7.9.13

O pós-passismo


 


No fundo, tal como algumas venerandas cabeças tremelicam de alegria com a "perspectiva" do pós-troika (uma coisa que, tirando umas luminárias normalmente fechadas em conferências e colóquios esotéricos, ninguém sabe ao certo o que é), o que o eng. Ângelo sugere é o pós-passismo. E, sim, talvez não seja má ideia a Direita começar rapidamente a pensar no pós-passismo.

6.9.13

O regresso da farsa


 


Também não me interessa nada saber onde é que os governantes colocam patrioticamente as suas poupanças. Estou mais preocupado com os juros. Estávamos todos, aliás, aí por alturas de Abril de 2011. Mas o que importa é o regresso daquilo que por cá passa por "política", dos seus tagarelas profissionais e dos jogos de sombras interrompidos para banhos no final de Julho. Mas, sim, talvez valha a pena prestar alguma atenção aos juros da dívida e menos às migalhas trimestrais das estatísticas do "crescimento". E às pessoas, naturalmente, as marionetas inermes da enorme e perigosa farsa diária em que Portugal se está a transformar.

5.9.13

É o que há

Não me interessa nada a hermenêutica da graduação do "senso" dos juízes do Tribunal Constitucional. Isso é matéria reservada ao senhor primeiro-ministro. Tal como em outras matérias bem mais importantes do que os candidatos autárquicos, o TC actua de acordo com a lei e, para além disso, interpreta a lei à luz da Constituição. Nada de particularmente dramático. No caso dos transumantes tarimbeiros das câmaras e das freguesias, o legislador lavou as mãos pela voz da senhora Presidente da AR e coube ao TC validá-los ou não o que, politicamente, é mais uma originalidade deste país das maravilhas. Venceu a primeira hipótese. Em Lisboa, o dr. Roboredo Seara, por exemplo, já pode exibir livremente os dois pezinhos na capital, a cara em Sintra e a cabeça, se tiver uma, nas europeias de Maio do próximo ano. É o que há.

Aguardemos

Segundo o jornal Público, as "notícias" do périplo aqui mencionado não são tão famosas quanto as "expectativas" criadas com o robustecimento político do dr. Portas no "novo ciclo" do "novo governo". "O vice-primeiro-ministro não avançou de forma concreta em Bruxelas com nenhuma das reivindicações que tem vindo a fazer em termos de flexibilização dos termos do programa, a começar pela meta de 4% do PIB fixada para o défice orçamental de 2014. As alternativas que poderão vir a ser contempladas pelo Governo para substituir as medidas de redução de despesas públicas que foram chumbadas pelo Tribunal Constitucional também não foram abordadas em detalhe nos encontros de terça-feira de Portas e Albuquerque com Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, e Olli Rehn, comissário europeu responsável pelos assuntos económicos e financeiros." Mais. De acordo com Bruxelas, «a troika está a "trabalhar com base nas metas acordadas na última revisão", concluída antes do Verão» e cujas dificuldades em as ter por "fechadas" ficaram bem evidenciadas na carta de demissão do dr. Gaspar. E o porquê delas. Em suma, «propostas concretas para a flexibilização do défice ou para o programa de corte da despesa não foram apresentadas.» Aguardemos.

