19.11.04

O ESTADO DA NAÇÃO




Sirvo-me do site do Público para reproduzir o fundamental da palestra de Mário Soares no Porto. Descontando a circunstância de estarmos perante um cidadão livre e agora liberto da canga das "responsabilidades institucionais", eu penso que se tratou verdadeiramente de um discurso sobre o "estado da Nação", dos tais que Sampaio, coitado, nunca proferirá.

Mário Soares afirmou ontem à noite, no Porto, que só a restituição da voz aos cidadãos pode evitar "revoltas descontroladas" e que só ainda não houve "aventuras militares" devido à integração de Portugal na União Europeia."É preciso restituir a voz aos cidadãos, se quisermos evitar revoltas descontroladas ou rupturas que podem levar a aventuras, como aconteceu no fim da I República, dando lugar a uma ditadura obscurantista", afirmou o ex-Presidente da República."A integração na União Europeia defende-nos de aventuras militares, mas só uma consciência cívica nacional evitará outros perigos. Há uma opacidade na sociedade portuguesa que tem de ser varrida. Precisamos de mais honradez republicana", acrescentou.Soares, que falava na última conferência de um ciclo sobre o 25 de Abril promovido pela Câmara do Porto, considera que estes perigos são provocados pela "situação mais deprimente e crispada que Portugal vive desde o 25 de Abril"."Não iremos cumprir as metas do défice. Não há qualquer sintoma de retoma. O desemprego sobe. O ambiente social é de grande crispação. É visível a crise de confiança no Governo, oposição, partidos, instituições, justiça, políticos, educação, cultura ciência, saúde, segurança social, trabalho, medicina... é preciso sacudir a depressão", disse.Para Mário Soares, "num mundo tão inseguro e desregulado como o actual, onde a pobreza aumenta todos os dias, Portugal encontra-se numa situação bem difícil, sem estratégia para o futuro, desorientado, perdido no seu labirinto político".Defendendo que Portugal se encontra "desnorteado" em termos de política externa, Mário Soares criticou o facto de o primeiro-ministro, Santana Lopes, ter considerado no último congresso do PSD que o país passou para um "fim de austeridade e para um excelente astral".Mário Soares mostrou-se substancialmente menos optimista do que o primeiro-ministro, alertando, nomeadamente, para o "polvo da corrupção que alastra os seus tentáculos no Estado, na sociedade, nos partidos e nas autarquias" a níveis que nem na ditadura existiram.O ex-Presidente da República apelou a uma "censura moral dos portugueses", sublinhando que "deixar correr o indiferentismo perante os abusos, as injustiças e as corrupções é o pior que pode suceder".Poucos sectores da vida nacional escaparam ao "exame negativo" de Mário Soares, para quem "começou a criar-se uma osmose na sociedade portuguesa entre negócios fáceis e tráfico de influências que é muito preocupante".Soares mostrou-se preocupado com o "ambiente de irresponsabilidade em que se passam as coisas mais extraordinárias" e lembrou que "as televisões dão a conhecer escândalos impensáveis e depois não acontece nada"."É uma espécie de telenovelas de desgraças. E a justiça mostra-se incapaz de agir. As polícias sabem muita coisa mas só actuam por critérios pouco claros", sublinhou Mário Soares."O processo da Casa Pia é numa vergonha nacional. Tornou-se numa máquina de fazer dinheiro para os media. A continuar assim a vida nacional, vamos assistir a revoltas e a um mal-estar incontrolável na sociedade", alertou."Será necessária muita coragem e algum tempo para pôr cobro à situação", considerou o antigo Presidente, sublinhando que "mesmo no tempo da ditadura havia alguns casos conhecidos, mas não havia uma corrupção sistemática".Apesar do cenário pessimista e de considerar que o futuro poderá ser ainda pior, o ex-chefe de Estado defendeu repetidamente que há uma solução, que passa pela mobilização dos cidadãos de modo a fazerem ouvir a sua voz.Isto apesar de a classe política, na sua opinião, ser constituída por pessoas de cada vez menor valor."Acho que o sistema está a seleccionar, para baixo e para o mal, os políticos. Já me questionei porque houve, após o 25 de Abril, tantos políticos de excepção, moralmente inatacáveis, e agora só vemos figuras menores. Mas não tenho resposta. Talvez seja como nos vinhos, onde há anos melhores e anos piores", disse.

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