30.11.12

Imperfeição


 


Um amigo pediu-me para tentar encontrar no torvelinho dos textos de Eduardo Prado Coelho um sobre um político português contemporâneo que se retirou recentemente. Não encontrei esse texto mas fui parar a outro sobre o casal Michaux. A mulher de Henri Michaux ficara grave e irremediavelmente ferida, queimada, depois de um fogo em casa. Internada num hospital, todos os dias Henri a visitava e procurava falar com o que dela restava. Isso vem descrito num livro autobiográfico cujo título me escapa agora. No desalinho da sua vida e da sua obra, Michaux acabou por sumarizar toda essa luminosa imperfeição que é a vida (a dele, a minha, a de quem quer que pense e, consequentemente, perca)  nesses momentos finais junto de Lou, a mulher. Anos mais tarde, Peter Sloterdijk "recuperou" esta história (de amor e morte, naturalmente) no livro O Sol e a Morte. «Poderíamos dizer que [Michaux] teve de esperar pelo meio da vida para fazer essa mesma experiência da perda que para muitas pessoas começa logo no dealbar da existência, ou seja, o descobrimento traumático de que o Outro íntimo se tornou inalcançável e que, por conseguinte, uma pessoa tem de enquistar-se em si mesma e endurecer-se. De modo geral, resulta inclusive válida a sabedoria de que só poderá converter-se num indivíduo independente aquele que sabe de uma vez por todas ou que quer saber o seguinte: «No fim, ficarei só.»

À atenção do António Costa

A dona do quiosque onde compro jornais e revistas abordou-me, julgando que eu pertencia à CML, para me dizer que "fiscais" da dita estiveram lá dando nota que passava a ser vedado aos quiosques manterem bancas exteriores contíguas aos quiosques. A exiguidade dos quiosques obriga à existência dessas bancas que, no caso concreto, não perturbam a circulação pedonal. Com tanta porcaria para tratar na cidade, as bancas dos quiosques de jornais serão porventura prioritárias? Ou a piroseira das "decorações" natalícias?

29.11.12

Uma carta

Uma trupe lamentável à qual se juntaram duas ou três pessoas razoáveis, com epicentro no improvável dr. Vítor Ramalho, decidiu entregar uma carta, presume-se aberta, ao primeiro-ministro. O objectivo dessa carta é que o destinatário se demita a bem da nação que estas criaturas julgam ser sua propriedade exclusiva. Sucede que o destinatário encontra-se em funções em virtude de uma coisa trivial chamada voto que, suponho, os signatários da cartinha respeitam fora um ou outro velho estalinista reciclado. As coisas não funcionam assim. Pelo menos em democracia.

O segundo volume


 


Num café, esse refúgio dos solitários a que alude George Steiner, escrevo. Não vá dar-se o caso de os zelotas e os lacaios das "redes sociais" tomarem "devida nota", gozo um dia legal de férias. Aproveito-o para tratar de intendências pessoais uma delas a ver com a minha primeira editora, a Bertrand. O livro Portugal dos Pequeninos, uma "ideia" da Maria Teresa Loureiro, lá publicado, abrange o período de 2005 a 2009, princípio de 2009. Assim, está a ser preparado o segundo volume do Portugal dos Pequeninos que começa no segundo semestre de 2009 e terminará em 2012. O período comprendido entre o segundo semestre de 2011 e o ano ainda em curso, para além de recolher alguns dos posts editados neste blogue, conterá material inédito que, espero, contribua para "contar" parte de alguma "história" recente. No fundo, e em homenagem a Eduardo Prado Coelho e a Wittgenstein, tudo o que não escrevi. Sai em Junho de 2013.

