutivo" no que respeita às movimentações do "arco da governação". Quem quer "passar" qualquer coisa, põe-se a suspirar para cima de dois ou três jornalistas "políticos" da agremiação consoante a "especialidade" partidária. De vez em quando juntam-se num ou noutro artigo para "disfarçar" mas, umas páginas adiante, lá emerge cada um na respectiva "quinta": Belém, São Bento, PSD, CDS e PS. O "caso Passos Coelho" é, a este propósito, elucidativo. Mais do que os "factos" tem sido o contínuo desgaste (e desastre) comunicacional a que o próprio se tem sujeitado o cerne do problema político despoletado pelos ditos "factos". E que aproveita a alguém. Claro que às oposições que competem pela 25ª pergunta. Mas também ao CDS com quem se discute uma coligação que Passos não quer manifestamente facilitar. Os pormenores - e o Maligno, consta,  está neles - de alguns relatos jornalísticos não deixam grandes margens para duvidar que o pequeno parceiro coligatório está a servir-se deste imbróglio para "alargar" o  seu espaço de manobra negocial dentro da maioria. Basta ler com atenção as três páginas do referido caderno dedicadas ao presidente do PSD em que alguns "companheiros" igualmente não se privam de murmurar. Passos esteve e sai-se mal deste caso. Todavia não se deve negligenciar quem, ali por perto, anda a dar uma mãozinha para o puxar ainda mais para baixo e poder, a seguir e na altura adequada, falar um poucochinho mais alto por dentro.


 


Adenda: É ali citado um mail do assessor político do PM dirigido aos comentadores "próximos" do PSD que frequentam as televisões no sentido de "certificarem" que nada é devido ou está irregular. Até parece mal. A "instrução" seria mais facilmente substituível por uma certidão pedida pelo contribuinte em causa a quem de direito. Os comentadores, por si só, não "certificam" nada.

6.3.15

Esta elite consensual


 


«Em tempos recuados, há mais de meio século, quando floresceu uma análise semiológica da cultura de massas, Roland Barthes analisou numa das suas “mitologias” aquilo a que chamou “La Critique Ni-Ni”. Tratava-se, aí, de um tipo de crítica literária, mas a categoria “Nem-Nem”, a “mecânica da dupla exclusão” que Barthes dizia ser um traço pequeno-burguês (era esta a linguagem da época), sobrevive hoje com muita vitalidade na opinião e no comentário da classe político-mediática das várias proveniências (...). A encenação de debate cria a aparência de que uns e outros pensam de maneira diferente, mas toda a diferença se anula na mesmidade que brota da linguagem comum do “Nem-Nem”. Como se todos eles, festivos como os saltimbancos e nómadas como os cibernautas, se preparassem diante de um espelho deformador, antes de debitar opinião e analisar a temperatura exterior do ambiente: “Diz-me, espelho meu! Estou em forma? Estou conforme?”. A conformidade é a chave que tudo abre e o critério primeiro para definir a elite consensual que se moldou pela fórmula do “Nem-Nem” (...). Esta elite consensual que segrega uma doxa a que poderíamos chamar o tecno-populismo (dando assim a ver um paradoxo: são os habituais denunciadores do populismo que representam o populismo mais saliente do nosso tempo) compreende também uma parte considerável dos profissionais do comentário político, jornalistas e analistas das várias especialidades da tripla aliança política, económica e mediática. Empossados como fabricantes de opinião para consumo da população genérica, quanto mais “Nem-Nem” são, mais hipóteses têm de ser aclamados como objectivos e responsáveis (...). Esta elite consensual, resultante de um agregado onde se instalou a maquinaria infernal de produção do “homem médio” ou homo mediocris, reivindica-se como uma maioria moral, na medida em que exerce uma hegemonia da opinião. E a opinião, no sentido de doxa, de senso comum, é sempre vontade de maioria e de conformidade. Daí, a regra mais importante da elite consensual: nunca oferecer qualquer resistência ao presente.»


