2.6.14

As bruxas barbudas de Costa


 


Como Eduardo Cintra Torres escreveu apropriadamente no Correio da Manhã, Seguro sofre do "pecado original" de não ter um programa de televisão. Nem tão pouco de dispor de uma "tribuna", ou duas ou três, em jornais onde terceiros debitem artigos bonitinhos que ele pudesse rever e a que apenas emprestasse o seu rosto e assinatura. Depois, sendo do "sistema PS", Seguro nunca foi propriamente do "sistema geral" ou, pelo menos, aceite dentro dele. Basta atentar no que a vociferante matilha do espectáculo (para usar a sempre feliz expressão de Sloterdijk) anda a dizer e a escrever há uma semana. Costa praticamente não precisa abrir a boca  (essa é uma das razões "mitológicas" do seu sucesso) porque é precedido de uma auréola comunicacional e classista alimentada por fontes distintas do "sistema" e do "meio" que, como se costuma dizer, o viu nascer: ele é um dos "nossos", murmura a matilha conspícua. Parece Macbeth diante das bruxas barbudas quando estas lhe vaticinaram um destino "real". Oxalá não acabe como ele.

1.6.14

O relógio a fazer de conta


 


Estas declarações do 1º vice presidente do PSD demonstram, afinal, que não houve nenhum "1640" ou qualquer "libertação" a 17 de Maio. Apesar do foguetório lançado na altura sobretudo pelos representantes do pequeno (depois do último domingo, pequenino) partido da coligação, Marco António Costa, a pretexto das recentes decisões do Tribunal Constitucional, falou em 16 de Junho para criticar o "timing" do acórdão. Porquê? Porque o 17 de Maio nunca existiu a não ser no "relógio do Caldas". Isto é, o FMI ainda não "fechou" a derradeira avaliação do "programa de ajustamento". Mais depressa se apanha um relojoeiro falso do que um coxo.

Os barulhos propriamente ditos


 


«O que estas parlapatices da hipocrisia, do oportunismo e da má-fé podem interessar ao cidadão comum é coisa que não interessa aos “notáveis” que a televisão convida ou escrevem doutoralmente para um jornal qualquer. Nunca a “classe partidária” mostrou com maior clareza a sua vacuidade e o seu egoísmo. Trata sempre a situação do país como se tratasse do futuro de uma fábrica de sapatos: será que a baixa das vendas é irreversível ou temporária? Será que a concorrência vai aproveitar a oportunidade? Será que os lucros não são suficientes para investir e alargar o mercado? Não seria bom “lançar” um novo modelo, para aproveitar a moda? E não seria bom mudar de director?».


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


«Foram os próprios socialistas que depressa transformaram a "grande vitória" do PS num desastre. Ao longo dos dias seguintes, vultos maiores e menores do partido decidiram aliviar-se de reparos ao resultado das eleições, afinal uma miséria que não deveria passar sem reparo, leia-se a troca do Dr. Seguro pelo Dr. Costa. Em suma, o Dr. Costa, o Dr. Soares, o Dr. Lacão, o Dr. Ferro e luminárias afins, excitadíssimos a exigir sangue e um congresso extraordinário, é que estão ao serviço do Governo. Os indignados que falem com eles (...). Agora a sério, se possível: o PS acharia que a participação de José Sócrates na campanha beneficiaria o partido? O PS acharia que José Sócrates é uma lembrança feliz para a maioria dos cidadãos? O PS acharia que as pessoas são assim amnésicas ou, desculpem lá o termo, estúpidas? (...) Pela terceira ou quarta vez numa luminosa carreira, António Costa mostrou-se disponível para se disponibilizar para a liderança do PS e depor "Tozé" Seguro. O Dr. Costa é um mistério. Excepto por uma facção do seu partido e outra facção dos media (quando são distinguíveis entre si), que vêem nele o evidente destino da nação, não se consegue detectar-lhe uma única virtude pública. Sem grande originalidade, o homem é a típica figura do "aparelho", que sem a sombra de uma ideia saltita de cargo em cargo ao sabor das oportunidades e pelo caminho alimenta uma ambição que, a páginas tantas, chega a parecer-lhe fundamentada. Está no seu direito? Com certeza. Se há tendência a marcar o regime, é a capacidade de transformarmos irrelevâncias em potenciais estadistas. Como se tem notado, o regime não é tão eficaz na transformação de irrelevâncias em estadistas de facto.»