"Fazer" anos






«As pessoas mudaram; tornaram-se hostis ou, no limite, perigosamente impessoais. Dou-me conta que talvez tenha mudado tanto que as vejo tal qual elas são, tal qual elas sempre foram. No entanto, é possível que aquilo em que reparei mais cedo fosse a realidade, e que o que observo agora seja uma distorção inteiramente privada dessa realidade embora, e de qualquer maneira, veja o que vejo: hostilidade e perigo. Tenho consciência que a minha posição é exagerada e que há gente inócua no mundo e, bem mais importante do que isso, muitos idiotas. Pelo menos agradeço tamanha fartura» (Gore Vidal)

28.11.12

Fidelidade à realidade


 


O Gabinete do General Ramalho Eanes enviou-me o discurso que o antigo Chefe de Estado proferiu, a semana passada, no lançamento da obra de Maria Inácia Rezola sobre Melo Antunes (Melo Antunes – Uma Biografia Política, da Editora Âncora). Lá encontro palavras certeiras. «A reflexão séria, tendo por evidência o Homem – a sua liberdade e o seu indispensável sistema social de liberdades – exige honestidade e competência: na fidelidade à realidade; na propensão para o compromisso e para o pacto; no profissionalismo; no desejo de clareza (da evidência dos propósitos e decisões e na transparência na sua execução).» Oxalá quem abraça a causa pública - seja em que "posto", tempos ou circunstâncias for - pensasse sempre assim.


 


Foto: DN

27.11.12

Um dia destes


 


Acabamos todos assim.

Marcelo.




O Vitor Matos - que conheci numa noite chuvosa, em Queluz, uma noite longa em que se ultimava o primeiro número da revista FOCUS - enviou-me, com uma simpática dedicatória, a sua biografia de Marcelo Rebelo de Sousa. Levou-lhe quatro anos de trabalho e chama-lhe "biografia consentida". Vou lê-la com a atenção que o autor e o biografado me merecem pelo que a "recensão" ficará para mais tarde. Marcelo interessa-se a vários níveis. Nunca foi meu professor pelo que só nos cruzámos pessoalmente, nos idos de 1996, na praia do Guincho. Antes disso, ouvi-o em coisas do PSD (de que fui militante até 2004), na televisão e li-o nos jornais. Andei com os autocolantes vermelho-vivo da sua candidatura à Câmara de Lisboa em 1989. Enquanto jurista, citei-o muitas vezes em pareceres e em peças processuais.  Na altura do Guincho, Marcelo era presidente do PSD. No país reinava a "pax guterrista" e não era fácil ser líder da oposição. Falávamos muito entre mergulhos e antes de ele sair mais cedo da praia para ir ao Norte ou ao Sul dirigir-se aos militantes. Cheguei a dar-lhe boleia até casa. Como presidente do PSD, Marcelo obteve duas importantes vitórias nos referendos sobre o aborto e a regionalização. Nos congressos, até 1999, venceu a insolência dos "eternos" candidatos ao seu lugar, um dos quais lhe viria a suceder depois de, em Tavira, o ter acusado de ter feito o que ele viria depois a fazer - "carregar o pequeno partido à nossa direita às cavalitas", Barroso dixit. A partir daí, Marcelo passou a fazer política por outros meios através da comunicação social. Chegou a conselheiro de Estado a convite de Cavaco Silva e é um dos mais prestigiados professores da Universidade de Lisboa. Como comentador televisivo, Marcelo, à semelhança de toda a gente, tem dias. Por causa desses "dias", soube por um amigo comum que ele se "zangou" comigo por algumas coisas que aqui escrevi. Todavia, esses meus dias, tal como os dele, não eliminam o essencial. Marcelo é um feroz adepto do optimismo antropológico, um vitalista e um intelectual que aprecia a acção, a começar pela comunicacional. Quando Cavaco terminar o seu mandato, o país provavelmente vai precisar, e muito, de vitalismo e de acção. Não acompanho o Medeiros Ferreira quando sugere que Marcelo ficou para sempre refém do estúdio de televisão e, como tal, não será candidato presidencial. A sua inteligência e intuição decerto saberão melhor do que ninguém quando chegará o momento adequado de largar o estúdio e ir à conquista do país. Marcelo conta comigo para isso.

