Deus Pinheiro foi ministro da educação do "bloco central" de Mário Soares nos idos de oitenta. É natural que defenda outro, agora liderado pelo PSD. Com o devido respeito - e mesmo partindo do pressuposto que o PS se livra do "bando de Sócrates" - não é solução. Sabe-se que, enquanto o regime for o que é, esse "bloco" subsistirá em muitos lados. No sector empresarial público, em empresas privadas, nos "clubes" ditos de reflexão, nas casas destes e daqueles, no Estado. É um vício do regime que impede clareza na nossa vida pública. Na sua proverbial ingenuidade, Deus Pinheiro imagina - é só mais um - que tal "solução" salva o país. Não salva. O menos mau que pode sair das eleições de 27 de Setembro é um governo minoritário de Ferreira Leite que confronte o Parlamento com as suas responsabilidades. Depois de quatro anos de AR maioritária e politicamente nula, sempre é um recomeço. Depois há Cavaco. Para que se devolva um módico de sanidade a isto tudo, uma vez terminado o primeiro e único mandato funesto do pretty boy, Cavaco não deve recear intervir. E por intervir não quero dizer governar ou dar orientações políticas que esta Constituição do impasse não lhe permite. A experiência do Chefe de Estado, aliada à prudência da sua personalidade, vão ser fundamentais nos próximos meses. Deus Pinheiro veio do passado para falar em passado. Direito dele. Todavia o que mais precisamos, depois deste interregno pouco sério, é seguir em frente.
Adenda: Tenho muito defeitos e, infelizmente para os tempos e para as gentes que correm, uma boa memória. Deus Pinheiro sucedeu, no IX governo do dr. Soares (83-85), a Seabra (o especialista em Barthes) como ministro da educação. Ora vejam lá.