 


António Guerreiro, Público

26.10.14

O lado bom

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Quando António Costa sair da Quadratura do Círculo, o respectivo "parque jurássico"  passará a integrar um ex-membro da tribo, o honorável dr. Jorge Coelho. Tenho grande estima pessoal por Jorge Coelho desde os tempos em que o conheci ministro da administração interna. Mas o seu regresso à televisão é a própria "imagem" da "quadratura do círculo". A de um regime que, a nível comunicacional, está blindado em torno de meia dúzia de opinadores, uns mais "independentes" do que outros, a que se vão juntando "novas vozes" que já nasceram no regime e que, em alguns casos, são mesmo avós, pais e netos dele. Aliás, a recomposição das colaborações em alguma imprensa escrita é apenas mais uma manifestação desta mesmice auto-complacente do que propriamente uma "renovação". O lado bom destes fandangos improváveis é que se lê mais livros.

Reprise

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O primeiro-ministro fez do encerramento das jornadas parlamentares da maioria um ponto de partida. Já se sabia que estava em campanha mas, no sábado, deixou a coisa bem clara quando, por outras palavras, chamou estúpidos aos jornalistas e aos comentadores que não conseguem enxergar o bem que ele representa para a pátria. Passou-lhes um atestado de "Maria vai com as outras", isto é, a "redacção única" - mesmo muita da de economia e finanças - é "preguiçosa" e "patética" quando não lê pelas mesmas lentes o Excel extraordinário e salvífico que diariamente o dr. Passos apresenta aos pobres de espírito que pastoreia e que, afinal, não o merecem. Se o dr. Costa representa para muitos incautos o Natal, o dr. Passos é o Crucificado e a "vociferante matilha do espectáculo" o seu Golgotá. Quando o dr. Passos apareceu no 1º semestre de 2011 para ficar, aplaudi-lhe, por contraste com o caudilho socialista, a aparente normalidade. A sua vitória desanuviou um ambiente político envenenado pelo ensimesmamento auto-suficiente do anterior chefe do governo. Sucede que o dr. Passos foi-se convencendo - e alguns imbecis encartados ou descartados ajudaram-no nesse convencimento - da sua infalibilidade, à semelhança do antecessor, transformando-se politicamente num papagaio evangélico. Talvez por isso aprecie comparar-se, a seu crédito, com alguns "profissionais" da cacofonia, muitos dos quais, aliás, tal como haviam feito com Sócrates, tão depressa o incensaram quanto o execram agora. A histeria de ontem não augura nada de bom. É uma reprise. E das más.

15.10.14

Da acção comunicacional

Transcrevo aqui, há anos, crónicas e excertos de crónicas de Manuel Maria Carrilho de quem, aliás, sou amigo. Mas já o lia e citava antes de nos tornarmos amigos não vá o filistinismo sempre de serviço ficar incomodado. Nos últimos tempos, Carrilho escrevia no Diário de Notícias mas, segundo afirmou o director do jornal a uma revista, vai deixar de escrever. “Não é o único que deixa de escrever para nós. Ao todo, são cinco, incluindo Celeste Cardona e Baptista Bastos. Não há um motivo especifico, há um motivo geral: quando entra uma direcção nova, tenta-se refrescar a imagem”, declarou André Macedo. Vamos aguardar o resultado deste "refrescamento" em todo o seu esplendor: quem sai, quem fica e quem entra. Todavia faço votos que o Senhor Director poupe, nos dois últimos casos, os putativos leitores a meras redacções das antigas segunda e terceira classes ou a alguidares de baba.

14.9.14

Democracia liberal, democracia adversarial


 


