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14.9.13

"Não percas a rosa"


 


Se fosse viva, Natália Correia teria feito ontem noventa anos. Pouco dirá agora às gerações que julgam que o protótipo do literato é um "valter hugo mãe" ou uma treta semelhante. Ou que um polemista se resume a um misto de sucessivas declinações do "eixo do mal" com Medina Carreira, por exemplo. Natália Correia - como, noutro plano, Maria Armanda Falcão (Vera Lagoa) - pertence a um mundo que acabou. É claro que há os livros, os programas, as fotografias, as memórias deste ou daquele (sem contraditório, o que as pode tornar num pretexto para os seus autores falarem mais deles do que dela), etc., etc. Mas, no fundamental, aquela espécie de festim nu que Natália e os seus protagonizaram décadas a fio, sobretudo no "meio" lisboeta (como se houvesse outro), é incompreensível à luz dos "valores" em vigor. Não porque Natália fosse um extraordinário poeta (nunca foi), um invulgar dramaturgo (também não) ou um prosador, como se costuma dizer, incontornável. O que sobretudo retemos de Natália é aquilo que mais falta faz no espaço público nacional e que talvez o livrinho Não percas a rosa resuma melhor do que qualquer outro, datado ou não: a liberdade de espírito, a opinião forte, a impiedade crítica que irrita. Não é por acaso que o declínio físico de Natália é coevo da banalização e da trivialidade que tomou conta de tudo e de todos a partir de certa altura. Acredito que Natália tenha morrido afogada em amargura e solidão. A partir de dado momento as coisas devem ter deixado de fazer sentido e ela - espírito, corpo, cidadania - desistiu. Apesar de ter sido sempre uma mulher moderna desde a adolescência, não conseguiu rever-se na "modernidade" absurda e vazia que se instalava mansamente entre nós. Pessoas como Natália Correia não aceitam contemplar espectáculos destes até ao fim como bonzos vulgares. A sua dimensão não é a vida nem é a morte.

16.3.13

A nossa dimensão


 


Passam vinte anos sobre a morte de Natália Correia. A poesia de Natália é desequilibrada na sua qualidade e há demasiada prolixidade nos seus escritos. O Fernando Dacosta acha que era tocada pelo "mistério", um respeitável disparate, mas sempre preferi o seu lado bem terreno que misturava, nem sempre nas doses adequadas, com um certo romantismo político e cultural  traduzido na veemência das suas posições públicas, mesmo as aparentemente mais contraditórias. Natália pertencia a uma "escola" de polemismo que desapareceu por completo. Agora, uma "polémica", ou uma crítica, é tomada por coisa pessoal e as pessoas afastam-se estupidamente umas das outras em nome de uma "honra" que nem sequer dá para ser perdida. Pessoas como ela fazem falta nas horas anódinas que vivemos onde "a nossa dimensão/ Não é a vida. Nem é a morte."


 



Dão-nos um lírio e um canivete

E uma alma para ir à escola

E um letreiro que promete

Raízes, hastes e corola.


Dão-nos um mapa imaginário

Que tem a forma duma cidade

Mais um relógio e um calendário

Onde não vem a nossa idade.


Dão-nos a honra de manequim

Para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos o prémio de ser assim

Sem pecado e sem inocência.


Dão-nos um barco e um chapéu

Para tirarmos o retrato.

Dão-nos bilhetes para o céu

Levado à cena num teatro.


Penteiam-nos os crânios ermos

Com as cabeleiras dos avós

Para jamais nos parecermos

Connosco quando estamos sós.


Dão-nos um bolo que é a história

Da nossa história sem enredo

E não nos soa na memória

Outra palavra para o medo.


Temos fantasmas tão educados

Que adormecemos no seu ombro

Sonos vazios, despovoados

De personagens do assombro.


Dão-nos a capa do evangelho

E um pacote de tabaco.

Dão-nos um pente e um espelho

Para pentearmos um macaco.


Dão-nos um cravo preso à cabeça

E uma cabeça presa à cintura

Para que o corpo não pareça

A forma da alma que o procura.


Dão-nos um esquife feito de ferro

Com embutidos de diamante

Para organizar já o enterro

Do nosso corpo mais adiante.


Dão-nos um nome e um jornal,

Um avião e um violino.

Mas não nos dão o animal

Que espeta os cornos no destino.


Dão-nos marujos de papelão

Com carimbo no passaporte.

Por isso a nossa dimensão

Não é a vida. Nem é a morte.

25.3.09

CONTRA A ABDICAÇÃO



Natália Correia recita "Defesa do Poeta", num serão de 1968 gravado em casa de Amália Rodrigues, com Vinicius de Moraes, David Mourão-Ferreira e José Carlos Ary dos Santos. Esta açoriana da Fajã de Baixo, recordada pelo Alexandre Honrado, faz-nos falta nesta hora absurda de complacência e de abdicação.

CONTRA A ABDICAÇÃO



Natália Correia recita "Defesa do Poeta", num serão de 1968 gravado em casa de Amália Rodrigues, com Vinicius de Moraes, David Mourão-Ferreira e José Carlos Ary dos Santos. Esta açoriana da Fajã de Baixo, recordada pelo Alexandre Honrado, faz-nos falta nesta hora absurda de complacência e de abdicação.