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19.10.12

Manuel António Pina


 


Manuel António Pina, que nunca conheci pessoalmente, faleceu esta tarde no Porto. Todavia ele "conhecia-me" e foi porventura das últimas pessoas a não dizer mal de mim publicamente. «É (um blogue de um assessor do actual Governo). Chama-se João Gonçalves. Por acaso tenho tendência a concordar com muitas das coisas que ele escreve. São afinidades. E isto para quê? À procura de uma coisa que me dê uma espécie de clique.» Fico a dever-lhe esta amabilidade que jamais lhe poderei agradecer. Eu também tinha tendência a concordar com muito do que Pina escrevia. Apreciava-lhe a poesia. E coisas como esta: «voltando à vaca fria, isto visto, já não digo de Alfa do Centauro mas da Lua, é completamente risível.» Outra forma de dizer que isto é tudo uma grande merda.

21.3.12

"Arte poética"


 


Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.


 


Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.


 


Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.


 


E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?


 


Manuel António Pina

18.2.12

"Isto é completamente risível"



Da entrevista do Nuno Ramos de Almeida a Manuel António Pina no i:


 


«Eu sou uma pessoa que atira as mãos para a frente. O meu cepticismo é mais em relação ao ser humano e sobretudo em relação a todos os tipos de optimismo. Às vezes inverto aquela máxima e digo que o optimista é um pessimista mal informado. Eu sujo as mãos, mas faço-o descomprometidamente.»


 


«Em relação ao jornalismo, quando observamos a nossa galáxia, percebemos que é uma entre milhões, que o nosso sistema está num braço modesto da galáxia e que o nosso planeta se encontra entre biliões de outros. Esta normalidade dá-me uma sensação de imensa paz, porque me permite relativizar-me a mim e aos meus problemas. Aprendi com os grandes tipógrafos, às vezes estava na chefia de redacção cheio de problemas com os títulos e eles diziam--me: “Não se preocupe que amanhã isto é para embrulhar o peixe.” A dimensão do infinitamente grande e do infinitamente pequeno dá-nos a consciência de que tudo é para embrulhar peixe.»


 


«O dinheiro do Prémio Camões não o dava a ninguém, mas o prémio partilhava-o com toda a gente, com quem quiser. Entrego já a glória daquela merda.»


 


«Os políticos tratam-me sempre bem. São umas putas velhas.»


 


«Voltando à vaca fria, isto visto, já não digo de Alfa do Centauro mas da Lua, é completamente risível.»

12.2.12

«Blogue de um assessor do actual Governo»



Há dias um colega, interessado por livros e banda desenhada, chamou-me a atenção para o número de Janeiro da revista Ler. Trazia uma entrevista com o poeta e cronista Manuel António Pina realizada por Carlos Vaz Marques. Enviou-me cópia. Lá pelo meio M. A. Pina fala, com graça e alguma maldade, do Joaquim Manuel Magalhães, meu amigo de sempre e professor numa aventura na Faculdade de Letras. E de blogues. Diz o poeta, e cito Miguel Serras Pereira, que «há um conjunto de blogues de que sou afim: Entre as Brumas da Memória, duma senhora com quem até já me correspondi, o Der Terrorist, o Vias de Facto. E depois também frequento outro tipo de blogues: o Blasfémias, que é um blogue de direita, o 31 da Armada, monárquico, o Arrastão, o Aventar, o 5Dias, o Meditação na Pastelaria, da Ana Cristina Leonardo, de quem gosto muito, o Portugal dos Pequeninos…» A seguir Vaz Marques "recorda" ao entrevistado que este último é um "blogue de um assessor do actual Governo" como se fosse esse o "ponto" de um blogue com mais de oito anos de existência, ou se ser assessor de um Governo, e deste em especial, fosse incompatível com o gosto de M. A. Pina visto por Vaz Marques e, no limite, uma coisa imprópria para um intelectual ler. Mas o poeta cronista respondeu. «É (um blogue de um assessor do actual Governo). Chama-se João Gonçalves. Por acaso tenho tendência a concordar com muitas das coisas que ele escreve. São afinidades. E isto para quê? À procura de uma coisa que me dê uma espécie de clique. Eu não posso dar notícias, as notícias já estão dadas.» Venha sempre, Manuel.