Estou de acordo com  Eduardo Cintra Torres. Os mais de duzentos mil "simpatizantes" que se inscreveram para escolher o candidato do PS a 1º ministro são uma prova de vitalidade de uma democracia liberal, isto é, do confronto adversarial sem o qual essa democracia não passa de um pastelão ressequido. O que significa que Seguro teve razão em convocar as "primárias" quando Costa pretendia o poder "outorgado". O PS - ao contrário da ruminação dominante que teria preferido a saída de Seguro pela porta dos fundos, em Maio, e a entrada triunfal do seu Bonaparte da Praça do Município pela porta grande - sai reforçado deste processo como saiu de anteriores. Logo em 1974, na Aula Magna da UL, Manuel Serra desafiou Soares a "esquerdizar" o partido. O PS acabou "social-democratizado" e apto a vencer as duas primeiras eleições livres. Entre 1979 e 1981, o partido dividiu-se entre "soaristas" e o chamado "secretariado" que se revia em Zenha. Dois anos depois Soares ganhava as eleições de Abril de 1983 e formava o "bloco central" com Mota Pinto. Em 1985, a "esquerda" apresentou três candidatos a Belém, dois deles- Zenha e Soares - oriundos do PS "histórico". Soares passou à segunda volta, e a Presidente, com o apoio de Zenha e Pintasilgo que ficaram para trás. Em 1991, o "choque" da humilhação eleitoral por que passara Sampaio em Outubro contra Cavaco, levou ao embate feroz com Guterres. Entre 1992 e 1995, Guterres preparou-se para São Bento e Sampaio para Belém. A partir de 1996 e até 2001, o país político era todo "cor-da-rosa". Em 2004, depois da vitória singular de Ferro Rodrigues nas europeias a que se seguiu uma não menos singular demissão por causa de Sampaio, o PS apresenta, na oposição, três candidatos distintos a secretário-geral. Em Setembro "passa" Sócrates que em Março do ano seguinte é primeiro-ministro com maioria absoluta. Nas presidenciais de 2006, o PS tem dois candidatos e o "dissidente" Alegre, que nunca abandonou o partido, supera brutalmente o "oficial" Soares. Com a derrota de Sócrates, apenas Seguro se dispôs a reunir os cacos. De lá para cá, ganhou à coligação as duas únicas eleições que entretanto ocorreram. E, fique ou saia depois das "primárias" e do congresso, o PS dificilmente não será responsável pela liderança do processo político depois das próximas legislativas. O governo é já só um cadáver que ainda não entrou em funções mas que se esforça, com método e perseverança diários, por entrar o mais rapidamente possível. Como escreve o Eduardo, «os debates abriram um precedente que espero se torne habitual. É muito melhor para os portugueses, e em especial para os que elegerem o candidato do PS a chefe de governo no dia 28, conhecer melhor os candidatos e o que nos puderem e quiserem dizer, por pouco que digam. Os debates elucidaram mais sobre o carácter do que sobre políticas? Sim, mas, a meu ver, o carácter de um eventual primeiro-ministro é tão importante como as políticas. O caso Sócrates deveria ter vacinado todos os comentadores sobre este assunto. Fernando Pessoa escreveu em 1919 que "o voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento. "Os debates, mesmo sem ideias, permitem avaliar o carácter para além do blá-blá. Assim, percebe-se a táctica de Seguro a que Costa chamou "ataques pessoais". Seguro quis transmitir uma versão do seu carácter e uma versão do carácter de Costa. Costa saiu-se mal, a meu ver, nesta questão, porque tinha de facto mais a perder na avaliação pública do seu percurso político e porque numa luta homem a homem, como esta é, o que Seguro fez foram ataques políticos em ligação com o homem seu adversário. Não se pode separar totalmente o político do homem quando se enfrenta um homem político. Por isso, Costa não queria debates. Discordo doutro argumento da maioria comentatória, o de que Costa é o "challenger", quem desafia o líder instalado. Tecnicamente, é. Mas Seguro é o verdadeiro "challenger", pois diz que Costa representa o "projecto de interesses" (os Sócrates, Almeida Santos e outros instalados no sistema). Na prestação mediática, Costa está na TV como em casa, ou não fosse ele um "quadraturo" há anos; não tem nem faz propostas por ser uma variante do sistema, bastando-lhe comentar, com inegável desenvoltura; em Seguro apresenta-se como o acossado pelo sistema, incluindo o mediático. Vendo os debates neste prisma, é Seguro o desafiador — do sistema.»

9.9.14

Uma desilusão, segunda parte

Opinião inteiramente de borla, salvo quanto à Net (paga por mim), não assalariada ou avençada junto de quaisquer meios de comunicação social e cultural: o primeiro debate entre o secretário-geral do PS e o "alto comissário dos referidos meios para o PS" correu bem ao secretário-geral do PS e menos bem para o "alto comissário" e para os ditos meios. É a vida, como diria o proto candidato de ambos a Belém.