Rebobinar o filme das ilusões e das decepções

«Ao fim de cinco anos de crise financeira e económica global, depois de três anos de crise do euro e da União Europeia, no termo de mais de dois anos de aguda crise nacional, o que se verifica é que o discurso dominante continua a ser o das teses, das doutrinas e das palavras que, justamente, causaram este dominó de crises. Neste quadro, a rentrée mais não fez do que rebobinar com pequenas variantes o que já sabíamos e ouvimos vezes sem conta. O que levou a que o autoproclamado novo ciclo do Governo recentemente remodelado se tenha transformado, num ápice, num retro ciclo de banalidades, sem direcção nem estratégia, a sobreviver agarrado a querelas institucionais que mais não pretendem do que disfarçar a profunda incapacidade política e as persistentes tensões internas. A crise política de Julho reforçou, sobretudo pela opaca vacuidade que a caracterizou, a ideia - cada vez mais popular - de que a política não passa de um jogo de narcisos tão impotentes em relação ao interesse público, como obcecados consigo próprios. Esquecendo a enorme gravidade da situação nacional, disse-se e desdisse-se então, com a maior impunidade, tudo o que se podia dizer e desdizer. Com o Presidente da República a aumentar a confusão, ao propor um "compromisso nacional" exactamente no momento em que renunciava ao seu principal poder, o de dissolução do Parlamento, poder que colocou nas mãos dos partidos! (...) Não vimos até hoje o mais pequeno vislumbre da famosa "reforma do Estado", que apontasse para um verdadeiro Estado estratega - e há bons exemplos em diversos países nórdicos, por exemplo -, capaz de falar não só em termos de interesses, mas também de valores, capaz de avançar com uma visão de futuro do Estado, da sua natureza, do seu funcionamento e das suas obrigações.(...) O Governo justifica os cortes no Estado social com a debilidade da economia, mas o reforço dessa mesma economia que ele jura que virá com esses cortes não serve para reforçar o Estado social, mas apenas para o liquidar. Como se fosse mais legítimo adaptar a sociedade à economia e à finança do que estas à sociedade - mas não é. E enquanto se desmunicia o Estado, multiplicam-se como cogumelos "grupos de estudo", "comissões de peritos", "comités de sábios", tudo ad hoc sem - caso único na Europa! - qualquer enquadramento institucional claro nem objectivos estratégicos precisos e escrutináveis, que apenas servem para ir rebobinando o filme de ilusões e de decepções que já todos antecipámos bem demais.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

4.9.13

Com e sem história


 


À medida que, vagarosamente, leio a biografia de Richard Nixon mais me convenço que, entre os anos 60 do século passado e agora, a "história" empobreceu. Nem Nixon, por exemplo, era o monstro que a partir dele foi construído por esse terrível cruzamento entre um cavalo e um elefante que dá pelo nome de lugar-comum (Nabokov dixit), nem Kennedy foi jamais o imaculado "homem novo" que o mesmo lugar-comum forjou. Mas hoje, do derradeiro império à derradeira periferia, é tudo demasiado fraquinho, quase sem história.

Não pode falhar


 


Quem assitiu às primeiras imagens do "périplo" do senhor vice PM com a senhora ministra das Finanças junto dos prestamistas externos, não deve ter deixado de reparar em dois ou três pormenores interessantes. Com Barroso, Portas e o seu anfitrião sentaram-se primeiro do que Maria Luís no gabinete do primeiro. Já eles trocavam sorridentes impressões quando alguém de lá indicou o lugar à ministra. Depois, cá fora, só Portas falou. Maria Luís estava a seu lado, naturalmente, mas apareceu uns segundos após o vice ter começado a falar com os jornalistas no registo íntimo do "vocês". Talvez isto se perceba. No dia em que a ministra tomava posse, Portas recusava-a demitindo-se por carta. O bluff acabou quando o dr. Passos lhe entregou a coordenação geral política do Executivo. Fê-lo para fora e para dentro. Para fora,  através da "coordenação" das relações com a troika o que o obriga - o país, mais do que o dr. Passos, confrontá-lo-á diariamente com isso - a que se comporte como um supra Gaspar. Está obrigado a "cumprir" o que foi dizendo, escrevendo e exigindo até Gaspar se afastar: reajustar o programa de "ajustamento", "requalificar" métodos e metas e, eventualmente, renegociar o fundo da questão, dívida e alcance do défice. Simultaneamente, e como também "coordena" a economia, deve compatibilizar politicamente a "parte externa" com o crescimento e a diminuição do desemprego em casa. Já não chega aparecer em meia dúzia de feiras internacionais ao lado de chouriços de porco preto ou de sapatos. Para juntar este complexo "in & out", Portas precisa ter mão na chamada "coordenação política" doméstica. Cela va de soi. Decerto porá um termo aos absurdos briefings do dr. Lomba e do prof. Maduro e tratará de garantir que ambos não se afastem muito do "desenvolvimento regional" que consta dos respectivos títulos governamentais. Aposto que não aceita menos do que Marques Guedes para o efeito e não se fala mais nisso. Tudo visto e ponderado, o que o senhor vice PM nos quis transmitir de Bruxelas - e amanhã ou depois de Washington - é que, como tanta gente, também ele já não tem mais começos. Agora não pode falhar.