26.11.12

O poderoso lóbi conservador

Apesar de relativamente mal escrito, este texto lança algumas "provocações" (e factos) interessantes para o "debate" em curso sobre o serviço público de televisão que é uma coisa distinta da complicada galáxia RTP, e da sua eventual privatização, que muitos teimam misturar. «O poderoso lóbi conservador mistura 3 elementos altamente convenientes: operadores incumbentes de fortes interesses económicos; grupo central coeso e permanente de ideólogos e agentes na área audiovisual; grupo de várias individualidades, que vai variando em número e composição; geralmente são ingénuos úteis para mascarar o essencial do que está em causa. Muitos estão apavorados com a aparente diminuição dos instrumentos de acção do Estado, agarram-se ao que ainda existe sem curar (ou minorando a importância) da natureza dos conteúdos que esses instrumentos emitem. O grupo aparece com regularidade para, com sucesso por enquanto, marcar a agenda e acabar por impor as suas posições. Agora destilou um novo manifesto "Em defesa do serviço público de rádio e de televisão", pretexto para marcar e pressionar as instituições.». O autor termina com a recomendação da leitura de um texto de Karl Popper - no qual se louva -, "Uma lei para a televisão". Também recomendo.

Sem ambições






«Jesus não tem nenhuma ambição política. Depois da multiplicação dos pães, o povo, entusiasmado com o milagre, queria pegar n’Ele e fazê-Lo rei, para derrubar o poder romano e assim estabelecer um novo reino político, que seria considerado como o reino de Deus tão esperado. Mas Jesus sabe que o reino de Deus é de género totalmente diverso; não se baseia sobre as armas e a violência. E é justamente a multiplicação dos pães que se torna, por um lado, sinal da sua messianidade, mas, por outro, assinala uma viragem decisiva na sua actividade: a partir daquele momento aparece cada vez mais claro o caminho para a Cruz; nesta, no supremo acto de amor, resplandecerá o reino prometido, o reino de Deus. Mas a multidão não entende, fica decepcionada, e Jesus retira-Se para o monte sozinho para rezar, para falar com o Pai (cf. Jo 6, 1-15). Na narração da Paixão, vemos como os próprios discípulos, apesar de terem partilhado a vida com Jesus e ouvido as suas palavras, pensavam num reino político, instaurado mesmo com o uso da força. No Getsêmani, Pedro desembainhara a sua espada e começou a combater, mas Jesus deteve-o (cf. Jo18, 10-11); não quer ser defendido com as armas, mas deseja cumprir a vontade do Pai até ao fim e estabelecer o seu reino, não com as armas e a violência, mas com a aparente fragilidade do amor que dá a vida. O reino de Deus é um reino completamente diferente dos reinos terrenos. Por isso, diante de um homem indefeso, frágil, humilhado como se apresenta Jesus, um homem de poder como Pilatos fica surpreendido – surpreendido, porque ouve falar de um reino, de servidores – e faz uma pergunta, a seu ver paradoxal: «Logo, Tu és rei!». Que tipo de rei pode ser um homem naquelas condições!? Mas Jesus responde afirmativamente: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz» (18, 37). Jesus fala de rei, de reino, referindo-Se não ao domínio mas à verdade. Pilatos não entende: poderá haver um poder que não se obtenha com meios humanos? Um poder que não corresponda à lógica do domínio e da força? Jesus veio para revelar e trazer uma nova realeza: a realeza de Deus. Veio para dar testemunho da verdade de um Deus que é amor (cf. 1 Jo 4, 8.16) e que deseja estabelecer um reino de justiça, de amor e de paz (cf. Prefácio). Quem está aberto ao amor, escuta este testemunho e acolhe-o com fé, para entrar no reino de Deus.»


 


Bento XVI, 25.11.12