4.9.14

A voz do ungido


 


Não sei por que carga de água recebi um mail da campanha do dr. Costa. Um conhecido meu também e supõe que é por estar inscrito num site de busca de empregos. Seria interessante saber quantos mailings a campanha do dr. Costa - para o PS, sublinhe-se, com o qual nem eu nem esse meu conhecido temos quaisquer relações - comprou ou quem os cedeu para aquela específica utilização. Para mim, como se deve notar, o dr. Costa é "spam" e vai directamente para o "lixo". Para outros, como alguns e algumas jornalistas, é a "voz do ungido" que nos chega milagrosamente seja por que via for. Foi o caso, ontem à noite, da exibição politicamente pornográfica de uma jornalista-comentadora num canal de notícias. Melhor do que qualquer um ou uma dos seus inábeis porta-vozes, a jornalista-comentadora "defendeu" o seu há muito "ungido" com um argumentário "notável" do ponto de vista democrático. Em resumo: Costa tem o apoio de toda a gente que conta (ela própria deve estar incuída neste saco de gatos), dando o exemplo das vetustas luminárias Alegre, Sampaio, Santos e Jardim e de todos os antigos secretários gerais à excepção de Constâncio e Guterres; Seguro está, por consequência, "cercado" e não tinha nada de convocar "primárias"; mas já que as convocou, imagine-se o problema que criaria ao PS a sua vitória (sic). Lá concedeu que Costa ainda não foi muito "claro" sobre o que tenciona fazer se ganhar, depois, as legislativas mas isso não interessa nada. O que realmente "preocupa" a jornalista-comentadora é a hipótese - remota, claro, dado o referido "cerco" - de, ao arrepio do que está "previsto", o outro ganhar. Ou seja, as "primárias" só servem (e aí são "boas") se tiveram um único resultado, o "previsto" e desejado. Nunca pensei que esta jornalista-comentadora, em concreto, tivesse estagiado na Coreia do Norte. Vou sempre a tempo de aprender.

14.8.14

Os "videntes televisivos" e a democracia


 


Vistos por Manuel Maria Carrilho. «O espaço público português está minado por excentricidades que a Europa não tolera, mas a que Portugal parece resignado. Como se tivesse perdido sensibilidade em relação ao seu carácter democraticamente devastador. Porque é na informação e no comentário que se constroem e destroem os factos, os projectos e os protagonistas políticos, decisivos para a vitalidade e qualidade da nossa vida colectiva. O seu poder é portanto imenso, e a sua responsabilidade devia ser do mesmo gabarito - mas não é! (...) André Macedo acerta em cheio quando diz que "a cama do poder mudou-se para o quarto poder". Mas também podia ter lembrado Stuart Mill, que escreveu que a democracia é sempre um combate contra os "interesses sinistros" que desprezam o bem público. E que o combate continua.»

27.6.14

As escadas de Costa


 


Não entendo por que é que António José Seguro insiste em trazer António Costa a debates. Não porque a coisa, os debates, não fossem eventualmente mais interessantes que uns empurrões, uns mails ou o fatal César. Não. Costa recusa-se a debates uma vez que o seu lance napoleónico-cartesiano assenta precisamente numa espécie de "tomada de assalto", sem direito a contraditório, com base no primado da primeira pessoa. Apesar de encher a boca de "ética republicana", Costa não passa prudentemente daí, de encher a boca. Por outro lado, com os media generalistas e não generalistas e os comentadores por natureza generalistas ao seu serviço, ao edil lisboeta basta-lhe aparecer no seu "espaço" de comentário televisivo semanal. E, mesmo aí, pode estar calado porque os outros dois debitam por ele. Se levasse a "ética republicana" a sério, Costa aceitava os debates e suspendia a sua participação na sicn. Mas, como dizia a outra, quem tem ética passa fome. Pelos vistos as escadas, para Costa, não têm degraus.

15.6.14

Foi você que pediu jornais, revistas e uma estação de rádio?