3.9.13

A estupidez política e as "gerações"

Fora a estafada demagogia das "gerações mais bem preparadas de toda a história nacional" - como se as precedentes fossem. em geral, um bando de cavalgaduras inúteis que importa que desapareça o mais rapidamente possível- , o "conselho" do Paulo Rangel para se acabar com essa outra ainda mais estúpida da preservação das "gerações futuras" - como se representassem uma espécie ecológica em vias de extinção -, não deixa de ter interesse. A fonte é o Público de hoje. «O problema que se põe hoje, em especial na sociedade portuguesa, é um outro, bem diverso, e anda associado ao risco de "instrumentalização" do discurso da "protecção das gerações futuras". Na verdade, e aproveitando a apologia da juventude - que quase parece uma "ideologia" ou é mesmo uma "mitologia" no sentido de Roland Barthes -, têm-se lançado as bases de uma "luta de classes" geracional. A retórica das "gerações futuras" parece muitas vezes arrancar da assunção de que as gerações mais velhas estão a explorar as gerações mais novas. E de que as gerações mais novas são um novel "proletariado", explorado e expropriado pelas gerações mais velhas, presumivelmente detentoras do capital. A ideologia da defesa das "gerações futuras", neste preciso contexto e com este uso intencional, procura aproveitar e tirar partido de uma pretensa clivagem geracional, de um fosso entre gerações. De um lado, estariam os mais velhos, grandes beneficiários de um Estado social claudicante e do endividamento desmesurado, e, do outro lado, os seus filhos e netos, vítimas da falência e da bancarrota, espoliados para o resto da vida. Esta narrativa - para voltar a um conceito precisado de "valorização" -, pese embora possa estar indiciada em alguns traços da sociedade portuguesa, não tem adesão à realidade. Em primeiro lugar, porque o discurso das "gerações futuras" é feito não em nome destas, mas em nome do "futuro" de gerações presentes. E, em segundo lugar, porque essas jovens gerações presentes, que são as gerações mais bem preparadas de toda a história nacional, foram largamente beneficiárias das escolhas políticas das gerações mais velhas. É mesmo aí - e esta é já uma terceira consideração - que falha e soçobra o argumento das "gerações futuras": grande parte das condições que engendraram as gerações mais velhas foi largamente destinada a educar e dar melhor vida às gerações mais novas. Com efeito, merece a pena perguntar, mesmo que só para testar ideias feitas: se as gerações mais novas compararem a sua juventude e a sua formação com a juventude e a formação dos seus pais e avós, quem teve uma vida mais fácil e mais orientada para sucesso e realização no futuro? Ou, dito de outra maneira, também manipulada, mas ilustrativa: com quem gastaram as gerações mais velhas o dinheiro entretanto sumido? (...) A solidariedade intergeracional não funciona nem pode funcionar num só sentido, o sentido dos mais velhos para os mais novos. Diz-se que o facilitismo das gerações mais velhas do país põe em causa a vida e o bem-estar das gerações futuras (quer dizer-se, das gerações mais novas). Mas esquece-se que a solidariedade intergeracional também pode implicar algum sacrifício das gerações do futuro em prol do bem-estar e de um mínimo de dignidade das gerações presentes. Em conclusão, e com uma dose de simplismo, prefiro ter uma vida um pouco menos confortável e saber que isso contribuiu para que as gerações que me precederam tivessem um final de vida digno.»

2.9.13

"Instrumento e bandeira"






Como escreveu ontem o Eduardo Cintra Torres, «substituindo Relvas, Poiares Maduro coincide com todos os partidos parlamentares numa visão estatista da RTP: o Estado deve possuir a RTP como instrumento e bandeira; servir o Estado é mais importante do que servir aos cidadãos conteúdos de interesse público.» Por consequência, decerto que os citados - ministro Maduro e todos os partidos parlamentares sob o alto patrocínio do Senhor PR que também comunga do princípio "instrumento e bandeira" - encontrarão uma maneira airosa de arranjar os 200 millhões para que o "instrumento e bandeira" se mantenha indemne como de há mais de meio século para cá.

Formas de vida inteligente

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