5.2.14

O tigre de papel

No dia em que o Presidente da República afirmou que a aposta na qualificação e na educação das pessoas deve continuar, independentemente dos "paradigmas", o velho maoísta Nuno Crato "recordou" velhos combates através de velhas expressões que, por acaso, se lhe aplicam como uma luva. Não passa de um tigre de papel.

Necedade e necessidade

Entre desempregados e inactivos, independentemente do sobe e desce estatístico-político, há um milhão e cem mil pessoas. Só alguém em estado de necedade é que não entende este estado de necessidade.


 


Adenda de quinta-feira: «Quando sai um número que pode ser interpretado como positivo, mesmo que muito fora do contexto, como aconteceu com a pequena baixa da percentagem de desemprego, há seis ministros e secretários de Estado que vêm todos falar no mesmo dia. Há um efeito multiplicador quando os órgãos de comunicação social, em particular a televisão, passam, um atrás do outro, a mesma declaração preparada pelos assessores de comunicação do Governo. Gera-se assim uma impressão de unanimidade e indiscutibilidade, que a comunicação social acaba por repetir como um adquirido. Quando sai um número considerado negativo, como o facto de a divida estar muito acima do que se previa e estava acordado com a troika, há um silêncio mortal. Assim, quem falar estará sempre solitário, parecendo remar contra a maré. A comunicação social pode dar-lhe voz, mas isola essa voz. É assim que se fazem as coisas.» (José Pacheco Pereira, revista Sábado)

Conversa acabada


 


O antigo Director Geral das Artes de Gabriela Canavilhas - nessa altura prodigalizou uma original epoché da sua condição de militante do PSD para não desagradar àquela com quem disputa uma divertida acrimónia mútua -, Jorge Barreto Xavier, que presentemente ocupa as funções de Secretário de Estado da Cultura (SEC), apareceu ontem aos jornalistas na Ajuda para falar do "assunto Miró". Sem ironia (porque ele advertiu os jornalistas que não estavam ali para ironizar mas apenas para fazer perguntas), Xavier dissertou abundantemente sobre o iter Lisboa-Londres da colecção que pertence ao Estado português sem nunca ter conseguido explicar tamanha odisseia (num magnífico "passa-culpas", a Parvalorem, que neste caso "faz" de SEC, aponta o dedo à leiloeira). De manhã, um tribunal declarou "manifestamante ilegal" o procedimento do governante sobre a matéria mas Xavier escudou-se nas finanças, e na empresa criada para "acomodar" a lixeira BPN, para defender que o que importa é vender activos da dita lixeira (pelos vistos Xavier acha que os oitenta e muitos quadros de Miró são coisas que se podem perfeitamente juntar a créditos que a Parvalorem detenha sobre entidades e gente que deviam estar policialmente recolhidas). Reafirmou-o, depois, numa entrevista à tvi24. Ou seja, na cabeça do responsável político pela cultura (o senhor PM,  de quem Xavier depende directamente, não teve uma palavra para "apoiar" o seu secretário de Estado porque estava entretido, como sempre está, a dissertar sobre a dívida e um misterioso excedente orçamental que a há-de pôr em ordem algures num tempo infinito) é tudo matéria das finanças e de "ajudar" a tapar o buraco do BPN. Não se entende, por consequência, por que é que ele é SEC. Não poderia antes ser mais um membro da equipa das finanças? É que o lastro do seu desempenho nem sequer deve ser avaliado especialmente por este lamentável episódio. Começou mal quando, também a propósito de arte pictórica, colocou, por portas e travessas, em xeque o seu antecessor, sem razão fundada para tal, a não ser "rasurar" o mais rapidamente possível o passado recente. Depois tem vindo a revelar um autoritarismo parvenu na sua relação com os dirigentes dos diversos equipamentos culturais que levou a que alguns deles pedissem para sair (por exemplo, a directora- geral do património escolhida por ele ou o competente director do São Carlos, João Villa-Lobos, que se encontra demissionário). Agora, naqueles fatídicos dez minutos na Ajuda, Barreto Xavier assinou por baixo a sua invisibilidade política que confirmou em entrevista subsequente. A coisa sobra para Passos Coelho que até pode nomear o seu fiel assessor de imprensa para o cargo pois supõe-se que este, ao menos, saiba "tratar" com os jornalistas. Porque o património cultural, em sentido amplo, pesa pouco nesta conversa. Acabada, para B. Xavier, mesmo que ele continue.


 


Adenda: O senhor primeiro-ministro devia ter um assessor cultural que, pelo menos, o aconselhasse a não dizer certas coisas. Mas cada um é para o que nasce. Ou não.