«Aquele império com pés de barro [a Controlinveste] ruiu com a crise, mas os bancos injectaram lá milhões para manter o controle. A solução encontrada é política: a escolha para presidente da empresa de Proença de Carvalho — homem para todos os regimes do poder e do dinheiro (e advogado de Sócrates) —, e a escolha dum protegido do BES, familiar de Cavaco mas de facto com ligação ao PS socratista (como o revelaram as escutas da Face Oculta no CM) apontam para a mesma triste aliança obscura entre media e dinheiro e política dos poderosos. Agora despediram bons profissionais independentes ou de áreas políticas desafectas aos novos donos. Socratinistas e costistas ficaram lá todos. O mesmo em Espanha: os bancos, em conúbio com o governo Rajoy, tomam conta dos principais media. Sinal do século XXI: com a Internet e a fragmentação dos media, o poder mediático disseminou-se de tal forma que os poderes fácticos de sempre — o dinheiro e seus agentes políticos — precisaram de voltar em força ao controle férreo dos media e encontraram em alguns jornalistas bem pagos agentes sabujos para o exercer. Os poderosos servir-se-ão dos seus media, mas, mesmo que os cidadãos não os leiam, eles farão contas para ver se os negócios que ganharam pela porta do cavalo compensam os prejuízos com os seus media e as notícias ou "notícias" neles plantadas. Entretanto, como qualquer industrial do capitalismo selvagem, destroçam vidas, fazem concorrência desleal aos media honestos e enganam o povo.»


 


Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã

8.6.14

"Passe-o na televisão", já dizia Salazar


 







 


«Como Seguro, Costa fez carreira no PS: não há outra maneira. É também um profissional da política e, portanto, não pode estar longe do aparelho. Mas o partido não lhe chega. Como Sócrates, de quem foi indefectível, às maçadas do aparelho prefere outro meio de chegar ao poder: os media. Tem uma relação ambivalente com o jornalismo: despreza-o, mas bezunta-o de graxa, tende a tentar controlá-lo (como Sócrates), enquanto jura pela liberdade de informação. Enquanto para Seguro o poder se alcança pelo trabalho da formiga, para Costa conquista-se pelo canto da cigarra. Enquanto Seguro não dá nada por adquirido e age timoratamente para que o país lhe entregue o poder, Costa, na esteira de Soares, acha-se um predestinado a quem o país deve o poder: acorda uma terça-feira, depois das Europeias, e anuncia que o PS e o governo são para ele. É um Messias de promessas vagas (um ‘governo forte’), um "Napoleão para as Esquerdas", na expressão de João Gonçalves no blogue Portugal dos Pequeninos. Napoleão não quis receber a coroa de imperador das mãos do papa e colocou-a ele mesmo na sua cabeça. Para Seguro, é uma injustiça que lhe tirem o partido que conquistou; para Costa, é uma injustiça que não lhe dêem o poder para que se acha talhado. Enfrentam-se agora o percurso de aparelho, de Seguro, e o percurso mediático-messiânico, de Costa. O primeiro leva a melhor no partido, o segundo leva a melhor nos media — os jornalistas também sofrem do atávico e reaccionário desejo de Chefe — e, por causa dos media, também nas sondagens. No combate dos próximos meses, Seguro gritará "o meu reino por um canal de TV" e Costa berrará "o meu reino por umas federações do PS"


 


Eduardo Cintra Torres,  CM

2.6.14

As bruxas barbudas de Costa


 


Como Eduardo Cintra Torres escreveu apropriadamente no Correio da Manhã, Seguro sofre do "pecado original" de não ter um programa de televisão. Nem tão pouco de dispor de uma "tribuna", ou duas ou três, em jornais onde terceiros debitem artigos bonitinhos que ele pudesse rever e a que apenas emprestasse o seu rosto e assinatura. Depois, sendo do "sistema PS", Seguro nunca foi propriamente do "sistema geral" ou, pelo menos, aceite dentro dele. Basta atentar no que a vociferante matilha do espectáculo (para usar a sempre feliz expressão de Sloterdijk) anda a dizer e a escrever há uma semana. Costa praticamente não precisa abrir a boca  (essa é uma das razões "mitológicas" do seu sucesso) porque é precedido de uma auréola comunicacional e classista alimentada por fontes distintas do "sistema" e do "meio" que, como se costuma dizer, o viu nascer: ele é um dos "nossos", murmura a matilha conspícua. Parece Macbeth diante das bruxas barbudas quando estas lhe vaticinaram um destino "real". Oxalá não acabe como ele.