 


Alberto Gonçalves, DN

31.5.14

Coisas que os barulhos escondem

«O défice resiste a doses inconcebíveis de impostos, os “cortes” continuam, a dívida aumenta (e continuará a aumentar), a exportação (que devia ser a cura miraculosa para a incúria indígena) abrandou e “as reformas”, as verdadeiras, foram por aí esquecidas numa gaveta. Mas nada disto impediu o Governo de comunicar à populaça – com uma certa reserva, é certo – que a “recuperação” estava a caminho. O PSD e o CDS têm agora de pagar dia-a-dia as suas mentiras. À medida que os portugueses perceberam que as coisas ficaram exactamente na mesma e que o “tratado orçamental” substituiu a troika, com toda a eficiência, até os 27,7% de 25 de Maio tenderão a descer ou, no caso do CDS, a desaparecer. Para Pedro Passos Coelho, o problema é, como sempre, um problema de “comunicação”. Julga ele que se os ministros tirarem tempo para “atender mais telefonemas” e se os deputados falarem com “mais pessoas”, a retalho ou por grosso, o PSD e o CDS são capazes de “pescar à linha” o milhão e tal de votos que perderam. Isto é, evidentemente uma ilimitada loucura, digna de um governo insensato e falhado. Passos Coelho e Paulo Portas deviam pensar mais numa despedida elegante e numa reforma cómoda do que em truques patéticos para salvarem uma caranguejola que se desfaz. Mas não pensam e o próximo ano acabará por ser o pior desde 2011, com o Governo a saltar como uma galinha sem cabeça e o Presidente a fingir que não vê sangue no galinheiro, enquanto a tarraxa “europeia” não pára de apertar.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 

Barulhos e outras coisas

No meio dos barulhos emitidos por gente de que andávamos esquecidos, democraticamente esquecidos, desde Junho de 2011, e das ameaças veladas aos suspeitos do costume (os trabalhadores do Estado por causa do T. Constitucional) por parte dos senhores PM e vice PM, apareceu uma coisa interessante. Enquanto o dr. Costa, os autores e os difusores dos referidos barulhos esperavam, ansiosos, pela cabeça de Seguro pendurada num pelourinho do Vimeiro, este - como lhe competia pelo menos por respeito pelo milhão e tal de nativos que votaram no PS há uma semana - passou ao ataque. Não tanto ao ataque a estes barulhos mas passando por cima deles ao falar directamente para o país e para o "sistema político". Alargar a base eleitoral e a legitimidade dos dirigentes partidários candidatos a cargos institucionais nacionais para lá dos respectivos "aparelhos", reduzir finalmente o número de deputados e criar círculos uninominais; a par com nacionais, são ideias políticas de elementar bom senso. Boas até para a "direita" as aproveitar.


 


Adenda: Costa, para bem dele, devia recomendar aos seus mais destacados apoiantes que se fizessem de mortos. Aparecer ao país rodeado de mortos-vivos era o pior que lhe podia acontecer.

"Ele pode ser o presidente da câmara mas eu é que sou o presidente da junta""



De novo juntos. Como em Abril de 2011, na Exponor.

Ajeitar a cabeça na "almofada"

Fora o objecto da declaração de inconstitucionalidade na altura (a eliminação dos subsídios de férias e de natal dos trabalhadores do Estado no OE para 2012), continuo a "ler" o "tema" como o lia quando escrevi este post. Estava, então, no gabinete de Miguel Relvas e o ministro das finanças era o dr. Gaspar. Não mudei de opinião.