4.2.14

A carta e a conta

Alguns deputados do PSD escreveram uma carta ao presidente da RTP - em nome dessa abstracção perigosa que dá pelo nome de "transparência" - a perguntar pelo valor do acordo a que a empresa pública chegou com o seu antigo director de informação, Nuno Santos, para evitar o julgamento em que ela era ré por ter perpetrado um despedimento por alegada justa causa. Se o julgamento tivesse avançado, hoje teria ido ao Tribunal de Trabalho como testemunha de Nuno Santos. Os "desenvolvimentos" recentes deste folhetim fazem-me lamentar não ter ido. Os deputados devem perceber que esta "história" não começa no acordo mas, antes, na gestão da RTP que, sobretudo entre Novembro de 2012 e agora, permitiu que se chegasse a este ponto. Entre o valor que a RTP terá de entregar ao ex-director de informação pela cessação antecipada do seu contrato de trabalho, os honorários dos advogados "da casa" no processo (a firma Sérvulo Correia & Associados), os vencimentos do departamento jurídico da empresa que interveio no precedente "inquérito" e as "actividades" comunicacionais tendentes a "amaciar" o efeito desta trapalhada toda junto da opinião pública, é só fazer as contas. Eu já fiz.

Facturas da (má) sorte

Em pouco mais de 24 horas, ficámos a saber mais algumas coisas sobre a merdice em que se está a tornar Portugal. Um relatório da IGF, relativo a 2012, dá nota de umas quantas "subvenções" estatais a entidades que vão desde a Cruz Vermelha, à Federação Portuguesa de Futebol passando pela construtora civil Mota Engil. Esta recebeu mais de oito milhões de euros para terminar o lançamento de betão para cima do trambolho de Belém (o apelidado "museu dos Coches" que talvez fosse mais apropriado começar pela letra "b" mantendo a terminação em "oches") em nome de "obras de interesse turístico" para o Portugalório (de acordo com a Mota Engil, a "subvenção" foi entregue à Frente Tejo que por sua vez a entregou à construtora, o que faz muita diferença para o contribuinte, apesar de a dita Frente ter sido extinta em 25.11.2011 e passado para as mãos imaculadas da CML). Resta saber onde entra nisto esse albergue espanhol que dá pelo nome de Turismo de Portugal.  A Federação, para "ajudar" a pagar as dívidas com o velhinho Totonegócio, "subvencionou-se" em nove milhões, e sessenta e duas fundações (62) receberam cerca de 64 milhões de euros (pensava eu, na minha indesculpável ingenuidade, que o governo se tinha aplicado, entre 2011 e 2012, em rever profundamente esta coisa das fundações). Tudo somado, estas "subvenções" atingiram o valor de €2.240.607 o que representa uma magnífica "contribuição extraordinária de solidariedade", esta sim, para com os sortudos beneficiados. Para além disto, soube-se que o Estado "emprestou" cerca de 510 milhões de euros às empresas que gerem o lixo tóxico do BPN, a Parvalorem e a Parups (designações risíveis se não fossem trágicas pelo objecto delas), precisamente para (sic) "absorverem os créditos tóxicos do BPN". Mas a Parvalorem entretanto conseguiu a proeza de "convencer" um tribunal da "mais-valia" que representa para um país egrégio em matéria de património cultural a venda por tuta e meia de quadros de Miró oportunamente "nacionalizados" com  o lixo que a dita Parvalorem gere. Isto como se a Parvalorem, a Parups e o Estado que as pariu e paga não fossem uma e a mesma coisa. Que quem alegadamente superintende na matéria considere ilegal a saída das obras, é irrelevante. O que importa é que o governo está "aliviado" e "respirou fundo" com a decisão do Tribunal que o gabinete do senhor primeiro-ministro considera "um acontecimento positivo". Não tenho nada contra a iliteracia e idiotia alheias. Mas já me preocupa quando é "de Estado" que aparentemente nada mais consegue enxergar do que um "financês" tosco, perverso e socialmente destrutivo. Repugnante.


 


Adenda: Apenas a leiloeira revelou bom senso. Nem deve ter precisado de "respirar fundo" como aquelas pobres almas em redor do pupilar dos pavões de São Bento.

3.2.14

A mão que acerta o relógio

Como é que se "garante", por parte do partido do relógio, a "coesão e solidez" da coligação para usar termos caros ao Senhor Presidente da República? Como é que se "vende" aos incautos que, lá dentro, há lobos maus e capuchinhos vermelhos, Mefistófeles e Margaridas, forças boas e forças más? Colocando coisas destas nos jornais.

2.2.14

Qual é a parte que o prof. Maduro não percebe?



O prof. Maduro devia dedicar-se em exclusivo ao que aparentemente domina: a Europa e os fundos. Foi encerrar o congresso das freguesias, onde o vaiaram, em que alguns dos presentes deixaram a sala para não ter de o ouvir. E merecia outra solene vaia pela entrevista que concedeu ao Público de domingo. Porventura realizada antes desta outra, surrealista, do presidente da RTP, todavia a coisa não deixa de parecer uma contenda floral entre duas pessoas que manifestamente não se entendem. Mesmo assim, o ministro deveria ter sido questionado (nem que fosse a posteriori) sobre os ditos do seu original tutelado que parece andar "à solta". Por exemplo, o que é que justifica que uma empresa pública, cujos "encaixes" financeiros engordam este ano 26 milhões de euros à conta da taxa do audiovisual (paga o consumidor de electricidade independentemente de "consumir" ou não RTP), gaste mais de 80 mil euros em sessões místicas de "motivação"? O ministro diz que é para pagar rescisões e canais internacionais. Será? Mas Poiares Maduro discorre abundantemente sobre o novo "modelo de gestão" assente na figura do "conselho geral independente" cuja composição já repousa misteriosamente na sua "cabeça". Se lermos com atenção, na verdade Maduro só consegue tornar ainda mais turva a sopa da gestão da RTP com as "explicações" que adianta. Porque uma coisa é certa. Com mais ou menos anacoretas a girar pelo dito "conselho", a tutela financeira permanece no Estado, mais propriamente nas Finanças, o que significa no governo - neste e nos que se lhe seguirão. Tudo, de uma maneira ou de outra (até as presumíveis "remunerações simbólicas" do "conselho geral"), a expensas directas ou indirectas dos contribuintes. Maduro nem sequer teve a delicadeza política, contrariamente ao que faz com o Parlamento, de incluir o Presidente da República no escrutínio dos membros do "conselho geral". Por outro lado, reforça esse supremo conselho de bonzos que é o de "opinião" da RTP, o que talvez se justifique por ter vivido demasiado tempo fora do Portugalório e não entender a "natureza" de coisas como aquela. Relvas fracassou mas Maduro parece empenhado em seguir o "guião" de Beckett: tenta outra vez e fracassa melhor. Estamos para ver que "conselho geral independente" sairá da cabeça do ministro enquanto Alberto da Ponte, "motivadinho da silva", se ri. Nunca menos, decerto, do que alguém que se sujeite a exercícios de contorcionismo circense. E quem começa em contorcionista, aparece a seguir a fazer de trapezista e, com um bocado de sorte, acaba em palhaço pobre. Porque - como escreve Cintra Torres no Correio da Manhã - o extraordinário presidente da RTP, que depende da tutela técnica de Maduro e da tutela financeira de Maria Luís Albuquerque, não esclareceu se é um dos que "não faz puto" «por não cumprir o plano que apregoou, não ter estratégia de gestão e de produção, por reconhecer que a RTP faz os conteúdos que diz que não fará (encher chouriços), por só viajar e fazer marketing.» Qual é a parte que o prof. Maduro não percebe?

Da durabilidade


 


«O Papa não passa os limites da “doutrina social” da Igreja ou do Catecismo decretado por Ratzinger. O que ele trouxe de novo está mais no espectáculo do que na substância. Não quis viver no palácio pontifical, cozinha de quando em quando o seu jantar, dá boleias no papamobile, lava pés com entusiasmo e quase que roça a santidade na sua paixão por um clube de futebol, o San Lorenzo de Almagro. Mas no seu fervor a esquerda vai esquecendoque ele, no meio deste ruído mediático, não tocou (e provavelmente não tocará) nas grandes questões que afligem os católicos: desde o casamento homossexual à ordenação das mulheres e à democratização interna da Igreja (embora ele se designe modestamente a si próprio como “o bispo de Roma”). A desilusão virá para a esquerda e para dez milhões de seguidores que o acompanham hoje no “Twitter”. Alguém se esqueceu de prevenir Francisco que a popularidade, como o populismo, não costumam durar. O repertório de um Papa é forçosamente curto e a incessante repetição de uma conversa petrificada por 2 000 anos de tradição acaba sempre por desinteressar os mais fiéis dos fiéis. Sobretudo se não assentar em acções pertinentes. Os primeiros franciscanos desistiram da pobreza de S. Francisco e não tardou que se tornassem uma ordem esplendorosa e riquíssima, que fazia inveja a toda a Cristandade. Não sei a que levará este novo estilo de Jorge Bergoglio. Mas sei que a extraordinária apoteose de 2013 não se repetirá. E suponho que o Papa dos “pobrezinhos” também sabe.»


 


Vasco Pulido Valente. Público

1.2.14

A "saída limpa"



in Expresso Economia

A via espanhola do dr. Portas

O senhor vice PM foi produzir um auto-elogio numa coisa do PP do sr. Rajoy. Em espanhol, e em português entremeado com espanhol, o dr. Portas abundou no nosso alegado "milagre" desta vez sem referir o glorioso ano de 1640. Na primeira fila, Rajoy aplaudia e acenava com a cabeça. A mesma que ajudou a "derrubar" o director do jornal El Mundo. O antigo jornalista Paulo Portas devia escolher melhor as suas companhias para arengar.