30.5.14

Um hábito inofensivo


 


«Há várias coisas que nem este nem nenhum acordo alguma vez fará: em primeiro lugar, não vai transformar o que se escreve em qualquer das variedades de português em coisas com sentido, e muito menos em coisas inteligentes; em segundo lugar, não vai tornar mais compreensível a um brasileiro os barulhos linguísticos que se fazem em Portugal; em terceiro lugar, não vai criar nenhum mercado único para coisa nenhuma e muito menos para livros; em quarto lugar, não vai transformar o português naquilo que nunca foi, a saber uma língua mundial (...). A razão por que nenhuma lei sobre a ortografia é adequada é apenas que a ortografia é um hábito inofensivo. Não prejudica ninguém, e é vivida por muitas pessoas como uma espécie de segunda natureza a respeito da qual ninguém pensa dois segundos. É uma maneira de fazer as coisas com que as pessoas se sentem confortáveis e que não ofende crenças ou convicções. E, mais importante, é uma maneira de fazer as coisas para cuja alteração não existe um único argumento razoável. São estes hábitos que tornam possíveis os estados. Os estados não devem legislar sobre estas coisas.»


 


Miguel Tamen, Observador

A mão que sai de trás do arbusto



Não sei o que António Costa pensará do artiguinho perpetrado pelo dr. Soares no Público. A coisa está no registo de bom gosto "soba" do "desapareça, sr. guarda, desapareça" ou do "sei muito bem o que é os dirigentes europeus me diziam de si quando cá vinham" num debate televisivo com Cavaco Silva nas presidenciais de 2006. Com a diferença de que, desta vez, os mimos visam o actual secretário-geral do PS o qual, que se saiba, nunca fez outra coisa na vida a não ser socialista. O ódio político e pessoal que transparece das palavras de Soares não ajuda a tarefa alegadamente "unificadora" de Costa. Já não ajudava aquele cortejo de fantasmas da derradeira encarnação governativa do PS cuja longa mão parlamentar não pensa noutra coisa a não ser perpetuar-se em São Bento às costas de uma hipotética nova liderança. Alguns desses fantasmas - que passavam o tempo a sugerir que estavam "fora da vida política e partidária" - não perderam tempo a "ditar" o "programa" de Costa. A. Santos Silva, por exemplo, deve ter ficado desiludido ao constatar que o "apelo" que dirigiu a Seguro para não votar a moção do PC foi ignorado (fundamentadamente ignorado) por Costa na sua tribuna preferida, a Sicn. Tudo somado, o dr. Passos Coelho, pelo que pude seguir, fez um brilharete na discussão da dita moção. A não esquerda que o critica evidentemente não hesitará entre ele e esta assustadora trupe quando as coisas forem, de novo, a sério. Como escreve Pulido Valente também no Público, «ao mesmo tempo fora e dentro, o dr. Mário Soares organizou uma campanha de radicalismo e ódio, que impedia qualquer tentativa do PS para encontrar entendimentos parciais com o Governo ou moderar as loucuras que ele desde o princípio cometeu.» Para mais, «a gente é, em grosso, a mesma, educada da mesma maneira, com os mesmos vícios da política de café. Basta ouvir as polémicas das duas facções, invariavelmente dominadas pelo objectivo pueril de distribuir as culpas da “cisão” ou de exibir uma camaradagem pública entre indivíduos que se odeiam. A súbita aparição de Costa não irá varrer com facilidade este antro de estupidez, de ambição e de intriga.» Sobretudo se, em vez de ser ele a falar, deixar correr livremente esta traquitana vingativa e rapace.

Bagatelas


 


Do Facebook:


 


Da última vez que o dr. Soares foi a votos, em 2006, obteve 785.355. No domingo, o PS do dr. Seguro obteve 1.033.088. Num caso como no outro foi a "resposta do povo". Que não tem "donos".


 


Ao ver a circunspecta dra. Ferreira Leite a "defenestrar", com tanto empenho, o dr. Seguro na tvi 24, percebi que a "coisa" é mais vasta do que parece. O dr. Costa, coitado, é só a ponta do iceberg.


 


O "congresso extraordinário" do PS já começou nas televisões. É o chamado "poder do amor" (ao comentador televisivo A. Costa).


 


Ao "folhear" os "online" dos jornais, descobri que, afinal, Pacheco Pereira e Miguel Relvas possuem uma coisa em comum: o mesmo acrisolado desvelo pelo dr. A.Costa. Estamos sempre a aprender.


 


Em menos de 24 horas, o dr. António Costa já fez mais pela recuperação dos 500 mil votos perdidos pela coligaçâo do que os drs. Passos e Portas jamais farão no tempo politico que lhes falta até às legislativas.